domingo, setembro 07, 2003

O Mata-Mouros e o Médico Explica

Já escrevi em bilhetes anteriores que pouco navego pelos blogues.
Leio diariamente o Abrupto e o Aviz, e raramente navego.
Por isso não tenho coluna de links, embora saiba que há blogues de muita qualidade.
Quando coloco ligações, em geral referem-se a mensagens que recebo e respondo para a blogosfera.

Por isso, como me considero um outsider destas lides sinto-me lisonjeado e não posso deixar de agradecer os "prémios" que o Mata-Mouros me tem dado na sua REVISTA DE BLOGUES - Os Melhores da Semana, que começa a ser uma referência nesta margem (à margem) da (outra) Internet.

quinta-feira, setembro 04, 2003

Vou Voar e Tenho Medo

Confesso.
Tenho medo de andar de avião.
Que seria de mim se fosse deputado europeu!
Convem-me que só haja congressos médicos ocasionalmente e que hoje em dia a Internet seja um bom instrumento de reciclagem.

Assim o blog ficará sem actualização até Domingo, se a viagem for de retorno.

Estou muito melhor, presentemente só me intoxico com uma boas doses de Xanax (Alprazolan).
Tempos houve, em que começava com uns bons uisques na sala de embarque, já com uns xanaxes ingeridos previamente, mais um uísque logo à entrada e solicitado à hospedeira, mais uma refeição acompanhada com vinho tinto, seguida de um cognaque, enfim, bombas atrás de bombas.

Lembro-me de uma viagem intercontinental em que não me recordei da própria viagem.

Mas, para quem precisar de viajar por motivos profissionais, aqui estão umas simples dicas para enfrentar a fobia:

- "aprenda a enfrentar o objecto temido (a ansiedade pode aumentar, mas o medo vai diminuir)
- tente normalizar a respiração, que em momentos de nervoso fica curta e acelerada
- questione suas crenças
- construa um filme na sua cabeça (ensaie passo a passo toda a viagem, desde a chegada na sala de embarque até a aterrissagem)
- respire fundo e tente relaxar
- ouça música suave
- não divida o mérito de um vôo bem-sucedido com o calmante
- não trate a situação de forma catastrófica
"

Para casos mais graves mais vale consultar um psico(logico).
Como não sei se volto deste voo europeu, se não falar no blog alfacinha sou injusto. Só me penitencio por não ter respondido ao seu e-mail sobre técnicos vs intelectuais.
Para o Terras do Nunca, lembro a nossa conversa sobre as mortes pelo calor e a resposta do Ministro. Parece que adivinhámos.

terça-feira, setembro 02, 2003

Por Mais Brutos e Distantes Que Às Vezes Possam Parecer...

Era uma vez um médico que entrou de serviço, num domingo de manhã, numa unidade de saúde portuguesa.

Pronto para iniciar o seu turno de 12 horas, que o levaria até às 21h, fresquinho, depois de ler as gordas do Público, depois de um pequeno almoço substâncial, já com dois ou três cafés ingeridos e depois de espreitar o movimento da sala de espera, estava apto para iniciar o seu trabalho. Feliz e satisfeito, senta-se e aguarda a entrada do primeiro doente:
- “Então minha senhora, diga lá de que se queixa”, pergunta afavelmente.
- “De uma dorsinha no peito e como sofro do coração, vim ver o que se passa”, responde a doente de meia idade, com voz trémula, talvez com medo da reacção do médico.
- “Diga-me se lhe está a doer agora e há quanto tempo lhe dói”, perguntou o médico.
- “Agora é só uma dorsita, e dá-me muitas vezes”, responde a utente do Domingo de manhã, acrescentando de imediato:
- “Mas deve ser tudo dos nervos, porque ando muito nervosa”.
Uma rápida observação e o médico aceitou o diagnóstico proposto pela doente: crise de ansiedade.
- “Vai fazer ali um tratamento e dentro de meia hora já se sentirá melhor”. Disse-lhe o médico, prescrevendo aquela droga muito antiga, de acção rápida, politicamente incorrecta, mas de uma ajuda inexcedível nestes bancos e que a doente levaria à enfermagem para a administração.
Cerca de uma hora depois, novamente com a doente, perguntou o médico:
- “Então, está melhor?”
- “Oh senhor doutor, nem se compara, já não me dói nada”.
- “Então pode-se ir embora e não deixe de consultar o seu médico de família”.
- “Está bem senhor doutor, mas se me pudesse fazer um favor?”, diz a doentinha com a voz quase inaudível.
- “Diga lá o que precisa.” disse o médico, já adivinhando o favor.
- “É que a minha psiquiatra está de férias e acabaram-se os medicamentos dos nervos.”
- “Está bem, diga lá quais são.” Abre então o saco de plástico e despeja meia dúzia de caixas de medicamentos em cima da secretária.
- “Pronto já está. Pode ir-se embora".
Uns segundos de silêncio, uma certa relutância em se levantar, como que à espera que o médico perguntasse, como na mercearia:
- “Então minha senhora, deseja mais alguma coisa?”
- “Ai senhor doutor, precisava de um grande favor.”
- “Um grande favor? Mas que é que precisa agora?”
- “Ai senhor doutor, pela sua saúde, é para a minha filha, que tem 20 anos!”, diz começando a soltarem-se-lhe as lágrimas.
O tempo vai passando, o médico vai-se incomodando, mas como ainda está fresquinho, pergunta:
- “Então o que é que se passa com a sua filha?”
A doentinha abre a sua mala, retira um papel e diz:
- “Se me pudesse passar esta análise para a minha filha, que o seu médico de família também está de férias e foi ele que a mandou a esta médica e disse-me que era urgente.”

