terça-feira, setembro 09, 2003

Miséria Humana ou Coisas Que Uma Certidão de Óbito Esconde

É tanta a minha revolta contra a minha espécie (a humana, para quem não saiba!) que embora esteja num dilema, com a mente a puxar-me para o computador e os olhos a encerrarem-se e a puxar-me para a cama, com a revolta apossar-se de mim, decido escrever este bilhete.
Quase que ao vivo. Mas este blogue vive disso. Tentar explicar coisas que por vezes nem eu as compreendo.

Há duas horas emiti mais uma certidão de óbito.
Morte não natural, i.e., morte violenta. Entrada na urgência já cadáver.
Processos burocráticos mais morosos. Confirmação da morte. Comunicação à autoridade civil com ofício e impresso próprio, esta comunica com a autoridade judicial de turno que decide se prescinde ou não da autópsia.
Caso prescinda, foi este o caso, pois a causa da morte era óbvia, devida a um incêndio no domicílio, por inalação de monóxido de carbono e não por carbonização.
Viúva, meio rural, iniciam-se os contactos para a reclamação e entrega do corpo.
1º telefonema: "não tenho nada a ver com isso, o marido da viúva apenas me pagou para tratar dos assuntos bancários dela em vida. Se já morreu, não é nada comigo."
2º telefonema: "eu era sua cunhada, mas como o marido já morreu, não quero saber mais disso. Ela não gosta de mim."
3º telefonema: "Oh senhor doutor, eu sou sobrinho dela, mas ela não me ligava, eu ainda estou em estado de choque (não com a morte, mas sim com o incêndio!). Morava ao pé dela, mas compreende, não quero saber de nada".
4º telefonema: "eu sou uma vizinha, sei que ela deve ter um filho algures na Europa, mas não sei mais nada e não posso tomar conta do corpo."
5º telefonema: " Sr doutor, a minha agência funerária só pode responsabilizar-se depois de alguém assumir o pagamento".
6º telefonema: "Senhor provedor, tenho um favor a pedir-lhe em nome de uma cadáver, para que tenha um funeral minimante digno, pois todos os familiares com quem falei se recusaram a reclamá-lo."
7º telefonema: "Para o cangalheiro: Senhor, já pode escolher a urna, pois a Santa Casa da Misericórdia (não é a de Lisboa) encarrega-se de tudo."

Será que o desrespeito pela morte é característico da espécie humana. Se não há quem sinta a perda, um cadáver que pertenceu a um membro da nossa espécie já não tem valor?

Esta mulher pressentia que a sua morte seria um problema para a sociedade.

Assim se compreende que se tenha fechado em casa, com todas as portas trancadas com grandes trancas de madeira, que tenha fechado todas as portas interiores à chave, que tenha incendiado todos os cortinados dos quartos e se tenha deitado sossegadamente à espera da morte e da carbonização, para desaparecer deste mundo em cinzas.

Consta que um dia antes (como é habitual nos suicidas, procurarem alguma ajuda na véspera) foi encomendar-se a Fátima.

Eu vou dormir mergulhado na hipocrisia desta sociedade!

W32.Sobig.F@mm virus

Atenção

Tenho recebido dezenas de mensagens de muitos endereços electrónicos pertencentes a blogs (e não só) portugueses infectadas com este vírus.

Se daqui saiu alguma mensagem infectada é por culpa do IOL, (como pertence à TVI, não me admira!)POIS NÃO ABRO MENSAGENS COM ANEXOS NÃO SOLICITADOS .

segunda-feira, setembro 08, 2003

Apareci (Tarde Porque Voei ) e Gostei

"Meu caro
Não, não estou com nada de especial...
Só lhe queria dizer que hoje o "meu dicionário" meteu-se pelos seus domínios...
apareça
um abraço
A."

opiniondesmaker

E gostei porque não há erros, palavras bem escritas, significados bem aplicados.

domingo, setembro 07, 2003

O Mata-Mouros e o Médico Explica

Já escrevi em bilhetes anteriores que pouco navego pelos blogues.
Leio diariamente o Abrupto e o Aviz, e raramente navego.
Por isso não tenho coluna de links, embora saiba que há blogues de muita qualidade.
Quando coloco ligações, em geral referem-se a mensagens que recebo e respondo para a blogosfera.

Por isso, como me considero um outsider destas lides sinto-me lisonjeado e não posso deixar de agradecer os "prémios" que o Mata-Mouros me tem dado na sua REVISTA DE BLOGUES - Os Melhores da Semana, que começa a ser uma referência nesta margem (à margem) da (outra) Internet.

quinta-feira, setembro 04, 2003

Vou Voar e Tenho Medo

Confesso.
Tenho medo de andar de avião.
Que seria de mim se fosse deputado europeu!
Convem-me que só haja congressos médicos ocasionalmente e que hoje em dia a Internet seja um bom instrumento de reciclagem.

Assim o blog ficará sem actualização até Domingo, se a viagem for de retorno.

Estou muito melhor, presentemente só me intoxico com uma boas doses de Xanax (Alprazolan).
Tempos houve, em que começava com uns bons uisques na sala de embarque, já com uns xanaxes ingeridos previamente, mais um uísque logo à entrada e solicitado à hospedeira, mais uma refeição acompanhada com vinho tinto, seguida de um cognaque, enfim, bombas atrás de bombas.

Lembro-me de uma viagem intercontinental em que não me recordei da própria viagem.

Mas, para quem precisar de viajar por motivos profissionais, aqui estão umas simples dicas para enfrentar a fobia:

- "aprenda a enfrentar o objecto temido (a ansiedade pode aumentar, mas o medo vai diminuir)
- tente normalizar a respiração, que em momentos de nervoso fica curta e acelerada
- questione suas crenças
- construa um filme na sua cabeça (ensaie passo a passo toda a viagem, desde a chegada na sala de embarque até a aterrissagem)
- respire fundo e tente relaxar
- ouça música suave
- não divida o mérito de um vôo bem-sucedido com o calmante
- não trate a situação de forma catastrófica
"

Para casos mais graves mais vale consultar um psico(logico).
Como não sei se volto deste voo europeu, se não falar no blog alfacinha sou injusto. Só me penitencio por não ter respondido ao seu e-mail sobre técnicos vs intelectuais.
Para o Terras do Nunca, lembro a nossa conversa sobre as mortes pelo calor e a resposta do Ministro. Parece que adivinhámos.

terça-feira, setembro 02, 2003

Por Mais Brutos e Distantes Que Às Vezes Possam Parecer...

Era uma vez um médico que entrou de serviço, num domingo de manhã, numa unidade de saúde portuguesa.

Pronto para iniciar o seu turno de 12 horas, que o levaria até às 21h, fresquinho, depois de ler as gordas do Público, depois de um pequeno almoço substâncial, já com dois ou três cafés ingeridos e depois de espreitar o movimento da sala de espera, estava apto para iniciar o seu trabalho. Feliz e satisfeito, senta-se e aguarda a entrada do primeiro doente:
- “Então minha senhora, diga lá de que se queixa”, pergunta afavelmente.
- “De uma dorsinha no peito e como sofro do coração, vim ver o que se passa”, responde a doente de meia idade, com voz trémula, talvez com medo da reacção do médico.
- “Diga-me se lhe está a doer agora e há quanto tempo lhe dói”, perguntou o médico.
- “Agora é só uma dorsita, e dá-me muitas vezes”, responde a utente do Domingo de manhã, acrescentando de imediato:
- “Mas deve ser tudo dos nervos, porque ando muito nervosa”.
Uma rápida observação e o médico aceitou o diagnóstico proposto pela doente: crise de ansiedade.
- “Vai fazer ali um tratamento e dentro de meia hora já se sentirá melhor”. Disse-lhe o médico, prescrevendo aquela droga muito antiga, de acção rápida, politicamente incorrecta, mas de uma ajuda inexcedível nestes bancos e que a doente levaria à enfermagem para a administração.
Cerca de uma hora depois, novamente com a doente, perguntou o médico:
- “Então, está melhor?”
- “Oh senhor doutor, nem se compara, já não me dói nada”.
- “Então pode-se ir embora e não deixe de consultar o seu médico de família”.
- “Está bem senhor doutor, mas se me pudesse fazer um favor?”, diz a doentinha com a voz quase inaudível.
- “Diga lá o que precisa.” disse o médico, já adivinhando o favor.
- “É que a minha psiquiatra está de férias e acabaram-se os medicamentos dos nervos.”
- “Está bem, diga lá quais são.” Abre então o saco de plástico e despeja meia dúzia de caixas de medicamentos em cima da secretária.
- “Pronto já está. Pode ir-se embora".
Uns segundos de silêncio, uma certa relutância em se levantar, como que à espera que o médico perguntasse, como na mercearia:
- “Então minha senhora, deseja mais alguma coisa?”
- “Ai senhor doutor, precisava de um grande favor.”
- “Um grande favor? Mas que é que precisa agora?”
- “Ai senhor doutor, pela sua saúde, é para a minha filha, que tem 20 anos!”, diz começando a soltarem-se-lhe as lágrimas.
O tempo vai passando, o médico vai-se incomodando, mas como ainda está fresquinho, pergunta:
- “Então o que é que se passa com a sua filha?”
A doentinha abre a sua mala, retira um papel e diz:
- “Se me pudesse passar esta análise para a minha filha, que o seu médico de família também está de férias e foi ele que a mandou a esta médica e disse-me que era urgente.”

Abro o papel, leio o cabeçalho (de uma colega ginecologista) e a prescrição apenas de uma análise: CA 125.
Abri bem os olhos, mirei o facies triste da doente e pensei para mim:
- “Aqui está o verdadeiro motivo da consulta”.
O Cancro.
Provavelmente, quer o médico de família, quer a ginecologista suspeitam fortemente que a jovem deve ter um cancro do ovário. E a mãe, com o seu instinto maternal, também não estará a augurar nada de bom para a filha, caso contrário, não se teria sujeitado, numa manhã de Domingo a tal aventura.
Suspiro eu, pensando o que poderia fazer para lhe resolver o problema e cogitando só para mim: se esta história se passasse no final do turno de banco, como reagiria eu? Será que, estando com fome, cansado, olhando insistentemente para o relógio e aguardando a rápida entrada do meu substituto, teria os sentimentos com um limiar tão baixo, para não deixar de lhe fazer o favor? Ou não?
Aquilo que muitos esquecem é que os médicos também têm sentimentos, por mais brutos e distantes que às vezes possam parecer...

segunda-feira, setembro 01, 2003

Já Que O Abrupto Falou na Varíola...

O vírus (do grupo orthopoxvirus) de facto ainda não foi extinto.
A varíola (doença) na realidade já está extinta.
As requisições de vacinas burocraticamente também já estão extintas.

"A varíola (smallpox) era um problema praticamente em todos os países e o controle da doença era feito isoladamente pelos governos locais. Em 1959, a Organização Mundial da Saúde decidiu a realização de um programa global de erradicação da varíola. Em 08 de Maio de 1980, em assembleia solene declarou que "the world and all its peoples have won freedom from smallpox" estabelecendo assim o primeiro caso de erradicação global de uma doença. Desde então, acredita-se que o vírus da varíola só exista em dois laboratórios no Mundo (na Rússia e nos EUA) e já foi decidido pela WHO que estas amostras serão distruídas em 30 de Junho de 1999." Parece que esta decisão foi revogada a pedido dessas potências.

