segunda-feira, abril 12, 2004

"Quero Matar O Médico!"

"Quero Matar O Médico!", foi assim que se apresentou um doente numa consulta de urgência alguns dias atrás.
A enfermeira, solícita e branca como a cal, bate à porta e diz com voz trémula:
- "Sr dr, está ali um doente que diz que o quer matar!"
- "Quer-me matar?"
- "Sim, até já mostrou a arma!"
- "Está agitado ou calmo?"
- "Aparentemente está calmo."
- "Então mantenha você a calma, telefone para a PSP, leve-o para a sua sala e vá-o observando"
Minutos depois, chega a sua vez da consulta e entra pacatamente para o consultório.
Senta-se, tira a arma e coloca-a em cima da mesa, começando a discorrer com um discurso desconexo e irrealista. Percebia-se logo que se tratava de um doente psiquiátrico descompensado.

Quase logo de seguida, bate novamente à porta a enfermeira e diz:
- "Sr dr estão aqui dois senhores da propaganda médica que lhe desejam falar."
- "Está bem." Respondi. Acrescentando em direcção ao doente:
- "Se o senhor deixar?"
- "Eu deixo. Podem entrar."

Segundos depois, já o doente estava desarmado. Tratava-se de dois agentes da PSP à paisana e que depois de o imobilizarem, constataram que se tratava de uma pistola de alarme, inócua.

É lógico que isto não chegou para ser notícia nos media. Se o médico morresse, talvez fosse notícia da primeira página, com esta legenda:

"Mais Um Caso de Negligência Médica: Doente Psiquiátrico Mal Tratado, Abate Médico."

Nota: história rigorosamente verdadeira.

Uma Opinião Sensata No Meio De Tantos Lagos de Água

No Diário de Notícias de 09 de Abril de 2004, algumas afirmações sensatas de um médico, Luciano Ormonde, presidente da Sociedade Portuguesa de Anestesiologia.


"não é possível em tão pouco tempo arranjar uma causa para explicar as mortes ocorridas em Lagos e que tudo tem de ser investigado, em vez de haver tentativas para arranjar rapidamente um culpado. Vivemos um período na saúde em que os genéricos são usados como balas políticas. Além disso, não se pode dizer que um produto é mau, quando foi aprovado pelo Infarmed e não há provas contundentes que levem a que seja retirado do mercado», acrescenta.

O médico de Santa Maria sublinha ainda que a anestesia «não é inócua para os pacientes e comporta riscos». São factos «escritos e reportados a nível mundial» e que dependem de diversos factores. O propofol, «tal como todos os medicamentos usados na anestesia, tem riscos». E diz ainda que os oito genéricos introduzidos recentemente com esta substância não são mais nem menos perigosos. «Há médicos que têm referido que apresentam características diferentes quanto à durabilidade das doses, mas são apenas impressões que não têm valor de prova».

sábado, abril 10, 2004

Pomada de Cu de Bebés

O final de uma consulta é sempre uma verdadeira caixinha de surpresas.
É quando se fazem os vários pedidos, que muitas vezes são o real motivo da consulta.

Já me tinha despedido da doente, jovem dos subúrbios da capital, quando ouço este pedido:

-"Senhor doutor, podia-me passar uma receita com a pomada de cu de bebés".

Sei que se referia ao eritema das fraldas, agora a que pomada se referiria, não sei. Antifúngica? Creme gordo? Cicatrizante? Emuliente? Óleo de amêndoas doces?

Ela sabia que era para o cú dos bebés....

sexta-feira, abril 09, 2004

Alerta (Antigo) do Infarmed Sobre O Propofol...

Alerta de Segurança

Propofol-Lipuro 1%® (propofol):
rabdomiólise, acidose metabólica, insuficiência cardíaca

O Propofol-Lipuro 1%® (propofol) é um anestésico geral intravenoso de curta duração indicado na:
- indução e manutenção de anestesia geral;
- sedação de doentes ventilados nas unidades de cuidado intensivos;
- sedação para diagnóstico e procedimentos cirúrgicos, usado isoladamente ou em combinação com anestesia local ou regional.

O Grupo Europeu de Farmacovigilância, do Comité de Especialidades Farmacêuticas da Agência Europeia de Avaliação de Medicamentos, tem vindo a avaliar a ocorrência de rabdomiólise, acidose metabólica, insuficiência cardíaca e outros efeitos indesejáveis, bem como a posologia e a utilização em crianças para os medicamentos contendo propofol, tendo concluído ser necessário actualizar a informação de segurança para estes medicamentos.

Embora não tenha sido estabelecida uma relação causal entre os efeitos indesejáveis graves na sedação (basal) em doentes com idade inferior a 16 anos (incluindo casos fatais) a sua ocorrência tem vindo a ser notificada no decurso do emprego do fármaco fora das indicações aprovadas. Estes efeitos consistem na ocorrência de acidose metabólica, hiperlipidémia, rabdomiólise e/ou insuficiência cardíaca. Estes efeitos foram mais frequentemente observados em crianças com infecções do tracto respiratório, a quem foram administradas doses que excediam as doses recomendadas para os adultos internados em Unidades de Cuidados Intensivos.

Também foram notificados casos similares, muito raros, de ocorrência de acidose metabólica, rabdomiólise, hipercaliémia e/ou insuficiência cardíaca de progressão rápida, (fatal em alguns casos), em adultos tratados durante mais de 58 horas com doses superiores a 5 mg/kg/h.
Estas doses excederam a dose máxima aconselhada de 4 mg/kg/h normalmente indicada para a sedação do doente internado numa Unidade de Cuidados Intensivos. Nestes casos a insuficiência cardíaca, geralmente, não respondeu ao tratamento de suporte com fármacos inotrópicos.

Na sequência desta informação o titular de A.I.M., B.Braun Medical, submeteu uma Medida Urgente de Segurança, por forma a actualizar a informação no Resumo das Características do Medicamento com um carácter de urgência e divulgar aos profissionais de saúde envolvidos uma carta sobre este assunto.

Neste contexto, o INFARMED deseja chamar a atenção dos profissionais de saúde, para os seguintes aspectos:

Não deverá ser excedida a dose máxima recomendada de 4 mg/kg/h de propofol, dose normalmente suficiente para assegurar a sedação de doentes ventilados mecanicamente quando internados numa Unidade de Cuidados Intensivos (duração do tratamento que exceda um dia).
Existe a possibilidade de surgirem os efeitos indesejáveis anteriormente referidos (acidose metabólica, hiperlipidémia, rabdomiólise e/ou insuficiência cardíaca), pelo que se recomenda, logo que surjam os primeiros sinais, a diminuição da dose administrada, ou a alteração para um outro fármaco com acção sedativa.
Propofol está contra-indicado em doentes com idade igual ou inferior a 16 anos, na sedação em Unidades de Cuidados Intensivos.

Qualquer esclarecimento adicional poderá ser solicitado através dos contactos:

Centro de Informação de Medicamentos e Produtos de Saúde:
Telef.: 21 7987373
e-mail: cimi@infarmed.pt

Direcção Operacional de Farmacovigilância e Segurança de Medicamentos e Produtos de Saúde:
Telef.: 21 7987140
e-mail: infarmed.cnf@infarmed.pt

INFARMED, 20 de Fevereiro de 2003.

A Direcção Operacional de Farmacovigilância e Segurança de Medicamentos e Produtos de Saúde.

(Negrito do médico explica medicina)

Onde É Que Eu Estava no 25 de Abril? Com o Rouvière.

Estudava Anatomia, num quarto alugado em Lisboa, na rua onde se localiza o Colégio Moderno e reside o dr Mário Soares. Estava no 2º ano da faculdade e preparava o exame de Anatomia Descritiva ainda do primeiro. Horas e horas debruçado sobre o grande tratado em quatro volumes: Anatomie Humaine, de Rouvière, analisando minuciosamente as suas gravuras com os ossos e todas as suas características (não havia dinheiro para comprar esqueletos ou atlas mais pormenorizados) e decorando as suas legendas e textos em francês.

Depois de horas e horas de estudo, já noite, relaxei-me a ouvir o programa Limite enquanto lia o livro O Julgamento dos Padres de Macuti que tinha comprado dias antes na Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa (era um livro proibido). Ouvi as senhas e ouvi a primeira mensagem. Aqui posto de comando das Forças Armadas, ensonado, voltei a adormecer. Acordei novamente, já o movimento se desenrolava, os Padres do Macuti no chão, o Rouvière continuava à minha espera, ouço novamente as notícias: o fascismo caía. Na rádio continuava a ouvir-se o Posto de Comando e a pedia-se à população para permanecer em casa.

Neste dia, 25 de Abril, tomei talvez a única decisão de que me arrependo em toda a minha vida: obedeci àquela voz da rádio e fiquei em casa.

Não estudei Anatomia, não li os padres de Macuti, não festejei o primeiro 25 de Abril como depois vi festejar pela TV, não mandei SMS, nem e-mails a ninguém, não telefonei aos amigos (não havia telemóveis e o telefone da casa, fechado a cadeado, só recebia chamadas), restou-me então, seguir a Revolução pela televisão, a anos-luz da CNN.

Como tudo seria diferente se se repetisse o 25 de Abril hoje…

quinta-feira, abril 08, 2004

Está À Minha Frente E Diz:

"Fiz análises a tudo, a tudo mesmo, mesmo a tudo e estava tudo bem."

"Tenho uma comichão pelo corpo todo. Já fui a dois médicos e disseram-me que era dos nervos! Mas eu sei que não!"

Uma pausa.

"Sabe eu ando muito stressada. Tenho muitos problemas na minha vida."

Sorri. Mediquei-a e não pude fazer mais nada.

Apenas me lembrei de uma reportagem recente no Correio da Manhã, sobre a primeira das mortes de Lagos, onde um elemento do povo, fotografado com um barrete na cabeça, idade marota, afirmava peremptoriamente e com convicção de quem percebe de tudo:

"Eu vi logo que foi um grande erro!"

O Caso de Lagos: E Se O Anestésico Genérico É mesmo o Responsável?

O erro médico em geral não é sistemático, embora possa acontecer e haja casos na literatura.

Repito: E se a origem do problema está no medicamento usado?

terça-feira, abril 06, 2004

Body Piercing - Já Foi Algum Piercingador Julgado E Condenado?

Como podia? Se até as (os) jornalistas usam piercings! (E médicos também!)

Hoje contou-me um colega que trabalhou numa unidade de emergência movimentada, com uma jovem enfermeira, de bata aberta, umbigo maroto a espreitar e a sorrir e um belo piercing apelativo.
Como pode um médico trabalhar assim?


"Antibiotic prophylaxis, and infective endocarditis


Infective endocarditis (IE) is associated with a high degree of morbidity and mortality and generally presents in patients with altered and abnormal heart architecture combined with exposure to bacteria through trauma and other potentially high-risk activities, including body piercing.

Modern social behaviour has resulted in increased popularity of the practice of body piercing, particularly amongst the adolescent population and there has been a marked rise of cases of IE directly attributable to this practice.

In this article we wish to examine the aetiology of such cases reported in the literature, with particular emphasis on causal organism, as well as to discuss the role of antibiotic prophylaxis and awareness in such at-risk patients within the primary care community."


in Journal of Antimicrobial Chemotherapy, Advance Access published December 19, 2003.

"Morte de doentes no Hospital de Lagos leva a processos disciplinares"

Distribuida pela Lusa, esta notícia é muito grave.

Erro ou negligência, repetidas em 48 horas pelo mesmo médico, levanta muitas dúvidas sobre a vigilância que uma instituição deve exercer sobre os seus membros.

Ressalvo: a confirmarem-se as conclusões preliminares da IGS.

"O Ministério da Saúde instaurou hoje processos disciplinares ao director clínico do hospital distrital de Lagos e a uma médica anestesista, na sequência da morte de dois doentes no bloco operatório daquele estabelecimento.

Segundo um relatório da Inspecção-Geral de Saúde (IGS), foram apurados "elementos que podem pôr em causa a actuação da médica responsável pelos actos anestésicos praticados" nos doentes que vieram a falecer, "bem como a própria actuação do director clínico do hospital".