Abro o papel, leio o cabeçalho (de uma colega ginecologista) e a prescrição apenas de uma análise: CA 125.
Abri bem os olhos, mirei o facies triste da doente e pensei para mim:
- “Aqui está o verdadeiro motivo da consulta”.
O Cancro.
Provavelmente, quer o médico de família, quer a ginecologista suspeitam fortemente que a jovem deve ter um cancro do ovário. E a mãe, com o seu instinto maternal, também não estará a augurar nada de bom para a filha, caso contrário, não se teria sujeitado, numa manhã de Domingo a tal aventura.
Suspiro eu, pensando o que poderia fazer para lhe resolver o problema e cogitando só para mim: se esta história se passasse no final do turno de banco, como reagiria eu? Será que, estando com fome, cansado, olhando insistentemente para o relógio e aguardando a rápida entrada do meu substituto, teria os sentimentos com um limiar tão baixo, para não deixar de lhe fazer o favor? Ou não?
Aquilo que muitos esquecem é que os médicos também têm sentimentos, por mais brutos e distantes que às vezes possam parecer...

segunda-feira, setembro 01, 2003

Já Que O Abrupto Falou na Varíola...

O vírus (do grupo orthopoxvirus) de facto ainda não foi extinto.
A varíola (doença) na realidade já está extinta.
As requisições de vacinas burocraticamente também já estão extintas.

"A varíola (smallpox) era um problema praticamente em todos os países e o controle da doença era feito isoladamente pelos governos locais. Em 1959, a Organização Mundial da Saúde decidiu a realização de um programa global de erradicação da varíola. Em 08 de Maio de 1980, em assembleia solene declarou que "the world and all its peoples have won freedom from smallpox" estabelecendo assim o primeiro caso de erradicação global de uma doença. Desde então, acredita-se que o vírus da varíola só exista em dois laboratórios no Mundo (na Rússia e nos EUA) e já foi decidido pela WHO que estas amostras serão distruídas em 30 de Junho de 1999." Parece que esta decisão foi revogada a pedido dessas potências.

Um leitor deste blog, propôs que falasse das chamadas medicinas alternativas.
A resposta que lhe dou, está no parágrafo transcrito que se segue. Acredito e tenho fé na Ciência e a Ciência incorporará todas as descobertas que, pelo método científico forem validadas. Infelizmente, dessas práticas complementares, talvez nem 10% tenham demonstrado alguma coisa de válido.
O que não invalida que as pessoas se sintam bem quando as frequentam. A minha avosinha (enquanto viveu), sempre foi à bruxa e sentia-se sempre bem, aliviada. Era o seu antidepressivo e ansiolítico. Proibir, para quê?