Um leitor deste blog, propôs que falasse das chamadas medicinas alternativas.
A resposta que lhe dou, está no parágrafo transcrito que se segue. Acredito e tenho fé na Ciência e a Ciência incorporará todas as descobertas que, pelo método científico forem validadas. Infelizmente, dessas práticas complementares, talvez nem 10% tenham demonstrado alguma coisa de válido.
O que não invalida que as pessoas se sintam bem quando as frequentam. A minha avosinha (enquanto viveu), sempre foi à bruxa e sentia-se sempre bem, aliviada. Era o seu antidepressivo e ansiolítico. Proibir, para quê?

"Na Europa, ao fim do século XVIII, cerca de 400.000 pessoas sucumbiam vitimadas pela varíola a cada ano, e um terço dos sobreviventes ficavam cegos. Nada menos do que cinco reis morreram de varíola no século XVIII, uma doença que alterou a linha de sucessão dos Habsburgo quatro vezes, em quatro gerações.
Antes de 1967, a vacinação era feita com um método de escarificação ou uma técnica de pressão múltipla. O Programa Intensivo proporcionou a oportunidade de desenvolver novos métodos. Primeiro, surgiu a pistola de injeção, e em seguida a agulha bifurcada, muito mais eficaz, que aplicava uma única dose da vacina. Depois de imergir as agulhas em um frasco de vacina reconstituída, depositavam-se as doses sobre a pele e se realizavam 15 riscos verticais através da gota.
A varíola endêmica foi erradicada em 20 países no oeste e centro da África em 1970, no Brasil em 1971, e na Indonésia no ano seguinte. A incidência de varíola caiu acentuadamente em 1972, com casos notificados em oito países endêmicos e na África e no sudeste da Ásia. Finalmente, em 1975 a varíola endêmica foi erradicada do continente asiático. Na Etiópia, a difusão da doença foi contida em 1976, e na Somália, o último caso natural de varíola data de 26 de Outubro de 1977. Posteriormente, em 1978, foram relatados dois outros casos por contaminação num laboratório. Esses casos acidentais foram, de fato, os últimos".
Aqui, podem ver "the last smallpox victim on earth".

E agora, a minha linha de glória: O Abrupto, na palavra anti-varíolicas, tem que deslocar o acento uma letra para a direita: anti-variólicas. (E obrigado pela referência).

domingo, agosto 31, 2003

Cada Caso É Um Caso...

Nem mais, EspectacológicaS.

E eu estou a falar em termos académicos. Não estou a personalizar o seu caso. O seu médico é que o gerirá. E não tenha medo de pedir uma segunda opinião, (caso julge necessário) coisa que os médicos portugueses ainda não toleram bem, mas muitas vezes, porque os doentes também têm medo de assumir essa segunda opinião, perante os médicos e fazem-na às escondidas.
É lógico que o médico assim não gosta, e com razão!

As fluoxetinas podem ser usadas para outras patologias (até para a nova doença (?!) premenstrual dysphoric disorder ou late luteal phase dysphoric disorder antigamente apenas conhecida por tensão pré-menstrual).

Academicamente falando, é assim:
1) Há ou não há o diagnóstico de depressão?
2) Se há, o tratamento deve ser cerca de 6 meses, por regra.
3) E porquê? Porque se evitam recaídas, muito frequentes após o primeiro episódio.
4) Se há episódios anteriores, tratados ou não, diagnosticados ou não, então o tratamento nunca deve ser inferior a 6 meses.

São apenas linhas gerais para leigos intelectuais, que não vêem a TVI.
Não é uma dissertação científica.

Nota: ser médico é assim! Enquanto procurava a ligação para a nova doença, aprendi mais um palavrão: Mittelschmerzeis, que se refere à também muito habitual dor no meio do ciclo menstrual, causada pela ovulação.

Nunca Menos de Seis Meses

EspectacológicaS: "Hummm... 20 mg x 11 dias = 220 mg e não 120 mg como escrevi no dito Post!
As minhas desculpas... 100 mg fazem diferença!!"


Explico: se fazem! Mas também fazem a diferença os dias de tratamento: nunca menos de seis meses, provavelmente mais.

sábado, agosto 30, 2003

Durão Barroso On-Line e os Computadores Off-Line

Ouço: "Todas as salas de aula das escolas do ensino básico em Portugal, terão um computador em 2004."

Penso: "Quem me dera voltar para a minha escola primária."
Sonho: "Amanhã vou dar consultas na minha sala de aula da escola primária."

Acordo: "Já não tenho idade para voltar à escola!"

Deprimo-me: Há dois anos que tenho duas tomadas atrás da cadeira onde me sento, em frente à secretária que se entremete entre mim e o doente. Uma eléctrica outra com dois buraquinhos, "um para um telefone e outro prárrede", assim me explicou a funcionária quando me deu há 24 meses ou há dois discursos da rentrée a novidade de que em breve teria um computador.

Li no JN de 18/08, (só um exemplo...): "Computadores facilitam vida a médicos e utentes"
"Processo de informatização das unidades de saúde deverá estar concluído no final de 2005.
Vão ser abrangidos 1190 postos de trabalho"

"Os gabinetes médicos e de enfermagem dos centros de saúde e respectivas extensões, no distrito de Aveiro, vão estar informatizados até ao final de 2005."

"Position Statement: Aspirin for cardiovascular disease prevention."

A notícia da TSF rememorou-me três mortes súbitas nos últimos 10-15 dias.

Um jornalista, um médico e um presidente de um instituto.

Intelectuais. Provavelmente mortes evitáveis. 49 anos, 52 e presumo 56 anos. Muito para dar às suas profissões.

E são pequenas medidas, com pequenos orçamentos (2 €/mês), que podem impedir graves eventos!

sexta-feira, agosto 29, 2003

Até A TSF Diz Dislates...

Se não fosse médico, diria, ao ouvir a notícia da TSF no noticiário da uma: "Tou salvo! Já não vou morrer de enfarte, AVC ou morte súbita."

Disse uma voz feminina na TSF: "A partir de agora, através de um simples programa de computador, em qualquer consulta de clínica geral, poderemos saber em minutos, se vamos ter ou não um enfarte do miocárdio ou um acidente vascular cerebral." (Citado de cor).

Fiquei apreensivo, pois, a ser verdade, essa informação importantíssima para mim e para a humanidade em geral e intelectuais em particular (já várias vezes referi que os intelectuais correm muitos riscos cardiovasculares!), ter-me-ia passado completamente ao lado e isso seria muito mau sinal sobre a minha constante actualização.

Corri para casa, fui ao Google e escrevi: "enfarte miocárdio descoberta futuro computador". Foi à Medline e também não descobri qualquer artigo recente sobre esse diagnóstico predictivo de um futuro enfarte do miocárdio. Com mais calma, comecei a raciocinar. Será que a TSF quereria dizer "avaliação do risco cardiovascular"? Será que a TSF se quereria referir à famosa e já com largos anos Tabela de Sheffield? (nesta ligação podem consultar um artigo científico de uma revista americana de Setembro de 2000).

A notícia mais correcta seria: foi anunciado que uma qualquer instituição decidiu fazer um programa informático baseado na Tabela de Sheffield sobre Risco Cardiovascular na Prática Clínica, outro nome porque é conhecida. Aliás o que mais há por aí são tabelas dessas impressas por todas as sociedades científicas, por laboratórios, etc.

É uma tabela muito prática, mas que apenas nos diz qual o risco de se sofrer um evento cardiovascular nos próximos 10 anos, de acordo com algumas variáveis. Por exemplo, determinado indivíduo, tem um risco de 50% de poder desenvolver um enfarte nos próximos anos. Mas nada impede que não morra e nada impede que um outro indivíduo, com um risco de baíxíssimo possa falecer primeiro.

Fico triste, pois, afinal, ainda apenas nos restam as cartas da Maya ou a vidência e a bruxaria desses astrólogos que pululam nas nossas infames e (fedorentas) televisões. (Uma homenagem a dois blogs).

quinta-feira, agosto 28, 2003

Alguém Precisa de Médico ...

"Não que me considere intelectual", nem eu me considero. E ainda pergunto como vim aqui parar! Mas o seu blog mostra que de facto o é. O meu mostra que de facto sou um técnico que não gosta que os intelectuais façam má figura (técnica)!

"Não faço ideia onde está". Nem eu. Estamos na blogosfera.

"O meu Pai era médico". "O meu primeiro casamento foi com uma médica". "Agora, não tenho médico".

Mas pode ter, porque apesar de "o "meu" médico (antigo e bom companheiro de liceu), foi mudado, ou destacado do Centro a que pertenço", pode-se inscrever nesse Centro diferente do da sua residência, da sua localidade ou do seu concelho, assim o seu "antigo e bom companheiro de liceu" o queira receber. A actual e futura lei, permitem-no.

"Mesmo sem o conhecer (suponho) um abraço".
Outro para si, obrigado pelas suas palavras no e-mail, de facto não me conhece, mas eu se puder ouvirei o seu programa.

O Salvador Não Tem Culpa! Mas, Que Culpa Tenho Eu?

Quem teve o azar, como eu, de durante três noites seguidas, trabalhar olhando para o monitor e com o ouvido do lado esquerdo, meio globo ocular e uma parte do hemisfério cerebral do mesmo lado a prestar atenção ao que na SicNotícias se passa, já sabe de cor a história do Salvador. Já conhece a mãe que se mudou para o Restelo. Sei que o Salvador não tem culpa das repetições da Sic, mas que culpa tenho eu que me inundem a minha atmosfera fechada com a tua história.

Mas o mais deprimente são as perguntas dos jornalistas: "Se pudesses apagavas aquela noite em que tiveste o acidente (e ficaste tetraparésico)?"

quarta-feira, agosto 27, 2003

Esclarecimentos & Agradecimentos (e Desculpas)

Agradecimentos:

A EspectacologicaS escreveu-me e confessou-se fã deste blog. Obrigado, mas não mereço tanto. Isto é apenas um modo de entrar na noite. Diz que está perdida. Não creio. Como ela diz: "Beijos para quem for de beijos". Estes beijos virtuais, fizeram-me lembrar uma aula de Psicologia, do meu curso de Medicina terminado no final da década de 70. Aí se disse: "Com amor tudo se consegue!". Foi um grande Professor que o disse. Esse amor, em sentido lato, tenho-o aplicado muitas vezes, am alguns bancos pesados, quando o doente entra com grande agressividade não patológica. Duas frases afectuosas, cirurgicamente bem dirigidas, penetram, invadem e descontraiem os mais agressivos. Talvez por nunca receberem afectos.
Era um bom serviço público que a SIC, a TVI e RTP prestariam à sociedade: distribuir gratuitamente afectos e ensinar a comunicar afectuosamente.

Esclarecimentos:

Um boticário poveiro (não sei se o é ou se apenas reside na Póvoa de Varzim, mas admiro os poveiros) do blog Trenguices, Impressões de Um Boticário de Província, pede-me esclarecimentos sobre o assédio dos laboratórios de genéricos aos médicos, às farmácias e aos técnicos de farmácia: sem entrar em polémicas, o assédio às farmácias, é um assédio económico: "Oh Sr Farmacêutico, encomende-me 100 caixas deste genérico, que eu trago-lhe 200 embalagens!". Quer dizer, em 100 caixas, o lucro vai ser 100%, portanto vale a pena trocar o medicamento por esta marca de genérico que me dá mais lucro. É normal. É capitalismo.
Uma história: há tempos, uma delegada de informação médica de um laboratório de genéricos, abre a sua pasta e oferece-me um CD. Olho e vejo que é um CD do Marco Paulo. Miro-o e digo-lhe: "Você deve estar enganada! Marco Paulo? Ou a empresa de merchandising não presta ou o laboratório não quer mesmo vender nada! Exclamei, meio aborrecido pelo tempo que estava a perder. A delegada intimidada, abre novamente a pasta, troca o CD por um do Madredeus, pede-me desculpa e diz: "O do Marco Paulo é para a empregada da farmácia!", renovando as desculpas.

