segunda-feira, agosto 23, 2004

Esclarecendo Uma Dúvida...

A Púrpura secreta solicita um esclarecimento sobre as diferenças que possam existir entre médico de clínica geral e internista.

Esclarecimento oportuno, pois os dislates que os nossos queridos jornalistas "pespegam" nos jornais, com o beneplácito das redacções, é exasperante...

Ainda muito recentemente a jornalista Fernanda Câncio do Diário de Notícias, nos seus artigos sobre a hepatite C, acompanhada por alguns médicos pertencentes um novo lobie, "o lobie da hepatite C", confunde as terminologias entre médico de clínica geral, médico assistente e médico de família.

(Entre parêntesis: o que faz correr assim de repente tanta gente atrás da hepatite C? Será mesmo filantropismo? Será jornalismo de investigação? Serão notícias "encomendadas" por laboratórios? Serão os jornalistas ingénuos? E que laboratórios? Os de análises clínicas, que querem mais análises convencionadas? E mais generalizadas? Massificadas? Mesmo sem necessidade! Ou os laboratórios de medicamentos? De medicamentos de uso hospitalar? Do interferon? Tudo muito confuso.....)
  • licenciado em Medicina: todo o estudante que concluiu o curso de Medicina, sem qualquer período formativo pós- graduado e que não pode exercer Medicina.
  • médico indiferenciado: todo o médico licenciado em Medicina, com um período formativo de pós- graduado que lhe permite exercer Medicina não tutelada.
  • médico especialista: médico de qualquer Disciplina que fez um período de formação pós-graduada.
  • médico de clínica geral: médico que exerce clínica geral. Qualquer médico pode exercer clínica geral, desde médicos indiferenciados a médicos especialistas. Desde recém-licenciados a médicos reformados. É frequente médicos de especialidades não clínicas, exercerem clínica geral para ganharem mais uns cobres: virologistas, anátomo-patologistas, bacteriologistas, radiologistas, patologistas clínicos, médicos legistas, etc. Em geral fazem má clínica geral, exceptuando aqueles que a fazem de modo continuado e já há muito tempo, pois a clínica geral é uma actividade essencialmente prática e de ambulatório, em oposição à medicina hospitalar.
  • médico assistente: qualquer médico que assiste um determinado paciente, uma única vez ou por períodos prolongados, quer a nível ambulatório, quer a nível hospitalar.
  • médico de família: médico especialista com um período de formação específica em medicina familiar, cujas principais características serão, exercer a sua actividade no ambulatório, extra-hospitalar, isto é, na comunidade, próximo do paciente, utilizar nas suas consultas uma abordagem bio-psico-social da pessoa doente e seguir continuadamente famílias agrupadas em listas e cada elemento em particular, desde o nascimento até à morte. Previne, trata, referencia, reabilita, acompanha até ao fim da vida.
  • médico internista: médico especialista com um período de formação específica em medicina interna, cujas principais características serão, exercer a sua actividade intra-hospitalar, utilizando uma abordagem clínica por sistemas, aparelhos e órgãos e cuja actividade se distribui fundamentalmente pelos aparelhos cardiovascular, pulmonar, endócrino, digestivo, pelas doenças do tecido conjuntivo, infecciosas e todas as suas interrelações.

domingo, agosto 22, 2004

Os Mitos

A revista Lux é conhecida pelos mitos que fabrica e que vai alimentando de acordo com as conveniências do mercado social.

Mas numa crónica sobre saúde (cefaleias em crianças) alguns outros mitos são denunciados.

Pode ler-se:

O balanço entre a investigação excessiva, cara e até nociva, e a atitude demasiado despreocupada que pode atrasar o diagnóstico de doença grave não é fácil de estabelecer.”

Além do mais, o problema das dores de cabeça em crianças encontra-se rodeado de mitos.

O mito "mais comum é o de que problemas de visão são causa frequente de cefaleias. É falso. Excepcionalmente, crianças com estrabismo discreto poderão, ao fim de algumas horas de leitura, queixar­-se de dor ocular, mas na sua enorme maio­ria, na quase totalidade das crianças com dores de cabeça, essa não é a explicação.”

"Outro mito envolve a inflamação dos seios perinasais. É verdade, a sinusite não é, de todo, causa frequente de dores de cabeça!
Quando tal acontece, a dor é muito localizada e há sinais de infecção."

"Quantas crianças com cefaleias crónicas passam primeiro pelo oftalmologista, e depois pelo "otorrino", antes de irem ao neurologista."

"Também é frequente observar crianças com cefaleias que fizeram um electroencefalograma, vulgo EEG. É quase o mesmo que pedir um exa­me ao coração a quem se queixa de dores de ouvidos.
"O que fazer então?"
"Em primeiro lugar, tem de se estabelecer o diagnóstico, o que é feito quase sempre pela "história", isto é, pela informação detalhada fornecida pela criança e pela família. A recolha cuidadosa desses dados vale muito mais do que o exame físico, análises e radiografias.

"Felizmente, a maioria das crianças com cefaleias crónicas sofre de enxaqueca, que pode surgir em qualquer idade, até em bebés de colo. A dificuldade em encarar a luz, a sensação de náusea, e outros familiares com as mesmas queixas, são marcas desta "doença, incómoda mas benigna."

"Quais são então os sinais de alarme?

  • Temos especial atenção para as que despertam a criança do sono ,
  • são particularmente intensas ao acordar,
  • aliviadas pelo vómito,
  • que se localizam à nuca
  • ou que são sempre no mesmo lado.
  • se as queixas aumentam progressivamente de intensidade ou frequência."

"Isto só se consegue se o médico tiver disponibilidade e tempo para ouvir com atenção, não só a queixa que motiva a consulta, mas também todos os factores sociais, familiares e emocionais que rodeiam a criança."


sábado, agosto 21, 2004

Um Comentário Posto A Uma Posta Da "Mãe Adolescente"

"Fico satisfeito pela mãe adolescente seguir os "bons conselhos", sempre subjectivos, é verdade, dados desinteressadamente. Mas se a "mãe adolescente" é mesmo real, e eu inclino-me para acreditar que sim, tem qualidades que não podem ser desaproveitadas, e não só na escrita, mas também na personalidade, na capacidade de iniciativa, na solidariedade, na avaliação da sociedade que a rodeia.
Médico Explica"

E acrescento agora:
qualidades presentemente tão raras, não só na adolescência, mas também, na idade adulta.

Em geral, na sociedade em que vivemos.

quinta-feira, agosto 19, 2004

Arritmologia de Intervenção

Sabe o que é?

É uma sub-especialidade.

Sabe de que especialidade?

Eu, Chávez E Os Dentes.

Hoje, quinta-feira, fui ao dentista.

Confesso que ... com medo.
O velho fantasma imaginário das brocas, das agulhas e das fortes e intensas dores.

Paguei.
E vim com um orçamento para uma futura transformação das faltas em implantes dentários.

Cada implante rondará os 200 contos. Como preciso de vários, o melhor é pedir um empréstimo bancário para que a resolução do meu problema dentário não desiquilibre o orçamento doméstico e o profissional.

E isto porque os implantes presentemente serão a melhor alternativa para a minha boca e a de milhões de portugueses. Mas eu terei crédito no banco, os outros talvez não...

E lembrei-me do Chávez. Aquele populista que inverteu as expectativas e ganhou o referendo.
Falou-se das suas políticas sociais.

Enquanto guardava o orçamento lembrei-me de alguns programas sociais que li:

- um médico em cada bairro.
- tratar os dentes a todos os venezuelanos.
- fornecer um par de óculos a quem necessitasse.

Não digo mais nada....

quarta-feira, agosto 18, 2004

"Esteja por isso o povo tranquilo, eles, em geral, até sabem o que fazem".

From: Alfredo
To: medicoexplicamedicina@iol.pt
Sent: Wednesday, August 18, 2004 2:00 AM
Subject: A propósito das sub-especialidades


O engano supremo, para o qual este blog, mais uma vez, alerta os leigos.

Médico explica Medicina a intelectuais .../... é serviço público, à falta de outra alternativa a quem quer saber um pouco mais sobre o estranho mundo da Medicina em Portugal.

Sobre as sub-especialidades, uma mensagem, para quem quiser ser bem tratado e não se arriscar a por em causa a sua própria saúde, paradoxalmente, ao mesmo tempo que julga estar a ser muito consciencioso: nada sabem sobre qual a sub-especialidade que precisam. Nunca. Ou só por mero acaso acertam.

A triagem, e a referenciação, deve estar sempre a cargo de uma especialidade generalista: Medicina Interna, Medicina Geral e Familiar, Pediatria ou Cirurgia Geral.

A propósito disso posso referir um filme interessante: a 3ª parte do "Querido Diário" de Nanni Moretti, na qual ele conta um caso pessoal de doença. Teve comichão e, conclusão básica de leigo: "devo ir ao Dermatologista", pensava ele. Pois se a comichão é na pele e o "especialista da pele" é o Dermatologista. Nada mais errado, como ele veio a concluir da pior maneira: muito dinheiro gasto em muitos "especialistas da pele" de renome; muito sofrimento e transtorno pela persistência e agravamento dos sintomas; muita frustração pela não resolução do problema. Afinal tinha um cancro do sistema linfático (linfoma de Hodgkin), que ainda foi a tempo de ser curado.

Conclusão do autor: os médicos não percebem nada de doenças e só prescrevem porcarias múltiplas que não ajudam a melhoras. Ou seja, ainda não se deu conta da patetice da sua atitude.

Conclusão real de quem sabe/mensagem ao público: o "especialista", ou sub-especialista (porque especialistas são todos), geralmente pouco ou nada percebe fora da sua sub-especialidade. Por isso é bom que, quando a ele se dirigem, tenham a certeza que a doença diz respeito à sub-especialidade em causa. Sob pena de perderem tempo, dinheiro, e continuarem doentes.

E quem sabe são os médicos das especialidades generalistas, que estudaram para isso mesmo:

- Medicina geral e familiar: 6 anos de curso + 2 anos de internato geral + 3 anos de especialização;

- Medicina interna: 6 anos de curso + 2 anos de internato geral + 5 anos de especialização;

- Pediatria: 6 anos de curso + 2 anos de internato geral + 5 anos de especialização;

- Cirurgia geral: 6 anos de curso + 2 anos de internato geral + 6 anos de especialização.

Esteja por isso o povo tranquilo, eles, em geral, até sabem o que fazem
.

terça-feira, agosto 17, 2004

"A mãe da arte de Hipócrates"

O bisturi diz que:

"Relativamente ao tema do internato médico, lamento que o antigo e o recém aprovado [Decreto-lei] consagrem tão pouco tempo à medicina geral e familiar, a mãe da arte de Hipócrates, ou porventura pretenderão formar especialistas em fractura craniana por queda, sem conhecimento, ao menos rudimentar, do diagnóstico diferencial de síncope?"