Uma mulher de 44 anos e um homem de 35 morreram a 29 de Março e 02 de Abril de paragens cardio-respiratórias no bloco operatório do hospital de Lagos, onde se encontravam para realizarem operações simples.

O documento salienta que as ocorrências têm "em comum o facto de serem pequenas/médias cirurgias, previamente programadas, tendo como interveniente directa a mesma médica anestesista".

Segundo a IGS, os indícios recolhidos apontam "para a exclusão de dúvidas sobre a funcionalidade do bloco operatório do Hospital de Lagos" e classificou como correcta a decisão do ministro da Saúde de encerrar o bloco operatório do hospital, a partir do dia 30 de Março, "como medida cautelar"
."

Como médico, considero a minha profissão de risco permanente.

Hoje, durante o meu dia de trabalho, fui vítima de várias negligências de várias profissões: desde uma empresa de informática, até ao almeida da minha rua que me riscou a viatura.
Todas me provocaram mau humor.
Só.
Não morreu ninguém

segunda-feira, abril 05, 2004

Senhor Doutor Quero Fazer Um Check-up A Tudo, Com Análises Gerais E Um Taco Ao Corpo Todo

Publicou o Expresso um dossiê sobre Medicina Familiar, com vários artigos interessantes sobre as especificidades desta especialidade, descritas na óptica dos seus intervenientes, pois todos os artigos são assinados por diversos médicos de família.

De todos, o que me despertou mais atenção foi o do médico Carlos Martins, sobre as actividades preventivas.
São desmistificados alguns conceitos e apresentada uma tabela genérica sobre as actividades preventivas relevantes e baseadas na evidência. Não foram publicadas referências sobre as afirmações produzidas, mas num artigo para um público generalista talvez fosse desnecessário.

Tratando-se de um dossiê, presume-se que foi elaborado a pedido e pago pela APMCG.

ISTO É QUE ME PREOCUPA.

Para se dizerem verdades, politicamente correctas e por vezes impopulares, particularmente para os intelectuais que não as compreendem, contrariando muitas vezes páginas e páginas de publicidade encapotada, é necessário pagar.

Para se afirmar que não são necessários rastreios de base populacional para o cancro da próstata é necessário pagar, caso contrário, teríamos a ira dos urologistas.

Para se afimar que bastam alguns simples procedimentos (medir a pressão arterial, determinar a glicémia e o colesterol, pesar e fazer uma simples pergunta) para se saber se há ou não risco cardiovascular, tem que se pagar, caso contrário todos os cardiologistas se levantariam contra a comunicação social, especialmente os que têm consultório particular.

Outras afirmações se poderiam fazer e outras iras se levantariam, particularmente de quem "com o medo do cancro" lucraria.

Algumas frases para ler e reler:

"Seria óptimo se traduzisse uma vontade real das pessoas mudarem os seus hábitos para estilos de vida mais saudáveis e de romperem com costumes e rotinas que implicam um risco elevado para a saúde. Contudo, aquilo que se constata na prática é precisamente o contrário…"

"... pretendem frequentemente efectuar uma bateria de análises e exames de diagnóstico para poderem continuar a cometer os seus erros alimentares, a consumir bebidas alcoólicas em excesso e o seu tabaco, entre outros".

"...desconhecem que a medicina actual, não obstante o facto de toda a evolução das últimas décadas, não dispõe de um conjunto de exames que possam dar ao cidadão uma garantia semelhante à dos electrodomésticos: “após estes exames, o senhor terá uma garantia de vida saudável por dois anos.” "

"Quando um fumador se dirige ao seu médico e lhe pede uma radiografia pulmonar para ver como estão os seus pulmões, pode ver essa sua pretensão justamente recusada. E porquê? Porque os vários estudos de investigação que foram efectuados para esclarecer se se deve usar a radiografia pulmonar como método de rastreio do cancro do pulmão não demonstraram que os benefícios superem os prejuízos. E cada vez que alguém se submete a uma radiografia está a submeter-se a uma dose substancial de radiações que, por sua vez, também têm efeitos cancerígenos."

"Um outro exemplo é a mamografia quando utilizada para rastreio do cancro da mama na mulher sem queixas, sem antecedentes pessoais ou sem antecedentes desta doença na sua família. ... uso deste exame só se revela eficaz ou seja, só diminui a mortalidade provocada por aquela doença quando usado de dois em dois anos nas mulheres com mais de 50 anos. Nas mulheres com idades entre os 40 aos
50 anos, este método de rastreio deve ser muito bem ponderado pois os benefícios não superam os prejuízos. .../... Os prejuízos do uso indevido deste método de rastreio passam pela exposição desnecessária às radiações, pelo elevado número de falsos positivos, pelas biopsias desnecessárias que terão que ser efectuadas e também pela desnecessária ansiedade e incómodo que cria na mulher que a ele se submete."


"Também tem sido frequente a solicitação de marcadores tumorais como forma das pessoas se assegurarem de que não têm cancro. Até agora, com base na evidência científica, nenhum marcador tumoral se revelou eficaz como método de rastreio de qualquer cancro. Nem mesmo o tão popularizado PSA como forma de rastreio do cancro da próstata, nos homens que não apresentem qualquer queixa prostática. Poderão os excelentíssimos leitores questionar-se sobre os malefícios de fazer uma simples análise ao sangue, como é o caso do PSA. Deixando de lado a questão dos custos desnecessários de um rastreio universal aos homens assintomáticos acima dos 50 anos, os malefícios estão sobretudo relacionados com o elevado número de falsos positivos e com o desconforto de outros exames desnecessários como as respectivas biopsias ou ecografias transrectais."

Pois então parabéns à APMCG, ao seu presidente e ao médico Carlos Martins, que investiram na qualidade da informação, contra "os dislates que se ouvem e lêem, por vezes inconscientes, ... para que os jornalistas (e outros intelectuais!) sejam o veículo para os 'media' não fomentarem a iliteracia científica" o lema deste simples blog.

domingo, abril 04, 2004

"Um milhão de portugueses sem água"

Noticia o Expresso de 27 de Março de 2004. Segundo a notícia um milhão dos nossos conterrâneos vive em residências sem abastecimento público de água.

Não ponho em causa as notícias dos jornais, mas se transformar os números absolutos em percentagem, teremos que cerca de 10% dos portugueses não têm água. Mas por outro lado não existem em termos estatísticos as doenças comuns de quem não tem água potável, como a cólera, as hepatites A, as disenterias, etc.

Começo a interrogar-me se não será o mesmo milhão de portugueses que não tem médico de família, segundo nos diz o Ministério...

E também presumo que deverá ter saído deste mesmo milhão os 4 900 portugueses interrogados pela DECO, pois num outro estudo recente sobre os centros de saúde da autoria do dr Vilaverde Cabral, as conclusões não poderiam ser tão diferentes, como foram....

A Morte em Frente E Os Centros Comerciais Ao Lado

A Morte de Frente, pode ler-se na Grande Reportagem de 27 de Março de 2004 (nº 168, ano XV, 3ª série). O artigo refere-se a uma reportagem em "directo", sobre a morte de um doente com SIDA.

Macabro. Macabro. MACABRO. macabro.

A exploração de sentimentos pelos media atinge proporções escandalosas.
Não sei para quem foram os honorários do personagem principal. Talvez para os herdeiros! O autor sei que os ganhou, como ganham todos os jornalistas e é um seu direito.
Mas o que me fez escrever esta mensagem, foi a última frase da introdução ao artigo, com a qual se pretende jusficar toda a reportagem: PARA AVISAR OS VIVOS.

Pois eu acho que a melhor frase será: PARA VENDER MAIS REVISTAS!

Não está em causa a qualidade, o empenho e o desempenho da jornalista Felícia Cabrita, o que está em causa são os temas escolhidos para que um (a) jornalista (a) se torne (também) conhecido e seja ele também notícia, deixando de ser o seu motor.

Shopping. Shopping. SHOPPING. Shopping.

São duas notícias indissociáveis na sua filosofia, a anterior e esta do Expresso de 27/03/04.

"'Shopping' liga a hospital
A URBAMINHO inaugurou a Galeria Comercial Campus São João com ligação directa ao edifício das consultas externas do Hospital de São João. Para o perímetro do hospital está ainda prevista a instalação de um hotel da cadeia Ibis."


No futuro veremos os médicos, enfermeiros e outro pessoal da saúde, com publicidade nas suas batas às lojas desses centros comerciais.
Os laboratórios farmacêuticos perderão a corrida.

Ninguém leva a mal que o médico tenho uma bata, onde se possa ler: "Visite BodyShop" ou "Compre na Batta".

sábado, março 27, 2004

A Profissional da Bata Aberta

João Tilly, referenciado na mensagem anterior, sobre "uma profissional de bata larga, aberta e esvoaçante de cor verde" interroga-se se seria médica ou enfermeira, inclinando-se para a primeira hipótese.

Muito provavelmente será uma enfermeira, pois desde há uns anos, passaram a trabalhar de bata aberta, desconhecendo a justificação de tal facto.

O Lado Lunar do SNS ou Quando a Inspecção Geral de Saúde Deve Entrar em Acção

Ao João Tilly, vizinho bloguer do João Tilly - Textos e imagens sobre Seia, Ensino, inJustiça, Jornalismo e Actualidades apresento os meus pêsames pela perda de seu Pai.
Todas as perdas são importantes e geram dentro de nós uma revolta intensa.
Revolta essa que aumenta, tanto mais, quanto mais nos sentirmos injustiçados.
Quanto mais sentirmos que a perda poderia ser evitada.

Da descrição que João Tilly faz numa mensagem no seu blog, ressaltam duas conclusões primeiras: a ausência de um diagnóstico e as constantes deslocações entre hospitais.

A ausência de um diagnóstico só poderá ser esclarecida com um inquérito da IGS ou do próprio hospital ou da Ordem dos Médicos, ou das três entidades em simultâneo. Não está em causa a ausência de um diagnóstico, pois muitas vezes, por mais que se investigue, não se conseguem obter conclusões. O problema reside na questão: foram ou não utilizados todos os meios para investigar? Ou foram feitos consecutivamente diagnósticos errados?

As constantes deslocações entre hospitais são a factura a pagar pela disseminação de instituições hospitalares em espaços geográficos contíguos: Seia, Guarda, Covilhã, Fundão, Castelo Branco. Falta de planificação, cedência a interesses autárquicos e bairristas, são a causa. A recente polémica sobre as maternidades e a pediatria nos hospitais da Guarda e Covilhã, separadas cerca de 30 quilómetros são um exemplo bem recente e esclarecedor!

Ai Estes Jornalistas! Ai Esta Deco!

Deco por Deco, prefiro o Deco.

Fui sócio da primeira Deco. Da segunda Deco/Proteste, "desarrisquei-me" e ainda não estou arrependido.

A segunda Deco é um atentado aos consumidores, por muita boa vontade que possa ter.

Recebi na caixa do correio o relatório completo do estudo da Deco sobre os Centros de Saúde.

Não é que os médicos de família precisem de advogado, mas, enquanto todos os jornais e a própria Deco enfatizavam os aspectos negativos dos CS, nomeadamente que 30% dos inquiridos detestavam os CS e outras afirmações do género, não vi nenhum jornal ou jornalista "pegar" na afirmação de que 70% dos inquiridos estão satisfeitos com o seu médico de família e por arrastamento com os CS onde trabalham.

quarta-feira, março 24, 2004

"Haverá nos médicos alguma homeofobia?"

Pergunta o leitor Nuno Ramos, referindo-se à homeopatia.

Não, caro leitor. Nos médicos não há qualquer medo irracional em relação à homeopatia, nem preconceito contra a homeopatia, nem sequer ódio em relação à homeopatia.

O que há, é falta de evidência científica de que essa prática alternativa traga qualquer benefício para os doentes. Ou qualquer cura para as doenças.

