segunda-feira, abril 24, 2006

A insustentável gravidade das cirurgias do lado errrado

Por Jorge Varanda, in Público.


As cirurgias erradas não são uma fatalidade. A sua probabilidade de ocorrência pode ser reduzida a quase a zero. Aprender com os erros e não escondê-los, é o caminho que os países mais evoluídos estão a trilhar

Alguém tem de dizer o que deve ser dito a partir do caso de cirurgia do lado errado que terá ocorrido a 12 de Abril no Hospital de Vila Real: uma mulher de 25 anos operada ao pé esquerdo, em vez do direito. Perder esta oportunidade é contribuir para que casos de tal natureza ocorram, apesar, felizmente, da sua extrema raridade. É imprescindível que se diga que estes erros não são hoje uma inevitabilidade.
Para carregar mais o cenário, lembre-se que os casos de cirurgias do lado errado são potencialmente devastadores.

Os casos mais graves arrepiam só de pensar neles, como o da amputação da perna errada ou a ablação do seio errado. Tais situações ocorreram no passado e podem acontecer no presente, se nada for feito para mudar os procedimentos preparatórios dos actos cirúrgicos. Nos EUA, a Joint Commission on Accreditation of Health Care Organizations analisou as causas 126 casos reportados de cirurgias erradas.
Há que afastar a ideia estabelecida que o erro se deve pura e simplesmente à negligência do cirurgião, o qual, nessa lógica, sendo o culpado deve sofrer as consequências do acto.

A moral assumida pelo direito e pela opinião pública leva a que alguém deva sempre expiar "o pecado". É o nosso fundo moral judaico e cristão a impor-se. Acontece, porém, que o desenho dos processos de trabalho está na origem da maior parte dos erros. Se o médico operador chega à sala com o doente já anestesiado e o campo operatório lhe apresenta a parte errada do corpo, o risco de errar pode consumar-se. Acrescente-se que nenhum dos elementos que prepara o doente é o cirurgião. Por isso, é o próprio desenho do processo de trabalho que contem em si o germe do problema.
A Saúde tem vindo a aprender com as metodologias da qualidade aplicadas noutros sectores de actividade, onde a experiência diz que mais de 80 por cento dos problemas são gerados nos processos de trabalho, ou seja na forma como se encadeiam os procedimentos que conduzem ao resultado pretendido.

Contudo o desenho dos processos de trabalho é da responsabilidade dos níveis de gestão das organizações e não obrigatoriamente do profissional individual apanhado no turbilhão do problema.

O objectivo principal deste texto é o de transmitir a mensagem de que as cirurgias erradas não são mais uma fatalidade. A probabilidade de ocorrência de tais casos pode ser hoje reduzida praticamente a zero. Este assunto foi tratado no contexto da acreditação de um grupo dos antigos Hospitais SA pela Joint Commission International, tendo sido traduzido e divulgado entre eles para aplicação "o protocolo universal para prevenir a cirurgia do local errado, do procedimento errado e da pessoa errada".

Esse protocolo propõe basicamente os seguintes procedimentos:
- Processo de verificação pré-operatório.
- Marcação, em geral com tinta indelével, do local do corpo a operar, com a colaboração do doente.
- Verificação final mesmo antes da operação começar, na presença dos membros da equipa operatória.

O meu apelo vai no sentido de, com a liderança apropriada do Ministério da Saúde, no que se refere ao SNS, das Ordens e dos gestores e lideres médicos e de enfermagem dos hospitais públicos e privados se promova a difusão deste protocolo para que em Portugal ninguém mais tenha que sofrer as consequências desastrosas de erros tão devastadores como as cirurgias do lado errado.

A Saúde é uma actividade de risco elevado. Problemas de segurança de vária natureza (erros com medicamentos, erros na administração de sangue, infecções adquiridas em ambiente hospitalar, queimaduras, úlceras de pressão, quedas, erros de diagnóstico) podem acontecer na prestação de cuidados. As áreas de maior complexidade e de maior densidade tecnológica aumentam o risco, designadamente unidades de cuidados intensivos, blocos operatórios e emergência.

O modo tradicional de tratar esta realidade não serve o interesse público da segurança do doente: a abordagem judicial dos casos de erro em Saúde leva a que o sistema se feche sobre si mesmo, não analise as causas-raiz dos problemas e não actue preventivamente sobre as fontes dos erros.

Aprender com os erros e não escondê-los, é o caminho actual que os países mais evoluídos do mundo estão a trilhar. Como em tudo, só a verdade e a transparência nos ajudam a avançar. Responsável do programa de acreditação pela Joint Commission International dos antigos Hospitais SA

quarta-feira, abril 19, 2006

Resposta ao Sr. Madrid: Médico Explica disse...

Desculpe, Sr Madrid, mas defender os direitos de um doente não é incompatível com a caricatura do mesmo, neste caso, da jovem em questão e se for caso disso.

Porque está ela na cama? E não numa cadeira? Porque está de fato-de-treino (o pijama/robe do nosso povo!)? E não vestidinha como toda a gente? Porque é preciso falar com a mãe, a tia, o pai, o piriquito, o cão, o merceeiro, o amante, etc.? Não chega ouvi-la?