Concordo. A Medicina como ciência tem centenas de anos e sempre foi generalista. Apenas em meados do século XX começou a verdadeira especialização e este século será o século das sub-especialidades ou super-especialidades.

Quanto mais super especializada for a Medicina, maior importância terão as especialidades generalistas: medicina geral e familiar, medicina interna e pediatria.

"O Escândalo da Casa Pia!" - Benefício da Dúvida

O Escândalo da Casa Pia! é um novo blogue. Esperemos que não seja um novo escândalo!

Dou o benefício da dúvida razoável.

é um "Blog dirigido por antigos alunos da Casa Pia e destinado a esclarecer quanto aos verdadeiros escândalos dessa instituição durante os anos que lá passámos. Mais do que a mitificação da instituição como "instituição de bem" e para o bem público, registaremos e analisaremos aqui os seus contornos mais sinistros para que fique claro o que pensamos sobre a dita."

"Sex, sun, sea, and STIs: sexually transmitted infections acquired on holiday"

Serviço Público: usem preservativo!

"Sex, sun, sea, and STIs: sexually transmitted infections acquired on holiday"

"The Dane in Spain was mainly on the Dane." These words were spoken by the late Dr Robbie Morton, drawing on three decades’ experience in venereology, about the sexual behaviour of holidaymakers and their risk of acquiring sexually transmitted infections (STIs) while abroad. Despite Morton’s years of clinical expertise his opinion would not survive the rigours of evidence based guidelines and at best would be graded as level 4, if at all. So is his assumption that sexual encounters while on holiday tend to be between people of the same nationality correct? What are the implications of international mixing on the risk of acquiring sexually transmitted infections? How should we manage people at risk before and after their holiday?

BMJ 2004;329:214–7 (British Medical Journal)

domingo, agosto 15, 2004

Frases Esparsas, Sentidas Com Interrogações

" .../...
Isto tudo para sugerir um post sobre este assunto [internatos médicos], não só para satisfazer a minha curiosidade como também para divulgar a questão a todos os que acompanham o seu blog.
A minha pouca experiência clínica "pede" por mais uns anos de formação geral que o actual sistema de ensino (nomeadamente o ainda pouco profissionalizante 6º ano) não oferece, mas à minha pressa de ser médico agrada-lhe os dois anos a menos de estudo.

E no centro deste dilema está a minha principal dúvida: Será que um médico especialista tem de ser conhecedor de áreas da medicina que provavelmente não lhe serão úteis no seu dia-a-dia, gastando tempo e neurónios em assuntos que lhe são apresentados na sua forma mais básica e abreviada, muitas vezes nem chegando a servir de experiência clínica útil? Ou esta é uma ideia completamente (ou relativamente) errada
?

(E. B. C.)

Frases Esparsas, Sentidas Com Lazer

".../...
(...) em relação às noites dos estudantes de Medicina, infelizmente, devido às rivalidades entreprofessores da Faculdade que querem que a sua disciplina seja a mais "respeitada", temos a vida bem "lixada" e pouco tempo para noites...
No entanto, há sempre festas da Faculdade e nessas também se vai directo para a Faculdade. E há sempre o Bairro Alto, quando não se podem perder muitas horas de sono. E agora, pelo menos em Santa Maria, há as Olimpíadas da Medicina, que é o "must" da diversão... E depois os ENEMs, os EMELs, etc..."

(L.)

"(...) A foto com a carioca "pintada de branco" não é protector solar - "apenas" àgua oxigenada cremosa misturada com descolorante, para lhes pôr os pelos loiros, mania de qualquer mulher brasileira...rs"

(M.S.)

Frases Esparsas, Sentidas Com Denúncia

" .../...
(...) em relação a Sousa Franco, diz o que toda a gente pensou mas ninguém teve coragem de dizer: que a arruaça e a falta de civilização daquela gente podem ter influído na morte de Sousa Franco. Involuntariamente, mas influíram."

(M.)

".../...
(...) Hoje em dia, infelizmente e por causa dessa promiscuidade, não podemos pretender que o comum mortal acredite que somos sérios. Pois não o parecemos.
Mas basta ver o exemplo execrável que vem de cima numa manchete de hoje...."

(A. V.)

Frases Esparsas, Sentidas Com Elogios

".../...
Em toda esta cadeia trágica, a única competência [do apoio psicológico] pertence aos bombeiros durantes os desencarceramentos."

(G.)

"Com ele [o blogue] , abre uma brecha no muro feito de tantos silêncios e ruídos de relação e comunicação que, na maioria dos casos, separa os médicos dos seus pacientes. (...)"

(F.)

Frases Esparsas, Sentidas Com Paixão

"Olá, cai em seu blog hoje, e confesso que estou confusa....vc é do Brasil???
preciso de uma ajuda...kkk
estou apaixonada por um médico...:' .... ele é recem formado .... será que tenho chances, ou agora ele tem outras coisas pra pensar... kkkk acho que na verdade o melhor profissional pra me ajudar seria um psicologo né? só sei disser que estou neurótica pelo médico.... não sei se pelo rapaz ... entende?
me mande seu msn caso tenha... adoria bater papo contigo.
"

(R.)

Frases Esparsas, Sentidas Com Crítica

" .(...) Quanto ao seu post, lamento alguns detalhes: aceitar ir a uma viagem, ainda que à tal fábrica de genéricos. Referir aceitar receitar umas caixitas a bem do DIM. Não é bonito e discordo. Mas tem o condão de mostrar como essas coisas se passam. São as viagens da treta aos congressos/apresentações da treta; são os passeios de burro pela serra; são as aulas de condução de risco; são os jantarinhos e almocinhos; são as coisas ainda mais graves, os casos de polícia. A minha filosofia na matéria é: um laboratório não financia nada sem a perspectiva de ter retorno; o médico deve-se cingir, na prescição, ao bem exclusivo do seu paciente (...).

" (...) Claro que é chato não ir a esses restaurantes com preços impossíveis, não fazer essas viagens, etc.... (...)

(A. V.)

" .../...
Mas continuo a achar que há muito para fazer e para pensar quanto à comunicação directa dos médicos e das várias instâncias e instituições a que estão ligados ou os representam e os utentes-pacientes."

(F. M.)

" .../...
Em todos os momentos do já longo, e complexo, historial clínico do familiar a que me refiro, os passos seguintes foram sempre bem explicados, pormenorizadamente em alguns casos. Até que, chegados à fase dos cuidados paliativos, o silêncio se instalou de repente.
Enquanto familiar, não quero contactar os médicos fora da presença do doente (...)"

(F. M.)

"Uma questão:
"Quantas vítimas serão "necessárias" num acidente para poderem receber apoio?
E as familias?"

(I.)

".../...
(...) Compreendo que o tenha dirigido [o blogue] sobretudo aos jornalistas, mediadores dessa relação [médico-doente] e, em muitos casos, geradores de ainda mais ruído."

(F.)

Frases Esparsas, Sentidas Com Dor

".../...
Foi no IPO-Porto e na altura, eu via-a com falta de ar e a revirar os olhos e perguntei ao médico o que estava a acontecer, (é evidente que eu sabia que ela estava a morrer, mas queria saber o que se estava a passar) o médico respondeu com um certo ar de desprezo e falta de paciência :
- as pessoas morrem assim!
Eu dei a mão à minha mãe o tempo todo , cerca de meia hora de estertor, e fiquei com aquela dúvida, que se calhar só vou ver respondida quando chegar a minha vez..."


(M.)


(Sobre um caso familiar.)
".../...
De que forma um doente oncológico seguido num hospital público é acompanhado depois de se terem esgotado todas as hipóteses de intervenção cirúrgica e de se ter entrado já no último ciclo de quimioterapia paliativa?
Que papel têm os médicos oncologistas a partir desse momento?
É a unidade da dor (existente no hospital em questão) que passa a acompanhar o doente com maior proximidade?
E quando se agrava o quadro clínico, o doente é internado?
É nesse momento que o definem como doente terminal?
O que pode ele esperar de acompanhamento por parte do hospital enquanto doente terminal?"

"Sei que as minhas dúvidas provêem da enorme dificuldade de os médicos e os pacientes envolvidos em situações como esta enfrentarem e partilharem a aproximação da morte."

"(...) E vejo o tempo a passar, tempo precioso para que o doente se prepare, como melhor entender - mesmo que, já esclarecido, preparar-se, para ele, seja não se preparar! - e na posse de todos os dados, para o que se segue."

(F.)

".../...
O apoio psicológico às vítimas é completamente inexistente.
Recordo obsessivamente os dois sacos verdes de plástico com a roupa dos meus pais e as alianças deles embrulhadas em algodão e os anéis da minha mãe completamente desfeitos.
As instituições deviam ter particular atenção a estes traumas irreversíveis.

Em Inglaterra e em França já existem estas equipas."

(A.)



sábado, agosto 14, 2004

A Traição Do Laboratório Genérico!

Hoje foi um dia irrepetível.
Um dia em que, se o trabalho não fosse estar 12 horas de banco, "metia baixa".

Entrar de plantão logo de manhã com uma forte odontalgia (dor de dentes), uma polpite que se avizinha e só pensar na dor, transtorna-me.
Não me posso transformar em doente. Não posso mostrar um fácies de doente, carente de afecto e compreensão. Eu estou ali para tratar dos outros. Não posso inverter as posições.

Os doentes vão aparecendo.

A meio da manhã instala-se uma cefaleia tipo enxaqueca. Nunca antes tal tinha sentido: dor pulsátil, unilateral, ligeira fotofobia. Dia ruim.

Almoço.

Duas horas depois começo a sentir uma epigastralgia (dor de estômago). Esta é habitual. Estou há 3 anos à espera de tempo para repetir a esofagogastroduodenoscopia! (endoscopia digestiva alta).

Os doentes vão desfilando. Os casos vão sendo resolvidos.

Só as minhas queixas é que não: odontalgia, cefaleia e epigastralgia. Mas com a dor de estômago é que não posso. Ainda para mais fico com medo e não tomo qualquer analgésico. Vou à procura de um PPI ou IBP qualquer.

Tanto delegado de informação médica que por aqui vai passando, que alguma amostra de um omeprazol ou outro prazol qualquer deverá estar por aqui esquecida.

Procuro, procuro e não encontro.

Lá está! Em cima de um armário jaz uma embalagem de Omeprazol ITF, cheia de pó. É isso. É um omeprazol genérico. Guardo no bolso da bata e respiro de alívio. Pelo menos a epigastralgia dentro de uma hora poderá estar aliviada.

Continuo a consultar. Mentalmente vou procurando água.
Já sei. Há um colega que trás sempre uma garrafa.
Com a garrafa na mão, uma dor na cabeça, uma no estômago e outra na boca, preparo-me para abrir a embalagem e alcançar o desejado comprimido.

Aberta a embalagem, que vejo eu: rebuçados. O laboratório substituiu os comprimidos por rebuçados, para adoçar a boca aos médicos.
Por isso a embalagem estava abandonada no armário, cheia de pó!