Desculpas:

Não posso dizer como o Abrupto que tenho 500 mensagens em atraso, porque não tenho. E não digo que vou responder a todas, porque também não o posso fazer. Respondo só a algumas. Ou as mensagens ou os doentes no dia seguinte. Tenho que optar pelos segundos.
E repito que este blog não é um consultório médico.

terça-feira, agosto 26, 2003

Luto Por Perdas, Luto Contra As Perdas

Perdi a minha Mãe há meses.

Perdi um amigo há dias.

Perdi a testemunha da minha história.

Perdi a contadora da minha história.

Perdi uma referência.

Perdi a coerência.

Perdi a convivência.

Perdi-me em Bombaim, perdi-me em Telavive, perdi-me em Bagdad, perdi-me em Gaza, perdi-me na Colômbia.

Perdi-me no meio dos blogs a discutir terrorismo.

O terrorismo não tem discussão. O terrorismo não se combate. O terrorismo é uma doença mais individual do que social. É uma ausência de sentimentos. Um terrorista não chora a morte da Mãe. Um terrorista não chora a morte de um amigo. Um terrorista tem um acentuado desapego aos sentimentos e mantém-se normalmente indiferente aos sentimentos alheios.

O terrorismo é uma pessoa.

O terrorismo tem que ser impedido de nascer e de crescer.

Não me parece que a tendência da política mundial seja na direcção de impedir o seu nascimento e crescimento.

Estou (e o Mundo) perdido.

Amanhã trabalho, não me posso perder.

domingo, agosto 24, 2003

Certificado de Óbito II e III

Certificado de Óbito II

Acabei de passar o certificado de óbito para o pai da filha da mensagem de Sex Ago 22, 01:45:38 AM. Afinal ...

Certificado de Óbito III

Na mensagem anterior, dizia "Não posso esconder, que, sempre que certifico um óbito, penso no meu. Quando, como, onde? Quem me certifcará o meu óbito?"

Não morri eu, mas tomei agora conhecimento, via e-mail, da morte de um grande colega, amigo e médico, da minha geração, o melhor aluno do curso e que optou desde sempre pelos Cuidados de Saúde Primários.

Mais uma vítima fulminante da morte súbita relacionada com eventos cardiovasculares!

Intelectuais, sedentários por natureza, fumadores, não fazem por norma os vossos exames periódicos de saúde, não sabem qual a vossa pressão arterial, nunca mediram o colesterol, cuidado, a morte espreita!

Vou fazer 24 horas de silêncio!

sexta-feira, agosto 22, 2003

Certificado de Óbito

Acabo de certificar um óbito.

Um meu doente anónimo. Tinha 96 anos. Vivia sem vida.

Ontem uma outra filha, vem pedir medicação para o pai e para a mãe. O pai tem 94. A mãe tem 93. A filha está feliz. A medicação de cada um é a chamada não-medicação. Viver assim até tão tarde e com qualidade de vida, deve ser bom.

Cada certificado de óbito, é um caso diferente. É uma história de vida anónima.

Não posso esconder, que, sempre que certifico um óbito, penso no meu. Quando, como, onde? Quem me certifcará o meu óbito?

Hoje, salvei uma vida.
Nada de especial, apenas um diabético com hipoglicémia (20 mg/dl) e já com alterações do comportamento, isto é, já sem capacidade de se tratar com um simples pacote de açucar. Mas o meu acto de lhe injectar glucose endovenosa, travou a marcha dos acontecimentos que o levaria ao coma e depois à morte. Seria mais um certificado de óbito a preencher. Mas não foi!
Agradeceu-me e saiu pela porta do banco, satisfeito. Melhor, ficamos ambos satisfeitos.

Onda de Calor E Uma História

Ao ouvir a SicNotícias, posso confirmar que, também, na minha unidade de saúde, na primeira quinzena de Agosto, as consultas urgentes diminuiram de 2002 para 2003.

Já no final da onda de calor, fui abordado por uma filha de um pai que estava doente para o consultar no seu domicílio. Respondi que era impossível pois estava de serviço na urgência, mas mesmo assim, fiz algumas perguntas necessárias e conclui empiricamente que, o pai da filha que estava à minha frente, tinha 82 anos, uma história de AVC prévio há 3 anos e que provavelmente, estaria a fazer novo AVC ou com desidratação. Propus de imediato à filha de um pai que estava doente que enviaria uma ambulância ao domicílio para o transportar ao serviço de urgência, onde seria melhor tratado e devidamente hidratado. A resposta foi de "que não, porque não, e a mãe não queria, porque não, e tinha que ser tratado em casa e ponto final, se não podia lá ir, prontosssss". Depois de tantos nãos ainda imaginei que, sozinha, mudasse de opinião. Negativo!
Três dias depois, procurou-me novamente, com o mesmo pedido. Acedi e desloquei-me ao seu domicílio, durante a hora do almoço, para a consulta. O seu pai estava inconsciente, com taquipneia e sinais evidentes de desidratação. Propus mais uma vez o seu internamento que foi recusado pela filha de um pai que estava doente. Mesmo assim, três dias depois iniciou a hidratação endovenosa aplicada por uma enfermeira e assistida por "um cunhado que trabalha nos bombeiros", não que antes a enfermeira bem avisasse: "olhe que só o autrizo a mudar os soros".

Este, que saiba, ainda não entrou na percentagem hoje anunciada das vítimas da onda de calor.

Mas a filha, de certeza que será uma das imbecis que chora com as imbecilidades da TVI (como hoje com a história da cegueira e propaganda da telenovela) e com as histórias mal contadas do que se passa nos hospitais!

quinta-feira, agosto 21, 2003

"O Aperto Mais Desejado"

Segundo a Visão, "O Aperto Mais Desejado" é a gastrobandoplastia.
A jornalista Isabel Nery está de parabéns!
Embora confunda o objectivo da colocação da banda, que é fundamentalmente baixar o limiar do reflexo da saciedade, através da sensação de plenitude gástrica, pois a capacidade do estômago mantêm-se na sua porção distal.

Enquanto a comunicação social, durante anos publicitava gratuitamente (???) os charlatões das dietas, nas suas páginas e monitores, enchendo os seus consultórios (não falo em nomes, mas o mais conhecido mudou de vida para a hipnose e para os carecas, que estão na moda) os verdadeiros médicos iam investigando anonimamente as medidas cientificamente provadas e com eficácia reconhecida. Sem louros ou tias ou programas de TV.

Para que não se venham futuramente acusar estes médicos de negligência médica, pois no artigo parece que tudo corre bem, leiam as complicações (em baixa percentagem, é um facto!) que existem:

"Less than 10 percent of these high-risk patients develop complications from surgery, and one percent or less die", num sítio genérico de reconhecida validade científica, para leigos.

Citando de um sítio brasileiro:
"Porém, é importante frisar que a cirurgia visa estabelecer um padrão alimentar que permita uma ingesta de pequena quantidade de alimentos sólidos, promovendo a sensação de saciedade precoce. A capacidade para ingerir alimentos líquidos e líquido-pastosos não sofre uma redução tão dramática. Portanto se não houver uma colaboração do paciente no sentido de evitar alimentos líquidos e pastosos de alto teor calórico, a perda ponderal ficará comprometida. Nos pacientes do Serviço de Cirurgia da Obesidade do Hospital Santo Amaro, o maior "divisor de águas" para promover grandes perdas de peso tem sido a não ingesta de açúcar e alimentos doces. Portanto, não se pode esperar que a cirurgia "milagrosamente" venha transformar pessoas extremamente obesas sem a devida cooperação.
Outros problemas [para além das infecções, deslizamentos, migração e vasamento da banda]pulmonares (embolia pulmonar), cardíacos, digestivos etc. podem ocorrer, principalmente naqueles pacientes com muitos fatores de risco, contabilizando um risco total de complicações entre 6 e 9 % e uma mortalidade global de + 0,3 %. A taxa média de indivíduos que necessitarão de uma reoperação é de + 5 %, sendo causadas pelas complicações acima descritas.
"

Será que errei mesmo? Presumo que sim.

Disse numa mensagem em 17 de Agosto que: "Mas também se cai no ridículo: "Um grupo de especialistas dos Hospitais de Santo António, no Porto, de Viseu e do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, foi acusado por causa de um fim-de-semana pago pela Roche numa herdade alentejana."

A ser verdade a notícia do Público, foram só dois médicos e respectivas consortes que gastaram 800 contos nesse fim-de-semana numa herdade alentejana.

Talvez tenham convidado para o fim-de-semana, um qualquer crâneo europeu ou americano para expor as virtualidades da Dieta Mediterrânica com exemplificação prática!

"Acusação de Corrupção Leva 519 Médicos a Tribunal"

Diz o Público.

Medico Explica Medicina A Intelectuais, garante que não é um deles!

E para aqueles que julgam que genéricos é sinónimo de "politicamente correcto", posso adiantar que presentemente o assédio destes laboratórios aos médicos ainda é mais intenso. Para não falar no assédio às farmácias e aos técnicos de farmácia para a troca de medicamentos.

quarta-feira, agosto 20, 2003

Sérgio Vieira de Mello

Não posso deixar de falar no SVM.
Trabalhando até às 22 h (um turno de 13 horas), como já disse às terças é o meu dia fixo, por vezes fico (ficamos) alheados daquilo que se passa à nossa volta. Só soube do acontecimento agora. Estou ainda a quente!

Simpatizava com SVM.
Foi vítima de uma arma que se chama terror. Veio-o me à memória a criança iraquiana, sem braços; veio-me à memória o camera-man que faleceu ontem, porque os americanos, com toda a sua alta tecnologia de ver no escuro, não viram no claro, que a sua câmara, afinal, não era um lança-obuses.

Isso não foi terror, foi tudo um acto libertador.

Em vinte anos de clínica, já vi muitos corpos estropiados, uns mortos, noutros assisti "ao morrer" e outros que não morreram.
Mas nunca fui à guerra!.
Mas nunca fui à guerra!.
Mas nunca fui à guerra!.

Puta de vida! (Que me desculpem os fundamentalistas dos bons costumes!)

"Com a campanha de angariação de utentes ..."

Achei piada a esta notícia no Público 19/08/03. A frase até é de um colega meu, Director de um Centro de Saúde.

Como dizem que há falta de médicos, a nova teoria é angariar utentes, que os médicos logo aparecerão.

Esta a conclusão (precipitada) depois da leitura da notícia, onde se afirma que determinada Extensão de Saúde com 800 utentes e sem direito a médico, com uma campanha de angariação de mais 700 utentes, conseguiu um "médico permanente".

Se a moda pega, teremos mais uma guerra entre as nossas freguesias: a transferência a peso de ouro de utentes de uma para a outra, para se conseguir um médico.

A SicNotícias e as Armas dos Psicólogos

Dizia ontem a SicNotícias, na promoção de um programa sobre cancro da mama que "médicos e psicólogos, juntarão as suas armas no combate ao cancro da mama". Está citado de cor e pode não ser exactamente assim, mas a mensagem era essa.

Por mais que pensasse, que investigasse, não descobri quais as armas dos psicólogos. Até fui ao Google e a resposta foi: A sua pesquisa - "cancro + mama + psicólogos + combate" - não encontrou nenhum documento.

E compreende-se: o combate ao cancro da mama, faz-se pela investigação da genética, da epidemiologia, do diagnóstico precoce, de novas técnicas de cirurgia, etc., mas sem armas psicológicas.