Não basta o Manuel ou o José ou a Zeferina referirem que se deram muito bem com esses remédios para as suas dores nas costas, ou para as suas dores musculares ou para a sua sinusite. São necessários estudos científicos bem estruturados e desenvolvidos com milhares de utilizadores e com percentagens de sucesso superiores às do placebo.

A ciência incorpora as novas descobertas quando estas se tornam reprodutíveis em vários centros.

Não se pode afirmar que a Medicina esteja contra qualquer coisa que melhore a saúde dos doentes. A Medicina já reconheceu a acupunctura e as técnicas manipulativas.

Para mim, a homeopatia foi uma das maiores fraudes do século vinte e se a comunicação social continuar a proteger tudo o que é considerado alternativo, será sempre difícil denunciar estas práticas.

Não concordo com a própria filosofia da homeopatia: as diluições milesimais das moléculas causadoras das doenças, de tanto se diluirem em água desaparecem e nada mais fica que dois átomos de Hidrogénio e um de Oxigénio. Por mais que afirmem o contrário....

sexta-feira, março 19, 2004

No Coments!

"Associação Nacional de Farmácias Critica Judiciária e Médicos"

O presidente da Associação Nacional das Farmácias (ANF), João Cordeiro, acusou ontem a Polícia Judiciária (PJ) e a Ordem dos Médicos (OM) de tentarem pôr em causa a imagem de seriedade dos farmacêuticos portugueses
.", dos jornais.

O sr dr João Cordeiro deve estar a sentir o que os médicos sentiram quando há uns anos iniciou uma campanha contra a seriedade de todos os médicos, colocando nas farmácias da sua associação cartazes onde se denunciava a corrupção de toda uma classe, generalizando casos particulares a toda uma profissão.

Digo o mesmo que digo dos meus colegas: quem prevarica, quem coloca em risco a saúde dos doentes, tem que ser denunciado.

quarta-feira, março 17, 2004

E Se O Médico de Família Desaparecer?

A figura do médico de família ainda não foi descoberta pelos intelectuais portugueses e particularmente pelos jornalistas. Sobre o internista hospitalar poucos saberão que é um especialista em medicina interna.

(Numa anterior greve de médicos de família uma jornalista afirmou que estes médicos só serviam para transcrever para o Serviço Nacional de Saúde os pedidos dos médicos privados!)

Para os intelectuais, se parece que dói o coração, vai-se directamente ao melhor cardiologista, de preferência a um que tenha a anteceder no nome a palavra professor; se parece que aquela tosse não passa ao fim de 8 dias, vai-se ao pneumologista, mas se se aguardasse mais 3 ou 4 dias, desapareceria como que por milagre.

É tão giro dizer: o meu pedopsiquiatra, porque dizer, o psiquiatra dos meus filhos, já pode fazer pensar que somos malucos. Nem que vá ao cardiologista uma vez de 10 em 10 anos, será sempre o meu cardiologista.

Há duas especialidades por quem tenho enorme respeito: os generalistas e os internistas.

Os primeiros são os médicos de família, que em Portugal existem há pouco mais de 20 anos, mas nos países desenvolvidos, pertencem a uma especialidade com dezenas e dezenas de anos em constante evolução. A American Academy of Family Physicians foi fundada em 1947! A Associação Portugesa dos Médicos de Clínica Geral foi fundada em 1981. Em Portugal os médicos de família herdaram uma pesado fardo, do qual ainda não se conseguiram (ou não deixaram!) libertar: as famosas Caixas de Previdência (ainda hoje se diz "vou à Caixa") e os burocráticos Serviços Médicos-Sociais.

Reunidos em Vilamoura no seu 21 Encontro Nacional ouviram o Sr Ministro fazer muitas promessas sobre a melhoria dos cuidados prestados nos Centros de Saúde. Travaram uma luta recente contra uma lei que o Ministério promulgou, mas que o próprio Ministério, ainda antes de a regular, já a ultrapassou criando uma nova figura: a fagocitose dos Centros de Saúde pelos Hospitais empresa. Terá o Médico de Família os seus dias contados? O seu futuro incerto? Uma conclusão é certa: não é com estas indefinições que se cativam médicos para trabalhar com motivação nos cuidados de saúde primários...

Os internistas ou especialistas em medicina interna, são (ou foram!) a alma e o corpo de muitos hospitais e por muitas décadas. Eram os médicos que primeiro encontrávamos nas urgências hospitalares.
Actualmente as tutelas dos hospitais SA estão a privilegiar os intensivistas para as emergências hospitalares e os médicos indiferenciados e enfermeiros para as triagens (de Manchester) e os atendimentos nas urgências.

Segundo a própria Sociedade Portuguesa de Medicina Interna os seus anos dourados foram na década de 50, tendo a sociedade sido fundada em Dezembro de 1951. Se a constante evolução da Medicina para a especialização e o permanente aparecimento de muitas sub-especialidades dentro das várias especialidades, originou um movimento contrário na área extra-hospitalar, com o aparecimento da filosofia generalista, agora mais diferenciada, na área hospitalar, a medicina interna ia perdendo elementos e importância e segundo a SPMI, "a 28 de Maio de 1983 efectuou-se uma Assembleia Geral da SPMI na qual estavam presentes apenas 4 sócios efectivos". Mais tarde "a SPMI entrava assim na sua 2ª fase, em que partia da estaca zero" e não "conseguiam evitar um movimento irreversível e já consumado: a separação das sub-especialidades médicas. Daí em diante a Medicina Interna teria que assumir a sua própria identidade e iria tentar sozinha recuperar o tempo perdido."

Proximamente realizará o seu 10º Congresso Nacional. Será que vai conseguir recuperar o tempo perdido?

segunda-feira, março 15, 2004

Sei Que Há Bons E Maus Jornalistas,

assim como há bons e maus médicos, quer se fale de ética, de conhecimento, de valores.

Recebi mensagens de alguns jornalistas referindo que os títulos dos seus artigos não correspondiam ao que eu afirmava na minha mensagem.

Eu sei, pois li vários títulos.

Para que não haja mal-entendidos, foi no Diário de Notícias de 10 de Março de 2004, numa notícia assinada (ou melhor "notícia assassinada") pela jornalista Elsa Costa e Silva

"Aborto pode duplicar risco de cancro" foi a afirmação infeliz escolhida pela referida jornalista.

Pura manipulação.

Por exemplo:
- um dos factores de risco do cancro do colo do útero é o comportamento sexual das mulheres, isto é, está actualmente demonstrado que a precoce idade da primeira
relação, a sua grande frequência e especialmente a existência de múltiplos parceiros sexuais e a diversidade de contactos sexuais destes aumentam a probabilidade da existência de cancro cervical.

Poderei eu afirmar no título de um qualquer jornal "As Relações Sexuais Provocam Cancro"?

domingo, março 14, 2004

Ler Jornais Provoca Cancro

Foi o povo português recentemente insultado pela distribuição de uns abjectos panfletos de qualidade duvidosíssima que lembravam uns outros panfletos com uns vinte anos de idade onde se afirmava que os comunistas comiam criancinhas ao pequeno-almoço e que matavam os idosos com injecções atrás da orelha.
Nestes afirmou-se que se vendiam fetos em Taiwan para serem servidos ao jantar e posteriormente afirmou-se que o aborto aumentaria o risco de cancro da mama.
Afirmações desprovidas de qualquer suporte científico ou qualquer estudo publicado em alguma revista científica, independentemente do seu rigor.

Os jornais falaram.
No primeiro caso, criticando quase unanimemente. No segundo, a maioria dos media, não credibilizou a afirmação, mas um houve que afirmava em título: “O Aborto Provoca Cancro”. Assim escarrapachado para que todos lessem. Por trás estaria como é óbvio um jornalista, talvez jornalista.

É óbvio que se tratou de uma mentira científica grosseira.

Mas eu, médico que vou explicar aos intelectuais (alguns) a mais recente descoberta científica, já comprovada, mas ainda não publicada: Ler jornais provoca cancro não só nos olhos, mas em qualquer parte do corpo.

O estudo interrogou todos os leitores de vários jornais e chegou à conclusão de que entre os leitores se encontravam portadores de cancros do estômago, pulmão, tiróide, testículos, ânus, pele, mama, útero, etc. Os investigadores pensam que se trata da absorção das tintas pela saliva, quando se manuseiam as folhas de papel, depois da humidificação das pontas dos dedos.

Já há informações de que se estará a formar um movimento contra os jornais.

sexta-feira, março 12, 2004

Um Operário Da Contrução Civil Workaholic Em Anasarca

Já o conhecia.
Quando entrou na urgência, o diagnóstico foi feito de imediato. Estava em anasarca.
50 anos. Era portador de uma insuficiência cardíaca grave. Classe IV da classificação da NYHA.
Último percurso de quem nunca seguiu as indicações e as terapêuticas anti-hipertensoras.

A hipertensão mata, grito muitas vezes aos meus doentes, mas devagar.

Este episódio não era o primeiro e, pensava ele, não seria o último. E eu, sempre a pensar que poderá ser o último…

Mesmo em repouso, a sua dispneia era intensa, e com dificuldade diz-me:

- Trabalhei até ontem. Sabia que estava a piorar. Mas já sei como é. Fico aqui uns dias, tiram-me os líquidos com umas agulhas e para a semana já estou a trabalhar.

Não sabia ele que a sua cardiopatia hipertensiva se ia agravando cada vez mais e que um dia, já não sairia do hospital pela porta por onde entrou.

Durante anos tentei explicar-lhe que a sua pressão arterial elevada já se tinha transformado em doença a que se dá o nome de hipertensão arterial e que esta já tinha danificado o coração, agravado pelos valores altos do colesterol.

Já lhe tinha explicado que estas crises seriam cada vez mais frequentes e mais graves e que uma delas seria invariavelmente a última.

Mas nada o demovia do seu trabalho na construção civil. Era um verdadeiro workaholic.

Mas o que eu não esperava era que o doente seguinte, fosse seu pai, com 88 anos, e que à pergunta:

- De que se queixa?

Após uma ligeira pausa, responde-me:

- Como está o meu filho? Está mal, não ?

- Durante toda a vida, nunca se preocupou connosco, foi sempre desligado. Mesmo quando estamos nós doentes não nos visita, apesar de viver ao pé!

Perante o meu silêncio, levantou-se a chorar e desapareceu.

Pensei: foi a melhor maneira que descobriu para se informar da situação da doença do filho, provavelmente já habituado ao péssimo funcionamento dos sistemas de informações dos hospitais!

quinta-feira, março 11, 2004

A Política do Terror, Nunca Resolveu!

A minha homenagem a todas as vítimas do terrorismo está em toda a força deste post que peço emprestado à Adesse.



P.S.: um obrigado ao leitor José Armando que me enviou por mail umas dicas para estas ligações directas.

quarta-feira, março 03, 2004

Comentário ao Seguro de Saúde

De P. Casella, médico:

"Excelente exemplo do que, à nossa medida, já se vai verificando entre nós ... Quando digo à nossa medida também os preços dos nossos seguros de saúde são incomparavelmente mais baratos que nos EUA, logo ....
Apesar de não ter nenhuma convenção com os novos "donos" da saúde gerida por empresas de seguros não resisto a citar um Colega mais velho que quando surgiram estes novos sistemas dizia . "eles pagam 2500 escudos por uma consulta e querem ter um Urologista, eu dou-lhes apenas 2500 escudos de Urologia o que é manifestamente pouco...". Apesar de se dizer que temos a Medicina mais cara da UE eu estou convencido que abaixo de certos limites ou com imposições restritivas de diversa ordem a praxis médica vai-se degradar na sua qualidade, com reflexos directos sobre a relação médico doente.
".

Sublinhado do blogue.

sábado, fevereiro 28, 2004

A Verdadeira História da Patrícia

A Patrícia é uma jovem que conheci numa urgência em Lisboa.

Simpática, agradável, respira independência por todos os poros, ambiciosa, inteligente e que presentemente é delegada de informação médica (de passagem, com refere).