Esta era uma cirurgia simples.

E se a indemnização for rápida, até haverá mais erros a ser descobertos, mas menos circo mediático. Ou então faz-se um desconto na indmnização por cada minuto de TV.

Se o prejudicado tiver uma actividade comercial, isto também lhe dará lucro!

segunda-feira, abril 17, 2006

A História Dos Pés.

Num século que se quer de excelência para tudo, há erros indesculpáveis.

Continuam a ser erros, mas erros grosseiros, independentemente das causas que os originaram ou de efectiva negligência, se se apurar.

Aparte "os 15 minutos de fama" da jovem esparrachada com o seu fato de treino no sofá da sala, concordo que sofreu desnecessariamente e que deve ser indemnizada convenientemente pelo Estado, por danos físicos e morais.

Este erros não podem acontecer!

domingo, abril 16, 2006

Indústria Farmacêutica Acusada De Fabricar Doenças Para Vender Mais

No Diário de Notícias de 12/04/06:

"O receio instintivo da morte e da doença está a ser aproveitado pela indústria farmacêutica para aumentar as suas vendas, denuncia um relatório divulgado ontem.

Segundo o estudo de David Henry e Ray Moynilhan, apresentado numa conferência médica que decorre até quarta-feira na Austrália, as grandes empresas são responsáveis por muitas prescrições desnecessárias de medicamentos. Mas, mais grave do que isso, chegam ao ponto de promover tratamentos para doenças cuja existência nem sequer está comprovada.

As consequências destas práticas vão desde o desperdício de recursos financeiros, que poderiam ser utilizados no combate a doenças verdadeiramente graves, a problemas de saúde motivados pelo uso indevido de medicamentos.

Os autores deste trabalho, um médico e um jornalista especializado, denunciam a existência de uma verdadeira teia de influências não oficial, montada entre a indústria farmacêutica e grupos de media e publicidade. A estratégia consiste em criar a necessidade e depois apresentar a solução milagrosa.

"Esta prática é demonstrada muito explicitamente nas campanhas de sensibilização sobre as doenças financiadas pela indústria", indica o relatório publicado na School of Medical Practice and Public Health. "É mais frequente estas serem destinadas a vender medicamentos do que a iluminar, informar ou educar sobre a prevenção de doenças ou a manutenção da saúde".
Entre os exemplos de situações alegadamente empoladas pela indústria conta-se a "síndrome das pernas irrequietas" (RLS). Desde 2003, a multinacional GlaxonSmithKline tem promovido a ideia de que o que muita gente encara como um simples tique nervoso, habitual em situações de tensão, é afinal "uma síndrome comum mas ainda não reconhecida" para a qual, naturalmente, já existe um medicamento: o Ropinorole.

Outra doença dos tempos modernos é a disfunção sexual feminina (FSD). Alguns especialistas descrevem-na como a versão feminina da disfunção eréctil, e garantem que afecta 44% das mulheres, Outros, garantem que as descrições desta condição são, no mínimo, vagas. No entanto, já há empresas a trabalhar na solução.

Mais frequentes, segundo os autores deste estudo, são os diagnósticos errados de doenças verdadeiras , devido às campanhas que convidam os médicos e os consumidores a estarem "atentos" a sinais. Nesta lista incluem-se desde comportamentos normais das crianças, que são confundidos com hiperactividade e perda de atenção, aos problemas erécteis de homens com mais de 40 anos."

quinta-feira, abril 13, 2006

Não Podia Estar Mais de Acordo Com Este Senhor Sobre A “Propaganda enganosa de medicamentos”

In o "Primeiro de Janeiro" (13 de Abril)

"O bastonário da ordem dos Farmacêuticos, Aranda da Silva, criticou a ‘propaganda enganosa’ de medicamentos, que aumenta os custos com a saúde e gera desperdício. Segundo Aranda da Silva “são as autoridades que devem intervir de forma sistemática para evitar esse tipo de propaganda enganosa, que é lamentável”."

quinta-feira, abril 06, 2006

Hemorróidas: O Jornal de Notícias Descobriu Uma Nova Técnica Com Uma Década De Vida

In Jornal de Notícias de 03/04/06

"Nova técnica para operar hemorróidas


Margarida Luzio

O Hospital de Chaves vai passar a utilizar uma nova técnica para operar hemorróidas, uma doença que afecta cerca de 10 por cento da população servida por esta unidade de saúde.

Numa espécie de experiência-piloto, a hemorroidopexia por grampeamento (técnica de Longo), que vem substituir a cirurgia tradicional, foi aplicada, anteontem de manhã, a três pacientes pelo especialista António Araújo Teixeira que, passo a passo, foi explicando aos cirurgiões do hospital flaviense os "truques" para um trabalho mais "eficiente".

"Perde-se o tempo que for preciso na hemóstase (estancar o sangramento). É muito desagradável ter que vir novamente com o doente ao bloco", recomendava Araújo Teixeira.