"Na Europa, ao fim do século XVIII, cerca de 400.000 pessoas sucumbiam vitimadas pela varíola a cada ano, e um terço dos sobreviventes ficavam cegos. Nada menos do que cinco reis morreram de varíola no século XVIII, uma doença que alterou a linha de sucessão dos Habsburgo quatro vezes, em quatro gerações.
Antes de 1967, a vacinação era feita com um método de escarificação ou uma técnica de pressão múltipla. O Programa Intensivo proporcionou a oportunidade de desenvolver novos métodos. Primeiro, surgiu a pistola de injeção, e em seguida a agulha bifurcada, muito mais eficaz, que aplicava uma única dose da vacina. Depois de imergir as agulhas em um frasco de vacina reconstituída, depositavam-se as doses sobre a pele e se realizavam 15 riscos verticais através da gota.
A varíola endêmica foi erradicada em 20 países no oeste e centro da África em 1970, no Brasil em 1971, e na Indonésia no ano seguinte. A incidência de varíola caiu acentuadamente em 1972, com casos notificados em oito países endêmicos e na África e no sudeste da Ásia. Finalmente, em 1975 a varíola endêmica foi erradicada do continente asiático. Na Etiópia, a difusão da doença foi contida em 1976, e na Somália, o último caso natural de varíola data de 26 de Outubro de 1977. Posteriormente, em 1978, foram relatados dois outros casos por contaminação num laboratório. Esses casos acidentais foram, de fato, os últimos".
Aqui, podem ver "the last smallpox victim on earth".

E agora, a minha linha de glória: O Abrupto, na palavra anti-varíolicas, tem que deslocar o acento uma letra para a direita: anti-variólicas. (E obrigado pela referência).

domingo, agosto 31, 2003

Cada Caso É Um Caso...

Nem mais, EspectacológicaS.

E eu estou a falar em termos académicos. Não estou a personalizar o seu caso. O seu médico é que o gerirá. E não tenha medo de pedir uma segunda opinião, (caso julge necessário) coisa que os médicos portugueses ainda não toleram bem, mas muitas vezes, porque os doentes também têm medo de assumir essa segunda opinião, perante os médicos e fazem-na às escondidas.
É lógico que o médico assim não gosta, e com razão!

As fluoxetinas podem ser usadas para outras patologias (até para a nova doença (?!) premenstrual dysphoric disorder ou late luteal phase dysphoric disorder antigamente apenas conhecida por tensão pré-menstrual).

Academicamente falando, é assim:
1) Há ou não há o diagnóstico de depressão?
2) Se há, o tratamento deve ser cerca de 6 meses, por regra.
3) E porquê? Porque se evitam recaídas, muito frequentes após o primeiro episódio.
4) Se há episódios anteriores, tratados ou não, diagnosticados ou não, então o tratamento nunca deve ser inferior a 6 meses.

São apenas linhas gerais para leigos intelectuais, que não vêem a TVI.
Não é uma dissertação científica.

Nota: ser médico é assim! Enquanto procurava a ligação para a nova doença, aprendi mais um palavrão: Mittelschmerzeis, que se refere à também muito habitual dor no meio do ciclo menstrual, causada pela ovulação.

Nunca Menos de Seis Meses

EspectacológicaS: "Hummm... 20 mg x 11 dias = 220 mg e não 120 mg como escrevi no dito Post!
As minhas desculpas... 100 mg fazem diferença!!"


Explico: se fazem! Mas também fazem a diferença os dias de tratamento: nunca menos de seis meses, provavelmente mais.

sábado, agosto 30, 2003

Durão Barroso On-Line e os Computadores Off-Line

Ouço: "Todas as salas de aula das escolas do ensino básico em Portugal, terão um computador em 2004."

Penso: "Quem me dera voltar para a minha escola primária."
Sonho: "Amanhã vou dar consultas na minha sala de aula da escola primária."

Acordo: "Já não tenho idade para voltar à escola!"

Deprimo-me: Há dois anos que tenho duas tomadas atrás da cadeira onde me sento, em frente à secretária que se entremete entre mim e o doente. Uma eléctrica outra com dois buraquinhos, "um para um telefone e outro prárrede", assim me explicou a funcionária quando me deu há 24 meses ou há dois discursos da rentrée a novidade de que em breve teria um computador.

Li no JN de 18/08, (só um exemplo...): "Computadores facilitam vida a médicos e utentes"
"Processo de informatização das unidades de saúde deverá estar concluído no final de 2005.
Vão ser abrangidos 1190 postos de trabalho"

"Os gabinetes médicos e de enfermagem dos centros de saúde e respectivas extensões, no distrito de Aveiro, vão estar informatizados até ao final de 2005."