Contudo, a psicologia tem armas poderosas, e é muito necessária, quase imprescindível, mas para combater os efeitos do cancro da mama (de qualquer cancro!) na psique da pessoa, ou neste caso, no doente duplamente amputado (sim, a mastectomia é uma amputação!), fisica e sexualmente.

segunda-feira, agosto 18, 2003

Também Erro! (Corrijam-me por favor!)

"Caro "Médico [que] explica medicina a intelectuais"

Sigo com muito interesse o seu site. Se não fosse por ser "bloguista" cibertulia (seria pelo lado profissional - sou jornalista e procuro ouvir quem me (nos) aponte erros -, ou pelo lado "doméstico" (estou casado com uma jovem colega sua, ainda médica do internato geral). E, reparo, hoje, que "congestionou" o seu blogue com interessantes viagens pela blogosfera. Mas no melhor pano cai a nódoa: quando cita o trabalho da minha colega de redacção Tatiana Alegria, diz que é um trabalho do Diário Digital, certamente um lapso, que o link para a notícia desmente... Trata-se do PortugalDiário, claro. De resto, nada a acrescentar: pertinente, como sempre.
Obrigado pelo seu blogue.
jornalista do PortugalDiário
www.portugaldiario.iol.pt"

A opção por transcrever a mensagem na íntegra, tem apenas como objectivo demonstrar que não tenho nada contra os jornalistas. Pelo contrário. Negritos da minha responsabilidade.

Nota: também partilho a ideia de que as mensagens dirigidas ao e-mail do blogue, funcionam como cartas à redação (ou ao director) de um órgão de comunicação e como tal, podem ser publicitadas, desde que não solicitem o contrário.

domingo, agosto 17, 2003

A Doença de Alzheimer e Os Blogues

Respigo com a devida vénia este bilhete d' O Bisturi, de Segunda-feira, Agosto 11, 2003.

"Ter um blog previne a doença de Alzheimer.
Porque quem mantém uma vida intelectual activa está mais protegido, confirmam estudos recentes. Pacheco Pereira e Francisco Viegas, dois veteranos, penetraram neste mundo imenso timidamente e experimentam agora diariamente, para nosso gáudio, doses descomunais do elixir da eterna juventude."

O Abrupto E Os Impostos

E assim, abruptamente quedei-me no Abrupto, para lhe enviar a minha solidariedade bloguista.
Em 6/8/03, JPP disse que: "Quando se está revoltado, e não tenham dúvida que é essa a palavra exacta, pensa-se fazer algumas coisas nem todas sensatas".
Várias vezes, partilho os mesmos sentimentos àcerca dos impostos, quando determinados quadros intermédios (e alguns sindicalistas dos impostos) dos nossos serviços das finanças, se atiram a classes inteiras como sendo elas as únicas e no seu todo, as grandes responsáveis pela fuga aos impostos.
Em relação ao médicos, mais de metade trabalham apenas para os Estado, outros trabalham para empresas, seguradoras, clínicas privadas, com avenças com sub-sistemas de saúde, etc, onde fazem sempre a retenção de 20% dos honorários. Médicos em profissão liberal, pura, são já poucos!

Por outro lado, nestas férias, vi centenas de automóveis, supostamente de dois lugares para não pagarem um imposto que se chama IVVA, mas que colocam a rede ou outro separador, bem lá atrás, junto à bagajeira, usufruindo assim um automóvel de 4 lugares, pagando o imposto de um carro de trabalho. E que carros: jipes, mercedes, bmw, audis, etc.

E ninguém os investiga? Serão milhões de euros que fogem aos impostos ...
.

O Cerco do Porto E A Maria Elisa

Navegando mais para Norte, parei junto ao Cerco do Porto, que na na Sexta-feira, Agosto 01, 2003, estava muito preocupado com a Maria Elisa e com quem a criticou: "Era o que me faltava vir para aqui defender a Maria Elisa. Ainda se ela fosse a primeira dama, dragonisticamente falando... Mas, como já vi em vários blogs referências à possibilidade de a suspensão de mandato que pediu, na AR, mais não ser do que um expediente fraudulento, devo recordar que a deputada eleita por Castelo Branco é um dos rostos em Portugal da fibromialgia, doença que não desejo a nenhum dos que a condenam sem tentarem aprofundar os factos."

Que a doença está na moda, é verdade. Que é complicado o diagnóstico, é verdade. Que não há ECD que a comprovem ou suspeitem, também é verdade. Que todos os sintomas são subjectivos e muito ligaos à psique, também é verdade. Já quase que não é uma doença, mas um status, já se começa a ouvir, nas consultas: "Sr Dr, eu Joana da Silva, fibromiálgica, venho pedir-lhe umas receitas.

O que eu condeno veementemente é o facto de se estar incapaz para uma actividade e não para outra semelhante e com a mesma justificação.

Outra situação muito criticável e que me levanta muitas dúvidas sobre muitos interesses que possam existir é o facto das senhoras doutoras Maria Elisa e Sousa-Uva apadrinharem uma nova associação de doentes, a MYOS, em Lisboa, quando no Cerco do Porto, bem lá dentro, já existia uma com trabalho efectuadao, a Associação Portuguesa de Doentes com Fibromialgia.

O Aviz E A Tristeza em Aviz

No meu contínuo navegar, fui encalhar na frase de FJV onde atesta: "Aviz tornou-se, definitivamente, a terra portuguesa onde há mais blogs por habitante. Além de O Maranhão, .../... e o Triste Aviz / Avis Linda. Como disse recentemente, acho isto corajoso numa terra de gente cada vez mais calada. E triste, já agora."

Conheço Aviz, e sei que é linda. Mas triste, é todo o Alentejo, quase que por por definição.
Cabe a intelectuais como FJV e outros, trazerem a alegria de viver para o Alentejo. Serão vanguardistas, mas enquanto o trabalho braçal vai fugindo para as cidades, é importante, mesmo que incompreendidos pelos poderes locais, mais interessados nos votos, que a massa crítica vá inundando o Alentejo.

A tristeza no Alentejo leva ao suicídio: "No que concerne à distribuição geográfica do fenómeno, a região de Lisboa e Vale do Tejo foi a que registou o maior número de suicídios, com 2052 casos (49 por cento do número total de casos), seguida do Alentejo com 751 casos. O Alentejo, porém, apesar de ter registado menos casos de suicídio do que Lisboa, é a região do país onde a taxa de suicídio é maior, uma vez que é ali que o número de suicídios por cada 100 mil habitantes é o mais elevado", segundo dados da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL.

Flor de Obsessão E A Confusão do Tratamento da Mente

Hoje pude navegar por alguns blogs e armei-me em Apóstolo da Blogosfera (aquele que é enviado numa missão, evangelizador, divulgador de uma causa, missionário exemplar). É uma afirmação feita para puro gozo pessoal e em tom irónico.
Da mesma forma que julgo foram produzidas, na Segunda-feira, Julho 21, 2003, na Flor de Obsessão, as afirmações de que "Nunca consultei um terapeuta, um psicólogo, um psicanalista, um sexólogo, etc. .../... A antropólogos, também nunca fui. Amigos meus já foram. As consultas são caras e demoram muito. Uma pessoa tem que se deitar, o que é sempre desagradável. Não critico as pessoas que recorrem a psiquiatras e terapeutas. Acho muito bem (aqui, sem ironia)."
Só espero que a consulta com o antropólogo seja a ironia.
"Ouço muito bem e gosto muito de ouvir. Mas é aí que está o problema: quando ouço, quando ouço alguém a falar sobre mim, quero ficar a saber mais do que sabia."
"Acontece que a coisa raramente resulta: sempre que alguém começa analisar um problema meu, fico imediatemente a saber que esse alguém está a falar de si próprio. "
Mas como afirma que nunca foi a um profissional da psique, pressupõe-se que esse alguém da sua experiência, era um curioso ou curiosa nele. (No bom sentido, claro, e com ironia.)

A principal função do profissional da psique é ouvir, ouvir e ouvir, orientando o fluxo das ideias e das memórias. Fundamentalmente, só isito.
Agora, consultar um antropólogo, só mesmo em tom irónico!
("A Antropologia é o estudo do homem como ser biológico, social e cultural. Sendo cada uma destas dimensões por si só muito ampla, o conhecimento antropológico geralmente é organizado em áreas que indicam uma escolha prévia de certos aspectos a serem privilegiados como a “Antropologia Física ou Biológica” (aspectos genéticos e biológicos do homem), “Antropologia Social” (organização social e política, parentesco, instituições sociais), “Antropologia Cultural” (sistemas simbólicos, religião, comportamento) e “Arqueologia” (condições de existência dos grupos humanos desaparecidos). Além disso podemos utilizar termos como Antropologia, Etnologia e Etnografia para distinguir diferentes níveis de análise ou tradições académicas")

Médicos Bons, Médicos Maus

1) Médicos Maus – Diz o JN de 31/07/03, baseado numa notícia d'As Beiras, que ”70% das amputações do pé diabético são evitáveis". No artigo, sobre a inauguração de um Centro de Estudos do Pé, na Casa de Saúde Santa Filomena faz-se uma grande reportagem sobre a diabetes, o pé diabético, etc. Só não explicam o que me explicaram: os mesmos médicos, dentro do hospital, pouco criaram! A ser verdade ...

2) Médicos Bons – No Expresso de 05/07/2003, sobe o título Urgências Fatais, um médico denuncia que "está tudo mal na assistência dos hospitais aos sinistrados graves" através de um estudo inédito por ele conduzido. É o presidente da Sociedade Portuguesa de Trauma (SPT) e professor da Faculdade de Medicina de Lisboa. Mais se afirma: " estes resultados estão relacionados com «o mau funcionamento nas múltiplas áreas da cadeia do trauma», desde que acontece o acidente até à chegada do doente ao hospital, e entre serviços de urgência e internamentos."

3) Médicos Maus – Segundo a TVI (2003-08-14 20:30), "Dezenas de médicos acusados de corrupção" e "Laboratórios farmacêuticos ficam livres devido à lei da amnistia." Desenvolve depois: "Dezenas de médicos em todo o país estão a ser acusados pelo Ministério Público de corrupção continuada com a indústria farmacêutica. Há médicos que vão ser julgados e podem ser condenados a dois anos de prisão..
Mas também se cai no ridículo: "Um grupo de especialistas dos Hospitais de Santo António, no Porto, de Viseu e do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, foi acusado por causa de um fim-de-semana pago pela Roche numa herdade alentejana."

4) Médicos Bons – No Público de 11/08/03, um artigo de um médico (Presidente da Sociedade Portuguesa de Senologia) preocupado com os doentes com cancro: "Direitos dos Doentes com Cancro" Afirma: "Há sempre algum desconforto por parte dos profissionais de saúde quando se fala de "direitos dos doentes", nomeadamente de foro oncológico. Todos dizem que os direitos são imensos e os deveres diminutos ou quase inexistentes."
"Se estes direitos não podem ser cumpridos por deficiências legais, por incapacidade dos governantes, por pressões dos "lobbies", por carências em recursos humanos ou económicos, por gestões menos correctas ou até danosas - há o dever e o direito de as denunciar."
Os direitos: "Será admissível que um doente com cancro diagnosticado espere três ou quatro meses pelo tratamento adequado?
"Será admissível que o tratamento instituído não esteja de acordo com o "estado da arte" da doença?"
"Será justo que haja administrações que não propiciam ao doente o tratamento de "última linha" (nas diferentes especialidades) unicamente por critérios economicistas altamente discutíveis? "
"Será aceitável que haja desperdícios, sobreposições ou omissões no tratamento do doente oncológico?"
"Será de admitir que o doente não seja tratado com a dignidade e o humanismo que merece?"
"Tem o direito de ser tratado com a maior dignidade e direito à igualdade dentro das diferenças. Tem direito à preservação da sua integridade mental e física, ao respeito pela sua privacidade, à não discriminação sob o ponto de vista moral, cultural, ideológico e religioso.
"Tem o direito a uma adequada acessibilidade aos serviços de saúde, bem como ao diagnóstico e tratamento adequado e atempado. O doente oncológico tem o direito de exigir o tratamento mais eficaz para a sua doença, bem como escolher livremente a instituição em que deseja ser tratado. "
"Tem sempre direito a uma segunda opinião."
"Tem o direito de mudar de instituição e, se o seu estado o permitir, receber cuidados na sua casa."
"... ser garantida a melhor qualidade de vida, que passa pelo desaparecimento de sintomas, nomeadamente da dor."
"Tem direito a ser informado e a colaborar activamente nas eventuais opções que lhe são oferecidas em relação ao não tratamento, ao diagnóstico e tratamento, ao prognóstico e à evolução da doença".