Desiludido, olho para o relógio: são 20 horas. Vou-me embora. Levo comigo o dever cumprido e as três dores que me acompanharam silenciosas nestas doze horas.

São 23 horas. Chego a casa. Vou às últimas do Público. Já tomei o meu omeprazol. Espero que o efeito se inicie rapidamente. Que leio? Não. Não pode ser. Mais sete jovens que morrem numa estrada. Entre 15 e 25 anos. Não há paz na estrada!

Não aguento mais. Vou dormir. Só assim as dores se afastarão de mim.
Amanhã não vou trabalhar.

TGIF

TGIF não é uma sigla, nem um acrónimo da medicina.

A Gazela do Deserto explica.

sexta-feira, agosto 13, 2004

Imagens-Choque: Cuidados Paliativos Serão Necessários?

"Sou mãe adolescente": Aconselho A Sua Leitura

Aconselho a leitura (a superficial e a profunda) deste novel blogue:

Pela qualidade da escrita inocente,
pela qualidade da adolescência não vivida,
pela rara qualidade da vontade de escrever na adolescência.
Pela vontade introspectiva.

Começa asim:

"Cheguei
Tenho muita necessidade de partilhar com alguém a minha experiência. Além disso, fui forçada a abandonar a escola e resta-me este meio para continuar a exercitar a escrita. Desejem-me boa sorte!
"

e confessa, aquilo que deve ser um alerta para todos os pais e mães:

"o facto de não termos sido amados pelos pais na altura da vida em que mais precisávamos, a amargura de termos tido que estancar durante anos as lágrimas que quisemos libertas no colo de alguém"

Eu desejo!

E desejo que ame tanto o seu filho, como ama o pai, que não a amou ou não soube amar.

quinta-feira, agosto 12, 2004

"É de fugir a sete pés." Concordo. Mas Não Do 2001!

O AIFAI (quem lê o Aviz está permanentemente actualizado!) no bilhete "Top para começar mal o dia, revisto e aumentado" diz-nos:

"- "Still The Same" - Bob Seeger - Por acaso também é o autor do tema precedente. E pensar que, nos idos de 70, este tema passava na discoteca "2001", no Estoril."

A discoteca 2001 faz parte do imaginário de muitos estudantes de medicina e não só.

Quantas, quantas, quantas e quantas vezes se ia directo da faculdade para o 2001 e vice-versa.

Bela vida a de estudante universitário.

Será que ainda existe com a mesma simbologia?

quarta-feira, agosto 11, 2004

O Público Confirma O Blogue

A blogosfera antecipou-se aos media.

Não há cuidados paliativos em Portugal. Ou o que há é pouco, segundo o jornal Público.

Bons artigos sobre um relatório da OMS. Bom serviço público do Público e da jornalista Isabel Leiria.

Falta de Cuidados Paliativos Causa "Sofrimento Desnecessário" a Doentes Terminais.

Muitos Gostariam de Morrer em Casa.

Três Perguntas a António Lourenço Marques: "Em Portugal estamos atrasados 20 anos"

(ligações não permanentes)

Futuros Médicos: O Que Pensam Do Cancro E Dos Cuidados Paliativos ?

"Caro Médico que explica (caro futuro colega)
Tenho lido o seu blog nos últimos dias (como sempre), tendo assistido não só à "rixa" (hesitei em usar esta palavra mas faltou melhor) como à transcrição dos e-mails que lhe têm enviado...

Não quero de modo algum desvalorizar a dor que é a perda de familiares próximos (ou não) ou amigos, .../... de modo a que tenho todo o respeito por quem por isso passou porque infelizmente sei que chegará a minha vez. Sei muito bem que as pessoas não duram para sempre, só não tive a infelicidade de ser atingido por uma dor dessas...
Creio eu, e segundo conversas com professores da Faculdade e médicos amigos, que há meses inquiri sobre este assunto, há anos não se morria de cancro. Se bem que o médico soubesse que de tal se tratava, a família ficava a saber que era "morte natural"... Tudo bem até aqui... Morrer de velhice, morrer de morte natural, era assim que se morria. Fazia sentido em pessoas de certa idade.
No entanto, tudo muda de figura, quando se tem contacto com crianças vítimas cancro. Muitas delas até sobrevivem, outras não têm a mesma sorte... E é verdade que custa ver idosos à beira da morte (vejo-o bastantes vezes, infelizmente). Mas custa muito mais ver crianças nessa situação.
Por uma vez tive oportunidade de visitar o piso 7 do IPOFG, o Serviço de Pediatria. As palavras não fazem justiça às imagens que guardo. A tristeza, a desolação de crianças, pais, amigos...


E haverá apoio governamental extraordinário para esta situação? Ou apenas as ONGs, as IPSSs?
É de lembrar que algumas destas crianças serão os professores de amanhã, os médicos de amanhã, quem sabe, os políticos de amanhã...
Talvez saiba responder a esta pergunta: o que se faz por estas crianças?"

Lixinha (?) do blogue 100Norte.

Não sei, não! Não lhe sei dar uma resposta! Ou melhor, até sei, mas não quero dar.

terça-feira, agosto 10, 2004

Imagens Choque: A Opinião De Uma Socióloga.

"Olá.
Boa noite.
... de facto eram imagens muito fortes e que fiquei impressionada.
No entanto não estou em desacordo com a publicação desse tipo de imagens se fôr para sensibilizar, para fazer com que uma pessoa pare e pense.
De facto a publicação de imagens choque é cada vez mais utilizado nas acções de sensibilização.

Em 2002, o governo brasileiro decidiu colocar imagens chocantes nos maços de tabaco. Estas imagens mostram as consequências mais comuns do tabagismo, como mau hálito, impotência sexual, doenças cardíacas, complicações na gravidez e cancro do pulmão. A foto do bébé numa unidade de neonatologia é sem dúvida a mais chocante.
A imagem é acompanhada da frase: “Ministério da Saúde adverte: Em gestantes, o cigarro provoca partos prematuros, o nascimento de crianças com peso abaixo do normal e facilidade de contrair asma”.

Países como a Austrália e a Islândia já pediram autorização ao governo brasileiro para utilizar a foto do bébé prematuro.
Um estudo feito pelo instituto de pesquisas britânico Cancer Research UK concluiu que as imagens chocantes nos maços de cigarro são a maneira mais eficaz de convencer um fumador a largar o vício.

Outros exemplos existem (como é o caso da morte de animais para vestuário de luxo) e provaram dar resultado.

A falsa ideia de que não é preciso mostrar porque todos sabemos o que isso é ... não passa do que o próprio nome indica Falsa Ideia.E é esta a minha opinião!

CGFL"

segunda-feira, agosto 09, 2004

Olá!

"Olá", disse T do blogue dias que voam.

"O amigo ABS chamou a atenção para a polémica sobre um assunto me toca pessoalmente, por o ter vivido.
Quando li o seu texto que descreve como explica a filha à doença do pai, comparo a sua atitude com o médico da minha mãe, que me dava a notícia enquanto ela se vestia, depois de ele ver a a e a examinar. Nunca algo me custou tanto, fingir que não tinha importância uma nova operação ou tratamento. Sorrir e afagar a minha mãe e evitar os medos e fantasmas. Falamos de cancro, no caso. Não tenho vocação dramática, e ainda hoje sonho com aqueles momentos. Pesadelos, mais concretamente.
Mas não me queria alongar muito nesse aspecto pessoal.
Há o aspecto desumanizado da morte. O doente ligado às máquinas, a morrer devagarinho, isolado, sem a família ao lado porque só pode entrar uma pessoa de cada vez e cinco minutos para se despedir.
Exerci esses cinco minutos com imensa revolta, queria que a minha mãe morresse de mão dada comigo e rodeada pela família.
Assim não aconteceu. Mandaram-nos para casa e aguardar o telefonema.
Há coisas que de facto não compreendo. Temos que saber ajudar a morrer. Rodear de afecto a pessoa que se vai embora.
E conservar-lhe até ao fim a dignidade humana.
Era só isso. Gostei de o ler apesar de ser um assunto de que me custa falar ou polemizar acerca.
Por isso lhe escrevi a carta . Obrigada por ter a pachorra de a ler. Às vezes é mais fácil escrever as dores interiores do que verbalizá-las.
T"

domingo, agosto 08, 2004

Estou De Férias, Espero Não Voltar Assim!

IMAGENS FORTES COM UM OBJECTIVO: Paz na Estrada!









Cuidado Com O Sol De Agosto!



Fundamentalismos em toda a parte. Este foi em Copacabana.

"E a humanidade dobrou o jornal aliviada".

Do blogue SULPARATI, com a devida vénia à sua autora, MariaMar, lembrei-me de transcrever este seu post sobre um "post" do Miguel Torga, no seu Diário.

E lembrei-me porquê?
A minha filha hoje "faz anos", se tivéssemos vivido em Hiroshima, não teria tido tempo para os fazer.


"Caldelas, 8 de Agosto - Em Hiroxima, onde a bomba atómica foi lançada, tudo quanto era vida morreu. Por causa do fumo e da poeira que se levantaram, o mundo esteve de respiração suspensa durante vinte e quatro horas, sem saber o que tinha acontecido. Mas hoje, de manhã, os jornais, diligentes, já estavam senhores da verdade inteira. Não tinham morrido vinte, trinta ou quarenta mil pessoas, como era de temer. Para matar a ridicularia de quarenta mil pessoas não era necessário tanto sonho. Não, felizmente, não se tratava de um desapontamento. Nem quarenta, nem sessenta, nem setenta mil mortos. Isto é: todos os seres vivos liquidados!
E a humanidade dobrou o jornal aliviada.

Miguel Torga, Diário
"

Um crime contra a Humanidade, nunca julgado.

E que tal uma visita guiada ao sítio da cidade: www.city.hiroshima.jp

sábado, agosto 07, 2004

Com A Dieta Na Carteira Durante 50 Anos!



O doente já vai nos 97 anos e como me disse segue religiosamente a sua dieta que um meu colega há 50 anos lhe ofereceu com a perigosa e imperativa ordem médica: "Até ao fim da sua vida!"

E ele assim fez. Até ao fim da sua vida, que se espera ainda longa. Talvez mais um futuro centenário!

Objectos Em Extinção. E A Promessa do Abrupto?

O Abrupto em 29/07/2003, postava:
"O nosso médico “para comemorar a recente façanha do Bloco de Esquerda que conseguiu institucionalizar a magia e o esoterismo (tão na moda!)” envia “uma lista de pequenos objectos médicos já extintos ou em vias de extinção”:
  • "1) três tipos de ventosas de vidro (extintas);
  • 2) uma caixa de alumínio porta agulhas (extinta);
  • 3) uma seringa de vidro (extinta);
  • 4) um termómetro de mercúrio (em vias de extinção) e o respectivo utensílio para repor abaixo de 37º (extinto);
  • 5) uma "garrafa" de soro em vidro de soro fisiológico (substituído por plástico);
  • 6) uma ampola de clorofórmio e o seu invólucro em papelão (em desuso);
  • 7) frascos de vidro para transporte de urina e sangue com rolhas de cortiça (substituído por plástico e tubos de ensaio especiais);
  • 8) caixa de alumínio com uma ligadura engessada (invólucro extinto)”

(Manda também uma foto que acompanhará estes objectos no blogue que em Setembro se fará só para esta série.)"

