segunda-feira, setembro 22, 2003

Não Sei Se Conseguirei Explicar ... (Actualizado)

Pois trata-se de um negócio das arábias, este negócio entre o Sr Dr João Cordeiro e o Ministério da Saúde.
Demonstra que o País, afinal não está de tanga!

Não sei os pormenores. Mas deverá ser assim: o Ministério da Saúde transferirá 120.000 contos mensalmente (?) para os cofres da ANF. A ANF decide as farmácias com as quais fará os seus acordos.
Até aqui, nada a opor. As farmácias são empresas e fazem os negócios que entenderem e com quem entenderem.
Mas ficam-me algumas dúvidas:
1) O que são actos farmacêuticos? Estão legislados? Há alguma referência nas faculdades de farmácia sobre os actos farmacêuticos?

2) O que é para este contrato "diabetes não controlada"? Se até para o médico por vezes é difícil chegar a conclusões numa única consulta, sem recorrer a uma análise que se chama hemoglobina glicosilada, como concluirão os farmacêuticos rapidamente que a diabetes está descontrolada?

3) Será só pela picadinha no dedo que significa glicémia capilar? E quem paga as tiras (testes colorimétricos de glicose no sangue) para essa picadinha feita na farmácia? O Estado já subsidia as tiras de diagnóstico, os laboratórios já oferecem as máquinas a quem compre as suas tiras. Os médicos já há muito tempo dizem que as picadinhas no dedo, tem um alcance muito limitado para a maioria dos diabéticos, os insulino-dependentes (diabetes 1) ou os portadores de diabetes 2, mas insulino-tratados, serão os únicos que precisarão, REGRA GERAL, de um controle apertado da sua glicémia para efeitos terapêuticos.

4) E porque pagarão os doentes diabéticos cerca de 500 escudos nas farmácias, quando as suas consultas nos centros de saúde e hospitais são gratuítas?

5) - E continuarão os doentes diabéticos com inúmeras dificuldades no acesso a consultas de oftalmologia para despiste e controle da retinopatia diabética, principal causa de cegueira.
- E continuarão os doentes diabéticos com inúmeras dificuldades no acesso a consultas hospitalares para tratamento de diabetes de dificil controle nos centros de saúde.
- E continuarão os doentes diabéticos com inúmeras dificuldades no acesso a consultas com nutricionistas hospitalares (único local oficial onde as há) para alteração dos hábitos alimentares.
- E continuarão os diabéticos a ficar cegos por que não podem pagar consultas privadas de oftalmologia, e continuarão os diabéticos a cometer erros alimentares porque não podem pagar consultas com nutricionistas privados, e continuarão a ser amputados e a ter enfartes e AVCs, e etc.
- E coitados dos médicos de família nos seus centros de saúde que agora terão mais um canal para marcação de consultas: o doente sai da consulta com um rol de análises para três ou seis meses, as análises anteriores até estavam óptimas, mas como está com fome vai almoçar, depois lembra-se de ir fazer a picadinha no dedo à farmácia do bairro, onde até está uma técnico que ele conhece, a picadinha mostra 147 mg/dl de glicémia capilar, o técnico ou farmacêutico olha para os seus papéis e diz: está com um valor superior ao normal, vá já ao seu médico (entupir ainda mais as consultas) e assim os centros de saúde continurão a funcionar mal.

6) Outras perguntas se poderiam colocar: há um Programa de Controlo de Diabetes, oficial, onde se inserem as farmácias neste programa? Ficará a ANF responsável pela compra, pela distribuição, pela escolha das farmácias e depois ... quem pagará serão todos os portugueses.

7) Finalmente: será que o Ministério da Saúde apenas ouviu o Sr Dr João Cordeiro? Ou ouviu as sociedades científicas de diabetes? E há várias em Portugal:
# Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal;
# Sociedade Portuguesa de Diabetologia;
# Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo;
# Sociedade Portuguesa de Cardiologia;
# Grupo de Estudos da Diabetes da APMCG;
# DGS - circular normativa sobre actualização dos critérios de diagnóstico;
# DGS - circular normativa sobre diagnóstico sistemático da nefropatia diabética


Então Não Era para Facilitar (Democratizar!) o Acesso!

O Correio da Manhã de 2003-09-20, confunde-me, ou será o título escolhido para a notícia, aquele que mais vende?