Palavra puxa palavra (já o motivo da consulta ia longe) diz-me que tinha estado nos Estados Unidos a estudar uns anos antes e tinha feito um obrigatório seguro de saúde (coisa vulgar nos Estados Unidos da América do Norte) para estudantes estrangeiros.

Um dia adoeceu. Dores na coluna lombo-sagrada. Depois um abcesso. Foi levada por uns amigos americanos aos alternativos, "chiropractor" adianta, sem solução, ou melhor, com atraso na solução.
Mas...
Como tinha o tal seguro de saúde, decide ser tratada e operada num hospital local.

Fornece os dados necessários, as apólices, a identificação da seguradora, a sua identificação e é operada.

À data da alta, preparando-se para sair, eis senão quando lhe apresentam a bill:

- $71 Consulta
- $123 Chiropractor
- $931.70 Grupo Cirurgico
- $1572.34 Hospital (intervenção e internamento)
- $97 Medicamentos ($90 por Augmentin!!!!) (exclamação da Patrícia)
- $84 Clinica Pediatrica (interrogação da Patrícia, na altura com 18 anos)
- $450 Anestesistas.

PROTESTOU: então tinha um seguro de saúde e agora obrigavam-na a pagar 3 329 dólares (Novembro de 1997).

EXPLICARAM-LHE: o seu diagnóstico era "Pilodinal Cyst" e o facto de ser considerada uma situação congénita, o seu tratamento não é abrangido pelo prémio.

RELEU a apólice: lá estava naquelas letrinhas pequeninas, nas exclusões e que não elucidam quando se fazem os seguros.

CONCLUIU: bendito SNS português, que opera tudo gratuitamente (para já, logo não será!)

Sobre A Humanização dos Serviços de Saúde

Aconselho vivamente a leitura da mensagem "Até que enfim..." posta na segunda-feira, 23 Fevereiro, no blog cravo e canela (ouvir. ver. tocar. cheirar. degustar. cinco sentidos e mais um. equilibrar) com a qual concordo inteiramente.

P.S. A minha simples formação informática não me permite fazer a ligação directa para a referida mensagem.

Mais Uma Vez O Tabaco

Do blog Bisturi esta cirúrgica mensagem, com a deviida vénia:

"Tabaco
Metade dos fumadores poderá morrer vítima do tabaco. Cancro, enfarte do miocárdio, bronquite, acidente vascular cerebral. Além de ser a segunda causa de morte em todo o mundo, o tabaco, segundo a Organização Mundial de Saúde, está cada vez mais associado à pobreza, ao sub-desenvolvimento, porque são desviadas verbas familiares que se poderiam consagrar à alimentação, à educação e aos cuidados de saúde. O profissional de saúde só pode promover a cessação tabágica se der o exemplo. Na Albânia, 44% dos estudantes de medicina fumam, uma percentagem superior à da população em geral.

O tabaco é tão inofensivo que está associado a:
- Cancro do pulmão (responsável por 90% das mortes de cancro do pulmão);
- Cancro da cavidade oral, (lábios, boca, língua), laringe (97% das mortes) e faringe;
- Cancro do esófago;
- Cancro do pâncreas;
- Cancro da bexiga e rins;
- Cancro do colo do útero:
- Cardiopatia isquémica (25% das mortes);
- Doença vascular periférica (arteriosclerose);
- Doença cerebrovascular (AVC);
- Bronquite crónica, enfisema (25% das mortes) e asma;
- Doença de refluxo gastro-esofágico, úlcera péptica;
- Menopausa precoce e osteoporose;
- Atraso no desenvolvimento físico e intelectual da criança, se grávida fumadora.


São vinte situações assinaladas. Uma por cada cigarro de um maço de tabaco!
Quando fumarem, pensem para qual das situações esse cigarro se dirigirá e assim sucessivamente até ao último cigarro de cada maço. Um cigarro, um problema de saúde. Um maço de tabaco, uma carrada de problemas...

Interessante Notícia: Será Que O Título Corresponde Ao Conteúdo?

Do Público de 25 de Fevereiro de 2004, assinada por C.G (Casca-Grossa?)

"Problemas com Medicamentos Aumentaram

O número de trabalhadores com problemas associados a drogas de prescrição médica foi o que mais aumentou (em comparação com o álcool, a "cannabis", a cocaína e os opiáceos) nos últimos anos, estimam os representantes das empresas (43 por cento são desta opinião), dos sindicatos (39 por cento) e das organizações patronais (25 por cento). [Enfim todos juntos na concertação de classes] Uma das tendências detectadas é a mudança de atitude em relação ao abuso de medicamentos psicotrópicos (como os tranquilizantes e antidepressivos). No inquérito de há dez anos era ideia generalizada entre os inquiridos que este seria "um problema dos médicos", nota o coordenador da investigação, Orlindo Gouveia Pereira. Nos dados de 2003 começa a ser política empresarial "a percepção de que este é um problema" que afecta desempenhos e diminui tempos de reacção em funções como, por exemplo, a condução de uma máquina. "Já ninguém diz que é um problema dos médicos."


Notas:

- Pelo título retira-se a conclusão subliminar que é um problema dos médicos, pois são os únicos (ainda!) que prescrevem oficialmente medicamentos.

- Ainda do título se pode retirar que os medicamentos provocam problemas, portanto mais vale recorrer de imediato às massagens, agulhas e água engarrafada (homeopatia).

- Porque se encontram os trabalhadores mais ansiosos e deprimidos para tomarem medicamentos?

- Se não é um problema dos médicos, de quem será? Das farmácias que vendem ao balcão sem receita?

- Do mercado negro, que vende ansiolíticos e antidepressivos?

- Da internet que inunda as caixas do correio com anúncios da venda de medicamentos sem receita?

- Ou apenas porque há mais doentes com ansiedade e depressão?

- Eu trabalhador me confesso que, no início de cada período de banco, auto-medico-me com 0,5 mg de alprazolan (Xanax) para enfrentar o mundo real que se transformou em mundo cão.

"Bastonário da OM: Médicos receitam mais genéricos"

Do Diário Digital de 25/02/04, respigo

"O bastonário da Ordem dos Médicos (OM), Germano de Sousa, garante que os clínicos estão a receitar cada vez mais genéricos, pelo que o balanço do primeiro ano da nova política do medicamento só pode ser positivo. O responsável contraria, assim, dados revelados esta quarta-feira pela da Associação Nacional de Farmácias (ANF)."

.../... «é necessário perceber que não se modificam hábitos de prescrição, num período de tempo tão curto, como é um ano, num país que não tinha genéricos». Por isso, defende, no próximo ano «os resultados serão ainda melhor».
..."

De uma pessoa que me merece toda a confiança, relato duas pequenas histórias passadas na mesma farmácia (farmácia?)

1ª - O médico receitou-lhe isso? Isso não faz nada! Tenho aqui um muito melhor que é homeopático e serve para o mesmo. (o medicamento em questão era o Zovirax® e foi trocado por uma qualquer mistela de água com água, que dará um lucro muito superior ao Zovirax).

2ª - O médico receitou-lhe isso? Isso é muito forte! E trocou com o maior à vontade um medicamento genérico por um de marca que o doente pagou por inteiro.

E faço justiça a um farmacêutico que, apesar de eu autorizar quase permanentemente a troca de medicamentos por outros genéricos ou por genéricos, me telefona sempre a pedir autorização!

domingo, fevereiro 22, 2004

Valerá a Pena Denunciar Má-Práticas? Ou Só Valem As Denúncias do Povo Nas TVs?

Do Diário de Notícias de 22 de Fevereiro de 2004, assinada por pela jornalista Ana Mafalda Inácio.

"O Sindicato dos Médicos da Zona Sul (SMZS) vai recorrer para o Tribunal Europeu para exigir uma indemnização ao Estado português. Na base da queixa está uma sentença proferida recentemente por uma juíza do Tribunal Cível de Lisboa, que condena a estrutura sindical ao pagamento de cem mil euros aos quatro elementos do conselho de administração do Hospital Distritral de Évora (HDE), por declarações feitas em 1993, aquando da denúncia das mortes por intoxicação alumínica, devido a falhas no sistema de tratamento de águas.

O presidente do SMZS, Mário Jorge, classifica a sentença como «um escândalo» e vai recorrer ao Tribunal Europeu e ao Supremo Tribunal de Justiça. «O Estado português assumiu a culpa ao pagar uma indemnização aos familiares das vítimas e, agora, há uma juíza que omite tudo isto e decide condenar quem denunciou a situação».

Segundo apurou o DN, a juíza considerou que os membros da direcção do SMZS proferiram afirmações «ofensivas», «irresponsáveis» e «caluniosas» sobre os dirigentes do HDE. Manuel Anjinho, Luís Gulherme, Manuel Fialho e José Borges apresentaram quatro queixas em tribunal contra aquele sindicato, uma delas dirigida só ao presidente, a qual já foi arquivada.

Mário Jorge defende que todas as afirmações foram feitas com base nos cargos que aqueles elementos ocupavam, sem haver «quaisquer referências pessoais. Houve 22 mortes. Se não tivessemos denunciado o caso seriam mais, portanto não se tratou de nenhuma acção caluniosa».
"

A solidariedade do autor deste blog para com o presidente do SMZS e para com todos os médicos que denunciem colegas por más práticas, abusos de poder e negligências.

sábado, fevereiro 21, 2004

... só permitia exercer Medicina na Madeira e nas ex-colónias ...

Do jornal Público, de 21 de Fevereiro de 2004:

"Escola do Funchal Formou 240 Médicos Entre 1837 e 1910"

O Funchal já teve uma Escola Médico-Cirúrgica, que iniciou a sua actividade em 1837 e foi extinta em 1910, após atribulada existência marcada pelas polémicas entre médicos e representações. Foi instituída pelo decreto de 29 de Dezembro de 1836, que criou, em cada uma das capitais dos distritos ultramarinos, uma escola médico-cirúrgica que leccionava duas cadeiras. A primeira incluía o ensino de "anatomia, fisiologia, operações cirúrgicas e arte obstrectícia" e a segunda patalogia, matéria médica e terapêutica, regidas respectivamente pelo médico e cirurgião principais do hospital a que a mesma escola estava anexa. Ao longo dos seus 74 anos, formou apenas duas mulheres entre os 240 médicos que concluíram estes cursos, inicialmente de três e depois de quatro anos. O diploma da Escola Medico-Cirúrgica do Funchal só permitia exercer Medicina na Madeira e nas ex-colónias, devendo as cirurgias ser tuteladas por licenciados nas faculdades do continente
".

Com a proliferação de faculdades de medicina em Portugal, sem atenderem ao ratios faculdade/habitante, isto é, à qualidade do ensino e à prevalência das patologias, correremos o risco de, no futuro, o início de uma consulta começar por esta pergunta:

- Sr dr em que faculdade se licenciou?
- Ai foi nessa? Deixe-me consultar esta lista...
- Desculpe, mas nessa não confio. Vou procurar outro licenciado.

domingo, fevereiro 15, 2004

Doente, Utente e Cliente

Do blog A Cabra transcrevo com a devida vénia este bilhete intitulado O UTENTE:

"Quando um dia o doente foi chamado de utente,acabou a humanização na medicina.Assim denominado,o doente passou da condição de humana criatura,ao numerado usuário da massificação...Nas teias da falácia aprisionado,deixou de ter acesso à sagração da consulta,o diálogo vital.O utente é algarismo entre a gente e nó da burocracia infernal,é moeda que pinga reluzente,chapa,análise e receita final,só não tem estatuto de doente..."

... e para dizer que não concordo com a definição dada a utente. Hoje em dia, com a evolução da medicina e principalmente com o surgimento da medicina familiar, nem todos os indivíduos que frequentam os serviços de saúde são doentes. Nos hospitais, também já se fazem exames para rastrear ou diagnosticar precocemente determinadas doenças. Por isso há utentes que não são doentes. Serão ou não, no futuro. Mas no presente ainda são apenas utentes.