Menos dor no período pós- -operatório e uma recuperação mais rápida são algumas das vantagens da nova técnica, que, em vez da simples incisão cutânea, faz a reposição do tecido hemorroidário para o seu estado fisiológico natural.

A dois passos do bloco operatório, na sala de conferências, as intervenções foram acompanhadas por médicos, enfermeiros e estudantes, através de um sistema de videoconferência."

segunda-feira, abril 03, 2006

"As Boas Maneiras De Dar Más Notícias"

Título e artigo do jornal "Tempo Medicina".

Quando as notícias são más, ainda podem piorar se a forma como são anunciadas não for a melhor. A pensar na relação entre médico e doente, Walter Baile, especialista mundial no treino de aptidões de comunicação em Oncologia, esteve em Lisboa para dar a conhecer o que pode fazer toda a diferença. No âmbito do projecto «Organização e desenvolvimento de um programa de cuidados paliativos no Hospital de S. José», e para alargar a formação nesta área, realizou-se no passado dia 23 a conferência/workshop sobre «A importância das aptidões de comunicação em Oncologia – Apresentação do protocolo de más notícias», em que foi orador Walter Baile, do MD Anderson Cancer Center da Universidade do Texas (EUA). A ideia partiu de Luzia Travado, psico-oncologista no Hospital de S. José e coordenadora da Unidade de Psicologia Clínica do Centro Hospitalar de Lisboa, que considera o tema da máxima importância. Isto porque, na sua opinião, a qualidade da comunicação entre o profissional de saúde e o doente é um factor crítico para a adaptação deste à sua doença, adesão aos tratamentos e satisfação.

Como referiu, «as aptidões de comunicação podem ser treinadas e melhoradas, bem como as “más notícias” – diagnóstico, prognóstico, recidiva, etc. – podem ser comunicadas de modo sensível e adequado às necessidades de cada doente e suas famílias, diminuindo o stress desta difícil tarefa». Desta forma, acrescentou, «a moderna Oncologia clínica e os cuidados paliativos não dispensam o conhecimento destas técnicas e o seu treino, que constituem uma importante ferramenta para os médicos».

Walter Baile mostrou um pequeno vídeo com um diálogo doente/médico, que considerou um exemplo claro de má comunicação. O médico não olhava directamente para a sua interlocutora, sendo notório que não lhe estava a prestar grande atenção, escrevia enquanto esta falava e interrompeu-a várias vezes. «Se um doente quando vai ter connosco já está nervoso à partida, uma atitude destas só piora», salientou o especialista.

E porque é importante, para os cuidados clínicos, ter boas competências na forma de comunicar? Segundo Walter Baile, estas fazem com que o doente esteja mais satisfeito, reduz-se a má prática, promovem-se objectivos clínicos cruciais e uma excelente relação com o médico. E «mesmo que este não o cure, o doente vê nele competência», sendo que «um bom diálogo faz com que o doente seja um parceiro nas opções de tratamento, o que é sempre benéfico para ambas as partes», lembrou o orador, sublinhando: «Hoje em dia cada vez mais as pessoas querem fazer parte do seu tratamento, gostam de saber as escolhas que existem e de ter um papel activo nas mesmas».

Mas se existe um protocolo de más notícias, há que conhecer os passos a dar.
Walter Baile definiu o protocolo SPIKES (Setting up the interview, Perception, Invitation, Knowledge, Emotions, Strategy), em que o primeiro passo é o da preparação para a entrevista com o doente, devendo o médico fazer antecipadamente com que não haja interrupções e, por estranho que possa parecer, levar sempre lenços de papel.

De seguida, vem a percepção, e aí há que tentar perceber quais as informações que o doente possa ter sobre a doença, para que, eventualmente, caso não sejam correctas, poder corrigi-las. O próximo passo é saber se o doente quer ter informação, pois há indivíduos que não desejam ser informados. E caso o doente não queira falar da patologia, o médico pode sempre perguntar-lhe se não quer saber quais os planos de tratamento e, portanto, ajudar de outra forma.

O quarto passo é passar a informação e o conhecimento, e uma boa maneira de dar a má notícia é dizer, de forma calma, «infelizmente tenho más notícias» ou «o que se passa é sério, tenho muita pena de lho dizer». É essencial dar a conhecer os factos aos poucos e usar sempre uma linguagem ao nível do doente, nunca utilizar termos técnicos, «porque muitas vezes as pessoas têm vergonha de dizer que não estão a perceber» e há que explicar tudo da melhor forma para que o esclarecimento seja total.

No quinto passo, o das emoções com respostas empáticas, o médico tem que ter um papel reconfortante, «porque corresponder às emoções de um doente nestas circunstâncias é, sem dúvida, um dos maiores desafios, pois perante a má noticia a pessoa entra em choque, dor e solidão».

Ao informar da doença por etapas, devem aproveitar-se metáforas que o doente use para a patologia e dar explicações por esquemas ou gráficos no papel. Aqui há que mostrar apoio e solidariedade e dar respostas empáticas, mas dizer sempre a verdade.