Muito Mentiroso ...
345 - Porque será que o Correio da manhã escolheu este título"

"MAIS DIFÍCIL TIRAR MEDICINA

A partir do próximo ano lectivo será mais difícil aceder aos cursos de Medicina e de Medicina Dentária já que os candidatos a estas licenciaturas terão que realizar uma prova nacional de acesso que terá um peso de 50% na nota de candidatura.

Este exame substituirá as actuais provas de ingresso de Biologia e Química que se realizam no 12.º ano.

A prova vai realizar-se em duas fases. A primeira decorrerá a 5 de Julho de 2004 e a segunda a 26 de Julho de 2004, devendo a afixação dos resultados coincidir com a dos exames nacionais do ensino secundário. Os locais e as datas para a inscrição, bem como os locais de realização da prova serão divulgados posteriormente.

Este tipo de exame ainda está em testes, prevendo-se que os resultados desta experiência sejam divulgados no mês de Novembro.

O manual da prova, distribuído aos alunos no processo de testagem, contendo, entre outras matérias, a estrutura da prova e exemplos de perguntas-tipo, irá estar disponível no ‘site’ do ministério da tutela (www.mces.gov.pt) e em www.acessoensinosuperior.pt. Prevê-se igualmente que seja divulgado, até final do ano, o texto integral da prova testada, bem como o regulamento da prova para 2004."

:)

"Caríssimo doutor :)
Para começar... parabéns pelo seu Blog! Obrigada pela análise sã e divertida
que põe em todos os textos que escreve!
Leio, quase todos os dias meia duzia de blogs que tenho como referência...
entre eles o seu.
Já por vezes estive para escrever... mas, deixei para depois... (e depois...
depois é tarde... e fica para o dia seguinte... ) mas hoje tinha que
devolver-lhe o sorriso!
Sou Lic. em Informática... e fartei-me de rir com a descrição da suposta
formação... Tambem eu já estive dos dois lados... do do staff e do lado do
formando... sei bem o que é ter 40 olhos à espera de uma password ou dum
computador que resolveu não arrancar!!!
E, sou tambem mulher... adorei um texto, ha uns tempos atrás, em que era
meia noite e ia oferecer flores... Há textos que nos tocam, mensagens que
ficam...
Obrigada, pela partilha de ideias e de tempo com que nos brinda (espero que
durante ainda muito tempo)"

M T.

Não Sei Se Conseguirei Explicar ...

Não sei mesmo. O Sr João Cordeiro da ANF é um ás a inventar negócios.

De uma coisa tenho a certeza: os doentes diabéticos não vão ganhar nada; as farmácias vão ganhar tudo!

Voltarei.

sábado, setembro 20, 2003

Rezo Por Eles Todos os Dias ….

É terça-feira. Recebo no telemóvel uma chamada de uma conhecida doente.

Pergunta-me se a posso consultar e a uma amiga. Digo-lhe que apenas as poderei consultar na quinta-feira após as 18 horas.

Fica combinado. Quinta-feira aparece, mas não aparecem. Faço o que tenho a fazer e eis-nos na sexta-feira.

Faço o que tenho a fazer. Faço o que estava programado, por estar escalado e a que não posso fugir.

Pelas 16 horas, novo telefonema:
- “Senhor doutor, já cá estamos!”
- “Estão onde?”
- “À sua espera em sua casa, para a consulta, como combinado.”
- “Dona Z, a consulta era para ontem. Hoje só a posso ver depois das nove!”
- “Não faz mal, a gente espera.”

Às nove e meia, chego a casa e lá estão as minhas doentinhas: a Dona Z de 81 anos e a Dona Y de 82 anos. São diferenciadas. Economicamente estáveis. Vieram de táxi, e esperaram 5h30 para a consulta. Reprogramaram o táxi para as 22 horas.
O que eu tinha a fazer era jantar. Mas não janto. Algo me impele para consultar as minhas doentes idosas.
Começo pela Dona Z e pergunto como se entreteu nestas cinco horas.
Oh, senhor doutor, eu nunca saio de casa, vim apanhar ar puro, respirar, andar, falar com a minha amiga, pois só falo quando venho ao médico. Mas conversamos muito."
Começa a consulta com as queixas habituais, subjectivas, tonturas, dores de cabeça, esquecimentos, e um certo ar triste. Mais triste que o habitual. Encaminho a consulta para esse ar triste. Explica-me que o cunhado faleceu em 2001, a irmã em 2002 e o irmão em 2003. "Acompanhei as suas doenças", diz. Por isso estive muito tempo sem vir à consulta. E choro todos os dias. Mas é pelo meu filho que morreu há 24 anos. Mas rezo por todos eles todos os dias.
Menos hoje, que vim para aqui.
Nem chorei, nem rezei.
Estive a conversar com a Dona Y e passou o tempo.