"Position Statement: Aspirin for cardiovascular disease prevention."

A notícia da TSF rememorou-me três mortes súbitas nos últimos 10-15 dias.

Um jornalista, um médico e um presidente de um instituto.

Intelectuais. Provavelmente mortes evitáveis. 49 anos, 52 e presumo 56 anos. Muito para dar às suas profissões.

E são pequenas medidas, com pequenos orçamentos (2 €/mês), que podem impedir graves eventos!

sexta-feira, agosto 29, 2003

Até A TSF Diz Dislates...

Se não fosse médico, diria, ao ouvir a notícia da TSF no noticiário da uma: "Tou salvo! Já não vou morrer de enfarte, AVC ou morte súbita."

Disse uma voz feminina na TSF: "A partir de agora, através de um simples programa de computador, em qualquer consulta de clínica geral, poderemos saber em minutos, se vamos ter ou não um enfarte do miocárdio ou um acidente vascular cerebral." (Citado de cor).

Fiquei apreensivo, pois, a ser verdade, essa informação importantíssima para mim e para a humanidade em geral e intelectuais em particular (já várias vezes referi que os intelectuais correm muitos riscos cardiovasculares!), ter-me-ia passado completamente ao lado e isso seria muito mau sinal sobre a minha constante actualização.

Corri para casa, fui ao Google e escrevi: "enfarte miocárdio descoberta futuro computador". Foi à Medline e também não descobri qualquer artigo recente sobre esse diagnóstico predictivo de um futuro enfarte do miocárdio. Com mais calma, comecei a raciocinar. Será que a TSF quereria dizer "avaliação do risco cardiovascular"? Será que a TSF se quereria referir à famosa e já com largos anos Tabela de Sheffield? (nesta ligação podem consultar um artigo científico de uma revista americana de Setembro de 2000).

A notícia mais correcta seria: foi anunciado que uma qualquer instituição decidiu fazer um programa informático baseado na Tabela de Sheffield sobre Risco Cardiovascular na Prática Clínica, outro nome porque é conhecida. Aliás o que mais há por aí são tabelas dessas impressas por todas as sociedades científicas, por laboratórios, etc.

É uma tabela muito prática, mas que apenas nos diz qual o risco de se sofrer um evento cardiovascular nos próximos 10 anos, de acordo com algumas variáveis. Por exemplo, determinado indivíduo, tem um risco de 50% de poder desenvolver um enfarte nos próximos anos. Mas nada impede que não morra e nada impede que um outro indivíduo, com um risco de baíxíssimo possa falecer primeiro.

Fico triste, pois, afinal, ainda apenas nos restam as cartas da Maya ou a vidência e a bruxaria desses astrólogos que pululam nas nossas infames e (fedorentas) televisões. (Uma homenagem a dois blogs).

quinta-feira, agosto 28, 2003

Alguém Precisa de Médico ...

"Não que me considere intelectual", nem eu me considero. E ainda pergunto como vim aqui parar! Mas o seu blog mostra que de facto o é. O meu mostra que de facto sou um técnico que não gosta que os intelectuais façam má figura (técnica)!

"Não faço ideia onde está". Nem eu. Estamos na blogosfera.

"O meu Pai era médico". "O meu primeiro casamento foi com uma médica". "Agora, não tenho médico".

Mas pode ter, porque apesar de "o "meu" médico (antigo e bom companheiro de liceu), foi mudado, ou destacado do Centro a que pertenço", pode-se inscrever nesse Centro diferente do da sua residência, da sua localidade ou do seu concelho, assim o seu "antigo e bom companheiro de liceu" o queira receber. A actual e futura lei, permitem-no.

"Mesmo sem o conhecer (suponho) um abraço".
Outro para si, obrigado pelas suas palavras no e-mail, de facto não me conhece, mas eu se puder ouvirei o seu programa.

O Salvador Não Tem Culpa! Mas, Que Culpa Tenho Eu?

Quem teve o azar, como eu, de durante três noites seguidas, trabalhar olhando para o monitor e com o ouvido do lado esquerdo, meio globo ocular e uma parte do hemisfério cerebral do mesmo lado a prestar atenção ao que na SicNotícias se passa, já sabe de cor a história do Salvador. Já conhece a mãe que se mudou para o Restelo. Sei que o Salvador não tem culpa das repetições da Sic, mas que culpa tenho eu que me inundem a minha atmosfera fechada com a tua história.