Como o blogue não apareceu em Setembro... eis a foto!

sexta-feira, agosto 06, 2004

When Machines Were Works Of Art



Tive um pai. Melhor, um Pai.Também foi um doente terminal...

Tive um pai. Melhor, um Pai.

Também foi um doente terminal, consciente até à hora da morte.
Foi há muito, talvez uma década. Mas para mim foi ontem!

Foi doente terminal de uma doença maligna, já tinha sobrevivido a uma. À segunda ainda sobreviveu alguns anos.

Quando falo em demissão dos IPOs e das oncologias dos hospitais distritais e centrais, sei do que falo.

Dez anos depois, está tudo na mesma? Não. Há uma lei...

Era um dia qualquer.
A minha Mãe percorre os 300 quilómetros que nos separavam com um telefonema: “O Pai foi à consulta, eu fui com ele e o médico disse que ele estava muito mal, que não valia a pena lá voltar. Para o levar para casa e esperar.”

Foram estes os cuidados paliativos que o Estado ofereceu ao meu Pai, que faleceu oito longos dias depois.

Mas o meu Pai tinha filhos que o adoravam e cada um parou uma semana do seu valioso trabalho, este que vos escreve também, e “paleamos” conjuntamente com a nossa mãe, excluindo os netos, de tão cruel despedida.
O seu médico de família trouxe o conforto e as prescrições necessárias para tão doloroso momento.
Nessa semana não fui médico, fui filho que se despediu do pai e não esqueço os sucessivos apelos por ele lançados nos últimos dias: “Quero um médico, chamem um médico!”.

Mas o médico não estava lá, estava o filho.
E o médico de família, incansável lá aparecia para palear. O médico de família deve ser assim.

Não como infelizmente acontece nos nossos centros de saúde, onde são médicos de família das 8 às 13 ou das 14 às 18. A maior parte demite-se tanto da sua função, como os nossos hospitais se demitem da paleação.

Mas tenho inteligência suficiente para não os criticar. Não são eles que se demitem. Foi o sistema português que quis que eles se demitissem e passados tantos anos, que podem eles fazer, senão cumprir horários? Foi para isso que foram educados. Com os médicos hospitalares passa-se o mesmo, cumprem horários.

Faleceu ao oitavo dia depois do oncologista assistente o mandar para casa: “Evita de cá voltar!”, disse à sua esposa de uma vida.

Eu chorei e choro.

Não há cuidados paliativos em Portugal! Não há a cultura de palear em Portugal, não por culpa dos médicos, mas por culpa do sistema.

quarta-feira, agosto 04, 2004

"Frasquinhos Com Pedacinhos De Cancro"

O blogame mucho explicou-me com duas variantes: a lolita, na variante intelectual e o amigo besugo na variante clínica (ao que alguém me segredou, talvez tenhamos mais em comum do que aquilo que julgamos).

À lolita (sinceramente não sei se a poderei considerar amiga, pois continua a perpassar nos seus escritos aquele sentimento primário anti-médico) lembro que, as explicações explicadas por maus explicadores (como eu) ainda são menos explicáveis, quando os explicandos perante uma explicação mal explicada pretendem explicar o inexplicável e originam mal entendidos.

Lolita: eu, como médico, gosto que um Linguista Explique Figuras de Estilo ao Médico bloguista para que este possa explicar ao besugo e à lolita, que quando conta histórias da sua prática clínica extra-hospitalar, usa por vezes expressões populares, com mais realismo para quem as lê.

Ao amigo besugo agradeço a sua lição de "medicina oncológica", mas provavelmente leu a minha mensagem em diagonal e não compreendeu que aquela história tinha horas de vida.

É como se eu fosse amanhã fazer uma endoscopia por uma dispepsia supostamente funcional e saísse de lá com "um cancro que já nem em frasquinhos coubesse". E como sabe isso pode acontecer: as doenças às vezes são silenciosas!

O amigo besugo usou uma ANTIPARÁSTASE para responder à minha EXPLEÇÃO. (Não sei se serão estas as figuras de estilo aplicáveis ... mas são palavras bonitas)

Eu continuo anónimo e responsável; os médicos envelhecerão; 50% dos doentes oncológicos curarão, os outros 50% terminarão doentes e irão em vão.

Os cuidados primários de saúde continuarão primitivos como disse, quando deveriam ser os primeiros cuidados; os cuidados hospitalares, independentemente dos novos sufixos, lá continuarão como sempre foram: secundários, longe do cidadão, distantes, amargos, impessoais, com médicos a subir e a descer escadas e elevadores, quando deveriam ser secundários aos primeiros, rápidos e próximos; os cuidados terciários, mais especializados lá continuarão, e ...

Os cuidados paliativos lá permanecerão na Lei (capítulo VIII) à espera da sua aplicação! Aqui estaremos todos de acordo.

Mas lá estarei no dia 24 de Agosto a dar-vos os parabéns pelo futuro aniversário e pela frase de apresentação da lolita de então: "Mas eu escrevo lo que me da na gana e não o que gostam de ouvir. Espero poder provar isso daqui em diante."

E provou mesmo, por isso gosto de vocês, não gosto de betinhos, nem do stablishment, nem da silly season ... nem das tias silly. Nem do conformismo.

Viva a anarquizante blogosfera e esta anárquica posta!

P.S. Recebo um mail de uma pessoa amiga a perguntar-me: "Mas quem é a lolita?" Respondo na volta: "Não sei! É uma personagem da blogosfera! Assim como o médico explica é para muitos, menos para ti!"

terça-feira, agosto 03, 2004

A Lolita Explicou-se. O Que Me Aconteceu Hoje, Explica-me. A Madalena S Explicou Aos Dois!

A Lolita explicou-se, embora num tom pouco simpático (“O senhor parece não ter gostado do que eu escrevi aqui. Vejamos se eu me consigo explicar.”).
Não é novidade para ninguém que, a aplicação do termo 'o senhor', em certas ocasiões, tem um significado insultuoso.

Mas é um osso do meu ofício.

Eu sei que para muitos intelectuais, particularmente de algumas áreas do conhecimento, todos os médicos são maus, todos os médicos são exploradores, ou dos sentimentos ou das carteiras, embora a medicina privada, seja tão legítima como a convencionada ou a pública.

O que é importante é que se respeitem as regras éticas.
Mas a lolita não conseguiu compreender o que eu queria dizer interrogativamente com a frase entre aspas, aspas que só por si modificam o sentido de “perder tempo”.
Mas, enfim, o que a lolita não compreendeu, compreenderam os leitores que me escreveram.

O que me aconteceu hoje, talvez faça a lolita compreender. A querida lolita, pois eu sou assim: não me aborreço com ninguém...

À minha frente, um pai doente, sem saber e uma filha. Ele de 50 anos e ela de 25. Ela intelectual, ele trabalhador incansável na sua profissão. Até hoje!
Trazem um envelope com o resultado de um exame requisitado por mim há 5 dias. Não os vejo muito apreensivos.
Mas pelo volume do envelope, fico eu apreensivo. Vejo que traz material para análise histológica.
Há 5 dias, a filha convenceu o pai a vir ao médico, por ligeiríssimas “dores abdominais incaracterísticas” e um emagrecimento inexplicado de 5 quilos.

Feita a história clínica e a observação, decido (a intuição, a muita prática, o “olho clínico”) iniciar o estudo do doente pelo estômago. Solicito-lhe uma endoscopia e digo à filha que era bom que o exame fosse feito com uma certa urgência.

Hoje, perguntei como faço sempre, o que lhe disse o médico que fez o exame, responde-me que o pai entrou sozinho. Mas o pai apenas sabe dizer que lhe deram o envelope para mostrar ao médico. Só sabe que está bem e que tudo não passa de uma preocupação da filha.

Abro o envelope e a primeira suspeita confirma-se: lesões extensas compatíveis com cancro do estômago. Lá estavam os frasquinhos com “os fragmentos do cancro” para confirmação anatomo-patológica.

Que fazer?
Dizer de chofre aos dois: "Olhe tem um cancro no estômago, se calhar já muito avançado. Olhe o máximo que lhe dou são 8 a 12 meses de vida. Para quem defende que se deve dizer TUDO, era isto que EU deveria ter FEITO.

Mas não pode ser assim.
Fui preparando os dois: "Provavelmente vai ter que ser operado, não podemos perder tempo, tem que fazer outros exames. Temos que aguardar os resultados da biópsia", e outras frases que façam pensar!

Arranjei uma desculpa, e pedi à filha para uns dias depois vir falar comigo. Ela compreendeu que a situação não era nada favorável.
Depois se entendesse falar com o pai ou que fosse eu a falar, trataríamos do assunto.
Na despedida, o pai ainda me pergunta, na sua inocência: "E não há dieta? Posso comer de tudo?"
Respondi-lhe: "Use e abuse de tudo até à operação, depois vê-se!"

Mas porquê esta história, sobre o “perder tempo” em sentido figurado, que a lolita não compreendeu?

Imaginemos que o doente tem que marcar a consulta de cirurgia rapidamente, para se caracterizar o seu caso no IPO, para se estadiar a sua neoplasia e para se decidir em reunião de serviço o tratamento a seguir. Imaginemos que essa consulta de cirurgia está cheia de doentes inoperáveis, já estudados, ou já operados e com evolução negativa e que a sua consulta de cirurgia é marcada três ou seis meses depois, porque entretanto está ocupada com casos já decididos?

Isto é apenas um exemplo, que até em termos médicos nem se aplica muito à situação, mas é para que a lolita compreenda o que eu quis dizer com “perder tempo”.
Quem perde tempo é o doente que está à espera da cirurgia, não são os doentes terminais .... esses por cada minuto que passa, ganham tempo!

Mas a Madalena S na história anterior, deixou-nos uma ideia do que são os cuidados paliativos, tratar e preparar o doente e a família...

segunda-feira, agosto 02, 2004

Acerca dos Cuidados Paliativos, Uma Experiência Pessoal

E depois de lerem pensem se em Portugal há cuidados paliativos!