Posso chamar a Dona Y para a consulta? É que a sua irmã, pediu-me para a acompanhar, porque ela não ouve nada. “É surda como uma porta!” acrescenta.

sexta-feira, setembro 19, 2003

Médicos e Engenheiros

Diz o Pedro Rolo: "(afinal os Engenheiros de vez em quando também ajudam os
médicos!)".


Não deve colocar entre parêntesis a frase.
É uma realidade a ajuda que refere. Eu até acrescentaria mais: sem os engenheiros, a Medicina teria estagnado. Os engenheiros, de qualquer área, são imprescindíveis actualmente para o desenvolvimento da Medicina.

Maximizar / Restaurar

Do Adufe:
"Viva!
Sugestão:
Prima o botão maximizar / restaurar para ver todo o blog"

Do Pedro Rolo:
"Bom dia!
Desde já parabéns pelo seu blog!
Escrevo (para já) apenas para tentar ajudar na questão que levantou no seu post
acima mencionado.
Quando me acontece algo semelhante, o que faço é minimizar a janela e voltar a
maximizá-la.
Geralmente resulta!
Espero ter sido útil (afinal os Engenheiros de vez em quando também ajudam os
médicos!).
Cumprimentos"

Obrigado aos dois!

Agência Funerária Vilas-Boas

A blogosfera e Internet tem coisas interessantes.

Um bilhete meu de Terça, dia 09 de Setembro, apesar de não ter recolhido nenhum óscar do Mata-Mouros (como três anteriores tinham recolhido) recolheu várias e interessantes reacções da comunidade bloguística e não só. A divulgação pela Antena 3 dessa história levou-a a Portugal inteiro, do Minho ao Algarve.
Todas as localidades onde se passaram recentemente casos semelhantes, se viram identificadas.
E se se reconheceram identificadas, também os hipotéticos intervenientes se viram retratados.
O que não é verdade. Embora a história tenha acontecido na realidade, propositadamente não é localizável. E portanto não tem intervenientes conhecidos.
Uma crónica, tenta generalizar uma história verídica a um universo muito mais abrangente e demonstrar a hipocrisia desta sociedade.

Isto vem a propósito de algumas mensagens que recebi, querendo colar esta história a uma localidade que dá nome a um dos blogues mais conhecidos. A partir daí, tentou-se identificar os intervenientes e principalmente a Agência Funerária dessa localidade.

Tem razão o seu gerente em ficar indignado.
E tem razão porque, conhecendo eu os médicos dessa localidade por serem alguns do meu curso, tratei de me informar e tenho a dizer que a Agência Funerária Vilas-Boas, sempre tratou dos funerais com dignidade e profissionalismo e segundo me disseram antecipando por vezes o funeral e aguardando o recebimento dos subsídios.

Assim como há bons e maus médicos, também haverá boas e más Agências Funerárias. A do gerente Vilas-Boas enquadra-se como é óbvio na primeira.
Embora não o conheça pessoalmente, o autor deste blog só tem que lhe pedir desculpa e afirmar que a história não é localizável. Pode ser parecida com muitas que se passam em Portugal, mas não tem nomes, nem localidades.

As histórias deste blog fazem parte da minha vida profissional, mas também recolhidas em conversas com muitos colegas pelo País fora!

Confrades da Confraria das Novas Comunicações Virtuais

Mensagem ao Encontro de Blogues de Braga

"Venho desejar as maiores felicidades ao vosso (nosso) encontro.

Embora não saiba qual o futuro deste movimento, espero que concluam pela sua vitalidade, embora todos saibamos da vulnerabilidade e volatilidade de tudo isto.

Saudações

http://medicoexplicamedicinaaintelectuais.blogspot.com/

(Nesta atmosfera prefiro manter-me anónimo, mas não delinquente ou malfeitor)"

Também Eu Queria Saber ......

" @hotmail.com>

Data: Quarta-Feira, 17 de Setembro de 2003, 15:52

Assunto: Boa tarde!!