Mas o mais deprimente são as perguntas dos jornalistas: "Se pudesses apagavas aquela noite em que tiveste o acidente (e ficaste tetraparésico)?"

quarta-feira, agosto 27, 2003

Esclarecimentos & Agradecimentos (e Desculpas)

Agradecimentos:

A EspectacologicaS escreveu-me e confessou-se fã deste blog. Obrigado, mas não mereço tanto. Isto é apenas um modo de entrar na noite. Diz que está perdida. Não creio. Como ela diz: "Beijos para quem for de beijos". Estes beijos virtuais, fizeram-me lembrar uma aula de Psicologia, do meu curso de Medicina terminado no final da década de 70. Aí se disse: "Com amor tudo se consegue!". Foi um grande Professor que o disse. Esse amor, em sentido lato, tenho-o aplicado muitas vezes, am alguns bancos pesados, quando o doente entra com grande agressividade não patológica. Duas frases afectuosas, cirurgicamente bem dirigidas, penetram, invadem e descontraiem os mais agressivos. Talvez por nunca receberem afectos.
Era um bom serviço público que a SIC, a TVI e RTP prestariam à sociedade: distribuir gratuitamente afectos e ensinar a comunicar afectuosamente.

Esclarecimentos:

Um boticário poveiro (não sei se o é ou se apenas reside na Póvoa de Varzim, mas admiro os poveiros) do blog Trenguices, Impressões de Um Boticário de Província, pede-me esclarecimentos sobre o assédio dos laboratórios de genéricos aos médicos, às farmácias e aos técnicos de farmácia: sem entrar em polémicas, o assédio às farmácias, é um assédio económico: "Oh Sr Farmacêutico, encomende-me 100 caixas deste genérico, que eu trago-lhe 200 embalagens!". Quer dizer, em 100 caixas, o lucro vai ser 100%, portanto vale a pena trocar o medicamento por esta marca de genérico que me dá mais lucro. É normal. É capitalismo.
Uma história: há tempos, uma delegada de informação médica de um laboratório de genéricos, abre a sua pasta e oferece-me um CD. Olho e vejo que é um CD do Marco Paulo. Miro-o e digo-lhe: "Você deve estar enganada! Marco Paulo? Ou a empresa de merchandising não presta ou o laboratório não quer mesmo vender nada! Exclamei, meio aborrecido pelo tempo que estava a perder. A delegada intimidada, abre novamente a pasta, troca o CD por um do Madredeus, pede-me desculpa e diz: "O do Marco Paulo é para a empregada da farmácia!", renovando as desculpas.

Desculpas:

Não posso dizer como o Abrupto que tenho 500 mensagens em atraso, porque não tenho. E não digo que vou responder a todas, porque também não o posso fazer. Respondo só a algumas. Ou as mensagens ou os doentes no dia seguinte. Tenho que optar pelos segundos.
E repito que este blog não é um consultório médico.

terça-feira, agosto 26, 2003

Luto Por Perdas, Luto Contra As Perdas

Perdi a minha Mãe há meses.

Perdi um amigo há dias.

Perdi a testemunha da minha história.

Perdi a contadora da minha história.

Perdi uma referência.

Perdi a coerência.

Perdi a convivência.

Perdi-me em Bombaim, perdi-me em Telavive, perdi-me em Bagdad, perdi-me em Gaza, perdi-me na Colômbia.

Perdi-me no meio dos blogs a discutir terrorismo.

O terrorismo não tem discussão. O terrorismo não se combate. O terrorismo é uma doença mais individual do que social. É uma ausência de sentimentos. Um terrorista não chora a morte da Mãe. Um terrorista não chora a morte de um amigo. Um terrorista tem um acentuado desapego aos sentimentos e mantém-se normalmente indiferente aos sentimentos alheios.

O terrorismo é uma pessoa.

O terrorismo tem que ser impedido de nascer e de crescer.

Não me parece que a tendência da política mundial seja na direcção de impedir o seu nascimento e crescimento.

Estou (e o Mundo) perdido.

Amanhã trabalho, não me posso perder.

domingo, agosto 24, 2003

Certificado de Óbito II e III

Certificado de Óbito II

Acabei de passar o certificado de óbito para o pai da filha da mensagem de Sex Ago 22, 01:45:38 AM. Afinal ...