5) Mellos suspeitos - No DE 05/08/03 e sobre o Hospital Amadora/Sintra, diz-se: Tribunal Arbitral rejeita relatórios e elogia gestão hospitalar dos Mellos.
O acórdão do Tribunal Arbitral sobre as divergências na interpretação do contrato de gestão do Amadora/Sintra é um documento que responsabiliza principalmente o Estado pelo litígio e que critica os organismos estatais, em especial a Administração Regional de Saúde de Lisboa (ARS), elogiando a gestão da José de Mello Saúde (JMS) isto é: um parecer de administrador da CUF prevaleceu sobre tese do Estado .
Nesta questão do Hospital Amadora-Sintra, necessito eu que alguém me explique o que se passa. Apenas sei que o Ministro da Saúde, foi gestor da Mello Saúde e que estão em jogo milhões de euros!

6) Médicos Bons - "Os meus sinceros parabéns pela sua página na net - pela militância bloguista e, fundamentalmente pela excelente ideia subjacente á página. É prioridade melhorar a cultura médica deste país: são tantos os disparates que se ouvem e vêem. Vim parar à sua página por acaso, sou agora fã incondicional. Sou seu colega de profissão internista e intensivista no H. V. Parabéns! F.F.

sábado, agosto 16, 2003

Viva A Tatiana Alegria! ou A Queda de Um Mito (Nadar de Barriga Cheia Não Mata!)

Logo, quando nasci, o pai dos weblogs, Jornalismo e Comunicação, duvidava da minha seriedade em relação aos jornalistas. Compreendi.
Nas, a prova de que estava enganado, é este bilhete de euforia e exaltação a uma jornalista, Tatiana Alegria, do PortugalDiário, que num artigo (16-08-2003 19:53) desmonta o velhinho mito de que não se pode ir para a àgua com a "barriga cheia".
Vejo muitos intelectuais, portadores de enormes conhecimentos (e barriguinhas), ficarem aterrados com a ideia das congestões, vejo muitas peças jornalísticas usarem e abusarem das mortes por congestão.
Aliás, para os jornais e para os nadadores salvadores todas as mortes no mar ou no rio, são por congestão.

Mas, a Tatiana Alegria, fez a sua investigação e publicitou aquilo que há muito eu e muitos médicos já sabiam. (Mas acautelem-se, pois há muitos médicos que também acreditam ainda, no mito das congestões).

Aconselho todos a ler o artigo na íntegra, mas aqui vão alguns excertos:
- "Uma pessoa saudável pode ir brincar com as ondas cinco minutos depois de almoçar ou jantar. Chapinar no mar apresenta vários perigos, mas nadar de barriga cheia não é um deles."
-"«A digestão não exige que se esteja paradinho a seguir a uma refeição. Apesar deste processo consumir energia, uma pessoa saudável tem perfeita capacidade para nadar com o estômago cheio», diz o médico e investigador José Pedro Cansado Carvalho."
- "A paragem da digestão, também chamada popularmente «congestão», segundo este médico, «é um mito popular português»."
-"O gastroentrologista António Sarmento partilha da mesma opinião: «Morre-se no mar fundamentalmente por três razões: hipotermia, exaustão e o que se chama morte súbita»."
-"... a necessidade de entrar na água devagar para que o corpo se habitue à baixa temperatura."

Afinal os Médicos Prescrevem Genéricos !!!

Num bilhete antigo escrevia como a comunicação social manipulava os números ao afirmar que mais de metade dos médicos não autorizava a substituição por genéricos.

Mas no Diário Económico de 8/08/03, "Os dados, a que o Diário Económico teve acesso, mostram que, no primeiro semestre de 2003, o mercado de genéricos apresentou um crescimento de 316% em valor e 266% em volume, face ao período homólogo de 2002. Até Junho, foram vendidos 3,8 milhões de medicamentos genéricos."

Como só os médicos podem prescrever, a conclusão é fácil ...

Entidade Reguladora da Saúde, Estarão os Médicos Contra?

Segundo o Diário Económico de 1 de Agosto de 2003, sim, pois o seu título é expressivo: "Médicos contra modelo da Entidade Reguladora da Saúde"

Lendo a notícia, ficamos esclarecidos. Afinal foi só um parecer da FNAM onde explicita a sua posição.
Diz a notícia: "Numa missiva muito crítica para com o modelo e até para o próprio autor do projecto – Vital Moreira – os médicos questionam a independência de uma entidade cuja direcção é nomeada pelo Governo e discordam da inamovibilidade do conselho directivo por cinco anos: «É chocante que num estado republicano, democrático e de direito se pretendam constituir entidade “monárquicas” eternizadas no poder», lê-se no documento, disponível no site da FNAM."

Respeito a posição da FNAM, talvez a principal organização sindical médica, agora em completa simbiose com o SIM, mas porque é que os jornalistas, generalizam um parecer decidido por uma direcção sindical a toda uma classe?

Quem nos corporativiza são os media. Os médicos, têm também muitos interesses contraditórios, veja-se a discusão nos vários jornais sobre o Centro Materno-Infantil no Porto ...

A Farsa dos Hospitais S.A. (do Jornal Virtual do SIM)

"Como é o caso daquele Hospital de Lisboa em que a Cardiologia parece já não poder executar mais ecocardiogramas e exames hemodinâmicos, pelo que é segredado aos médicos para reduzirem os seus pedidos de ECD e são utilizados subterfúgios para serem pagos não pelo hospital mas pela ARSLVT.
Daí que os pedidos de consulta externa pelos Cuidados Primários sejam “rateados” e que a tentação do “diga lá ao seu médico de família para lhe pedir este exame” cresça.
São assim subaproveitados os meios instalados, são assim incrementados os ganhos dos privados e convencionados, são assim sobrecarregados os médicos de família com pedidos de transcrição ilegais.
São assim postos em causa princípios éticos e deontológicos médicos e também a competência de gestores."

A serem verdade estes factos (e outros, pois são muitos os zuns-zuns que se vão ouvindo em vários hospitais), não sei o que dizer! Partilho da necessidade de se darem várias voltas completas aos nossos hospitais e centros de saúde, importando para as estruturas do Estado as regras das empresas privadas, mas em tudo tem que haver limites e não sei se na euforia anti-despesista, esses limites serão cumpridos.

Esperemos que a Entidade Reguladora da Saúde, que aí virá, vá regular (ou não!)estes aspectos menos éticos da actuação dos gestores dos nossos hospitais SA ou públicos.

sexta-feira, agosto 15, 2003

Elsa Raposo Luta Contra um Tumor! (Fomos Manipulados!)

Quando li na capa esta notícia, num escaparate, pensei: coitadinha deve ser um cancro! Veio-me à memória a forma como lidaram com os seus cancros, o Camacho Costa e o João Amaral. Cada um geriu a doença como quis. Público e privado. Estão no seu direito.
Mas, para a Elsinha lembrei-me de tudo: será na mama? Será no pulmão? No colo do útero? No fígado? Será um meningoblastoma? Um astrocitoma? Um linfoma? Um carcinoma epidermoide? Um teratoma? (este não é de certeza!). Um oligodendroglioma? Será um schwanoma maligno ? (ou melhor porque a terminologia também vai mudando entre nós: tumor maligno da baínha do nervo periférico).
Fiquei triste e depressivo durante vários dias.
Mas eis que, como queria estar actualizadíssimo sobre se o Zé Luís, é ou não homossexual, comprei mais uma de la boue. (TV Guia, nº 1280, ano XXV, 15 de Agosto de 2003, p. 116) e prontosss, já se falava na sensualidade da Elsa Raposo, até diziam que parou o trânsito e entre parêntesis a verdade: “tem um mioma no útero”.
Descansei, deitei foguetes! Afinal a nossa Elsa não nos vai deixar...

Mas o que é um mioma, ou melhor fibromioma? é um tumor benigníssimo do corpo do útero, que aparece em milhares e milhares e milhares de mulheres e que só se torna perigoso quando provoca hemorragias vaginais (metrorragias) que podem ser controladíssimas.

Pela memória do João Amaral e Camacho Costa e das inúmeras vítimas fatais de tumores malignos, Elsa Raposo e a Caras deveriam retratar-se, pedir desculpa e desaparecer por uns tempos.

E não se pode exterminá-los? (À la boue?)

quinta-feira, agosto 14, 2003

11/08 - Clara Ferreira Alves et la boue - Maria Elisa e as baixas por doença

Segundo CFA na sua última Pluma Caprichosa (La Nostalgie de la Boues, Única, Expresso nº 1606, de 9 de Agosto de 2003), "O país não está cintilante." Mais à frente, "fui abastecer-me de lixo, trash, lama, em francês boue." Pagou 5 euros. Boue é as Caras, as Vip, as Lux, as !Hola!.

Confesso que tenho uma outra forma de ler la boue. Não gasto um euro! Adoro ler as revistas com um ano ou dois de atraso. Foi o que fiz, no apartamento de férias.

Li na Caras (nº 367, de 24 de Agosto de 2002) que Maria Elisa afirmou: "porque sujeitei-me ao sufrágio e fui eleita por pessoas que confiaram em mim. .../... É uma questão de consciência. Tenho de respeitar e honrar essa escolha". O artigo intitulava-se "Maria Elisa Domingos é um caso sério"
Segundo os jornais, a deputada, sairá por baixa médica, para entrar em plena actividade jornalística na RTP. Será verdade? Será seriedade?

Que é uma pessoa doente, não duvido. Ela é que o afirma: enxaqueca grave, fibromialgia e ausência d' "o amor é ainda um capítulo adiado da sua vida", segundo a Caras.

Com todas estas doenças, talvez haja uma depressão (escondida?, não diagnosticada?, masqué?). Ou será que é por ser uma doença banal e do povo que não se mediatiza?

Mas a mensagem és esta: o Primeiro Ministro legisla no sentido de combater as baixas fraudulentas, uma sua deputada afirma-se doente para uma tarefa intelectual (no Parlamento) e vai executar outra tarefa, também intelectual (na RTP).

Quando se fala de baixas fraudulentas, inconscientemente se deduz que o médico (o malvado do médico!) também colabora com a fraude.

Mas enganem-se meus queridos jornalistas (queridos no bom sentido, pois sou amigo de alguns), algum médico recusaria uma baixa a uma doente com uma profissão intelectual, com eenxaqueca grave, fibromialgia e ausência d' "o amor é ainda um capítulo adiado da sua vida", ou depressão?
Não! Seria não cumprir a legis arte.
Só que depois de se fechar a porta do consultório, o médico já não é responsável por aquilo que o doente fará...