Durante a conversa, o médico deve fazer pausas, escutar com atenção e mostrar proximidade. Por fim, vem a estratégia em que se visa fazer o plano para o futuro, sendo crucial que se discutam todas as opções de tratamento, o que dá sempre ao doente a sensação de que os seus desejos são ouvidos.

Baseado nesta informação Joaquim Reis, doutorado em Psicologia e professor de Psicologia da Saúde, desenvolveu, com a colaboração técnica de Luzia Travado, um DVD para os especialistas portugueses, designado «Aptidões de comunicação e de relação para profissionais de saúde».

E Depois Pensem: Este Juiz Foi Negligente?

In "Público", por Francisco Teixeira da Mota.

Direito de retrocesso.

"O João era um médico de clínica geral que exercia a sua profissão na Região Autónoma dos Açores desde 1982 tendo sido nomeado presidente do conselho de administração do centro de saúde local, em 1998.

A sua vida decorria com toda normalidade, quando, no início de 1998, foi apresentada uma queixa-crime contra si, por alegadamente ter ofendido a saúde e causado a morte de um seu doente.

Ouvido pelo Ministério Público, negou a sua responsabilidade no ocorrido, tendo prestado ojá famoso, TIR (termo de identidade e residência) e continuou a sua vida mas... Em 2 de Junho de 1999, o juiz de instrução considerou que "havia indícios da prática, pelo menos, de um homicídio negligente, praticado com violação grosseira das legis artis, e de um crime de ofensas à integridade física por negligência", e embora "considerasse que a matéria revestia grande complexidade científica", o juiz de instrução impôs ao dr. João. as seguintes medidas de coacção:
- "prestação de caução de 2.000.000$00 e
- suspensão imediata do exercício da sua profissão de médico,
- tanto a nível da função pública
- como em exercício da actividade laboral,
- com proibição expressa de prática de qualquer acto médico
- ou de outros de que deste tipo de acto dependam em qualquer lugar, designadamente, estabelecimento público ou particular de saúde".

Considerava o juiz de instrução ser "manifesto o perigo de continuação da actividade criminosa e perturbação do inquérito e, ainda, que havia o perigo de fuga".

O João recorreu e, ao mesmo tempo, requereu ao juiz que alterasse as medidas de coacção que lhe tinham impostas. Mas o juiz manteve as medidas de coacção decretadas.

Entretanto o Ministério Público, no dia 25 de Junho de 1999, determinou o arquivamento do processo, por considerar inexistirem indícios da prática de qualquer crime pelo João, mas os familiares do paciente falecido requereram a continuação do processo pelo que o mesmo não foi arquivado.

Só em 9 de Dezembro de 1999, veio o Tribunal de Relação de Lisboa revogar as medidas de coacção a que estava sujeito o João, substituindo-as, novamente, pelo mencionado TIR.

O Tribunal da Relação esclareceu que "a natureza dos factos a investigar era de grande complexidade não se compadecendo com confirmações apenas com base em testemunhas, exigindo sim pareceres técnicos prestados por entidades científicas com competência para tanto", sendo certo que o juiz de instrução "nada esclarecera sobre a personalidade do João nem sobre o risco de perturbação do andamento do inquérito" e, quanto ao perigo de o João continuar a praticar crimes, o Tribunal da Relação lembrou o facto de o João exercer clínica na região "desde 3 de Fevereiro de 1982 sem que nunca tivesse sido posta em causa a sua competência profissional".

O processo foi posteriormente arquivado e o João nunca chegou a ser julgado.

Veio, então, o João pedir uma indemnização ao Estado pelos prejuízos que lhe tinham sido causados pelas medidas de coacção que lhe tinham sido impostas pelo juiz de instrução, inadequadas e desproporcionadas, nomeadamente a proibição de exercício da sua profissão.

Na 1.ª instância, o João conseguiu que lhe fosse atribuída uma indemnização de 65.911,86 euros pelos danos patrimoniais e de 20.000,00 euros pelos danos não patrimoniais ou morais.

O Estado recorreu e o Tribunal da Relação revogou a decisão, absolvendo o Estado.
Mas o Supremo Tribunal de Justiça, na sua decisão do passado dia 7 de Março, subscrita pelos juízes conselheiros Fernandes Magalhães, Azevedo Ramos e Silva Salazar, revogou a decisão do Tribunal da Relação e confirmou a decisão da 1.ª instância.

O Estado procurou assim, como é seu dever, reparar o mal que fizera a um seu cidadão...

A história do João, com um "fim feliz", não é uma história muito habitual, já que a responsabilização do Estado pelos seus "desmandos", nomeadamente no âmbito da actividade judicial, não tem muitos casos de sucesso para as vítimas.