"Olá Dr,
Ao ler o seu último post apeteceu-me contar-lhe o que vi nos Cuidados Paliativos de um Hospital em xxx, Toronto, Canadá: Era o ano de 2001 e fui assistir ao internamento do meu sogro (hoje, ex-sogro), com cancer nos ossos e 80 anos de idade, primeiro numa enfermaria com 2 pessoas , onde diariamente ele e nós familiares recebiamos a visita 2 ou 3 vezes por semana, de uma assistente social que nos ia preparando para "o fim"...O Hospital foi o que de melhor vi na minha vida (já vivi nos EUA tb, Brasil e Índia), médicos e enfermeiros vestidos com uns simples fatos de treino em vez das habituais fardas brancas, toda a gente tinha uma cor diferente, por andar e por especialidade. Nós estavamos no piso do cancer, claro, o quarto tinha uma pequena kitchenet com desinfectantes para as mãos e tb uma casa de banho privativa. Foi a primeira vez que vi, refrescarem a boca dos doentes com uma espécie de xupa-xupa de esponja colorida, com sabor a morango...


No último dia antes dele morrer, ele é levado a outro andar, dos Serviços Paliativos mesmo, onde o quarto é totalmente privado. O quadro em frente à cama é daquelas pinturas que ao olharmos já sabemos, que estamos ali para ver alguém "partir"... era uma paisagem de mar, com uma cadeira de praia vazia virada pró por do sol, e depois dentro do quadro, a imagem vai-se repetindo, mais pequena, uma dentro da outra como um corredor para o além...


Fiquei impressionada, mas logo perguntaram se queriamos ali alguém, tipo um padre ou uma assistente social pra ficar conosco. Dissemos que não e ficou a enfermeira com o estetoscópio para ouvir quando realmente o coração parava e foi assim, na calma, já sem dores que o vimos adormecer pra sempre. Ali é último contacto com o familiar morto, pois como foi cremado, e não temos religião, foi para uma Casa Mortuária, Congelador, até a Primavera permitir a cremação (a terra dos cemitérios fica congelada e não permitem enterros no Inverno). Não há Igreja, nem caixão visível, nem choros histéricos como assistimos aqui. Pode ser mais "frio", mas para quem parte e principalmente para quem fica, esses tais cuidados paliativos são excepcionais... Pra não falar dos voluntários vestidos de Pai Natal, com 6 cães pelos corredores, visitando cada paciente, para os velhinhos fazerem festinhas, quando já não reagem nem às visitas dos familiares!
Ali não podemos escolher, nem Médico nem Hospital, mas o Estado oferece a todos , de qualquer extracto social a mesma qualidade de prestação de serviços. Se Medicina Socializante é aquilo... então, é tb de 1ª classe.
Obrigada por ter lido,
Madalena S
"

domingo, agosto 01, 2004

É Feio Transcrever E Esquecer O Contexto

Não é ético no meio bloguístico fazer transcrições fora do contexto total do bilhete que se publicou.

E a lolita, do blog blogame mucho, um blog de referência, no seu post "O princípio da escassez." deturpa o conteúdo de um bilhete de resposta a uma leitora:

1) transforma uma interrogação académica, filosófica, organizativa, científica e médica em afirmação programática deste blog. Isso não se faz!

2) direcciona para este blog frases como "a densidade própria dos pensamentos lineares, do humanismo caótico, do altruísmo inato e involuntário" atribuídas a outros factos, mas que levam indirectamente o leitor a atribuí-las ao autor deste blog.

3) deturpa o pensamento do autor com adjectivos e frases como "Quando se confundem princípios com contingências o essencial torna-se, fatalmente, acessório; e com o que é acessório, de facto, não se perde tempo. É tão lógico concluir que, quando alguém está doente, tanto quer ser curado como não quer sofrer - as duas vertentes, repare-se, não totalmente sobrepostas desse estado - como é assustadoramente fácil distorcer esta lógica, de forma aparentemente didáctica e em nome da escassez de recursos.".

4) Omite as conclusões finais e altera em completo a ideia-resposta à leitora que tem linhas base bem definidas:

  • os IPOs demitem-se dos cuidados paliativos;
  • em Portugal não há cuidados paliativos organizados, vivendo-se muito da carolice.
  • os cuidados paliativos são necessários, não só para diminuir o sofrimento da doença e do tratamento (dores insuportáveis, vómitos incoercíveis, tonturas e vertigens, edemas, amputações, dificuldades na alimentação, depressões, problemas sociais e familiares, etc) mas também para preparar o doente para a despedida da vida.
  • os cuidados paliativos tanto podem necessitar apenas de apoio psicológico e administração de morfina, como intervenções cirúrgicas e colocação de próteses.
  • o autor deste blog tem casos clínicos seus, de familiares e não só, que demonstram o que atrás disse.

5) E uma interrogação bem específica: quem deve prestar os cuidados paliativos em Portugal? Atribuí-los a instituições lucrativas como se prevê na Lei? Ou integrá-los nos Cuidados Primários de Saúde, na comunidade e na família a que o doente pertence? Mas estarão os nossos Centros de Saúde preparados para isso? Quantos Centros de Saúde têm internamento? Quantos têm os seus internamentos desactivados? E os médicos de família estarão preparados (e motivados!) para os cuidados paliativos? Os cuidados paliativos implicam uma resposta de 24 sobre 24 horas, as complicações da doença e as interrogações dos doentes e familiares sugem a qualquer hora. A disponibilidade tem que ser permanente. Asistir passivamente à morte de alguém é uma tragédia e provoca uma revolta dentro de nós.

6) Talvez falte essa experiência à lolita.

7) E portanto não esperava isto do referido blog que muito prezo: é feio transcrever e esquecer o contexto!


sexta-feira, julho 30, 2004

A Preparação Para A Morte

"Caro "Médico explica",

Parabéns pelo seu blogue. [Obrigado.] Com ele, abre uma brecha no muro feito de tantos silêncios e ruídos de relação e comunicação que, na maioria dos casos, separa os médicos dos seus pacientes. [E cada vez mais se instala esse muro. O médico cada vez mais usa uma prática defensista e a comunicação vai-se perdendo no meio de tantas TACs, ressonâncias magnéticas e prozaques, xanaxes e valiuns, e repare: o doente até agradece mais um taquesinho a uma qualquer parte do corpo!]


Compreendo que o tenha dirigido sobretudo aos jornalistas, mediadores dessa relação e, em muitos casos, geradores de ainda mais ruído. [Concordo, afinal não sou o único a pensar assim!]

Mas continuo a achar que há muito para fazer e para pensar quanto à comunicação directa dos médicos e das várias instâncias e instituições a que estão ligados ou os representam e os utentes-pacientes. [Eu penso assim: quanto mais instituição, menos comunicação. Mas haverá alternativa? O serviço público infelizmente será sempre assim, enquanto o ordenado do médico ou de outros funcionários públicos não estiver ligado à produção, ou a outros meios de avaliação, a regra será sempre a mesma, assim como o ordenado. Falte muito, falte pouco, consulte muito ou consulte pouco, opere muito ou opere pouco, seja muito simpático ou a antipatia pura, o ordenado será sempre igual para todos, portanto, quanto menos, melhor. E isto aplica-se a todas as profissões, desde o calceteiro da câmara municipal até ao juíz do Supremo.]

.../...

- De que forma um doente oncológico seguido num hospital público é acompanhado depois de se terem esgotado todas as hipóteses de intervenção cirúrgica e de se ter entrado já no último ciclo de quimioterapia paliativa? Que papel têm os médicos oncologistas a partir desse momento? É a unidade da dor (existente no hospital em questão) que passa a acompanhar o doente com maior proximidade? E quando se agrava o quadro clínico, o doente é internado? É nesse momento que o definem como doente terminal? O que pode ele esperar de acompanhamento por parte do hospital enquanto doente terminal?
Sei que as minhas dúvidas provêem da enorme dificuldade de os médicos e os pacientes envolvidos em situações como esta enfrentarem e partilharem a aproximação da morte. Em todos os momentos do já longo, e complexo, historial clínico do familiar a que me refiro, os passos seguintes foram sempre bem explicados, pormenorizadamente em alguns casos. Até que, chegados à fase dos cuidados paliativos, o silêncio se instalou de repente. Enquanto familiar, não quero contactar os médicos fora da presença do doente para lhes colocar estas questões, agora absolutamente prementes para definirmos juntos os passos seguintes. Considero moralmente abusivo fazê-lo. Mas, em cada consulta, assisto ao mesmo silêncio e à mesma indefinição. E vejo o tempo a passar, tempo precioso para que o doente se prepare, como melhor entender - mesmo que, já esclarecido, preparar-se, para ele, seja não se preparar! - e na posse de todos os dados, para o que se segue. Peço-lhe o seu esclarecimento e o seu conselho. Agradeço-lhos antecipadamente. E envio-lhe um abraço. [Obrigado pelo abraço.]"


A todas as suas importantes questões posso responder-lhe assim: infelizmente o trabalho do IPOs termina no diagnóstico e no tratamento "curativo".
Quando se passa para os cuidados paliativos os IPOs demitem-se. Poderia também dar-lhe exemplos concretos da minha clínica de doentes que são "abandonados" na fase a que se refere.

Mas eu também me interrogo: provavelmente é assim que deve ser. Os IPOs existem para diagnosticar e tratar dentro da medida do possível. Enquanto "perdem tempo com a paliação" podem atrasar-se diagnósticos dos quais podem resultar remissões completas com terapêutica atempada.

Outra questão, para a qual não há uma resposta: devemos ou não devemos (nós médicos) comunicar ao doente que tem um "cancro" e que tem "x meses de vida".

À família não se deve esconder nada. Ao doente, pode-se comunicar a gravidade da doença e a pouca esperança de vida, de várias formas e de acordo com a vontade deste e a sua personalidade. E há sempre quem pretenda não saber e viver na esperança de que se trata de uma doença autolimitada.


Em conclusão:

  • Em Portugal não há cuidados paliativos oficiais e organizados, embora haja muitos médicos (especialmente médicos de família) com especialização nessa área, apesar do pouco que vão fazendo os IPOs.
  • Comunicar ou não comunicar ao doente que tem um cancro e vai morrer dentro de 6 meses, eis o grande problema a ser gerido caso a caso.

quarta-feira, julho 28, 2004

terça-feira, julho 27, 2004

Vírus West Nile: A Importância Do Nome

Há doenças cujo nome assusta: o vírus do Nilo é uma delas.
Nilo é nome de rio gigante, em África, terra desconhecida, onde existem aqueles vírus esquisitos e hemorrágicos.
Por isso os meus leitores se amedrontam e escrevem a pedir explicações.
E porquê? Porque querem ir descansados para o Algarve.

E a comunicação social? Que tem feito? Que atitude tem tomada? Quem ouvir as notícias fica sempre com a dúvida: é grave? É mortal?

Podem procurar a resposta no sítio da Direcção-Geral de Saúde, de onde respiguei este parágrafo:

"O vírus West Nile pode infectar o homem através da picada de um mosquito. Em cerca de 80% dos casos a infecção não apresenta sintomas e nos restantes 20% os sintomas são semelhantes aos da gripe. A evolução da doença é, em regra, benigna e as infecções graves são inferiores a 1%"

Onda De Calor

O Povo aprende.

Fui fazer bancos em locais de alerta laranja durante o passado fim de semana.

Não há dúvida que o Povo ficou em casa durante as horas de maior calor.