E termino com mais uma história:
Estava no início da década de 80, tinha iniciado o ex-Serviço Médico á Periferia, quando me aparece uma doente a pedir baixa por cansaço e dificuldades na marcha. Tudo bem, lá a ouvi e concluí que provavelmente falava com sinceridade e como o trabalho do campo é duro, passei-lhe a baixa. À noite, na habitual confraternização da equipa de médicos (que saudades!) pergunta-me uma colega: não foi à tua consulta uma doente "assim-assim" pedir-te baixa? Foi, respondi eu. Olha, diz-me a colega, essa doente pediu-me baixa e não lha dei, e ela afirmou que iria a pé (com dificuldades na marcha, pasme-se!), cerca de 14 km, entre a freguesia e a sede e traria de certeza como papel da baixa. Assim foi e assim fui ludibriado por uma doente pela primeira vez. E infelizmente isto repete-se muitas vezes, até no Parlamento ...

10/08 - XIS (Muitas) Ideias Para Se Ser Hipocondríaco

No repouso das férias folheei uma XIS antiga (nº 147, 30 de Março de 2002).
O que fui lendo:

- "27 mulheres testam vacina contra o cancro da mama",
- "Hormona do crescimento funciona." (Poupem os leitores, já funciona há dezenas de anos!)
- "Dependência do chocolate" (Parece que se confirma!)
- "Tui Na - Nome misterioso de uma massagem que faz bem a tudo" - título da capa, com chamada para o interior, onde se podem ler umas balelas e se publicitam as respectivas clínicas em Lisboa. (Este será o 3.598 enésimo nome de uma técnica de massagens! Para mim, bastavam-me as mãos da Fernanda Serrana a massajar-me o corpo para fazer bem a tudo!)
- Sobre "O Colesterol - em mais de 90% dos casos uma mudança nos hábitos alimentares reduz os níveis de colesterol" - afirma um naturopata. (O que não afirma é que a mudança de comportamentos em qualquer doença tem um êxito quase nulo, confirmado por estudos científicos.)
Cá por mim, faço como muitos dos meus colegas, ingiro diariamente uma aspirina de baixa dose e uma estatina para prevenir as doenças cardiovasculares, um dos flagelos da actualidade.
- "Inflência da Lua no nosso comportamento" (Provavelmente em muitos países - Libéria, Palestina/Israel, Iraque e mesmo EUA, a Lua está em eclipse há muito...)
- "Alimentação biológica - Traz inúmeros benefícios para a saúde" (Não são inumerados e não se pode confirmar cientificamente com estudos prospectivos este título, embora não se possa negar que é muito mais positiva.)

Em conclusão, a revista XIS, para além de ser uma revista comprovadamente hipocondríaca, é, sub-limiarmente a propagandeadora da iliteracia científica.

09.08 - Tudo Aconteceu Num Quarto de Hotel em Paris

Assim mente a Lux, na sua secção Vidas de Luxo (nº 171,09 de Agosto de 2003, p. 6).

E mente porque Marie Trintignant foi maltratada num quarto de hotel em Vilnius, capitla da Lituânia. Vários jornais noticiaram durante vários dias as notícias correctas e com a explicação exacta.

Mas para a Lux , violência doméstica é substituída por enorme briga. E assassinada por ter matado.

Provavelmente porque a secção se chama Vidas de Luxo e os luxuosos não batem nas mulheres e têm que ser poupados!

Marie Trintignant não tem culpa!

sexta-feira, agosto 08, 2003

MST

MST, para muitos será Miguel Sousa Tavares.
Para mim e para qualquer médico, MST é o nome comercial de comprimidos de sulfato de morfina. Morfina para "analgesiar" quem necessita (usa-se muito em doentes com tumores malignos com dores dificieis de controlar). E por vezes, o M(iguel)ST anestesia-nos com os seus disparates quando fala de Medicina. E é pena. Gosto de o ouvir. Gosto mesmo muito de o ouvir, mas confesso que, quando fala de Medicina, não acerta uma.

A última foi num Diário Económico de Julho. Afirma peremptoriamente que os médicos têm duas tabelas para pagamento das horas extraordinárias! Errado.
Vou tentar explicar (lhe):

- No regime de trabalho dos médicos, sempre houve dois regimes de horário: tempo completo e o tempo completo prolongado (acrescido de 12 horas).

- Desde há bastantes anos (no Ministério da drª Beleza) foi instituída uma nova modalidade que se aplicaria aos dois regimes antigos: a dedicação exclusiva.
- Se nos primeiros regimes (sem dedicação exclusiva) o valor da hora, quer ordinária, quer extraordinária era o mesmo, pois a fórmula que se aplica para determinar o seu valor parte do mesmo valor do salário base: ordenado recebido x 12 meses / 52 semanas x 35 horas (ou 42 horas no TCP).

- Com a introdução da dedicação exclusiva que automaticamente elevou o ordenado base par 140%, aplicando a mesma fórmula, os valores da hora normal de trabalho passaram a ser diferentes, consoante se trabalhava em dedicação exclusiva ou sem dedicação exclusiva.
Até aqui tudo bem, e ninguém contesta que quem tem dedicação exclusiva deva ganhar mais.

- O problema surgiu quando foi necessário determinar o valor das horas extraordinárias, que se determinam em função do valor de cada hora normal, aplicando várias percentagens de acordo com a hora do dia em que cada hora se executa.

- Nas urgências e SAPs, o médico sem DE começou a olhar para o lado e a ver o seu colega com DE, a fazer o mesmo serviço de banco e a receber cerca de metade do valor da hora do seu colega.

- Começaram as movimentações sindicais, para alguns sectores consideradas oportunistas, pois tinham também sido os sindicatos a propor anteriormente a dedicação exclusiva, e as tutelas, como estavam em jogo milhões de euros, decidiram aceitar as reivindicações desde que houvesse uma moeda de troca, que implicaria mais trabalho e a recuperação das listas de espera. Os sindicatos nais uma vez responderam afirmativamente.
Só que, o Estado foi retardando esse pagamento com vários argumentos até ao actual ponto de ruptura.

Salada Longa: Negligência dos Economistas, Error #754 , Cargosito, Família, Férias, Handwriting, Fibromialgia.

Peço desculpas aos leitores que por aqui têm passado e encontraram a última mensagem datada de 31.07.2003, sem qualquer explicação.
Pensaram logo e com razão, “o gajo foi para férias, e nem uma mensagem de aviso. É igual aos outros!”. (Em Portugal, os outros, pagam sempre com tudo!)

Nada disso: foi uma sucessão de factores não previstos, a que se juntou a previsibilidade de viver, também, para a família.

Elencando as desculpas:

1) Percorri no dia 30 de Julho, as várias operadoras de telemóveis para adquirir o produto que permitiria fazer a ligação fácil e rápida, entre o portátil e a Internet. Tudo esgotado. Optimus e Vodafone (com a TMN estou incompatibilizado). Conclusão: os economistas não avaliaram correctamente a procura desses produtos. Negligência ou erro? (As SMS e os UMTS, são a prova de que os economistas e as telecomunicações móveis têm uma relação difícil.)
2) No dia 1 de Agosto, consultei de manhã alguns doentes programados e outros de última hora, e de tarde, tinha programado, partir (finalmente!) para férias com a família, após uma última ida à blogosfera, já que não teria acesso à rede durante as férias.
3) Mas, durante o almoço telefonicamente um superior hierárquico comunica-me que a nomeação para um cargosito institucional (já esperado), tinha sido assinada pelo ministro respectivo e teria que tomar posse. Assim aconteceu e perdi mais umas horas.
4) Finalmente, quando me preparava para enviar um bilhete para o blog comunicando a ida para férias sem net, surge-me aquilo que mais se detesta na Internet: ERROR, este era o # 754, e sem qualquer outra explicação.
5) Por fim, com a família a pressionar, não havia opção possível: partir para férias sem dizer adeus à esfera dos blogs e aos seus habitantes.

O que ficou por responder:

- Ao Guerra e Pas sobre o handwriting e agradecendo as suas bonitas referências na mensagem enviada: o problema da escrita à mão dos médicos, não é só… dos médicos: já alguém tentou ler uma sentença de um juiz escrita à mão? É impenetrável e são dezenas e dezenas de páginas.
Talvez, quando nós e os juízes ou outras profissões, escrevemos, inconscientemente rabiscamos para nós ou para os nossos pares.
Mas confesso que inúmeras vezes não consigo compreender muitas cartas que recebo, sucedendo o mesmo com o receituário. Mesmo as médicas que costumavam ter uma caligrafia mais redondinha, evoluíram para o inelegível. É grave. Confesso que, eu próprio, há uns anos, e passados alguns dias, já não compreendia o que eu próprio tinha escrito.
Actualmente, o receituário e as guias terapêuticas, os relatórios médicos, as cartas para os colegas, etc., tudo é impresso em computador e portanto legível e "entendível".
Segundo vários estudos publicados, a única maneira de se corrigirem alguns erros médicos é através da informatização da nossa actividade.
Só discordo com o Guerra e Pas, quando este afirma que, é um acto voluntário, o escrever mal. Não! Talvez uma deformação profissional, de propósito, não.
Em relação à bibliografia, poderá encontrar na MEDLINE (se não poder entrar, diga) todos os artigos disponíveis sobre esse e todos os assuntos médicos que entender pes-quisar.

- Ao x, da Universidade de X.: a fibromialgia, tem muito que se lhe diga! Ou melhor, qualquer doença que passa a fronteira da Medicina para a Comunicação Social, é de suspeitar que possam existir outros interesses, que não o mero filantropismo. (Obscuros? Não o posso afirmar, mas…). O mesmo se passa com os medicamentos; quando se diz mal ou bem de determinado medicamento, sem as autoridades oficiais dos países se terem pronunciado, algo poderá estar escondido.
Os doentes são o meu barómetro! Quando começam a consulta pelo diagnóstico que já fizeram em casa ao assistirem à televisão…

Duas pequenas histórias verdadeiras:
- Uma doente senta-se e começa assim a consulta: “Sr. Dr., não sei se a palavra fibromialgia lhe diz alguma coisa, mas eu sei o que é e tenho todos os sintomas!" O diagnóstico clínico de depressão, já eu o tinha feito em anteriores consultas. Fibromialgia, não tinha.
- Há meses fui convidado, com muitos outros colegas para um jantar sobre determinado assunto médico. Sem ter sido anunciado, estavam presentes os principais responsáveis desse laboratório, que dissertaram sobre a empresa e sobre os seus principais produtos. Tudo bem, tudo normal.
Eis quando, um responsável afirma que o laboratório iria promover uma campanha nacional sobre determinada doença. Como? Muito simples. Nessa campanha participaria uma associação de doentes, que seria o motor da campanha e um grupo de personalidades públicas apoiariam (?!) essa mesma campanha. Tudo quase normal até aqui. Seguidamente informa que iria passar um pequeno vídeo referente ao início da campanha. O vídeo referia-se a uma gravação de um telejornal de uma televisão onde se referia tudo o que já tinha sido referido pelos responsáveis do laboratório, só que na notícia, em vez do nome do laboratório, aparecia o nome dessa associação de doentes.
Cada um conclua como quiser e extrapole para onde quiser.

sexta-feira, agosto 01, 2003

Verdade Muito Antiga

Segundo os jornais de hoje "Tribunal arrasa contas do Hospital de Tomar"

"O Tribunal de Contas publicitou ontem um relatório da auditoria que realizou à concepção e construção do Hospital de Tomar, no qual é extremamente crítico não só dos procedimentos seguidos com os construtores, mas também da própria construção do Hospital, considerando que ele não era necessário numa região que «já era, antes, comprovadamente excedentária»."