> Gosto muito do seu blogue, mas ultimamente só consigo ler a
> primeira parte
> de cada post, pois a barra do lado diteito é muito grande e eu não
> consigo
> ler todo o texto.
> Tem alguma solução??
>
> Obrigada e Felicidades,
> P C"


Quem ajudar esta leitora, estar-me-á a ajudar, porque isto também me acontece am alguns blogues de que gosto!

quarta-feira, setembro 17, 2003

Blog Anónimo, Sim. Blog Anónimo, Não.

Na esfera do blogues vai-se discutindo se os blogues deverão ou não ser anónimos.

O ouvido do nosso Barman diz que ouviu dizer no seu bar "Se estes revelarem algum tipo de talento escondido e quiserem fazer uso dele, podem vir a encontrar problemas em provar a sua autoria (lembro-me deste, daquele e de daqueloutro)".
O daqueloutro sou eu. Mas como não quero fazer uso de nada, linkei-me a mim próprio.

É giro.

Os blogues são assim. É tão fácil ter um blog. É tão fácil ter um, dois, três blogues, 100 blogues.
Podemos fazer de tudo: de parvos, egoístas, vaidosos, tristes, anedóticos, sérios, palermas, de homens, de mulheres, de adolescentes desorientados, de casados, de solteiros, de Deus, de deus, de deusas, de diabo, de bicho que escala as estantes. Posso trabalhar a dias, desejo casar.
Posso dizer que sou uma bomba, que estou desactualizado e desinteressante, que vivo numa trágico-comérdia. Posso dizer que mato mouros, que sou de esquerda ou de direita. Que como jaquinzinhos. Que sou alfacinha ou das terras do nunca ou do Maranhão. E posso dizer que sou o Joaquim, o Francisco, o Pacheco, o Pedro, o António, a Ana.
Até posso fazer um blog em nome de outro. O blogger não me pediu nenhuma identificação autenticada.
Até posso dizer que eu é que sou o responsável pelo Abrupto, ou sou o verdadeiro Aviz.

Para mim tanto faz!

Portanto, o que faz um blog é o que lá se escreve. O que faz um blog, não é a figura pública que lhe dá o nome, mas sim o que para lá atira (ou arquiva!). O Abrupto ou o Aviz são os mais visitados porque têm qualidade. Têm qualidade intrínseca e extrínseca, no conteúdo e na forma. No Abrupto, mesmo sem ler, olhar, já provoca prazer.
Em Portugal, ainda estamos presos a estigmas do fascismo, sim fascismo, e por isso ainda nos povoam medos e fantasmas: temos medo de denunciar, mesmo por uma boa causa. Temos preconceitos no anonimato, mesmo para fazer afirmações com qualidade.

Vou continuar no anonimato, não sei porquê. Talvez por timidez? É possível. Talvez, apenas, porque me apetece. É provável. É a minha liberdade.
Talvez o pipi, munca fosse o meu pipi, se dissesse quem é.

Outra questão, muito importante, é quando um blog se torna num caso de polícia. Ou porque é muito mentiroso, ou porque veicula ideologias ilegalizadas, ou faz apologia da violência gratuita. Ou ... Ou ... E nesses casos, as entidades policiais, se o entenderem podem actuar e descobrir com facilidade (maior ou menor) o criminoso.

Parafraseando o Barman: "Não! Não sou nenhuma figura pública nem coisa que o valha. E diga-se, não quero vir a ser. Acrescento ainda. Pagava para não ..." ser.

Este blog foi produto de uma isónia. Depois foi andando. Quando deixarem de cá passar. Fecha-se, vende-se, trespassa-se, abandona-se, suicida-se (o blog), tudo pode acontecer.

Sou apenas um médico anónimo.
Não sou o bastonário, nem presidente de nada, não sou quadro de nenhuma organização sindical, política ou autárquica. Sou desconhecido no Mundo, mas tenho o meu mundo e não o quero invadido, nem o quero largar.
Mas não sou parvo, nem ando de olhos fechados.
Mas agora vou fechá-los!

terça-feira, setembro 16, 2003

Como Eu Gosto da Minha Função Pública!