Certificado de Óbito III

Na mensagem anterior, dizia "Não posso esconder, que, sempre que certifico um óbito, penso no meu. Quando, como, onde? Quem me certifcará o meu óbito?"

Não morri eu, mas tomei agora conhecimento, via e-mail, da morte de um grande colega, amigo e médico, da minha geração, o melhor aluno do curso e que optou desde sempre pelos Cuidados de Saúde Primários.

Mais uma vítima fulminante da morte súbita relacionada com eventos cardiovasculares!

Intelectuais, sedentários por natureza, fumadores, não fazem por norma os vossos exames periódicos de saúde, não sabem qual a vossa pressão arterial, nunca mediram o colesterol, cuidado, a morte espreita!

Vou fazer 24 horas de silêncio!

sexta-feira, agosto 22, 2003

Certificado de Óbito

Acabo de certificar um óbito.

Um meu doente anónimo. Tinha 96 anos. Vivia sem vida.

Ontem uma outra filha, vem pedir medicação para o pai e para a mãe. O pai tem 94. A mãe tem 93. A filha está feliz. A medicação de cada um é a chamada não-medicação. Viver assim até tão tarde e com qualidade de vida, deve ser bom.

Cada certificado de óbito, é um caso diferente. É uma história de vida anónima.

Não posso esconder, que, sempre que certifico um óbito, penso no meu. Quando, como, onde? Quem me certifcará o meu óbito?

Hoje, salvei uma vida.
Nada de especial, apenas um diabético com hipoglicémia (20 mg/dl) e já com alterações do comportamento, isto é, já sem capacidade de se tratar com um simples pacote de açucar. Mas o meu acto de lhe injectar glucose endovenosa, travou a marcha dos acontecimentos que o levaria ao coma e depois à morte. Seria mais um certificado de óbito a preencher. Mas não foi!
Agradeceu-me e saiu pela porta do banco, satisfeito. Melhor, ficamos ambos satisfeitos.

Onda de Calor E Uma História

Ao ouvir a SicNotícias, posso confirmar que, também, na minha unidade de saúde, na primeira quinzena de Agosto, as consultas urgentes diminuiram de 2002 para 2003.

Já no final da onda de calor, fui abordado por uma filha de um pai que estava doente para o consultar no seu domicílio. Respondi que era impossível pois estava de serviço na urgência, mas mesmo assim, fiz algumas perguntas necessárias e conclui empiricamente que, o pai da filha que estava à minha frente, tinha 82 anos, uma história de AVC prévio há 3 anos e que provavelmente, estaria a fazer novo AVC ou com desidratação. Propus de imediato à filha de um pai que estava doente que enviaria uma ambulância ao domicílio para o transportar ao serviço de urgência, onde seria melhor tratado e devidamente hidratado. A resposta foi de "que não, porque não, e a mãe não queria, porque não, e tinha que ser tratado em casa e ponto final, se não podia lá ir, prontosssss". Depois de tantos nãos ainda imaginei que, sozinha, mudasse de opinião. Negativo!
Três dias depois, procurou-me novamente, com o mesmo pedido. Acedi e desloquei-me ao seu domicílio, durante a hora do almoço, para a consulta. O seu pai estava inconsciente, com taquipneia e sinais evidentes de desidratação. Propus mais uma vez o seu internamento que foi recusado pela filha de um pai que estava doente. Mesmo assim, três dias depois iniciou a hidratação endovenosa aplicada por uma enfermeira e assistida por "um cunhado que trabalha nos bombeiros", não que antes a enfermeira bem avisasse: "olhe que só o autrizo a mudar os soros".

Este, que saiba, ainda não entrou na percentagem hoje anunciada das vítimas da onda de calor.

Mas a filha, de certeza que será uma das imbecis que chora com as imbecilidades da TVI (como hoje com a história da cegueira e propaganda da telenovela) e com as histórias mal contadas do que se passa nos hospitais!

quinta-feira, agosto 21, 2003

"O Aperto Mais Desejado"

Segundo a Visão, "O Aperto Mais Desejado" é a gastrobandoplastia.
A jornalista Isabel Nery está de parabéns!
Embora confunda o objectivo da colocação da banda, que é fundamentalmente baixar o limiar do reflexo da saciedade, através da sensação de plenitude gástrica, pois a capacidade do estômago mantêm-se na sua porção distal.