Se gosta da blogosfera e desta matéria, sugere-se a visita ao Dizpositivo."

sexta-feira, março 31, 2006

Estudo Europeu Sobre Erro Médico

"Cidadãos têm medo mas confiam

Um estudo da União Europeia (UE) revelou que metade dos portugueses teme vir a ser vítima de um erro médico. Mas, apesar dos muitos receios, os doentes parecem confiar nos médicos. O «TM» ouviu alguns especialistas na matéria para saber como encaram estes resultados.
Cinquenta por cento dos portugueses receia vir a ser alvo de erros médicos e 59% considera ser provável sofrer um erro grave, provocado por um médico ou outro profissional de saúde, num hospital do nosso país. Estas são algumas das conclusões mais marcantes do estudo do Eurobarómetro da Comissão Europeia, o primeiro sobre erros médicos.
O trabalho, divulgado no início deste mês, revela que o erro médico é uma preocupação para a maioria dos europeus, embora a dimensão do fenómeno varie de forma considerável em todo o território europeu. Em média, 4 em cada 5 cidadãos do velho continente pensa que o erro médico é um importante problema no seu país.
Em Portugal, a percepção é semelhante – 77% dos inquiridos julga que o erro médico é uma questão preocupante. Mesmo assim, neste particular, estamos longe das cifras quase assustadoras da Itália, onde 97% dos cidadãos considera o erro médico um problema nacional importante.

Definição imprecisa

Mas quando se pergunta aos portugueses se pensam ser provável vir a ser alvo de um erro médico grave num hospital nacional, o número de respostas afirmativas (59%) coloca-nos em sétimo lugar, na tabela dos 30 países estudados, e acima da média comunitária (47%).
António Vaz Carneiro, médico e director do Centro de Estudos da Medicina Baseada na Evidência da Faculdade de Medicina de Lisboa, defende que estes números devem ser analisados com muito rigor, não só porque o problema do erro médico é complexo, mas também porque a percepção do conceito, por parte da opinião pública, é com frequência imprecisa. «Muitas vezes, aquilo que as pessoas pensam ser um erro médico é antes um efeito adverso ou uma reacção alérgica inesperada», explicou.
Por isso, Vaz Carneiro considerou, nas suas declarações ao «TM», que as pessoas estão confusas e, a crer nos números, muito assustadas, sem razão. «Se, de facto, mais de metade dos portugueses pensa ser possível um dia sofrer um erro médico grave dentro de um hospital nosso, então, estão fora da realidade, porque felizmente a percentagem de erro médico não é tão elevada», frisou.
Por seu turno, José Fragata, cirurgião e autor do livro O erro em Medicina, também ouvido pelo «TM», admitu que as cifras encontradas estão «dentro do que seria esperado», mas sublinha a peculiaridade deste estudo. Na verdade, os trabalhos até agora conhecidos (sobretudo oriundos dos Estados Unidos, Inglaterra e Austrália) baseiam-se na declaração voluntária ou revisão de processos feita por profissionais de saúde, enquanto o estudo da UE assenta em inquéritos efectuados ao público, «o que aumenta a sensibilidade, mas reduz a especificidade ou o rigor na definição de erro».
Neste contexto, o especialista destaca que, de acordo com o Eurobarómetro, o reconhecimento do problema entre a população é elevado, mas apenas um pequena parte declara já ter sido vítima de um erro médico (23%, no total, 16% em Portugal). Para o cirurgião, esta aparente discrepância «traduz bem o impacte da notícia e o papel dos media na divulgação, nem sempre bem feita, deste problema de saúde».
Já Guilherme de Oliveira, director científico do Centro de Direito Biomédico da Faculdade de Direito de Coimbra, disse ao «TM» que estes números estão em consonância com os resultados dos estudos realizados nos Estados Unidos sobre a matéria. «Não me admira que haja, na Europa, muito mais erro médico do que se pensa, se, de facto, a nossa realidade não for muito distinta da norte-americana. E os dados agora divulgados vêm mostrar que a população tem essa percepção ou, pelo menos, desconfia», afirmou o jurista.

Confiança nos profissionais

Apesar destas cifras reveladoras de uma apreensão generalizada em relação ao erro médico, é curioso notar que os cidadãos europeus parecem confiar nos seus profissionais. Entre nós, os dentistas são os mais merecedores da confiança dos utentes (70%), seguindo-se os clínicos e o restante staff médico (ambos 68%).
Vaz Carneiro não tem dúvidas que a confiança demonstrada nos médicos é «um sinal positivo para a classe», enquanto José Fragata defende que este resultado ilustra a «complexidade das determinantes da relação médico-doente», entre as quais se destaca a confiança, «parte integral do “contrato de tratar”».
No entanto, a educação dos doentes é uma «batalha difícil» e que «está longe de ser vencida». E essa é uma tarefa dos médicos, lembra Vaz Carneiro.

Nórdicos são excepção à regra

No meio de um mapa em que reina o pessimismo, a Finlândia e a Dinamarca parecem ser as excepções que confirmam a regra. Estes são os únicos países onde apenas menos de metade da população considera importante o problema do erro médico. Pelo contrário, em Itália, na Polónia e na Lituânia mais de 90% dos inquiridos encara a questão do erro médico como um problema de alto relevo no seu país.
No geral, os europeus confiam mais nos dentistas (74%) do que nos médicos (69%). Os menos confiantes nos seus profissionais são os gregos, os cipriotas, os búlgaros e os polacos, enquanto, uma vez mais, os finlandeses se distinguem pela positiva, ao serem os mais crentes na capacidade do seus recursos humanos da Saúde."

in "Tempo Medicina"

terça-feira, março 28, 2006

Gripe Aviária: Leia Um Cheirinho De Ciência

Retirado do Jornal Tempo Medicina.