Férias.
Aproveito para frequentar uma formação de cinco dias, para não prejudicar a actividade assistêncial.
Sobre informática. Para gestores de rede.
Organizada nos e pelos serviços do Estado.
Hoje.
07h00 - Levantar.
08h15 - Viajar.
09h30 - Início programado.
09h31 - Staff: a password não dá acesso à rede.
09h32 - Staff: a password continua a não dar acesso à rede.
09h33 - Staff: a password continua a não dar acesso à rede.
09h35 - Staff: temos que telefonar ao "especialista" de informática do serviço, que está no outro lado da cidade.
09h50 - Chega o especialista.
09h51 - Staff: o especialista estuda o problema.
10h00 - Staff: o especialista continua a estudar o problema.
10h10 - Staff: já há diagnóstico, alguém mudou a password.
10h12 - Staff pergunta: quem mudou a password?
10h15 - Staff lembra-se: o computador veio de xxxx.
10h20 - Alguém do staff: outro distrito, outra intranet.
10h25 - Alguém do staff: mais perto são 100 km.
10h30 - Formandos: 1 médico, 1 enfermeiro, 12 administrativos: umas fazem malha, outras vão à loja dos trezentos local, umas falam das filhas, noras, netos, maridos, outros falam de futebol, do desaire do Benfica, outras falam da telenovela, o médico e o enfermeiro vão tomar café.
10h40 - O médico diz para o enfermeiro: onde nos viemos meter. Gestores de sistema?
10h50 - Staff: desculpem, mas temos que levar o computador a xxx, para se mudar a password ??!!!!=!"#$&//()=?»###.
11h00 - Staff: o melhor é irem tomar café.
11h01 - Eu: prefiro ir fazer pipi.
11h02 - O enfermeiro: eu vou fazer cócó.
11h30 - Staff: o melhor é irem almoçar e regressar às 14 horas.
14h00 - Formandos: regressamos.
14h01 - Staff: agora há uma avaria na rede.
14h30 - Staff: agora continua a avaria na rede.
14h40 - Staff: o melhor é irem tomar café.
15h00 - Staff: está quase, agora só nos falta ligar os vossos computadores.
15h10 - Staff: os computadores não ligam!
15h20 - Staff: porque será que os computadores novos não funcionam?
15h30 - Staff: já temos diagnóstico! Como os computadores são novos, ninguém se lembrou de instalar os sistema operativo.
15h45 - Staff: está quase.
16h00 - Formadora: (já deformada) vamos para outra sala, pelo menos dizemos qualquer coisa.
16h20 - Staff: podem ir tomar café.
16h30 - Staff: já podem entrar. Está tudo pronto.
17h30 - Fim da sessão.
17h31 - Formadora: até amanhã.

Isto não foi em Portugal.
Foi na Guiné-Bissau. E por causa das gargalhadas do Kumba Ialá.

Não, já sei. Foi mau olhado da Maya.

domingo, setembro 14, 2003

"É a política, estúpidos!", disse Francisco José Viegas

Não no Aviz, que está de férias, mas no JN.

Tentei transcrever umas ideias do artigo, mas aconselho a sua leitura. Não porque seja um artigo de fundo, mas porque lá se dizem várias verdades, semelhantes às que motivaram e motivam muitos dos meus bilhetes.
A "tabloidização da sociedade" como ele caracteriza tem um culpado. E esse culpado tem nome: comunicação social vs lucro fácil e não confundir com jornalistas vs profissão (coitados ao que são obrigados!).

Os programas podem ser ligeiros, generalistas, mas com qualidade. Sem nos venderem as Mayas, os Hermanos Josés (sim, a partir de hoje ficam no mesmo tabloide!)

Estou farto!
E ainda nos querem tirar o Canal 2 e a TSF.

Dr Manuel Antunes - Será o Paradigma do SNS ?

É óbvio que não!
Por mais artigos que se escrevam e que queiram demonstrar que o Dr Manuel Antunes tem a chave para a resolução dos problemas do SNS, não me convencem!

Nem mesmo Amílcar Correia, no Público de Domingo, de 07 de Setembro de 2003 , no seu artigo As Duas Listas de Espera do Ministro quando diz que:
"Porque o verdadeiro combate às listas de espera só terá lugar quando a exclusividade dos médicos no SNS deixar de ser o tabu que ainda hoje constitui entre a classe e a tutela. Especialistas como Manuel Antunes, o cirurgião dos Hospitais Universitários de Coimbra, têm insistido nessa tecla até à exaustão, mas sem grandes consequências políticas. Mas o que é certo é que serviços como o de Cirurgia Torácica que Manuel Antunes dirige, à semelhança do seu congénere do Hospital de S. João, no Porto, não dispõem de uma lista de espera. Por uma razão muito simples, embora aqui os tempos de espera clínicos sejam naturalmente mais curtos: exclusividade e dedicação da equipa".