Não há dúvida que os lares tiveram mais cuidado com os seus idosos.

Não há dúvida que as famílias protegeram mais os seus membros mais vulneráveis.

Não há dúvida que os media quando querem, fazem um bom trabalho!

Não há dúvida que as televisões são um quarto poder!

Aguardo os resultados estatísticos, mas presumo que este ano a mortalidade, apesar de aumentar sempre nas ondas de calor, como é óbvio, deverá ser inferior à do ano passado.


sexta-feira, julho 23, 2004

Confesso Que Cometi Um Erro Médico!

Confesso que errei.
O erro médico existe e eu errei!
Erro sem consequências graves.
 
Mas errei. Errei na prescrição.
 
Olhando para trás, pergunto como foi possível prescrever ao doente X uma fluoxetina genérica em vez de uma sinvastatina genérica?
 
Não era um doente de grande risco cardiovascular. Para além da hipertensão ligeira e controlada, tem uma dislipidemia borderline, mas como sou agressivo no tratamento destes doentes, para além do ácido acetilsalicílico de 100 mg, há três meses iniciei-lhe 20 mg de sinvastatina para um colesterol total de 200 mg/dl e  a fracção LDL de 133 mg/dl.
 
Ontem, no consultório particular, quando consultava no monitor a sua prescrição, não vejo a dita sinvastatina e pergunto: "Não está a tomar um remédio para o colesterol?"
 
- "Tou!" respondeu o doente.
- "Fluo qualquer coisa", diz. 
- "Eu de facto tenho aqui uma fluoxetina, mas isso não é para o colesterol. É para a tristeza, a depressão!"
- "Não andou triste há 3 meses, para eu lhe prescrever isto?", insisto como a tentar encontrar uma justificação para a presença da fuoxetina naquela lista de medicamentos.
- "Não. O dr disse-me que me ia receitar um remédio para o colesterol nessa altura!"
 
Não disse nada, mas pensei: "Errei. Troquei a prescrição! Tenho que confessar ao doente que andou a tomar durante três meses um medicamento errado."
 
Assim fiz.
Era um doente diferenciado, intelectual urbano (dos poucos que controlam a pressão arterial, o colesterol e tomam uma aspirinasita para prevenir eventos cardiovasculares!), expliquei-lhe que estavamos na presença de um erro médico, neste caso sem consequências graves e pedia-lhe desculpa.
Expliquei que a informatização e a prescrição electrónica diminuem os erros , mas não os eliminam. Disse que os doentes devem sempre confirmar os medicamentos prescritos lendo o papelinho no interior que presentemente lhes é dirigido e portanto com uma linguagem muito mais acessível e logo veria que o medicamento não era para o colesterol mas sim para outras situações.
 
Voltei a insistir que não tinha uma explicação lógica para o sucedido e lhe renovava as desculpas. 
 
Desculpas aceites.
 
E se não fosse um intelectual compreensivo? Daqueles que sabem que o erro médico não é negligência? E se fosse num serviço público? Teria no dia seguinte a TVI, a SIC, o 24 Horas e outros com estas "caxas":

"Troca de medicamentos durante três meses quase que levava doente à morte!"  ou "Engano de medicamentos origina grande sofrimento a doente, com dores de cabeça, suores frios, pontadas por todo o lado, com altos na barriga e tonturas fequentes".

Mas não foi assim que se passou.

O erro médico existe, temos que o combater, mas não se pode eliminá-lo porque somos humanos, assim como em nenhuma outra actividade se podem eliminar na totalidade.

Mas há que estar alerta: nós, os médicos, e os doentes, os principais prejudicados.


quinta-feira, julho 22, 2004

A Dona Albina

A Dona Albina sempre que vem à sua consulta bi-anual para os seus controles, diz-me: “Sr dr a minha filha e o meu marido é que me deviam acompanhar!”.
Já ouvi este início de consulta com esta frase nos últimos dez anos dezenas de vezes.
Oiço, encolho os ombros, vejo o que tenho que ver em relação à consulta. A doente vai falando e eu vou flectindo a cabeça como que anuindo a tudo o que ela diz e dizendo: “Pois é!”.

A doente fica satisfeita com a anuência e vai desfilando o seu rosário de queixas com a sua voz monocórdica. Pelo meio vai sempre dizendo: "A minha filha e o meu marido é que deviam estar aqui!"

E eu vou pensando: “Coitado do marido e da filha.” O marido é mouco (como ela diz) e ultrapassa o problema, mas a filha, coitada. Deve sofrer por ter uma mãe como a dona Albina.
 
E isto porque elegi a senhora dona Albina como a doente “mais chata desde que sou médico!” e não lhe posso negar os seus 15 minutos de fama, perdão de consulta.

Ela não tem culpa, mas já compreendem porque é que a filha e o marido nunca a acompanham.

Mas acalmem-se: sempre a respeitei! Nunca lhe recusei a sua consulta de controle e ela nunca faltou. É uma doente com uma assiduidade de 100%.

terça-feira, julho 20, 2004

Já Passou Um Ano? Tirem-me Daquiiiii!

Passou um ano.
Mas que faço eu aqui? 

Lembraram-me os amigos e os inimigos, os conhecidos e os desconhecidos, por e-mail ou por referências. Eu não me lembrei de ninguém, penitencio-me por tal facto.
 
Mas também não posso deixar de agradecer a muitos outros que me têm credibilizado.
 
Não é falsa modéstia, mas não mereço.

Várias tentativas foram feitas para sair. Em vão. O vício da escrita arrasta-me para aqui.
Mais o da escrita que o da leitura. Gostava, mas não sou leitor assíduo dos outros blogues e por isso me considero um bloguer acidental e marginal não merecendo as mais de 200 referências que o Technorati me atribui, porque raramente as faço aos outros. 
 
Continuo anónimo e responsável.
 
Há quem presuma que sou A ou B, mas sou C, de cidadão atento.
Há quem me veja a residir em D ou em E, mas enganam-se.
Há quem me procure no hospital F ou no centro de saúde G, mas eu lá estou se me encontrarem.
Há quem me julgue da especialidade H, I ou J, mas sou especialista pela Ordem dos Médicos.
Há quem me critique por dizer K, L ou M.
Há quem me aplauda por dizer N ou O.
Há quem me envie mensagens sugerindo o assunto P ou Q.
Há quem proteste pelo tema R ou S.
Há quem me confidencie que sofre da doença T ou U.
Há quem me peça ajuda para o problema V ou X.
 
E  o Y não gosta de mim e a Z apaixonou-se! 

Que posso eu fazer?
 
Vou ouvindo o JPP na SIC-N afirmar quanto lhe é difícil alimentar diariamente o monstro, referindo-se ao seu blogue. Faço minhas as suas palavras, só que o dele vai engordando e o meu definhando por falta de alimentação.
 
Apesar de avisar que “Este blog não é um consultório on-line." já fui médico virtual de alguns, já fui a segunda opinião de outros.

Mas, o que preciso mesmo é seguir o exemplo do anterior secretário de estado da saúde: transitar directamente para o Turismo!!???

E porquê?
 
Porque estou farto de assistir a isto: lucro desenfreado, lucro cego.

Hoje recebi um telefonema de um emigrante para que consultasse um seu familiar num lar de idosos, particular, muito particular até, quinhentos contos mensais. O idoso, muito idoso, acamado, inconsciente, num cubículo sem luz, sem ventilação, jazia.
 
Acredito que mesmo assim façam um favor ao nosso emigrante!
 
Não posso deixar de pensar no meu futuro, não sei se não será melhor seguir os passos do SF!


domingo, julho 18, 2004

Dicas, Um Pequeno Blogue De Serviço Público

Dicas, é um blogue simpático cujo autor por várias vezes me tem sugerido alterações ao meu.
 
Sugestões simpáticas para quem pouco percebe destas coisas e pouco tempo tem para "perder" com a melhoria de alguns dos seus aspectos gráficos.
 
E logo hoje que o Blogger me presenteou com novas funcionalidades, que poderão  melhorar muito o aspecto gráfico dos blogues. Tenha eu tempo para as estudar!
 
Como afirma na sua apresentação: "Uma espécie de ajuda para quem apenas tem paciência para escrever, mas gostava de personalizar algumas partes do seu blog. Para utilizadores do blogger."

Como as Dicas do seu blogue são para quem as quiser aproveitar e quem sabe, outras propor, faço esta referência, pois de um serviço público se trata e gratuito.
 
Pela visita que fiz, trata-se de um blogue de Avis, não do Aviz, blogue famoso e que já lá esteve sediado, nessa simpática vila, mas que, como FJV confessou  num bilhete, emigrou para as estradas dos cocos.



quinta-feira, julho 15, 2004

Daqui, Do Centro Da Europa...

Nao! Nao vim acompanhar o nosso ex-primeiro para as suas novas funçoes no centro da Europa.
Escrevo hoje, bem longe de Portugal. No tal Centro Europeu onde as decisoes se "decidem", numa cidade dividida entre tres Estados e onde a industria quimica e' rainha.

E' uma historia curta e simples:

- Sr dr venho convida'-lo para visitar as nossas instalaçoes em xxx! Atira a matar o delegado de informaçao medica.
- Mas isso fica em XXX! digo eu.
- Sim. Venho convida'-lo a visitar a nossa fabrica para que confirme a qualidade dos nosssos medicamentos genericos.
- Mas porque eu? Perguntei intrigado.
- Sabemos que o dr prescreve genericos e queremos apresentar-lhe a nossa fabrica e o nosso staff.
- Sim, estou a ver. Vem-me assediar.
- Nada disso dr. Diz o DIM.
- Venho apenas convida-lo.
- Saimos na quarta e regressamos no Domingo. Nao tem que se preocupar com nada. Vao colegas seus do resto do pais e apenas ha' uma questao.
- Diga la´ qual e' a questao!
- Nao podem levar as esposas. Como e' uma viagem profissional, por uma questao de etica, a empresa nao permite acompanhantes.
- Esta' bem desta vez aceito! Tenho rejeitado tantas por uma questao de etica.

(E ate' e' politicamente correcto: sempre sao genericos, ninguem pode levar a mal e ate' aproveito para espairecer deste trabalho absorvente, penso eu, como que a desculpar o meu ego por ter aceite uma viagem paga por um laboratorio da industria farmaceutica).

"Outras historias" tem-me levado a rejeitar viagens paradisiacas.