A lista de pessoas que vão ter prioridade na quimioprofilaxia da gripe foi encarada pelos meios de informação geral «de uma forma muito desagradável» e numa «perspectiva negativa», disse Graça Freitas, no Porto, lembrando que tal medida é para «benefício da sociedade».

A questão da lista das pessoas com prioridade para receber oseltamivir, recentemente apresentada, foi levantada por Filipe Fróis, do Serviço de Pneumologia do Hospital de Pulido Valente, no passado dia 18, no decorrer de uma mesa dedicada à pandemia da gripe, integrada nas Jornadas Galaico-Durienses, que decorreram no Porto.

Este médico referiu que o assunto foi divulgado à população «de uma forma extremamente negativa», sendo «útil esclarecer os colegas sobre os critérios que presidiram à elaboração dessa lista de pessoas indicadas para fazer quimioprofilaxia de longa duração».

A subdirectora-geral da Saúde Graça Freitas, prelectora nesta mesa, reconheceu que, de facto, houve «situações muito desagradáveis» na informação, garantindo que esta medida «não vai privilegiar elites», nem os cidadãos incluídos são beneficiados.

«Pelo contrário, são pessoas que vão trabalhar no duro horas e horas a fio», acentuou. Como explicou, Portugal procedeu como todos os países desenvolvidos, visto que a reserva de oseltamivir, além de contemplar o tratamento para 2,5 milhões de portugueses, se destina também à quimioprofilaxia das pessoas «consideradas prioritárias», porque vão «prestar serviços essenciais ao País».

Quanto aos critérios, Graça Freitas esclareceu que não foram apenas contemplados médicos e enfermeiros, sendo a escolha feita por «um grupo de peritos», em função do tecido social e seus grupos profissionais, e, naturalmente, «com base na literatura internacional».

A responsável disse mesmo que, se vier a contrair a gripe, gostaria que «um dos médicos presentes ou outro qualquer» estivesse saudável para a tratar. «Isso é a noção de quimioprofilaxia prioritária», frisou, garantindo que «o resto da população não vai morrer por falta de medicamentos».

Planos de contingênciaNa sua apresentação, dedicada ao tema «Que fazer antes, durante e depois» da pandemia da gripe, centrado, nomeadamente, na aplicação do plano de contingência, que como se sabe se estende a vários ministérios e empresas, Graça Freitas disse que foi necessário fazer cenários, os quais tiveram que ser revistos.

O cenário mais crítico apresentado refere-se a um pico de uma semana em que, com uma «taxa de ataque» de 25%, estarão doentes 413 mil pessoas. A subdirectora-geral da saúde enumerou ainda outros cenários para consultas médicas no período pandémico, apontando quatro eixos «importantíssimos» que estão a ser desenvolvidos: «A informação em saúde, a prevenção e controlo com medidas de Saúde Pública (internamento, ambulatório, vacinas e medicamentos), a comunicação e a avaliação do processo».

A responsável disse que estão a ser criados mecanismos para «impedir fugas de medicação armazenada», lembrando que quando os frascos do fármaco forem distribuídos aos centros de saúde, farmácias e hospitais, o mesmo doente, com o mesmo episódio de gripe, só pode ter acesso a uma receita. «Mesmo que vá a 10 médicos diferentes, tem que haver algum tipo de controlo, e isso passa obviamente pela informática», sublinhou, lembrando ainda que «há que impedir os médicos de prescreverem a quem não reúna critérios para prescrição».

Mutação adaptativa.

Na mesma reunião, Maria de São José, professora da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, fez o ponto da situação da gripe aviária, lembrando que um dos receios mais evidentes é que os humanos possam ser infectados de forma concomitante com o H5N1 e o vírus da gripe sazonal.

Neste caso pode ocorrer a recombinação, ou seja, a mistura dos genes de uma estirpe humana com o H5N1, situação que, informou a especialista, «daria ao vírus da gripe aviária aquilo que ele pretende: possibilidade de se transmitir facilmente, adquirindo uma hemaglutinina». Mas também a mutação adaptativa pode ocorrer, já que «quanto mais tempo este vírus estiver no homem mais possibilidades temos que recomece a adaptar-se», sublinhou Maria de São José, reconhecendo que «a situação não é, de maneira alguma, favorável para nós».

Como lembrou, a evolução do H5N1 durante os anos 2004-2005 foi «muito preocupante», sobretudo porque «aumentou a variedade de hospedeiros» e começou a matar aves migratórias e também gatos e tigres (147 tigres, segundo disse, morreram na Tailândia por comer carcaças de galinhas infectadas).

Falência multiorgânica: Maria de São José comparou a gripe de 1918 com a gripe aviária, no que diz respeito a severidade, lembrando que os doentes têm apresentado, além da pneumonia viral primária, que se complica depois com a síndrome de dificuldade respiratória aguda, «uma falência multiorgânica», inferindo que «parece ser a resposta imunológica a responsável por este quadro tão dramático».