Um exemplo esclarecedor: um utente inscrito numa lista de um médico de família, é convocado para um exame periódico de saúde, onde se diagnostica um tumor do cólon, ainda assintomático. O médico de família referencia para uma consulta de gastrenterologia ou directamente para a cirurgia. Na história clínica, verifica-se que há uma incidência de cancros colo-rectais naquela família.
Será boa prática médica, os familiares descendentes (ou ascendentes) seres de imediato referenciados, ou pelo médico de família ou pelo gastrenterologista para colonoscopias seriadas de acordo com protocolos definidos, como por exemplo, os da Sociedade Portuguesa de Endoscopia Digestiva.

Dos rastreados, uns serão doentes outros permanecerão eternamente utentes. Ainda bem!

Cliente, é outra terminologia que se usa muitas vezes, mas com a qual não concordo. Tem subjacente uma relação comercial, real ou não, essa conotação existe. Não gosto.

Segundo o Dicionário On-Line da Porto Editora, cliente "é pessoa que requer serviços mediante pagamento".

A Grande Loja do Queijo Limiano, As Radiografias e Os Oxímoros

Este bom blog, de qualidade superior, fez uma transcrição de um bilhete deste mediano blog, publicado há meses, mas sempre actualizado, o que agradeço.

Só não agradeço são as palavras pouco compreensíveis na sua introdução:
"Um deles, tenta explicar alguma coisa de medicina a quem não entende - os intelectuais! Às vezes atrapalha-se, mistura desabafos com diagnósticos e radiografias e a explicação prometida fica adiada. Outras vezes, abre as portas do conhecimento a ...".

- Sobre as explicações prometidas e adiadas, fica apenas esta comparação: a Grande Loja do Queijo Limiano, vende queijo limiano on-line? Disserta sobre as qualidades do queijo limiano? Ou do queijo em geral? Não. Todos compreendemos que se trata de uma alegoria ou metonímia. O meu título é um oxímoro (ou oximoro), daí não pretender explicar nada a alguém que já sabe tudo!

- Sobre misturar desabafos com diagnósticos será uma atrapalhação, como afirma o José, ou antes uma provocação? Um acto voluntário!

- Sobre as radiografias como generaliza a GLQL aos bilhetes a que dei o título genérico de "Literatura Médica" (e foram de I a X e do agrado de muitos leitores) e que eram transcrições de vários relatórios de exames complementares de diagnóstico, seriam o suporte a uma história dramática, rara, real e recente que se desenrolou enquanto os posts eram colocados. Entretanto decidi não a colocar na blogosfera, por razões éticas e para não quebrar, de forma alguma, o sigilo médico.

sábado, fevereiro 14, 2004

CEM ANOS!

Hoje em dia niguém terá dúvidas sobre o aumento da longevidade da população dos países desenvolvidos. E vai aumentando, aumentando, embore custe a muitos assumí-lo, à custa da medicina ocidental. Da química. Da química biológica.

Aquela que é a verdadeira alternativa para o combate aos factores que nos vão impedindo de alcançar o nosso desiderato genético, que segundo alguns autores se situará nos 150 anos.

Mas será que a sociedade actual está preparada para receber dentro em pouco, milhares (milhões!) de cidadãos centenários?

Parece-me que não!
Pelo que vi há dias, ainda estaremos longe de integrar os cidadão com mais de cem anos.

Ainda há uns anos era raro consultar nas urgências hospitalares doentes centenários. Há dias tive a agradável surpresa de no mesmo período de 12 horas consultar dois destes doentes. Do sexo feminino. Uma acompanhada pela família descendente onde o afecto não faltava (nem era exagerado, como por vezes se nota e é fruto de uma encenação momentânea). A outra, internada num lar da segurança social vinha acompanhada por um funcionário, que à minha exclamação de ser o segundo doente centenário, desabafou:
- "Ai é, não sabia que tinha 100 anos!"

E nós, ainda activos, para que grupo seremos seleccionados? Para o do esquecimento, o do depósito?

quinta-feira, fevereiro 12, 2004

Médicos, Farmacêuticos, Enfermeiros e Directores de Laboratórios Finalmente de Acordo e Juntos!

Segundo a TSF de hoje alguns (notem senhores jornalistas: eu aplico esta palavra ALGUNS antes da notícia) médicos, farmacêuticos, enfermeiros e directores de laboratórios finalmente de acordo e juntos na prisão. Presumo que estarão na Judiciária.

Este grupo onde se incluem alguns dos meus pares parece que chegou a acordo sobre a melhor forma de ludibriar, isto é, roubar o Estado Português e prejudicar a saúde dos portugueses.

Segundo a notícia depois de algumas reuniões preparatórias acordaram ALGUNS médicos, ALGUNS farmacêuticos, ALGUNS enfermeiros e ALGUNS directores de laboratórios de análises, unir esforços para resolver vários problemas do Serviço Nacional da Saúde.

Só espero que os nomes sejam revelados e que não fiquem impunes.
Especialmente os médicos prevaricadores.
Não sou corporativista e defendo a eliminação de todas estas ervas daninhas!

Quem Ousar Dizer Mal do Euro 2004, Que Arda No Inferno!

Muitos pensariam que isto já era uma realidade. E será que vai ser uma realidade?

Bendito Euro!

Viajaremos do Inferno para o Céu, sem paragem no Purgatório.


"O Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) vai passar a cobrir todo o país a 100% no próximo Verão.

Ontem, no Porto, Luís Cunha Ribeiro, pesidente do INEM, disse que os serviços de urgência hospitalares irão conhecer, em breve, uma reforma profunda, devendo passar a integrar os serviços de emergência médica.
"As equipas de urgência médica não são uma espécie de taxistas sofisticados, que pegam nos doentes, despejam-nos nas urgências e vão-se embora", realçou aquele responsável.
Ao falar no encerramento da 27.ª Reunião Internacional de Cirurgia Digestiva, que decorreu, ontem, no Porto, Luís Cunha Ribeiro informou que o trabalho em parceria das equipas médicas com as urgências será complementado com uma série de inovações, que visam
um melhor e mais profissional atendimento aos doentes. Assim, as equipas que trabalham nos veículos de intervenção pré-hospitalar passarão a dispor de informação via GPS sobre o local exacto onde os doentes se encontram. Isto, como realçou, irá tornar o atendimento mais rápido, evitando que as equipas tenham de parar para pedir informações sobre os locais.
Por outro lado, as equipas passarão a fornecer, "on-line", às urgências todas as informações sobre os doentes durante a viagem.
Outra novidade anunciada é o aluguer de espaço de satélite à Agência Espacial Europeia. Isto permitirá, em caso de quebra nas comunicações, que estas continuem viáveis.
Cunha Ribeiro sublinhou, ainda, que todo o investimento feito com vista ao Euro 2004 terá aproveitamento futuro garantido.
"

in Jornal de Notícias de 01 de Fevereiro de 2004

terça-feira, fevereiro 10, 2004

"TODA A VERDADE - AFIRMAÇÕES DO DR. JOÃO CORDEIRO, PRESIDENTE DA ANF, MOTIVAM POSIÇÃO DO SIM"

Do jornal virtual do Sindicato Independente dos Médicos:

"Refª AM/CA/02/04
Lisboa, 09/02/04
Exmo. Senhor Presidente
da Associação Nacional de Farmácias
Dr. João Cordeiro

Tendo presente a entrevista de V. Exª. ao Diário de Notícias, de 7 de Fevereiro de 2004, página 22, onde se afirma "se os médicos seguissem as instruções quer dos sindicatos quer da ordem, não era prescrito um único medicamento genérico", tomo a liberdade de remeter a V. Exª. cópia de ofício enviado a Sua Excelência o Ministro da Saúde, em 5 de Agosto de 2003, cujo conteúdo, por inequívoco, não carece de mais comentários.

Dado o plural utilizado que, inevitavelmente, envolve o Sindicato Independente dos Médicos e a sua posição oficial sobre a política do medicamento, a afirmação de V.Exª. é falsa e injuriosa.

Lamentamos que V. Exª. só se disponibilize para os elementos da O.M. na explicação do "caminho que devem seguir". Certamente que se tivesse revelado igual disposição para com este Sindicato, e os seus Dirigentes, saberíamos aproveitar humildemente os ensinamentos de V. Exª., desde que tudo fosse revelado, para conhecermos os "caminhos" que conduziram ao actual tratamento de favor e privilégio para com a ANF, por parte de Sua Excelência o Ministro da Saúde, o Ministério da Saúde e o Governo de Portugal.

Saudações Sindicais,

O SECRETÁRIO GERAL
CARLOS ARROZ
"

quinta-feira, fevereiro 05, 2004

A Visão Bio-Psico-Social do Sintoma

21:30, a hipoglicemia já dá sinal.

Entra mais uma doente. Levanto a cabeça e vejo uma jovem aparentando 16 anos. Caracteres sexuais secundários já bem desenvolvidos. Baixo os olhos e leio: 13 anos.

Primeira pergunta imediata:

- Vens sozinha? Venho. Responde.

- De que te queixas, para vires aqui à urgência?
- Dores de cabeça, muito fortes e aqui (colocando a mão aberta em cima da cabeça). Tou farta de aqui vir, só me passam medicamentos, não me fazem exames. Da última vez que aqui vim, o médico disse-me para trazer todos os medicamentos e depois me mandaria fazer um TAC.
- Então mostra lá os medicamentos. Abre o saco e vai tirando: ibuprofeno ratiofarma, aspegic 1000, benuron 500, naprozyn 500, nolotil, adalgur n e dafalgan.
(Penso: se a cada marca corresponder uma vinda à urgência, teremos 7 consultas em tão pouco tempo!)

Como me fazia um pouco de confusão, uma jovem de apenas 13 anos sozinha na urgência de uma cidade, voltei a perguntar:
- Onde está a tua mãe?
Responde de imediato: está lá fora a meter-se com os bombeiros. (Abri os olhos de espanto!)
- E o teu pai?
- Está bêbado no carro. Deve estar a dormir. (De espanto migro para a tristeza!)
- Tens irmãos?
- Tenho 8.
- E não te ajudam?
- Ajudar? Ainda são piores que os meus pais!
- Estudas?
- Não. Deixei de estudar o ano passado. O meu pai fartava-se de me bater.Por tudo e por nada. Fartei-me da escola.
- Olha, tenho muita pena de ti. Sei que és esperta. Para o ano tens que voltar à escola! Prometes?
- Sim. Já tinha pensado nisso. Mal por mal, prefiro a escola. Ainda aprendo alguma coisa.
- Ainda te dói a cabeça?
- Não. Já passou.
- Então vais fazer o que te vou dizer: não vais tomar mais esses comprimidos, vou-te receitar estes e tomas três por dia e se ainda te doer, aumentas para seis, 2 a cada refeição [Valdispert] e o mais importante, tens que ir falar com o teu médico de família. Ele é um especialista, conhece-te melhor e verá se é necessário ou não pedir um TAC, tá bem?
- Tá.
E despediu-se com um sorriso. (Fez-me lembar o do Fehér segundos antes de morrer).

Porque me teria lembrado do sorriso do Fehér?
Nem eu sei, mas imagino o percurso desta adolescente depois da minha conversa: carimbar a receita, procurar a mãe no meio dos bombeiros, acordar o pai bêbado no carro, aturar um ou outro irmão, ir à farmácia, ir, ir, fazer, acontecer ....... e tudo isto só com treze anos.

Aos treze anos do que mais gostei foi do apoio, do afecto, da compreensão, da orientação dos meus pais.

terça-feira, fevereiro 03, 2004

"Maus exemplos"

Do blog Bisturi transcrevo:

"Os últimos dias foram tragicamente marcados pela capacidade de alguns protagonistas do mundo do desporto ultrapassarem os limites - e de o fazerem poucas horas, ou dias, depois de terem fingido que estavam comovidos com a morte de um jovem futebolista. Num dia verteram lágrimas de crocodilo e trocaram abraços encanados para as câmaras de televisão. No dia seguinte empenharam-se em reacender a fogueira das paixões, deitando gasolina sobre a fúria dos extremismos clubísticos.
José Manuel Fernandes, Público, 3/2/2004
"

E interrogo:

Não foi a comunicação social que há oito dias apelidou a massa associativa vimaranense de santa e que agora, oito dias depois a diaboliza?