E não me convencem porquê? Por um motivo muito simples. O Estado paga ao Dr Manuel Antunes aquilo que ele quer, isto é, milhares de contos por mês! São pagos e são bem pagos, porque ele merece.
Só que o SNS não poderia pagar milhares de contos mensais a todos os médicos que desejassem trabalhar 24h/24h, ou melhor estarem disponíveis para o SNS 24h/24h e serem chamados quando necessário! Além de exclusividade, porque estar exclusivo não é sinónimo de alargar o horário, de produzir mais, apenas é sinónimo de ganhar mais 40% do ordenado para o mesmo horário de trabalho, é necessário estar disponível 24 horas. E isto, é outro assunto, que se tem que pagar! E aí é que está o problema!

Alguem acreditaria que um cirurgião como o Dr Manuel Antunes, viria para Portugal ganhar 400 contos por mês, líquidos?

sexta-feira, setembro 12, 2003

Férias e Relatórios de ECD

A Tragico-ComeRdia em 12/09/2003 insurge-se (e até certo ponto com razão!) contra o facto de ter feito um EEG na medicina privada e o relatório escrito só lhe ser fornecido após o regresso de férias do médico/a que o efectuou. E que foi necessário o médico assistente, interceder para resolver o problema (mas os médicos de família/asistentes servem também para isso: "gerir os doentes na proximidade").

E como é óbvio, tem razão nas suas queixas, tanto mais que não há ninguém que aguarde um resultado impávido e sereno.
Eu quando vou de férias, tento não ficar com assuntos pendentes com os meus doentes. E se por acaso acontecer, forneço um meio de comunicação para o doente se esclarecer comigo.

Em relação aos exames, tenho a certeza que este relatório está normal. Os médicos que executam exames para outros, quando o executam, eles ou os técnicos, fazem com um relatório automático mental ou uma leitura na oblíqua.
Se o exame numa primeira abordagem mostrar indícios de qualquer coisa menos explícita (que poderá ser apenas uma variante do normal) fazem chegar esse relatório rapidamente ao utente com a indicação de o levar ao médico.

Por vezes tenho que acalmar alguns doentes porque os seus exames aparecem depressa de mais e "ainda por cima em correio azul, é porque estou a morrer, senhor doutor, se não vinham em correio normal."

Quando o doente paga, também paga a rapidez (apenas porque são poucos os que pagam), mas à luz das convenções, o doente do SNS tem que ser tratado de igual modo que o doente privado. Assim rezam as convenções com o Estado.

Por outro lado em Portugal exagera-se no consumo de exames, por pressão do utente. Não tenho dúvidas. Qualquer dorsita de cabeça, cefaleias para nós, leva logo com "um TACO à cabeça" porque o doente sabe que o vizinho da prima do marido da colega do serviço onde trabalha a melhor amiga, disse que conhece uma pessoa que é amiga da porteira do prédio onde mora o Jardel, e que ouviu dizer que o senhor do quarto andar tinha um tumor na cabeça e começou assim.

Mas, Tragico-ComeRdia, dou-lhe inteira razão, até para ficar descansada o médico executor do exame, poderia dizer apenas isto: está normal, depois mando o relatório.

quinta-feira, setembro 11, 2003

Há Quanto Tempo Não Oferece (Ou Recebe) Flores?

Hoje à meia-noite vou oferecer flores.

Sim, o médico explica medicina a intelectuais, vai oferecer flores hoje. À meia-noite.

O médico explica medicina a intelectuais vai oferecer a uma intelectual um ramo de flores à meia-noite.

O médico explica medicina a intelectuais vai explicar o seu sentimento sem palavras, mas com flores.

As palavras por vezes não aparecem quando as geramos nos nossos neurónios. Por vezes é necessário a ajuda de um psico(logico) ou de flores.

Hoje à meia-noite o médico explica medicina a intelectuais vai trocar os actos e as palavras pelas flores.