Enquanto a comunicação social, durante anos publicitava gratuitamente (???) os charlatões das dietas, nas suas páginas e monitores, enchendo os seus consultórios (não falo em nomes, mas o mais conhecido mudou de vida para a hipnose e para os carecas, que estão na moda) os verdadeiros médicos iam investigando anonimamente as medidas cientificamente provadas e com eficácia reconhecida. Sem louros ou tias ou programas de TV.

Para que não se venham futuramente acusar estes médicos de negligência médica, pois no artigo parece que tudo corre bem, leiam as complicações (em baixa percentagem, é um facto!) que existem:

"Less than 10 percent of these high-risk patients develop complications from surgery, and one percent or less die", num sítio genérico de reconhecida validade científica, para leigos.

Citando de um sítio brasileiro:
"Porém, é importante frisar que a cirurgia visa estabelecer um padrão alimentar que permita uma ingesta de pequena quantidade de alimentos sólidos, promovendo a sensação de saciedade precoce. A capacidade para ingerir alimentos líquidos e líquido-pastosos não sofre uma redução tão dramática. Portanto se não houver uma colaboração do paciente no sentido de evitar alimentos líquidos e pastosos de alto teor calórico, a perda ponderal ficará comprometida. Nos pacientes do Serviço de Cirurgia da Obesidade do Hospital Santo Amaro, o maior "divisor de águas" para promover grandes perdas de peso tem sido a não ingesta de açúcar e alimentos doces. Portanto, não se pode esperar que a cirurgia "milagrosamente" venha transformar pessoas extremamente obesas sem a devida cooperação.
Outros problemas [para além das infecções, deslizamentos, migração e vasamento da banda]pulmonares (embolia pulmonar), cardíacos, digestivos etc. podem ocorrer, principalmente naqueles pacientes com muitos fatores de risco, contabilizando um risco total de complicações entre 6 e 9 % e uma mortalidade global de + 0,3 %. A taxa média de indivíduos que necessitarão de uma reoperação é de + 5 %, sendo causadas pelas complicações acima descritas.
"

Será que errei mesmo? Presumo que sim.

Disse numa mensagem em 17 de Agosto que: "Mas também se cai no ridículo: "Um grupo de especialistas dos Hospitais de Santo António, no Porto, de Viseu e do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, foi acusado por causa de um fim-de-semana pago pela Roche numa herdade alentejana."

A ser verdade a notícia do Público, foram só dois médicos e respectivas consortes que gastaram 800 contos nesse fim-de-semana numa herdade alentejana.

Talvez tenham convidado para o fim-de-semana, um qualquer crâneo europeu ou americano para expor as virtualidades da Dieta Mediterrânica com exemplificação prática!

"Acusação de Corrupção Leva 519 Médicos a Tribunal"

Diz o Público.

Medico Explica Medicina A Intelectuais, garante que não é um deles!

E para aqueles que julgam que genéricos é sinónimo de "politicamente correcto", posso adiantar que presentemente o assédio destes laboratórios aos médicos ainda é mais intenso. Para não falar no assédio às farmácias e aos técnicos de farmácia para a troca de medicamentos.

quarta-feira, agosto 20, 2003

Sérgio Vieira de Mello

Não posso deixar de falar no SVM.
Trabalhando até às 22 h (um turno de 13 horas), como já disse às terças é o meu dia fixo, por vezes fico (ficamos) alheados daquilo que se passa à nossa volta. Só soube do acontecimento agora. Estou ainda a quente!

Simpatizava com SVM.
Foi vítima de uma arma que se chama terror. Veio-o me à memória a criança iraquiana, sem braços; veio-me à memória o camera-man que faleceu ontem, porque os americanos, com toda a sua alta tecnologia de ver no escuro, não viram no claro, que a sua câmara, afinal, não era um lança-obuses.

Isso não foi terror, foi tudo um acto libertador.

Em vinte anos de clínica, já vi muitos corpos estropiados, uns mortos, noutros assisti "ao morrer" e outros que não morreram.
Mas nunca fui à guerra!.
Mas nunca fui à guerra!.
Mas nunca fui à guerra!.

Puta de vida! (Que me desculpem os fundamentalistas dos bons costumes!)