Mas que andam a fazer os nossos queridos jornalistas?
Será que os jornalistas também não serão os protagonistas dos extremismos clubísticos?
Será que os jornais se venderiam se não houvesse casos, sejam eles quais forem ou de que forem?

Ora Aqui Está Uma Bela Notícia!

Só é pena ter saído apenas no Correio da Manhã de 2 de Fevereiro de 2004.

E se a TVI, a SIC e a RTP1 emitissem um simultâneo de alguns minutos sobre este problema?

E posso afirmar que a pressão dos pais é independente do estrato social: desde pais operários a pais intelectuais, todos pressionam para que o médico lhes dê o antibioticosinho, particularmente se a febre não baixa ao segundo dia.
Mas eu explico: a febre, para além de genericamente ter alguns benefícios, só desaparece ao 4/5º dia das infecções respiratórias banais.

E há outra infeliz realidade: na notícia, há afirmações de um pediatra e de um médico de família. O que acontece na prática, é que, muitos pais depois de irem ao Centro de Saúde ou à urgência hospitalar, ao segundo dia telefonam "ao meu pediatra" e o próprio pelo telefone receita o mal-amado antibiótico. Ou o inverso, o pápá depois de ir ao pediatra, vai ao SAP, ao médico de família ou à urgência hospitalar e depois de muito ragatear, lá leva o antibioticosinho. A primeira hipótese (Centro de Saúde --> Pediatria) é a mais frequente, assim o pediatra mostra a sua falsa superioridade nesta questão.

E neste caso quem se lixa não é o mexilhão, somos todos nós, humanos, que lentamente vamos perdendo a batalha entre um organismo superior e elaborado e os vírus e bactérias, seres unicelulares e desprovidos de inteligência (ao que se supõe...)

Diz a notícia da jornalista Cristina Serra:

"Hoje em dia as crianças tomam antibióticos em demasia
“É muito frequente os pais levarem o seu filho ao centro de saúde ou à urgência hospitalar porque tem febre, constipação, gripe ou uma amigdalite e a criança acaba por tomar antibióticos que não fazem nada. Só fazem efeito nos casos de infecção bacteriana e não nestes casos de infecção viral”, afirma ao CM Libério Ribeiro, presidente da Sociedade Portuguesa de Pediatria e pediatra no Hospital de Santa Maria.

Este especialista admite, contudo, que os “clínicos gerais prescrevem os antibióticos porque os pais fazem pressão e há uma cultura enraizada no uso indiscriminado deste medicamento. Confrontado com esta situação, Luís Pisco, presidente da Associação dos Clínicos Gerais, reconhece que este problema não é recente.

“Temos alertado contra a utilização excessiva e sem necessidade dos antibióticos, um problema que temos vindo a lutar desde há muito mas muitos pais estão convencidos que os filhos só são bem tratados se tomarem antibióticos. Às vezes vão a um segundo ou terceiro médico ou compram-nos na Internet”, diz.

"TER FEBRE É NATURAL"

“A febre é um mecanismo de defesa do organismo, a elevação da temperatura do corpo é uma reacção natural contra os vírus, o que é perfeitamente natural pois assim os inactiva. Só em situações muito raras é que pode provocar convulsões e os pais não devem ir a correr para o médico sempre que o filho tem uma temperatura mais elevada”, explica ao CM Luís Pisco, presidente da Associação dos Médicos de Clínica Geral.

Este especialista sublinha a necessidade que os pais devem ter no conhecimento de questões da saúde. “As nossas avós sabiam como resolver este ou aquele problema de saúde súbita, mas hoje isso não acontece, os pais correm logo para uma urgência hospitalar. Os pais devem estar mais informados, ter conhecimento sobre as doenças e como as prevenir”, critica.

Os efeitos secundários dos antibióticos são a destruição da flora intestinal e as resistências que o organismo vai ganhando a este medicamento, sendo necessário dosagens cada vez mais fortes para tratar determinada doença infecciosa
."

segunda-feira, fevereiro 02, 2004

País Deprimido?

Mourinho estará com certeza.

As suas recentes declarações podem revelar o iníco de um quadro depressivo.

A minha solidariedade ao melhor treinador português de sempre.

Não ser reconhecido no seu próprio país, provoca uma intensa angústia, aperto no peito, ansiedade, descontrole emocional.

Mas uma vez a comunicação social faz passar, segundo uma estratégia planeada e continuada, para a população, a sua personalidade, esquecendo as suas qualidades.

Quem não gosta de ser apaparicado?

Jonh Q

Já que se fala de hospitais sa, privatizações, seguros de saúde, duplicidade de critérios no atendimento, urgências, serviço nacional de saúde, etc.

Aconselho Jonh Q.

Com: Denzel Washington, Robert Duvall, Ann Heche, James Woods, Eddie Griffin.

domingo, fevereiro 01, 2004

O Público Censurou, O Blog Publicou

De um reputado especialista da área dos cuidados de saúde primários, professor na Faculdade de Medicina de Lisboa, transcrevo um texto recusado pelo Público.

Leiam e reflictam na última frase do penúltimo parágrafo.
Comparem com a recente morte de Miklós Fehér.
Ambos morreram no seu posto de trabalho.

Como foi o tratamento mediático?
Do Fehér, jogador suplente, em vésperas de dispensa, transformado em ídolo.
Da médica, nem o seu exemplo serviu para a comunicação social deixar de instigar a população contra os médicos.


"Em artigo de opinião no “Público” de 23 de Janeiro último (“Guimarães: o retrato na nação”), Miguel Sousa Tavares (MST) tem, a dada altura, a seguinte frase: “Os médicos não fazem a mínima ideia dos danos que os seus falsos atestados causam à produtividade das empresas e à saúde das relações laborais. Por alguma razão somos o país europeu com mais baixas por doença anualmente”. Presumo que MST sabe português suficiente para distinguir entre uma afirmação referente a um grupo restrito e uma generalização a um grupo inteiro. Do mesmo modo, não o considero inexperiente ao ponto de deixar escapar frases por engano. Concluo por isso que MST engloba todos os médicos nesta afirmação, estando eu mesmo, médico de família em Lisboa, incluído no conjunto. Declaro, para que conste, que o atestado de ignorância que MST me passa sem que lho tenha solicitado é tão falso como os atestados de Guimarães referidos no artigo.

MST descreve episódios e generaliza a partir deles. Porque há médicos que passam atestados falsos, todos os médicos são ignorantes sobre o impacto negativo desses atestados. Não dito, mas obviamente subentendido, todos os médicos passam atestados falsos. MST, naturalmente, não arrisca directamente tal afirmação e, seguramente, baterá no peito refutando tamanha monstruosidade, mas a insinuação está lá.

MST não se fica por aqui. A tentativa de associar o elevado número de baixas por doença em Portugal a um eventual laxismo ou corrupção dos médicos portugueses é extraordinária. Pelos vistos não lhe ocorreu o óbvio: perguntar-se sobre quais os motivos subjacentes aos pedidos de baixa. MST ignora, ou não quer saber, que condições laborais deficientes e nível socio-económico baixo acarretam maior incidência de problemas de saúde e, consequentemente, de baixas. Mas há mais. Cito um colega que comentava o mesmo texto de MST: “Por princípio, o médico confia na pessoa que o procura (é essencial para a relação médico-paciente) e muitas das queixas que justificam as "baixas"/incapacidade temporária para o trabalho são fundamentalmente subjectivas, o que aumenta as dificuldades de avaliação e de decisão – conhecerá MST melhor do que nós métodos de diagnóstico ou escalas para a incapacidade funcional, para a dor, o sofrimento, a tristeza, a angústia, o desespero...?”

Porque não está interessado ou porque ignora (o que duvido, confesso) MST não refere nunca a pressão por vezes subtil, por vezes brutal, a que os médicos são submetidos no dia a dia para atestar incapacidades para o trabalho por motivos que não são estritamente de saúde. Porque a sociedade civil e laboral não tem a flexibilidade suficiente para encontrar soluções para os seus conflitos e dificuldades resolve-se o problema “adoecendo”, e venha agora o médico recusar-se a passar a baixa ou o atestado, se for capaz. A pessoa fica muito nervosa ou não lhe dá jeito ir prestar declarações a tribunal? Não há problema, é aconselhada a faltar à audiência e a pedir ao médico o atestado respectivo. Naturalmente, nunca existe nada escrito a sugerir tal procedimento. O mau da fita, de qualquer modo, está sempre identificado: é o médico, tome ele a atitude que tomar. Não há rigorosamente nada que defenda o médico de uma situação destas. Estão documentados múltiplos relatos de agressões verbais e físicas a médicos que se recusaram a ceder à pressão. Uma médica de família foi, há alguns anos, abatida a tiro por se negar a passar uma baixa.

Evidentemente que nada do que acabo de descrever desculpa ou justifica a produção de um atestado falso, ou atenua milimetricamente as situações concretas descritas por MST. Não admito é que MST venha agredir um grupo profissional inteiro por causa de um problema cuja origem se encontra, gritantemente, noutros locais e contextos que não no conjunto da prática médica.

Armando Brito de Sá
Médico
"

segunda-feira, janeiro 26, 2004

"O negócio da solidariedade"

Com a devida vénia, transcrevo este bilhete do Mata-Mouros de 2004/01/26:

"Sempre me intrigou o termo IPSS (Instituições Particulares de Solidariedade Social). Isto porque pouco têm de particular Instituições cujo financiamento é garantido em 60% ou mais pelo Estado. Em Portugal assumiu-se que a solidariedade é algo de conta quase exclusiva do Estado, o que é óptimo para nos desresponsabilizar e aliviar a consciência. Assim sendo, o Estado é obrigado a apoiar toda a actividade dita privada que, supostamente, se dedica àquela causa.

Mas há aqui um efeito perverso. As organizações deixarão tendencialmente de se focar no seu objecto, naquilo que é a sua missão e tenderão a investir recursos na maximização da “avença” do Estado. A filantropia transforma-se facilmente num negócio; e, desgraçadamente, negócio que envolva o Estado há-de redundar sempre em corrupção.
"

Miklós Fehér (1979-2004)

O meu respeito por um homem que nos deixou.
Milhares deixaram-nos hoje, agora, neste minuto. Este jogava futebol. Teve assistência imediata. Segundo ouvi até um desfibrilhador no campo estava, embora com a contra-indicação da humidade.

Morreu depois de sorrir. Porque sorriria, segundos antes de morrer?

Quantos morreram sozinhos, sem imagens em directo, sem assistência médica. Basta entrar um pouco na província. O INEM não existe. Morre-se sozinho, sem imagem, sem louvor, sem televisão.

Mas os nossos jornalistas, ainda o pobre do jogador estava a ser reanimado e já tentavam encontrar bodes expiatórios. Como sempre, para os jornalistas não há morte natural...

A autópsia andará à volta de 'autopsia branca', enfarte, miocardiopatia hipertrófica sub-aórtica, qualquer arritmia ventricular, qualquer aneurisma de grandes dimensões.

Adeus!

sábado, janeiro 24, 2004

"Mas a mim custou-me muito engolir aquele acordo" confesssa Miguel Sousa Tavares

MST crítica asperamente os médicos que passam falsos atestados.
Critica e com razão. E tem o meu apoio.
Eu também os critico, assim como critico jornalistas que passam notícias falsas, advogados que falseiam os processos dos seus clientes, escritores que plagiam, pedreiros que cortam no ferro, professores que falseiam os sumários, juízes que alteram sentenças, políticos que mentem, carpinteiros que trocam a madeira, comerciantes que vendem gato por lebre e um número infindável de aldrabices.

O que eu não compreendo é como pode o MST, no seu artigo criticar mais os médicos do que os magistrados, pois foram estes que pecaram ao não condenar os médicos. Quer dizer na óptica do MST, vamos criticar os médicos porque falsearam atestados e criticá-los ainda mais porque os juízes apenas os multaram...