O médico que tenta explicar medicina a intelectuais, na unidade de saúde que agora gere, ordenou com a sua autoridade que se espalhassem ramos de flores semanalmente pelos locais públicos onde os utentes aguardam eternamante, vulgo, salas de espera. Foi a ordem que mais objecções levantou. Porquê?

Sim, o médico explica medicina a intelectuais, vai oferecer flores hoje. À meia-noite. À intelectual que o atura, aguenta, consente, padece, tolera, suporta, há mais de 20 anos.

quarta-feira, setembro 10, 2003

Caiu A Ponte !

Domingo.
Caiu a ponte.
Enterraram-se os mortos e trataram-se dos vivos.
A nomeação da comissão.
A comissão reuniu.
O relatório foi elaborado.
A culpa foi da borboleta.

Alguém ouviu falar na palavra engenheiros?

Ai se os médicos construissem pontes, ou mesmo se consultassem doentes em cima da ponte!

Coitadinha da Elsa Raposo

Tanta publicidade fez ao seu "tumor" que agora ninguém a quer, pois, segundo a Lux "Já não há casamento!"

Mas pergunto eu: quem se quer casar com um tumor e ainda para mais, mediático?

terça-feira, setembro 09, 2003

Íntima Fracção

Sou um recente admirador do Francisco Amaral e da sua fracção íntima.

Não posso acreditar que vá desaparecer.

A minha solidariedade.

Miséria Humana ou Coisas Que Uma Certidão de Óbito Esconde

É tanta a minha revolta contra a minha espécie (a humana, para quem não saiba!) que embora esteja num dilema, com a mente a puxar-me para o computador e os olhos a encerrarem-se e a puxar-me para a cama, com a revolta apossar-se de mim, decido escrever este bilhete.
Quase que ao vivo. Mas este blogue vive disso. Tentar explicar coisas que por vezes nem eu as compreendo.

Há duas horas emiti mais uma certidão de óbito.
Morte não natural, i.e., morte violenta. Entrada na urgência já cadáver.
Processos burocráticos mais morosos. Confirmação da morte. Comunicação à autoridade civil com ofício e impresso próprio, esta comunica com a autoridade judicial de turno que decide se prescinde ou não da autópsia.
Caso prescinda, foi este o caso, pois a causa da morte era óbvia, devida a um incêndio no domicílio, por inalação de monóxido de carbono e não por carbonização.
Viúva, meio rural, iniciam-se os contactos para a reclamação e entrega do corpo.
1º telefonema: "não tenho nada a ver com isso, o marido da viúva apenas me pagou para tratar dos assuntos bancários dela em vida. Se já morreu, não é nada comigo."
2º telefonema: "eu era sua cunhada, mas como o marido já morreu, não quero saber mais disso. Ela não gosta de mim."
3º telefonema: "Oh senhor doutor, eu sou sobrinho dela, mas ela não me ligava, eu ainda estou em estado de choque (não com a morte, mas sim com o incêndio!). Morava ao pé dela, mas compreende, não quero saber de nada".
4º telefonema: "eu sou uma vizinha, sei que ela deve ter um filho algures na Europa, mas não sei mais nada e não posso tomar conta do corpo."
5º telefonema: " Sr doutor, a minha agência funerária só pode responsabilizar-se depois de alguém assumir o pagamento".
6º telefonema: "Senhor provedor, tenho um favor a pedir-lhe em nome de uma cadáver, para que tenha um funeral minimante digno, pois todos os familiares com quem falei se recusaram a reclamá-lo."
7º telefonema: "Para o cangalheiro: Senhor, já pode escolher a urna, pois a Santa Casa da Misericórdia (não é a de Lisboa) encarrega-se de tudo."

Será que o desrespeito pela morte é característico da espécie humana. Se não há quem sinta a perda, um cadáver que pertenceu a um membro da nossa espécie já não tem valor?

Esta mulher pressentia que a sua morte seria um problema para a sociedade.

Assim se compreende que se tenha fechado em casa, com todas as portas trancadas com grandes trancas de madeira, que tenha fechado todas as portas interiores à chave, que tenha incendiado todos os cortinados dos quartos e se tenha deitado sossegadamente à espera da morte e da carbonização, para desaparecer deste mundo em cinzas.

Consta que um dia antes (como é habitual nos suicidas, procurarem alguma ajuda na véspera) foi encomendar-se a Fátima.

Eu vou dormir mergulhado na hipocrisia desta sociedade!