De qualquer forma, a farmacêutica referiu que, apesar de hoje se tentar extrapolar a mortalidade desta gripe para a de 1918, temos que pensar que presentemente temos muito melhores cuidados de saúde, muito mais medicamentos, mais meios de diagnóstico e muito maior capacidade de produção de vacinas.
Por outro lado, em 1918 havia «uma população muito mal nutrida, saída de uma guerra».

Traçando um quadro mais optimista, Maria de São José disse que o H5N1 pode continuar a ter dificuldade em «saltar a barreira das espécies, como de resto continua a ter, se atendermos aos milhões de aves de capoeira que já foram infectadas» e aos 177 casos humanos. «Sabemos que não estamos perante um vírus humano» e que ele «tem dificuldade em se adaptar à multiplicação nas nossas células», disse, concluindo, ainda num cenário optimista, que o H5N1 «pode nunca chegar a ter capacidade de se transmitir de pessoa a pessoa».

H5N1 «aumentou a estabilidade ambiental»«O vírus está muito mais voltado para as aves domésticas e para os modelos animais, e aumentou a estabilidade ambiental, o que começa a tornar possível a transmissão ambiente-pessoa, como já aconteceu em alguns casos através de fezes de galinhas ou de outras aves domésticas doentes», salientou Maria de São José.

De resto, para a especialista, o que se passou na Turquia foi «alarmante» (aparecimento de 20 casos humanos em apenas duas semanas), já que no Sudoeste asiático, conforme recordou, «nunca se criaram clusters tão grandes», o que a levou a concluir que aí possa ter havido também transmissão inter-humana.

Por outro lado, «mostrou-se que as estirpes H5N1 isoladas na Turquia começaram a apresentar alterações preocupantes, ou seja, uma mutação», sublinhou a especialista, esclarecendo que isso «faz com que a hemaglutinina da gripe aviária já comece a aumentar a sua afinidade para os sectores das células humanas»....

A gripe e o «empolamento interno» O «empolamento interno e internacional» relativamente à gripe das aves foi criticado pelo pneumologista José Miguel de Carvalho, do Hospital de Santarém, ao defender que o que se tem visto até agora são «situações autonomizadas».

«Por exemplo, na Turquia não haverá grandes meios», em termos de equipamentos sociais e de habitação, e «noutros locais as coisas acabam por ser evitadas». O facto de morrerem 100% das aves infectadas não é novo para este especialista, uma vez que se trata de «um mecanismo de autolimitação de expansão» da doença com a mortalidade.

«Até agora não temos exemplos de que o tal cenário catastrofista seja real», disse, considerando que, no entanto, continua-se a «vender o panorama de pânico» de 1918.

«Acho que há uma distorção», sublinhou. O pneumologista recordou que, apesar de tudo, há muitas doenças subestimadas no mundo. «Muitas pessoas morrem por falta de tratamento e, mesmo nos nosso país, há falta de dinheiro para comprar os remédios e às vezes morre-se por causa disso», acrescentou, lembrando ainda que «em muitos locais as autoridades de Saúde subestimam essa questão, mesmo a nível internacional».

terça-feira, março 21, 2006

Passo Dias E Dias Sem Ver Ninguém... (cont.)

E revendo a sua ficha de entrada, hoje era o seu dia de aniversário. 77 anos.

E não lhe dei os parabéns!

E será que alguém se lembrou?

Passo Dias E Dias Sem Ver Ninguém...

... acaba de afirmar a doente ao levantar-se após a consulta e fechando a porta do gabinete médico da urgência.

Satisfeita porque já falou com alguém, desconhecido, mas alguém que a ouviu.

As queixas foram muitas e o médico tem que compreender que ISTO para a doente era uma urgência. Por isso a mediquei com antidepressivos, enquanto a ia ouvindo, mas o melhor seria prescrever-lhe o antigo companheiro que a deixou há 10 anos. Ela tem agora 77.

Para o médico será sempre uma FALSA urgência. E para a estatística.

Dramas sociais em directo, que a Internet nos gabinetes médicos permite postar.

segunda-feira, março 20, 2006

Para Os Pais Que Merecem Ser Trocados Por Dois Peixinhos Vermelhos


Com a devida vénia transcrevo este post do blog portocarago:



"Neil Gaiman e Dave McKean juntaram-se em boa hora para escrever um daqueles livros que os adultos compram desculpabilizados com a desculpa de ser para as crianças: "O Dia em que troquei o meu pai por dois peixinhos vermelhos".
A história é muito simples, à falta de cromos, um menino resolve trocar um pai que passa o tempo todo a ler o jornal. O problema é que a mãe não está muito pelos ajustes. E o segundo problema é destrocar todas as trocas sucessivas.

Neil Gaiman e Dave McKean, O Dia em que troquei o meu pai por dois peixinhos vermelhos, Vitamina BD / Devir Livraria, Lda., 56 págs., 15.00E
"

domingo, março 19, 2006

Manuel Antunes: Quem Lhe Pagará As Horas Extraordinárias?