Assim de repente, lembro-me de um convite para um pais das arabias. Foi assim:

- Sr dr venho convida'-lo para uma viagem a xxx para assistir a um simposio organizado pela minha empresa.
- Mas isso fica em XXX! digo eu, como sempre.
- Sim. Venho convida'-lo.
- Mas porque eu? Pergunto sempre meio intrigado com tanta amabilidade da industria.
- Senhor dr tenho tres convites e escolhi-o a si.
- Sim, estou a ver. Mas nao sera' pelos meus belos olhos.
- E' durante uma semana e se quiser levar acompanhantes contacta com a agencia de viagens para saber os preços.
- So' precisa de passar x unidades disto, mais x daquilo, mais x daquilo e mais x daqueloutro.
- Eu compreendo muito bem a vossa profissao e ate' tenho pena, pois sei que tambem sao diariamente pressionados pelas vendas. Mas muito sinceramente nao estou interessado. Ate´lhe posso prescrever umas caixitas, para que os seus chefes vejam que trabalha, mas nao conte comigo para esse tipo de viagens.
- Boa tarde e ate' 'a proxima!
(E assim perco eu uma viagem que se calhar nunca a poderei fazer, mas paciencia...)

Outro convite para um pais encantador e que recusei (e custa tanto recusar viagens com tudo pago. Mas porque nasci honesto? Porra!).

Começa sempre da mesma forma estudada:

- Sr dr venho convida'-lo para um congresso em xxx.
- Mas isso fica em XXX. E' muito longe! digo eu.
- Pois. Venho convida'-lo.
- Pelos nossos dados o sr dr prescreve uma media de x caixas por mes. So' tem que passar mais cinco por mes. Como ve e' facil, diz sorrindo a encantadora DIM.
- Pelos vossos dados? Mas sabem mais que eu? Nem eu sabia que prescrevia tanto do seu laboratorio.
- Mas como conseguem esses dados?
- Isso nao sei. Sao coisas das empresas.
- E' durante uma semana e se quiser levar acompanhantes contacta com a agencia de viagens para saber os preços.
- Olhe, voce ate' e' simpatica, deve ter uma familia para sustentar e se como diz eu ja' passava esses medicamentos, como e' logico vou continuar a passar, mas viajar cedendo a pressoes, nao, desculpe la', mas eu sou assim.
- Boa tarde e ate' 'a proxima!

A minha consolaçao e' de que a maior parte dos medicos tem comportamentos eticos, porque diz quem sabe o que esta' a dizer, que os viajantes sao sempre os mesmos.

terça-feira, julho 06, 2004

280 Dias Depois!

Ou 40 semanas depois!

Ou "9 meses depois"!


Da posta de um bilhete que repousa nas profundezas do Archives nasceu um ente que quer ser humano e ter tantos direitos como os demais.


Os bilhetes lá estão, a verdadeira luta pela vida vai agora começar!

segunda-feira, julho 05, 2004

Dois Dias Depois....

Estou com dor de dentes.

Do post de há dois dias, um faleceu o outro está a voltar à vida. Talvez decida viver até aos 100!

Caímos Porque Fomos Traídos Pelos Mitos! (rev.)

Sim. Perdemos porque fomos traídos pelos mitos que nos impuseram:

- Fomos traídos pela mito da Nossa Senhora de Fátima!

- Fomos traídos pela Fé na Fé!

- Fomos traídos pela mito da Nossa Senhora de Caravaggio!

- Fomos traídos pelo mito do Pauleta!

- Fomos traídos pelo recente mito do Ricardo!

- Fomos traídos pelo mito do Figo!

- Fomos traídos pela mito da falta de confiança no Rui Costa!

Acabou-se. Amanhã recomeçam as prescrições de Xanax e Prozac!

Os Mitos têm sempre pés de barro!

sábado, julho 03, 2004

Alguém Me Ajuda!

Alguém me envia uma SMS e pergunta: "Então como está a correr o banco?"

Em dia de preparação para a euforia nacional, em vésperas do Dia D futebolístico aprazado para amanhã, "o banco corre bem", respondi-lhe.

Menti.

É óbvio que não recebemos envenenamentos, acidentes, enfartes, cadáveres, portanto pode-se afirmar: corre bem. Sem esforço!

Mas não! Esforço físico não houve. Mas psicologicamente está muito pesado!

Os médicos também sentem, embora por vezes guardem esses sentimentos bem aferrolhoados para que ninguém os desvende sob aquela bata branca, fechada, testemunha de muitos actos, factos, sentimentos, etc.

Para além de dar entrada a ALGUÉM em estado de caquéxia involuntária, por neoplasia da cabeça do pâncreas, aos 35 anos e explicar aos familiares o que ainda não previam: a Morte está aí, a aproximar-se!


... e para além de dar entrada a ALGUÉM em estado de caquéxia voluntária, por decisão voluntária de não querer viver mais, aos 98 anos, apesar de uma saúde de ferro e poder atingir ou ultrapassar o centenário e explicar aos familiares o que ainda ninguém lhes explicou: os médicos não podem obrigar ninguém a alimentar-se!

Assistimos à instalação da Morte, involuntária num caso, voluntária noutro!

Mas os médicos não podem ficar dependentes destes existencialismos.

Que culpa terá o doente seguinte, se trouxer com ele uma extraordinária dor de dentes, nunca antes sentida, e o médico prescrever reflexamente o que quer prescrever, sem levantar os olhos da secretária, enquanto o seu pensamento percorre a vastidão da natureza humana num turbilhão de ideias que não levam a lado nenhum. Mas à minha frente está um ser humano com uma enorme dor de dentes a suplicar ajuda, talvez para que consiga ver a final em tranquilidade e atrás de mim estão dois à espera da morte, um chamou-a o outro foi por ela atacado e não se conseguiu defender.

Para onde me devo virar?

Eu não acredito em Nossa Senhora de Fátima, eu não acredito em Nossa Senhora de Caravaggio.

Eu acredito na dor de dentes, no cancro do pâncreas e na incerteza da natureza humana.

terça-feira, junho 15, 2004

Peço Desculpa, Aos Leitores E Aos Curiosos Googleanos

Mas actividade sabática e editorial sem interrupção da actividade assistencial pública forçam um interlúdio temporário.

quinta-feira, junho 10, 2004

As Emoções Também Matam!

Não tenho dúvidas que, se António Sousa Franco não tivesse ido à lota de Matosinhos, ainda estaria vivo.

A deslocação à lota e a intensidade das emoções aí vividas foram o factor precipitante do enfarte do miocárdio num coração já doente. Obviamente que, no dia seguinte, ou noutro qualquer dia, um outro qualquer estímulo, ou mesmo o simples evoluir da doença, conhecida ou não, poderia evoluir para o enfarte.

Mas, basta ver as imagens televisivas, para nos aperceber que o seu estado já não era semelhante ao dos dias anteriores. Parece pálido, com um fácies de preocupação. Ou seria já dor? A respiração parece mais ofegante. São tudo congeminações subjectivas e compreendo que seja politicamente incorrecto afirmar o que afirmei.

Mas, as emoções matam. A reacção aguda ao stress pode matar.

Como refere o besugo do blogame mucho já vimos morrer muita gente à nossa frente, nas nossas mãos. Já vimos muitos cadáveres chegarem ao nosso local de trabalho. Muitos tentámos ressuscitar, outros não.

Mas, quando somos testemunhas presenciais da morte, sabemos que não "há duas mortes iguais" e há sempre algumas que nos marcam para sempre.

Há uns anos, assisti a uma dupla morte. Primeiro morreu ele de morte súbita, transportado para o banco a reanimação foi impossível. Avisada ela na sala de espera, disse que ia telefonar para o filho e que depois falariam comigo.

Decorrida quase uma hora chega o filho.

Abraçada ao filho, exclama: "O teu pai morreu!"

Foram as suas últimas palavras. Cai fulminada no chão.

Numa hora o filho perde o pai e assiste à morte da mãe.

Ela não resistiu à emoção da morte dele.

quarta-feira, junho 09, 2004

A Morte de Sousa Franco, A Saúde dos Intelectuais E O Colesterol

Acerca da morte de António Sousa Franco respigo duas mensagens deste blogue com quase um ano de postagem:

Em 22 de Julho de 2003, escrevi:

"Para ler e pensar.

Qual o papel da comunicação social no crescendo desta situação! Os nossos telejornais transformaram-se em várias TVs Medicina.

Perde-se meia-hora a falar de uma doença de que se conhece um caso em Portugal, e nessa meia-hora a hipertensão, o colesterol elevado, o abuso do tabaco, o sedentarismo levaram muitos deste mundo para o outro!
Doenças evitáveis.
Há quanto tempo não mede a sua pressão arterial, há quanto tempo não faz um análise ao colesterol.
Sabia que neste momento, sentado ao computador, pode estar com uma pressão arterial alta, p.ex. 200/120 mmHg e um colesterol total de 350 mg/dl, dois importantes factores de risco para as doenças cardiovasculares e sentir-se bem, felicíssimo da vida? Mas, amanhã pode ter um enfarte ...
"

Em 14 de Agosto de 2003, disse:

"- Sobre "O Colesterol - em mais de 90% dos casos uma mudança nos hábitos alimentares reduz os níveis de colesterol" - afirma um naturopata. (O que não afirma é que a mudança de comportamentos em qualquer doença tem um êxito quase nulo, confirmado por estudos científicos.)
Cá por mim, faço como muitos dos meus colegas, ingiro diariamente uma aspirina de baixa dose e uma estatina para prevenir as doenças cardiovasculares, um dos flagelos da actualidade.
"

Há meses...

Fui consultado por um intelectual, perguntei-lhe: e o colesterol? E a pressão arterial? Sabe como estão? Não sabia, já há dezenas de anos que não sabia nada do colesterol...

Hoje...

Morreu António Sousa Franco, 61 anos. Segundo o relatório preliminar da autópsia divulgado pelos telejornais, foi vítima de um "enfarte do miocárdio fulminante, mas as suas coronárias mostravam lesões ateroescleróticas antigas", provavelmente relacionadas com o colesterol!

Provavelmente uma morte evitável...

Intelectual ou não que me lê, sentado há horas ao seu computador, amanhã dirija-se ao seu médico de família, ao seu médico assistente, ao seu médico cardiologista, ao seu vizinho médico, atá ao médico da sogra, se for necessário, mas controle o seu colesterol pelo menos uma vez por ano.

Lembre-se: o colesterol mata!

sábado, junho 05, 2004

"Médico de família? O que é isso?"

"Médico de família? O que é isso?

É aquele médico que a gente aponta á sorte, na listagem que nos mostram, ao sermos atendidos pela primeira vez?
É um sujeito que sabe de tudo e serve para se perder tempo antes de chegarmos ao verdadeiro especialista?
Nunca precisei desse.
"

Este comentário a uma posta no blasfémias ilustra bem como a cultura hospitalocêntrica, hiperespecialista, hipocondríaca, espartilhada em órgãos do corpo humano aprendidos na escola primária vai (ainda) reinando na mente de algumas cabeças em Portugal.

A cultura generalista existe nos países desenvolvidos, nomeadamente nos EUA, Canadá, países nórdicos, etc. Nos países do terceiro mundo vingam na mente das pessoas as velhas especialidades por órgão, elas próprias já quase generalistas em relação a vários órgãos ou em crise de existência. Por exemplo, a pediatria presentemente é uma especialidade generalista, a cardiologia já está "dividida" em inúmeras sub-especialidades: cardiologia de intervenção, cirurgia cardíaca (cirurgia cardio-torácica), cardiologia desportiva, hipertensão, cardiologia preventiva, cardiologia pediátrica, ecocardiografistas, cardiologia nuclear, electrocardiografistas, reabilitação em cardiologia, etc., etc.