O Hospital de Tomar, presentemente faz parte do Centro Hospitalar do Médio Tejo, composto pelos hospitais de Tomar, Abrantes e Torres Novas.

Foi a maneira airosa de se descalçar uma bota que foi imposta pelos vários e sucessivos "poderes" autárquicos. Três hospitais de grandes dimensões num raio de 30-40 quilómetros.

Presentemente cada hospital, só tem algumas valências.

Honra seja feita ao actual presidente da Câmara de Tomar, que há uns anos defendeu publicamente que as parturientes tomarenses, poderiam e deveriam ter os seus filhos no vizinho Hospital de Abrantes, pois o de Tomar ficaria com algumas outras valências, mas sem obstetricia.

(Nota: publicado na esfera apenas em 08/08/2003 por dificuldades técnicas)

quinta-feira, julho 31, 2003

O Menino Autista e o Preto Arranca-Corações

A SicNotícias transformada em TVI.
Com um intervalo de uma hora, o noticiário da SicNotícias, desenvolve duas notícias dignas das televisões mais generalistas para o nosso povão:
"um menino coitadinho que parece que era autista adoptado por um bombeiro do Algarve com a mãe a chorar e a ler uma carta que fez às autoridades por causa do menino adoptado que ninguém o queria e depois da primeira notícia da Sic um lar de Viseu prontificou-se a recebê-lo por três meses e a mãe e a Sic no mesmo carro foram a Viseu mas o lar quando viu a criança decidiu que afinal já não queria o menino autista adoptado por um bombeiro que não podia ter filhos e afinal fica tudo na mesma pois não há uma misericórdia ou um lar que acolha o menino adoptado filhio de um bombeiro e que parece que é um autista violento". (Sem pontuação para ser lida de um só fôlego).

Uma hora depois, a cassete do menino ficou em espera até que outro lar entretanto se ofereça e,

"eis que aparece um preto (bem preto) na Libéria a dizer ao reporter inglês que ia arrancar e comer o coração do inimigo que jazia a seu lado, para ficar mais forte". Enquanto se publicitava a reportagem (refeição?) completa para o pós noticiário.
Se a moda pega, teremos os quatro canais a comerem os corações uns dos outros, canibalescamente, enquanto o menino que parece que tem autismo não arranja um Lar.

E depois queixam-se que se consomem demasiadas benzodiazepinas em Portugal!

Queriam falar de autismo, muito bem, levavam os especialistas respectivos e ficavamos todos esclarecidos. Queriam falar da rede de apoio social, muito bem, levavam o dr Bagão Félix, o padre Vítor Melícias, a Nogueira Pinto, a Maria Barroso, a Marisa Cruz, o João Baião, todos teriam muito a dizer sobre o que não há.
Queriam falar da Libéria, muito bem, convidavam o Presidente Bush ou o Presidente Putin, para falar sobre a venda de armas e os seu lucros, todos ficaríamos muito esclarecidos.

Sem Espectáculos na TV, Só Com o E-112

Boas notícias, sérias e bem desenvolvidas e explicadas também se encontram nos nossos jornais, como esta publicada no JN de 30 de Julho: "Parece um luxo, mas é um direito, que dispensa peditórios a favor de viagens ao estrangeiro para doentes sem tratamento nos hospitais portugueses. Basta accionar o "modelo E-112", que vigora na União Europeia, com passaporte também para países terceiros. Foi o que fez o Hospital Central de S. Marcos, em Braga. Nada a que já não esteja habituado."

Segundo o JN, "Um procedimento a que não escapou o caso do Nuno, de quatro anos", só que deste ninguem vai falar (nem da mãe).
Ainda se lembram do folclore, das reportagens, das entrevistas, do caso do Dário. Mas o Dário tinha um tumor cerebral. Um tumor! Um tumor e ainda para mais no cérebro! Nada que se compare à doençasita do Nuno: só excesso de sangue na medula.
O caso do Dário era comum em Portugal e os nossos neurocirurgiões com experiência nestes casos.

Mas, "Hoje, às seis da madrugada, a expensas da unidade hospitalar bracarense, o pequeno Nuno, parte para Paris, onde o espera o único neuro-radiologista com experiência na técnica de estancar a irrigação sanguínea em excesso na medula.".
A notícia não refere se estavam câmaras de TV a acompanhar a sua partida e da mãe. Mas parece que não.

quarta-feira, julho 30, 2003

Estou Exausto II

Já devia estar a dormir!

Terça-feira é o meu dia fixo na semana, de "plantão, banco, urgências".
Hoje não fugiu à regra habitual.
Muitos "doentes" que se julgam doentes e não o são (somaticamente falando), mas que necessitam de especial atenção, e alguns utentes, que não se julgam doentes e estão doentes, sendo necessário convencê-los de que aquela hematúria franca, mas indolor, pode ser o sinal de que algo não está bem.

As "urgências" não são só aquelas correrias e atropelos de que os media tanto gostam. Também têm trabalho anónimo, de sapa*. Mas os papéis podem inverter-se no dia seguinte.
O dia foi estenuante.
Bloguei e postei até às 3,5 horas. Às 5.30 sou acordado telefonicamente por causa de um paciente que tinha falecido. A morte é sempre morte! Era uma morte quase anunciada, dois dias antes, após 84 anos de vida. Tentei elucidar os familiares sobre o que fazer, se ocorresse durante a noite. Mesmo assim telefonam-me a comunicar o acontecimento e a perguntar o que fazer. Morte é sempre morte. É uma ruptura na vida dos que ficam. Por isso compreendi o telefonema. Às 7 horas, telefona-me a agência funerária (este considerei um abuso!). Às nove já estava a tratar dos vivos.
Vou descansar.
P.S.: Meti-me onde não devia!
O meu tempo disponível, quase só chega para uns bilhetes diários. Para blogar não chega. Sei que têm feito referência ao meu blog, o que agradeço.
*sapa | s. f.
sapa
do Lat. *sappa, enxada
s. f.,
pá com que se ergue a terra escavada;
abertura de fossos, trincheiras e galerias subterrâneas.
de sapo
s. f.,
fêmea do sapo;
prov.,
mulher atarracada;
testo ou tampa de panela, etc..
trabalho de —: trabalho lento mas persistente e ardiloso para não transparecer.


terça-feira, julho 29, 2003

Assédios … (parte III/III)

… dos médicos, dos genéricos, dos laboratórios …

Termino o desafio da Sara (jornalista do desBlogueador de conversa) com os laboratórios e o consequente assédio, palavra mágica que faz aumentar a audiência de qualquer órgão da comunicação social, e transforma os próprios jornalistas, em notícia.

Alguém duvida que nesta esfera de blogues, o Abrupto, o Aviz, ou outros, não são assediados para colocarem lá uns linkesinhos (aproveito para agradecer ao Abrupto a referência e ao Aviz a minha colocação naquela sua coluna especial), ou alguém acredita que Marcelo Rebelo de Sousa nunca foi assediado para colocar uns livrinhos no seu link directo para as livrarias? E os jornalistas nunca foram assediados para pôr ou tirar linkesinhos para a sociedade em geral?
E se todos os exemplos que dei, colocarem esses linkesinhos, é sinal de alguma coisa? Acho que não. Serão opções.

Uma notícia do Público da semana passada, (com o título deste bilhete) transcreve o teor de uma conferência de imprensa dos sindicatos representativos dos delegados de informação médica denunciando os seus sindicalizados sobre o assédio aos médicos e a entrega de numerário e outras coisas.

Então se o sindicato sabe, porque motivo não vai directamente ao Procurador Geral da Republica?
E o Público se publicou a notícia, porque não investiga e descobre os prevaricadores de ambos os lados?
Mas nestes sindicatos há poucos dos actuais delegados, pois estes, são quase todos licenciados, ambiciosos, e considerando-se de passagem na profissão e não muito interessados em situações que lhes tolham o futuro.

Sobre este assédio, não resisto a contar uma história: quando eu era pequenino, acabado de nascer para a vida (por alturas da Filarmónica Fraude!) fui acompanhar minha mãe ao seu médico assistente e lembro-me de uma personagem ter entrado no consultório com um malote para oferecer à senhora doutora. Já lá vão quarenta anos! E pelos vistos, já havia assédio pelos laboratórios aos médicos.
O que se passará agora, com centenas de laboratórios, cotados na bolsa e que querem ver os seus produtos em constante movimento? É fácil de adivinhar... isto é, assédio, prendas, jantares, congressos, existem e sempre existirão, nesta (e em todas as profissões). Só têm que cumprir a Lei.

O que não pode existir e para isso a Inspeção Geral de Saúde tem que actuar (e tem actuado), é má prática clínica, é prescrição não adequada aos fins a que se destina.
Isso será grave e penalizador.
Se a notícia do Público for verdadeira (verdadeira foi a conferência de imprensa), os sindicatos deveriam denunciar de imediato à IGS para punição exemplar dos envolvidos, médicos incluídos.

Porquê Meu Deus, Porquê?

Uma notícia do JN de hoje titula com negligência a descrição de um erro médico (em Espanha).

Mas será que os jornalistas ainda não aprenderam a distinção entre erro e negligência? Ou serão os títulos da responsabilidade da redação e esta sabe que negligência vende mais que erro?

O título: "Negligência - Clínicos ignoraram tumor maligno"

O corpo: "...foi feita à paciente uma mamografia, no ambulatório Vicente Soldevilla (Madrid), cuja interpretação indicava não haver alterações relativamente a um exame de 1996."

A conclusão: "... (dojuiz) se a mamografia tivesse sido correctamente interpretada..."

Senhores jornalistas, será necessário mais explicações?
Vou-vos contar, como me ensinaram na cadeira de Medicina Legal, quando ainda era estudante, para ver se com um explicação simples, não voltam enganar-se:
- Doente com dores de barriga:
1) o médico palpa o abdómen e diz: é apendicite! (as análises confirmam, é operado e ao fim de dias está em casa) - boa prática médica.

2) o médico palpao abdómen e diz: é gastroenterite! (as análises confirmam apendicite, é operado tarde de mais e falece) - erro médico.

3) o médico não palpa o abdómen e diz: é gastroenterite! (as análises confirmam apendicite, é operado tarde de mais e falece) - negligência.

Quanto ao resto, estou de acordo. Todo o erro médico tem que ser reparado (e bem!) e todos os erros médicos têm que ser monitorizados para que se não repitam.
Vários artigos têm sido publicados e investigação se tem feito, tendo como objectivo a sua diminuição: uma das conclusões (entre outras) era a informatização da impressão do receituário médico, que como se sabe, em Portugal é uma prática correntíssima...

segunda-feira, julho 28, 2003

Exaustão Pelo Trabalho

Estou exausto!
Um turno de 12 horas, 35 fichas clínicas assinadas que correspondem a 35 observações clínicas executadas, 35 diagnósticos definitivos ou provisórios efectuados, 35 terapêuticas propostas.
Observei, diagnostiquei e mediquei, mas principalmente ouvi aquilo que muitos queriam que eu ouvisse e respondi a muitos, aquilo que eles queriam ouvir.
Ficamos todos satisfeitos.
Erros, não houve.
Negilgência, também não, mas, generalizando o dito de João Lobo Antunes em artigo assinado no Expresso de 19 de Julho de 2003, "... em cirurgia a visão retrógrada é sempre 20/20 ou seja 100% precisa, ..." à medicina em geral, confesso que, como a a visão retrógrada, pode sempre descobrir erros, não posso afirmar que não tenham existido.
Mas como revemos constantemente a nossa actuação e muitas vezes quase como um gesto reflexo à procura de uma qualquer correção que possa ser feita, presumo que não os cometi....