Mas o mais interessante é que o MST fez um acordo consciente (como conta no seu artigo), sabendo que era um mau acordo para a seriedade da Nação, que não ia julgar quem prevaricou e que apenas defendeu os seus interesses profissionais egoístas.

Diz MST no seu artigo "Guimarães: o Retrato da Nação" no Público de Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2004: "Os médicos não fazem a mínima ideia dos danos que os seus falsos atestados causam à produtividade das empresas e à saúde das relações laborais. Por alguma razão somos o país europeu com mais baixas por doença anualmente."

Não sei de onde retirou os dados. Nós estamos habituados a referenciar as afirmações. Era só colocar um * e uma pequena nota em roda pé.

Os casos de baixas falsas não são tantos como apregoam. Entre falsas baixas e queixas inexistentes vai uma grande diferença. E muitas situações são por problemas sociais: acidentes de trabalho cujos patrões não têm seguro, acidentes de viação porque as companhias de seguro se desresponsabilizam, alcoolismo crónico, baixas para mães tomarem conta dos filhos ao primeiro pingo no nariz porque os jardins de infância se desresponsabilizam e as empresas não têm creches, não há ATLs abertos quando são necessários, listas de espera para cirurgias (hérnias discais, p.ex.), faltas por deficientes condições de trabalho, e ainda muitos conflitos laborais.

Ainda um ponto muito importante: como se mede a incapacidade de uma função (p.ex. fechar a mão, pois se foi amputado, é um dado objectivo)? E como se mede objectivamente a dor? O termómetro mede a temperatura, é um dado objectivo. E como se mede a ansiedade, o desespero, "os nervos" (Ai senhor doutor estou cheia de nervos!). E o sofrimento, a tristeza, a angústia, o desespero...?

Vamos dizer a todos os nossos doentes que nos estão a mentir! Temos que lhes dar o benefício da dúvida. Não podemos fazer acordos, como fez o MST no julgamento que descreve no seu artigo. Ou acreditamos ou não acreditamos, não há meio termo. E muitas vezes somos enganados, sem dúvida...

quarta-feira, janeiro 21, 2004

Duas Notícias Engajadas

1ª) Medicina científica: a RTP 1 fala de um produto - Xenical - caro, autorizado com a AIM (Autorização de Introdução no Mercado) para a obesidade. O laboratório luta para a sua comparticipação pelo Estado pois é caríssimo. A notícia numa TV generalista, embora com base científica, funciona como pressão. Talvez o início de um longo caminho.

2ª) "Medicina" alternativa: auriculoterapia. A notícia da TVI começa com esta introdução - para se ter êxito é necessário estar mesmo muito decidido a deixar de fumar. Mas, se se já está muito decidido porquê gastar 80 contos em plantas, massagens na orelha ou outras mezinhas. 99% do êxito já está garantido!

domingo, janeiro 18, 2004

Queixas Ao Sul

De uma notícia do Correio da Manhã de 18/01/04 assinada por Isabel Ramos.

"DADOS RELATIVOS A SUL E ILHAS

CLÍNICA GERAL

Em 2003 foram participadas ao Conselho Disciplinar Regional Sul da Ordem dos Médicos cerca de 120 situações de erro/má prática. As especialidades que deram azo a maior número de queixas foram Clínica Geral e Familiar (23), Ginecologia/Obstetrícia (20) e Ortopedia (10), disse o consultor jurídico da Ordem dos Médicos, Paulo Sanches.

URGÊNCIAS PÚBLICAS

Analisando as queixas pelo local dos factos, verifica-se que 15 respeitam a centros de saúde (Consulta - 12; Serviço de Atendimento Permanente - três), 60 aos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (Urgências - 35; demais serviços - 25), 25 aos hospitais privados (Urgências - 7; Consultas - 18) e 27 a diversos locais, incluindo consultórios.

17 CONDENAÇÕES

A sanção é aplicada pelo conselho disciplinar da secção da Ordem dos Médicos em que o clínico está inscrito. O Conselho Disciplinar Sul aplicou, em 2003, “17 condenações, entre advertências, censuras, quatro suspensões e uma expulsão”, disse o consultor jurídico Paulo Sanches. Das sanções há recurso para o Conselho Nacional de Disciplina
".

Subinhados meu.

Eu Já Contribuí Aqui

para o serviço público que o Paulo Querido presta à cultura e comunicação em Portugal.

"Empinar no Natal"

Vivo e trabalho numa grande cidade há mais de 20 anos.

Já fiz provavelmente milhares de bancos e realizei milhões de consultas em diversas unidades de saúde de pequena, média e grande dimensão.
Já trabalhei em SAPs para aumentar o orçamento familiar.
Já ouvi milhares de frases simples com imaginação.
No início da carreira clínica coleccionei alguns ditos e frases imaginativas. (Ideia comum a muitos médicos no início da sua carreira).

No início de Janeiro em mais um atarefado banco de um hospital urbano, quando perguntei a uma doente qual o motivo da consulta, obtive a seguinte resposta:

- Sr dr, o meu marido quis empinar-me no Natal.
- Quis o quê? Perguntei admirado.
A doente, surda, aumentou o volume da sua prótese auditiva e no meio de enormes apitos que estas originam, repetiu:
- Quis empinar-me no Natal. Eu assustei-me, caí e dei cabo deste joelho. Deve estar desmanchado e desconfio que deve ter líquido. Quando o quis tirar de cima de mim, dei cabo deste pulso.
- Pronto. Já compreendi. Vai fazer umas chapas e volta aqui.
- Antes de partir para o anonimato, ainda lhe perguntei: E o seu marido, que idade tem?
- Tem 80, senhor doutor.
- Pois é. A senhora tem 79. Bom ano e felicidades para si e para o seu marido!

Sem dúvida que esta história se torna simpática e se dúvidas houvesse sobre se o Natal é ou não a festa da família, a resposta é dada por esta pulsão sentida no Natal.

Enfim, Natal é mesmo a festa dos afectos ....

Mas...

Se tivessem menos 30 anos, seria caso de violência doméstica;
Se tivessem menos 50 anos, seria caso de violação, consumada ou não;
Se tivessem menos 60 anos, seria caso de amor intenso;
Se tivessem menos 70 anos, seria um caso de brincadeira de crianças influênciadas pelas telenovelas;
Se tivessem menos de 13 anos, e pelo menos 5 anos de diferença, seria pedofilia.

quinta-feira, janeiro 15, 2004

Afinal Em Que Ficamos? Odontologistas ou Médicos Dentistas!

Esta notícia do Público, de 11 de Janeiro de 2004 "Uma Centena de Centros de Saúde com Odontologistas", assinada por Lusa é no mínimo confusa. Depois de ler, tirei a conclusão: continuará a discriminação - os ricos irão para os médicos dentistas nas clínicas privadas, os pobres e a classe média irão para os odontologistas nos centros de saúde.

Que democrática democratização ou então que venha a correcção da notícia...

"O Governo promete "democratizar" gradualmente o acesso dos portugueses aos cuidados de saúde oral, colmatando as insuficiências do Serviço Nacional de Saúde (SNS) nesta área específica.
[...]
Os serviços nesses centros de saúde serão prestados nomeadamente por odontologistas. Estes profissionais poderão vir a ser vinculados ao Estado através de contrato individual de trabalho ou mediante protocolos. Contudo, o governante não descartou outras hipóteses e disse que estão a estabelecer-se "pontes" de entendimento com a OMD. A par desta iniciativa, continuam a decorrer programas de saúde oral pensados para grupos específicos, como crianças, idosos e portadores de deficiência.

[...] o bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas, Orlando Monteiro da Silva, Portugal é um país "onde só os ricos podem tratar os dentes", uma vez que a maioria dos médicos-dentistas trabalha nas 2500 clínicas privadas da especialidade.

"Já é tempo de deixarmos de ser um país de desdentados e de o Governo perceber que não há saúde geral sem saúde oral", reivindica.

[...] o dirigente quer ainda combater o exercício ilegal da profissão, uma intervenção que vai ser possível através dos novos estatutos da OMD.
"

terça-feira, janeiro 13, 2004

Dei Mais Um Passo A Caminho Dos Cem Anos!

(continua)

Literatura Médica XI

Laboratório de Anatomia Patológica

Av.

Tel: - Fax:
E-mail:

Análise nº:
Data:
Exmo.(a) Senhor(a): Maria

Exmo. (ª) colega Dr. (ª):

O exame histológico de biópsia endoscópica digestiva enviado com a informação clínica de gastrite crónica, pesquisa de H. pylori, pertencente à (ao) utente M , deu o seguinte resultado:

Diagnóstico Histológico:

Vários fragmentos de mucosa gástrica de tipo pilórico, com gastrite crónica activa moderada, com atrofia ligeira, associada a moderada quantidade de bacilos do tipo do H. pylori. Há metaplasia intestinal completa extensa.

domingo, janeiro 11, 2004

ãh?

"A vocação dos hospitais transformados em sociedades anónimas (SA) "não é tratar doentes mas sim arranjar dinheiro". A confissão é de Fernando Marques, presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Alto Minho"

dos jornais.
____________________
"ãh? — É aquele som que não se deve fazer em vez de "o quê?" ou "como (disse)?" (do Livro de Estilo do Público, edição on-line)


sábado, janeiro 10, 2004

"O texto sobre a felicidade foi mero desabafo de alma num sábado à tarde."

Com a vénia exigida e a devida autorização da Maria** apresento a Felicidade:

"Quando era muito jovem, acreditava que a Felicidade estaria logo ali, que bastaria um pequeno piscar de olhos e … zás! Nessa época, ainda não sabia que a a Felicidade é uma deusa ciumenta, vingativa, também desconhecia que o seu passatempo favorito é pregar partidas aos mortais que perseguem a ideia de a alcançar. À medida que o tempo foi passando, que fui ‘crescendo’, aprendi que esta deusa caprichosa é tão etérea quanto fugaz e, implacável, jamais se apieda das humanas distracções.



Por instantes - segundos, minutos, horas - surge, mas logo, asinha, esvoaça ...



A Felicidade acerca-se de mansinho quando contemplo na imensidão do mar a onda murmurar docinho, quando fito a majestosa vaga procelosa com a sua voz maviosa, quando vejo uma ave saltitar, uma nuvem peregrinar, uma árvore florir, uma criança sorrir, um relâmpago refulgir, quando aspiro o olor de uma flor, quando ouço um verbo palpitante, uma música inebriante, o som da chuva a cair, quando no coração dos que amo há compaixão para estenderem a mão sem olharem à razão, quando uma ditadura é derrotada, uma guerra não é desencadeada, quando um novo medicamento minora o sofrimento, quando um texto me dá aprazimento, quando nos humanos há sentimento, quando um pouco de calor atenua a dor, quando satisfaço o desejo de um beijo, quando depois da tempestade surge a potestade e, num dia primoroso, o sol radioso…

Em síntese, é isto o que eu penso sobre a felicidade. No fundo tudo se reconduz ao carpe diem. Agarrar o momento, fruí-lo porque sei que não vai durar muito, não complicar o que não tem complicação, lutar para conseguir melhorar o que está mal mas não me encostar e chorar pelo muito que não posso solucionar."

A Distância Entre Medicina, Justiça e Jornalismo vs Opinião Pública É A Substância Desta Notícia

Notícia do Portugal Diário de 09/01/04:

"«Violação por pessoa famosa melhora auto-estima»

Opinão é do psiquiatra Pio Abreu que gerou indignação na assistência de uma conferência

O psiquiatra Pio Abreu disse hoje numa conferência internacional sobre abusos sexuais que "a auto-estima de uma pessoa melhora se for violada por uma pessoa famosa", uma afirmação que gerou indignação entre a assistência.

A conferência sobre abusos sexuais, que decorreu na Universidade Lusíada, em Lisboa, suscitou polémica entre o público assistente, que questionou algumas vezes a defesa feita aos eventuais agressores e a acusação às alegadas vítimas.

Uma das intervenções polémicas foi a de Pio Abreu que, questionado por um dos presentes na assistência quanto ao significado da sua afirmação, respondeu que quando há más recordações as pessoas lembram-se do que lhes melhora a auto-estima e "as ligações a pessoas famosas são uma forma de reforçar a auto-estima".