Mas, o comentário revela também algumas verdades: a má organização dos médicos de família portugueses alocados a centros de saúde disfuncionais com péssima acessibilidade, a má articulação entre os cuidados primários e secundários, a dificil e demorada referenciação aos cuidados hospitalares, etc, etc.

Os médicos de família portugueses não precisam de um blogue que os defenda, nem que um médico explique (medicina (familiar) aos intelectuais) que um doente já bem estudado e referenciado a um especialista hospitalar por um especialista em medicina familiar só sai beneficiado, assim como com uma boa articulação entre as diversas especialidades e os diversos níveis de cuidados.

"Médico de família? O que é isso?"

Para quem se quiser informar ou formar em medicina familiar:

1) organizações:
WONCA - World Organisation of Family Doctors
APMCG
American Academy of Family Physicians
Royal College of General Practitioners

2) Revistas:

American Family Physician
Annals of Family Medicine
Archives of Family Medicine
Australian Family Physician
BMC Family Practice
British Journal of General Practice
Canadian Family Physician
Canadian Journal of Rural Medicine
Education for Primary Care
Equip Magazine
European Journal of General Practice
Family Doctor (New Zealand)
Family medical practice on-line
Family Medicine
Family Physician Report
Family Practice
Family Practice Management
General Practice On-Line
Hong Kong Practitioner
Informatics in Primary Care
Journal of Family Medicine On-Line
Journal of Family Practice
Journal of Primary Care Medicine On-Line
Journal of the American Board of Family Practice
Maanedsskrift for Praktisk Laegegerning (Danish)
Medicina de Familia Andalucía
New Zealand Family Physician
Primary Care Mental Health
Primary Care Respiratory Journal
Quality in Primary Care
Revista Portuguesa de Clínica Geral
Rivista QQ (The Quality and the Qualities in General Practice)
Salud rural (Spanish)
Scandinavian Journal of Primary Health Care
Singapore Family Physician
Utposten (Norwegian)
Work Based Learning in Primary Care

Anatomia do Mexilhão

Nunca imaginei que houvesse alguém interessado na anatomia do mexilhão. E que o espantoso Google o direccionasse para o meu blog!

Na anatomia humana, mas na feminina, sei que há!

Espero continuar amigo deste meu triplo vizinho.

Há Perguntas Que Se Não Fazem!

O Vilacondense, blogue simpático e vizinho, colocou uma pergunta a dois blogues médicos da blogosfera. Há mais por aqui. Podem ter outras opiniões. O blogame mucho já respondeu. Brincou, eu vou ser mais sério, mas porque o assunto hoje em dia é mais sério do que aquilo que se possa pensar.

O Vilacondense ainda pensa ir para Medicina? Será adolescente! Ou quererá mudar de curso?

Será que para ver "mulheres nuas" é necessário ir para Medicina?

O Google em 0,15 segundos apresentou-me 57 800 sítios para a pesquisa sobre "mulheres nuas". Para a próxima serão 57 801, pois já parecerá este blog referido na pesquisa, para infelicidade de muitos.

Conclusão: para se ver mulheres nuas não é necessário o curso de Medicina.

Não sei qual a profissão do colega Dupont, mas se na sua actividade profissional lhe aparecer à frente dos seus olhos qualquer coisa de que goste muito, que deseje há muito tempo, que o excite muito, não se irá apropriar dessa mesma coisa. Obviamente que não. Poderá sonhar, poderá imaginar: ai se eu um dia...

Mas digo-lhe colega Dupont, o contrário é que é mais frequente: o médico ou médica defender-se da sedução ou assédio dos doentes. E há várias defesas, mas primeiro é necessário diagnosticar que se está perante uma sedução e por vezes, não é à primeira que se descobre.

Por outro lado, o ambiente do consultório, onde se pressupõe existir intimidade e proximidade para ouvir e examinar o paciente propicia psicologicamente a aproximação dos intervenientes. Por isso, presentemente, prefiro consultar com testemunhas presenciais ou com a porta semi-aberta determinadas pessoas, pois no fim, será sempre a palavra de um contra a do outro e todos sabemos que os médicos não são muito bem quistos, lá, nos palácios das justiças....

Por fim, remato assim: arte é arte. Uma obra de arte examina-se com os olhos, estuda-se, analisa-se, não se toca!

quinta-feira, junho 03, 2004

Importa-se de repetir?

"Grupo Mello quer 50% do Serviço Nacional de Saúde". Título do Diário Económico.

Porquê só 50%? Porque não ou outros 50%?

Responda quem souber, que eu publico.




quarta-feira, junho 02, 2004

Mourinho - um case study

O blog Blasfémias publicou uma blasfémia pelo teclado do CAA que indiscutivelmente não é uma blasfémia (blasfémia - substantivo feminino, 1. toda a palavra ou atitude injuriosa contra uma divindade ou religião; 2. atribuição de defeitos a Deus ou negação de qualquer dos Seus atributos; 3. dito insultuoso; ofensa; 4. calúnia; difamação; 5. praga; (Do gr. blasphemía, «palavra de mau agoiro», pelo lat. blasphemìa-, «palavra ultrajante»)).

Mais se assemelha a um parágrafo de uma tese sociológica sobre a psicopatologia do povo português. Brilhante!

O noso Povo é assim: 99% dos doentes das minhas segundas consultas, hoje, estavam piores. Invariavelmente à pergunta: então como é que está? As respostas eram: na mesma, pior, nem melhor, nem pior. O único que afirmou que estava melhor, foi directo para o internamento. E foi difícil convencê-lo.

À medida que Mourinho subia vertiginosamente na cotação internacional, o povo português (de onde brotaram os nossos jornalistas e os adversários do FCP) através dos media nacionais ridicularizava-o e consequentemente descredibilizava-o na opinião pública.

Isso Mourinho nunca desculpará e eu estou com ele.

Como disse um adepto do FCP, ao Mourinho, tudo se desculpa. Acredito que a sequência infinita de vitórias e de títulos do FCP evitou a ingestão de muitos prozaques, metamidois, xanaxes, valiuns, efexores e outras drogas para a "boa disposição".

Mourinho foi para os adeptos do FCP, durante 2 anos um bom antidepressivo, um óptimo ansiolítico. Um adorável hipnótico.

Muitos lorenines foram evitados nos dias das vitórias do Mourinho.

Ainda há dois anos, Mourinho procurava emprego: foi despedido do Benfica, rejeitado pelo Sporting, escondido no União de Leiria e redescoberto pelo FCP.

Hoje tem o mundo a seus pés. Hoje pode e deve ser arrogante.

Aliás a única qualidade que os media desportivos e não só, lhe reconheceram em Portugal.

sábado, maio 29, 2004

A Morte, Sempre Com Os Mesmos Ingredientes! Basta!

Sentei-me.

Relaxei-me.

Inspirei e inspirei-me.

Cliquei no botão I Power Blogger. Username e Password automaticamente introduzidas.
Create a new post espera por mim.

Abre-se-me a janela do mundo: Title e Post estão à minha espera.
Ia escolher um título abrangente.

As tarefas eram muitas e atrasadas!

Ia dar os duplos parabéns ao Aviz. (Parabéns. Espero que esteja tudo bem resolvido!).
Ia agradecer ao Blasfémias. (Obrigado. Pelo Top Ten e pela companhia!).
Ia responder ao Blog do Alex. (Que posso eu dizer? Que 3.28 não são 1.71. Que não escrevo mais, embore goste, porque à minha frente tenho pessoas e não monitores! E etc., etc....).

Ia responder a uma pergunta que vi no technoratti, do blog Desabafos. (Sim. É possível na cirurgia de transplantes hepáticos, desmarcar-se o transplante em cima da data da cirurgia ou até à porta do bloco operatório, não por motivos da histocompatibilidade, ou negligência, ou erro médico, mas por aprofundamento do estudo do órgão a transplantar que só é feito em cima da cirurgia, i.e., o dador é compatível e avisa-se o receptor e prepara-se para a cirurgia, mas o órgão, depois de estudado in loco, pode não estar apropriado para a cirurgia (pode ter uma cirrose, p.ex) e não por ser medicina de ricos vs medicina de pobres!)

Ia dizer mal do último Expresso! (Fogo! Só no suplemento comercial se diz bem dos médicos e da medicina. Artigos adaptados para a publicidade que inserem, um vergonha e o Público vai pelo mesmo caminho!)

Ia responder ao JC, estudante de enfermagem, e dizer-lhe que há médicos que desprestigiam a profissão, que são desumanos, que há enfermeiros que prestigiam a sua profissão, que há enfermeiros que querem passar por médicos, que a enfermagem, hoje em dia não é "higienes e injecções", mas as higienes e injecções em pessoas doentes têm especificidades próprias e desde que todos os antigos auxiliares de enfermagem se transformaram em enfermeiros, todos pensam que as higienes são uma actividade menor da enfermagem ... e por isso, por vezes são desumanos com os doentes acamados.

Ia agradecer a Madalena Silverson pelas suas palavras (Obrigado e cuidado!)

Ia responder ao Blog (?) 'universos assimetricos' (Sim, o doente tem direito a conhecer todos os resultados dos exames efectuados, mas não a violar a correspondência entre médicos; sim, o doente tem direito a que toda a informação seja legível e perceptível, embora técnica; sim, o doente e a sua família "têm direito a que o médico lhes explique que "problema" tem?" Até que profundidade?". Até à profundidade que o doente desejar, mas sempre com humanidade, respeito e principalmente, tentando compreender quais são as expectativas do doente em relação à sua doença, para que a notícia não cause mais estragos que a própria doença.

Ia finalmente responder ao Queijo Naco da Grande Loja do Queijo Limiano e da porta da loja. (Mas, desculpe, ainda não será hoje, mas não está esquecido!)

O telefone vibra.

Do lado de lá: vou-te dar uma triste notícia! Ouço.
O F. morreu de acidente de automóvel.
Silêncio. Desligo.
29 anos, regresso de festa, 7 da manhã, despiste, choque frontal. Morte na estrada. São sempre os mesmos ingredientes. Basta!

Paz na Estrada!

Paz na Estrada!

sábado, maio 22, 2004

"Não dá fatelas"

"O pratinho dela ainda não se partiu e a cama ainda está por desmanchar".

Foi assim que um pai já idoso, com 85 anos, se referia ao facto de a sua única filha, agora com 40 anos, vítima de um mau casamento, vítima de uma má sogra, ou melhor, vítima de uma sogra possessiva, que não admite que o seu único filho possa respirar ar puro e viver a sua vida.

O filho não se apercebe, a sogra não sabe o que é, a nora está perdida. Superprotecção.