Hoje não fiz mais nada para além disto.

sábado, julho 26, 2003

… acabei de matar a minha mãe!

… dos médicos, dos genéricos e dos laboratórios … (parte II/III)

Sara (posso divulgar o seu nome que é público no seu blog):
Continuando o desafio proposto num comentário no seu blog a um bilhete meu, agora sobre os genéricos e a troca nas farmácias, conto-lhe uma história, fresquinha, que se passou comigo, há poucas horas. E fico por aqui!


Batem à porta com dureza. Alguém aflito, penso eu. (Como sempre penso quando me parece que batem com mais força).

“- Oh M Exp (sou eu), acabei de matar a minha mãe!"
Reconheci a voz de um meu grande amigo e ainda pelo intercomunicador digo:
"- Oh Zé tem calma e conta lá o que aconteceu.”

Já frente a frente, conta-me a história:
- “Fiz como me mandaste, levei a minha mãe ao banco do hospital com a carta que fizeste. Por sorte, foi a mesma médica que a seguiu no internamento. Fez uma radiografia ao tórax e um hemograma e disse-me que estava tudo a caminhar bem, a pneumonia já quase que não se notava e a febre que tinha ressurgido, poderia desaparecer. Mesmo assim disse-me que era melhor fazer mais uma embalagem do medicamento que tinha prescrito há oito dias. Fui à farmácia, aviei a receita e como não estava a tomar nenhuma caixa igual, comecei a dar-lhe. Hoje, de manhã é que comecei a ver melhor as caixas e vi que eram dois medicamentos iguais. Estive a duplicar a dose durante três dias e não sabia. Acho que lhe provoquei uma intoxicação fatal.”

O Zé sabe que a mãe tem uma insuficiência renal crónica por doença sistémica e que faz hemodiálise, é idosa e que qualquer alteração à terapêutica lhe poderá ser fatal.
Descansei o Zé. Poderia ser, mas neste caso não seria fatal, embora lhe pudesse ter causado algum incómodo gastrointestinal, como de facto aconteceu, com diarreia.

O Zé é intelectual, anónimo, professor e amante de teatro. Um homem bom. Adora a sua mãe, que esteve internada com uma pneumonia. Na alta foi-lhe prescrito CLAVAMOX DT. Foi a uma farmácia, onde o farmacêutico (ou o balconista) lhe trocou o medicamento CLAVAMOX DT pelo medicamento AMOXICILINA 875 + ÁCIDO CLAVULÂNICO 125 MG RATIOPHARMA e o Zé nem se lembra se assinou ou não a receita.
Na consulta de urgência, a médica foi a mesma, a prescrição foi a mesma, CLAVAMOX DT, o doente era o mesmo, mas o Zé foi a outra farmácia, onde lhe não fizeram a troca. Ficou em seu poder com duas caixas de cores diferentes, com nomes diferentes (um grande e um pequeno) e concluiu: são remédios diferentes, portanto vou dar um de cada, obedecendo às prescrições. E o Zé, é intelectual, professor e amante de teatro.
Que será dos outros Zés…

Em conclusão:
Genéricos sim (se se cumprirem todas as boas práticas farmacêuticas, da produção à disponibilização ao utente) e de preferência vendidos sem marcas, cores e em unidose;
trocas na farmácia não.
Para que não haja mais Zés ansiosos e depressivos com medo de terem morto a mãe, não concordo com a substituição!

dos médicos, dos genéricos e dos laboratórios … (parte I/III)

S. do desBlogueador de conversa solicita-me que fale dos médicos, dos genéricos e dos laboratórios.

Não me importo de falar. Eis-me a falar:

“…dos médicos, dos genéricos, dos laboratórios…” citado de mim próprio. Pronto. Já falei. Feita a vontade da S. que, segundo diz, é jornalista.

Mas, aquilo que a S. quer ouvir, não é para mim, notícia. E aquilo que a S. não quer ouvir, para mim é notícia.

Dos médicos: há-os bons, mas há os maus. Há-os prudentes e há os negligentes. Há-os interessados pelos doentes e há os que se interessam pelo dinheiro. Há-os trabalhadores e há os preguiçosos. Há-os simpáticos e há os sisudos. Há-os a procurar o anonimato e há os que buscam a fama. Há-os a sair dos consultórios depois do último doente e há os que nem sequer lá vão. Há-os honestos e há os casos de polícia.

E pergunto eu: a comunicação social, quando procura um, que critérios usa?

E respondo eu: o famoso, com todas as combinações que se possam fazer com os bold e os itálicos do parágrafo anterior, e o caso de polícia, com as mesmas combinações.

É do que o público gosta!

Não tenha dúvida, S.: o famoso, pode ser o menos honesto e o mais simpático. O sisudo, pode ser bom, anónimo e a sair do consultório depois do último doente. O bom pode ser desonesto.

Quem melhor conhece o nosso meio, somos nós, os médicos. E conhecemo-nos à distância de um olhar.

Mas, para seu descanso, transmito-lhe esta verdade: a grande maioria dos médicos são bons, prudentes, interessados pelos doentes, trabalhadores, simpáticos, anónimos, consultam todos os doentes e mais alguns e honestos.

Aliás, o mesmo se passa com todas as profissões, quer as que se passeiam pelos blogues: jornalistas, escritores, artistas, políticos, professores, etc, quer, as que nem sabem o que é um blog...

Dos genéricos, siga para a parte II.

Ler Jornais Confunde-nos .....

No mesmo jornal (o JN) de 25/07:

"No centro de saúde da cidade – do qual dependem as extensões de Afife, Carreço, Lanheses, Meadela e Santa Marta de Portuzelo – estão inscritos 43102 utentes. Destes, 4979 não têm médico de família. Em Darque, o número de utentes inscritos ronda os 28 mil, sendo que 374 (1,3% do total) também não possui médico de família. Dos três centros de saúde do concelho, o de Barroselas apresenta a taxa de incidência mais baixa, com 153 utentes (de um total de cerca de 10 mil) sem médico de família."(1,53% feitas as contas e portanto mais alta que em Darque!)
Depois acrescenta-se: "observando que o número de utentes sem médico de família reúne pessoas "sem médico por opção própria"."
Em que ficamos?
Sem médico porque não há médicos ou sem médico porque não há doentes?

Mais à fente: "Em Monção, o governante inaugura a extensão de saúde de Tangil."

Ainda mais à fente: "o fecho da extensão de saúde da Oliveira".

Fecho hoje, inauguro amanhã, depois protesto porque não há médico para a extensão que inaugurei, depois tenho médico, mas opto por não o ter.

GOLPE

"O encerramento da extensão de Oliveira (que servirá centenas, quiçá milhares de utentes, digo eu) é mais um golpe no Sistema Nacional de Saúde." Afirma um responsável da CDU, aproveitando os seus 15 minutos de fama.

Os milhões de utentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS) que por sua vez integra o Sistema Nacional de Saúde, estremeceram ...

Pois digo: a única planificação que há para a construção de extensões de saúde é ... a vontade do prrrreeessidentte da juuunttta! Por isso, neste últimos 20-30 anos construiram-se muitas que já deveriam ter sido encerradas por falta de condições.

Pst! Pst! Pst!

Que credibilidade têm estas afirmações?
Fazem parte de uma notícia publicada no Jornal de Notícias de 25/07:
"A minha filha precisou de ir ao médico e esteve três meses à espera que a chamassem. Estávamos inscritos num médico de família que deixou de trabalhar aqui (no centro de saúde de Viana do Castelo). Eu também tive um problema e socorri-me de um médico privado. Ainda continuamos sem médico de família", lamentou Engrácia Exposto, residente em Meadela, Viana"

A D. Engrácia Exposto, teve um problema e socorreu-se de um médico privado. Não percebi se a D. Engrácia é a mãe da filha que aguardou três meses que o médico de família a chamasse. Se é verdade, Viana do Castelo está muito mal servida de mães, segundo o relato do JN. A mãe vai ao privado, a filha espera! Ou afinal a filha não estava doente e apenas precisava de uma declaraçãosinha para ser entregue numa qualquer instituição afirmando que se encontrava apta para uma qualquer acção ou actividade, ou que não padecia de uma qualquer doença.

Esta é mais uma faceta, a burocrática (desconhecida de muitos intelectuais!), dos nossos hospitais e centros de saúde, mas com uma agravante: quando os hospitais estão cheios, como não podem fazer listas de espera de declarações, transferem essa tarefa de escriturário, para o dia seguinte nos centros de saúde e para os seus médicos de família.
Só que os centros de saúde não têm para onde evacuar. No futuro talvez para as medicinas ditas alternativas agora regulamentadas... será uma actividade que não fará perigar a vida de ninguém!

Mas, francamente, será que esta notícia tem alguma relevância para a saúde em Portugal?

sexta-feira, julho 25, 2003

Explicar vs Ensinar

T diz-me:
"Achei graça ao nome do blogue....nada mais irónico do que se explicar coisas
a intelectuais. Então eles não sabem tudo? Risos.
Também estou a brincar, porque um intelectual, para mim ,é aquela pessoa que sabe que lhe falta muito coisa para saber e que por isso mesmo, gosta de aprender.
"

Não quero ensinar! Quero explicar!

Embora reconheça que vivemos num mundo onde o conhecimento evolui a uma velocidade impensável há meia dúzia de anos, não tenho pretensões a ensinar. Mas a explicar aquilo que já se aprendeu.
E só aprende quem quer.

E particularmente para nós, médicos, o que hoje é uma verdade mais que provada e documentada, amanhã poderá ser posta em causa e no dia seguinte já ser considerada má prática clínica. Por isso não tenho preconceitos em ser ensinado, mesmo nas matérias que vou dominando. Agora quanto aos intelectuais (mais ligados às Letras!) por vezes assumem certas verdades científicas ou enviesadas ou ultrapassadas, que, ao transmiti-las para várias atmosferas fomentam inconscientemente a ignorância.

O caso da SARS é um exemplo. Em pouco tempo, utilizando vários laboratórios a nível mundial e trabalhando em simultâneo e coordenados, obedecendo a um objectivo pré-definido e comum, conseguiu-se determinar a etiologia, a epidemiologia, as medidas preventivas, a terapêutica e por fim o seu controle e quase irradicação de uma nova doença infecciosa.

Junk E-Mail

Caro RR, faça como eu a esse tipo de mensagens:

DELETE

Citação com a Devida Vénia

Transcrevo do blog Abrupto, sem comentários:

"“And Now For Something Completely Different”, (grita o Hipatia, pela voz dos Monthy Python, metendo um susto aos desprevenidos) …

… a blogosfera está a começar a assentar depois das turbulências dos últimos dois meses. Está muito diferente, muito melhor, muito mais plural, com muitas vozes falando de coisas distintas, com blogues novos com temas novos. Está menos literária, sem deixar de estar literária, mais problemática, menos afirmativa e mais curiosa e, até, mais engraçada porque menos engraçadinha.

Blogues como a formiga de langton , o Sócio[B]logue, Companhia de Moçambique , o projecto do Metablogue, o Retórica e Persuasão, Reflexos de Azul Eléctrico, Avatares de Desejo, Médico Explica Medicina a Intelectuais e vários outros, fizeram a diferença. Para sermos justos vieram na sequência dos bons blogue políticos à volta da dupla Coluna Infame – Blog de Esquerda e dos excelentes blogues sobre jornalismo que foram pioneiros como o Ponto Media e o Jornalismo e Comunicação
"