O psiquiatra criticou seguidamente a indignação das pessoas perante estas situações e, embora concordando que todos anseiem por justiça, salientou que é necessário haver distanciamento.

Pio Abreu frisou que o papel do clínico é o de ajudar o doente a suportar o seu problema, melhorando a auto-estima, enquanto o papel do juiz é o de fazer cumprir as leis.

"Fazer justiça com sentimentos leva ao linchamento e à justiça popular e parece-me que é o que está a acontecer", disse.

A afirmação "as crianças não mentem" foi alvo de alguma discussão com o psiquiatra Adriano Vaz Serra, para quem as crianças são sugestionáveis e podem mentir, mas que não o farão se falarem por elas no contexto clínico, sem serem questionadas, sem que nada lhes seja procurado ou suscitado.

A propósito, a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos salientou a importância das crianças não mentirem em tribunal para que não se cometam injustiças.

"Podem mentir em todo o lado, não podem é mentir em tribunal porque senão não fazemos justiça com justeza", disse, acrescentando que "não se pode falar rapidamente, tem de ser com ponderação".

Uma juíza presente na assistência interveio para contar um caso de abuso sexual de uma criança que acompanhou e criticou o facto de, na conferência, "não se pôr a tónica nas mentiras dos agressores".

"Temos de falar nas mentiras dos agressores, onde não temos posto a tónica, porque os agressores têm mais razões para mentir e mentem mais", disse.

No final da mesa redonda, dedicada ao tema "abuso sexual, dimensão do problema", uma interveniente do público considerou haver alguma confusão e acabou por questionar quem é, afinal, o abusador e quem é a vitima quando há envolvimento sexual entre um adulto e uma criança.

Entre a assistência encontrava-se a mulher do apresentador de televisão Carlos Cruz, arguido no caso Casa Pia, que questionada pela Lusa se tinha sido convidada para o encontro apenas disse: "estou aqui de livre vontade"
."

Um Diálogo

Uma hipótese de diálogo num hospital público SA, no futuro:

- Sr. Dr tenho uma catarata no olho esquerdo.
- É dos seguros?
- Sou sim.
- Então vá para aquela sala que o hospital opera-a já.

Ou

- Sr. Dr tenho uma catarata no olho esquerdo.
- É dos seguros?
- Não, sou do Serviço Nacional de Saúde, que construiu este hospital e que lhe paga os ordenados, a si e a todo o pessoal que aqui trabalha.
- Então vá para aquela lista de espera que o hospital opera-a dentro de cindo anos!

quarta-feira, janeiro 07, 2004

Outras Ajudas Para Intelectuais

Obrigado JP e saia do teste rapidamente! E não exagere nos elogios, ok!

"De: aindaemteste@hotmail.com
Data: Quarta-Feira, 7 de Janeiro de 2004, 4:47
Para: medicoexplicamedicina@iol.pt
Assunto: bicho escala estantes
Sr. Doutor! Como está?
Procurei no Google o nome "Vincent Bengelsdorf", que assina as postas do
Bicho Escala Estantes e descobri um blogue com posts também assinados por
"Vincent Bengelsdorf". Ambos afirmam trabalharem ou terem trabalhado na
FNAC. Julgo, portanto, que não se trata de uma mera coincidência e que o
bicho não morreu só terá mudado de estante pois o conteúdo continua
.É esta
a morada do site: http://vbengelsdorff.blogspot.com
Já agora permita-me: Não desapareça, continue a brindar-nos com os seus
bilhetes, mesmo que sejam publicados de tempos a tempos, pois eles são dos
melhores que a "blogo-esfera" tem para nos oferecer.
Com os devidos cumprimentos,
JP
"

Outros Explicadores Para Intelectuais (II) (Outras Opiniões!)

"Caro Sr. Doutor,

Desde que me tornei leitora de blogs, descobri o seu e leio-o de quando em vez. Fiquei satisfeita por ver que tinha decidido continuá-lo, e tinha mesmo pensado em lhe enviar um mail a felicitá-lo por tal decisão quando li o seu post de hoje, sobre a jovem grávida que pela segunda vez atendeu. Acabo por lhe escrever acerca desse assunto.

Devo esclarecer desde já que acredito que a vida humana existe desde o momento da concepção, e que deve ser protegida desde esse primeiro instante. Não o digo por ser católica - que o sou, mas bastante crítica e reservando-me o direito de pensar pela minha cabeça e não me limitar a seguir o que diz a doutrina oficial. Por esse motivo, por exemplo, sou a favor do divórcio (e acredito firmemente que se os padres casassem ele seria autorizado de imediato), dos contraceptivos, etc, etc, etc (poderia multiplicar os exemplos, mas não vale a pena). Aquilo em que creio sobre o início da vida humana prende-se essencialmente por ninguém me ter conseguido demonstrar que eu fui alguma vez outra coisa que eu própria, a partir do momento em que duas células se juntaram e deram origem a um novo ser (que era eu, um eu diferente do que veio a nascer, claro, mas eu). Aí começou a minha vida; aí começou a da minha filha - e esta vida gerada no meu seio não era um pedaço de mim, mas um ser autónomo que eu tinha por obrigação proteger, antes do nascimento como depois. Para mim, isto é tão claro como água - mas claro como água é também que deve ser terrível uma gravidez indesejada, ou levada a cabo em circunstâncias difíceis como as que descreve relativamente à situação dramática desta rapariga.

Pelo que conta, trata-se de uma jovem que cresceu desapoiada, julgou ter encontrado a felicidade ao lado de alguém com quem quis ter um filho, se viu abandonada e não sabe o que fazer à vida, nem tem, pelo que me apercebi, grande vontade de a viver. Ela falava de abortar; o senhor falou-lhe em Espanha. Se eu defendo a vida que ela tem no ventre, também, repito, compreendo a situação desesperada em que ela se deve encontrar. Mas, sinceramente, será que fazer desaparecer o filho é a solução para os problemas que tem? ´Não o ter dar-lhe-á o emprego, o sustento, o carinho e o apoio que lhe faltam? E não foi o filho o que ela mais quis, mais desejou na vida? Não poderá ele ser a sua âncora, o seu norte?

Não, o meu discurso não é moralista nem ingénuo, acredite; sei o que a minha filha é para mim, a força que ela me dá, o TUDO que olhá-la nos olhos e rir com ela significa. Sei como sem ela ao meu lado eu teria deixado invadir-me por uma valente depressão, como teria desistido de ir em frente, por uma série de razões que agora não importam. Sei como não me posso arrepender de um dia ter casado, apesar desse casamento ter chegado amargamente ao fim, porque foi ele que me deu a minha filha. Essa mulher de quem fala não poderia sentir isso ambém? Se fosse encaminhada para uma das organizações/instituições que ajudam mulheres em idênticas circunstâncias (já que não tem mais ninguém), não poderia ela vencer as dificuldades e vir a ser feliz com o filho ao lado? Não vale a pena fazer passar essa mensagem à jovem que se apresentou desesperada diante de si?

Eu sei que é fácil falar. Mais difícil é agir e saber agir. Como eu gostava de poder encontrar uma solução, qual mágico tirando um coelho da cartola... Mas, cá bem do fundo de mim, tenho a certeza que não é terminando a gravidez que a vida dessa rapariga melhora. Pelo contrário: a um rol de desgraças acrescentar-se-ia uma nova e bem profunda dor, mais um sonho (e que sonho!) por realizar.

Não quero terminar sem fazer um reparo. Diz no final do seu post: "uma simples interrupção voluntária da gravidez". Quero acreditar que não seja, nunca, "simples". Partilhe-se da minha convicção sobre o começo da vida humana, ou não.

Avisa no seu blog que o correio recebido poderá ser publicitado. Peço-lhe o favor, caso por algum motivo o queira fazer, de não indicar o meu nome.

Os melhores cumprimentos, e continue a escrever, que eu continuarei a lê-lo.

RM"

Censura ou iMbEcIlIdAdE?

Sem comentários a esta mensagem que o amigo da liberdade (Gonçalo Simões) do blog Dois dedos de conversa teve a amabilidade de me enviar. No seu blogue há notícia de mais censuras...

"De: Gonçalo Simões
Data: Segunda-Feira, 5 de Janeiro de 2004, 19:05
Para Gonçalo Simões
Assunto: Censura do blogue

Envio, em anexo, a imagem da página do blog http://medicoexplicamedicinaaintelectuais.blogspot.com/ quando se tenta aceder-lhe a partir de uma escola pública, servida pela rede RCTS (que são praticamente todas).
Ou seja, estamos perante uma acto de censura que já denunciei no meu blog em 18 de Dezembro http://www.doisdedosdeconversa.blogspot.com
Quando detecto algum blogue cujo acesso está impedido por aquele sistema de filtrgem, tenho vindo a contactar com os respectivo(s) autor(es), alertando-o(s) para o problema.
Denuncie!!!
Proteste!!!!
Cumprimentos
Gonçalo Simões
--------------------------------------------------------------------------------
Serviço de Filtragem Web
http://medicoexplicamedicinaaintelectuais.blogspot.com/
--------------------------------------------------------------------------------
O acesso a esta página encontra-se vedado pelo Serviço de Filtragem Web* devido ao seu conteúdo ser considerado ofensivo ou inapropriado no âmbitro das instituições RCTS.
Caso a página pretendida não se enquadre na classificação acima descrita, contacte o responsável da sua instituição para que nos informe com a maior brevidade possivel.
________________________________________________________________________________________________
(*) Este é um serviço disponibilizado pela RCTS cuja adesão/activação é da inteira responsabilidade da instituição
"

terça-feira, janeiro 06, 2004

A Moça do Post de 16.12.03

Hoje fui procurado no banco de urgência semanal pela grávida da história do post referido no título.

O motivo da consulta não é relevante para este bilhete.

Relevante é o pouco diálogo que tive com ela.

- Então, sempre foi a Espanha?
- Não. Não tive dinheiro.
- Então decidiu continuar com a gravidez?
- Que remédio! Mas já decidi também, quando nascer afogo-o. Eu e a criança!
- Oh, xyz, não faça isso. Imagino que está a brincar comigo.
- Não estou. Eu não posso ter esta criança! Eu não devo ter esta criança! Como a vou governar?... Se nem a mim me posso governar?... Como posso vir a gostar dela, se nem de mim gosto?... (Iniciando um choro convulsivo).
- O senhorio já me disse que, como o contrato não está em meu nome, no fim do mês tenho que sair.
- Mas tem os seus pais, tem os seus irmãos e tem ainda os futuros avós, pais do seu ex-marido.
- Os meus pais não me querem lá, dos meus irmãos, só um é que gosta de mim, mas como a mulher dele não gosta de mim, nem o posso visitar. Os pais do zyx nem querem ouvir falar do filho quanto mais do neto e de mim.
- Então que vai fazer?
- Para já vou para X (nome de uma cidade de província). Como a barriga ainda não se nota, pode ser que arranje lá trabalho.
- E as consultas? A sua gravidez assim será uma gravidez de risco.
- Ainda não fiz nenhum exame e nenhuma análise que o meu médico de família me pediu. Ela já me falou que deveria ser consultada no hospital, por ser uma gravidez de risco, mas eu não quero. Não sei o que vou fazer à minha vida.
- Olhe, leve esta amostra e tome. Está com uma infecção urinária.
- Diga-me, se não tomar, posso abortar?
- Oh, xyz, não pense sempre nisso. Agora já é muito difícil! Tente encontrar alguém que a ajude. sei que a sua vida vai ser muito difícil. Se precisar de ajuda, diga.

Quando fechou a porta do gabinete, pensei: mas que ajuda lhe poderei dar? A ajuda que ela de facto quer, não pode ser dada. Só espero que não sinta o que de facto me disse.
Seria uma tragédia muito maior que uma simples interrupção voluntária da gravidez.

O próximo.
Pode entrar o próximo.
(Novas queixas, novos sintomas, novas histórias deste povo que eu amo!)