Manuel Antunes afirmava dias atrás, a propósito da redução de gastos em horas extraordinárias, "assim mais vale entregar as chaves"... do seu serviço de cardiologia nos HUC. Criticou o ministro e o seu governo porque lhe tocava no ordenado.
Sabemos da enorme dedicação do pessoal do seu serviço que recebe horas extraordinárias 24 sobre 24 horas. Não critico. As horas extraordinárias são para quem trabalha. E trabalha-se muito, não só no serviço do senhor dr Manuel Antunes, mas também em muitos outros serviços dos cuidados de saúde primários, secundários e terciários e altamente diferenciados. Uns mais visíveis que outros.

Mas, pergunta Manuel Antunes...

"Financiamento do Serviço Nacional de Saúde: chegou a hora de mudar?"

Sabemos que há muito que mudar no Serviço Nacional de Saúde.
Há abusos por parte dos profissionais e por parte dos doentes!
Há desperdício generalizado, por parte dos utentes e dos profissionais!
Há muita irresponsabilidade e desresponsabilização por parte das administrações, dos profissionais e dos, novamente, utilizadores!

E segundo Manuel Antunes: "optemos pelo princípio do utilizador-pagador. Em minha opinião, este é o melhor modo de contribuir para a sustentabilidade do nosso SNS e para evitar a perda da sua universalidade. De outro modo, são os mais pobres quem mais tem a perder."

E perderão.

O Serviço Nacional de Saúde tem que ser financiado pelo Estado no seu todo.
As regras têm que ser mudadas, os utilizadores têm que saber quanto custam ao Estado e têm que ser responsabilizados pelos seus gastos, assim como os prestadores têm que ser responsabilizados pelas suas prescrições...

sábado, março 18, 2006

Escrevia Um Jornalista ...

... num jornal diário, dissertando sobre a "visita" do Ministro Correia de Campos ao Parlamento que as USF (Unidades de Saúde Familiar) iriam substituir os SAP encerrados.
O leitor não tem conhecimentos para saber se a notícia é falsa ou não.
Lê e inconscientemente vai armazenando a informação (errada).
Um médico ou outra pessoa ligada à organização dos Cuidados de Saúde Primários percebe que há um erro crasso na notícia.
Mas, o que mais me preocupa é o facto de o erro esconder uma realidade muito mais profunda do meio jornalístico: quem comete um erro deste quilate demonstra que não tem conhecimento nenhum sobre a organização dos Cuidados de Saúde Primários, nem a presente, nem a futura com as Unidades de Saúde Familiar, que serão, não uma alternativa aos Centros de Saúde, mas uma nova forma de trabalhar para os médicos de família e uma nova forma de assistência para a população, particularmente nas grandes zonas urbanas.
As USF com o seu funcionamento moderno e mais próximo da população que assistirá poderá ser a pedrada no charco que são os grandes Centros de Saúde das cidades.
Centros de Saúde impenetráveis para a população activa que esporadicamente deles possa necessitar.
As USF poderão gerir melhor as necessidades dos doentes crónicos, os quais, pela organização "caixificada" dos actuais Centros de Saúde ocupam todo o tempo assitencial disponível.
Isto o jornalista não saberá, concerteza ao dizer que as USF irão substituir os SAP encerrados...

terça-feira, março 14, 2006

Falar Sobre Jornais?

Já desisti.
Hoje lendo vários jornais, perdi a conta às notícias sobre as variadas "negligências" anunciadas.
Em algumas notícias concluí que poderia haver matéria para negligência, mas a forma de as tratar, reality-showando-as confundem o leitor e ficamos sem perceber o desenrolar dos factos.
Desde a verruga saltitante, que deu um pulo de uma mesa directamente para o caixote do lixo, até à agulha que perfurou o pulmão durante uma infiltração na omoplata, OBVIAMENTE evidente erro, passando pela absolvição da mártir de Matosinhos que era acusada por um casal de pais leigos e ansiosos de ter recusado assistência médica a uma criança saudável e cujos jornais ainda hoje referiam: "Médica acusada de recusar assistência absolvida".
Paradigmático este título. Foi absolvida pelos tribunais, mas continua a ser acusada pelos títulos dos jornais.
Até o coitado do juíz parece que a absolveu, apenas porque a não pode condenar. Não tinha provas, conclui-se. Mas já as tinha quando acusou a médica, na leitura da sentença, de falta de solidariedade.
Como se vê, é um juíz português: absolvo-te, mas acuso-te.
Não dá para criticar mais. As palermices são tantas...

domingo, março 12, 2006

Vocês Falam, Falam, ... Mas Os Médicos Também Sofrem

Para uns, os médicos são seres que nunca adoecem...

Para outros, os médicos têm que ser aquilo que Salazar impunha às enfermeiras e hospedeiras: não-seres humanos, estereotipos sempre ao serviço de quem precisa, com a nuance de qque, quem decide o quê e quando precisa é quem está "precisado". Doente imaginário ou real.

Para outros, ainda, os médicos são uma merda (todos os médicos são uma merda!) porque um deles fez merda ao próprio, ao primo, ao cunhado ou simplesmente ao vizinho!

Pois, mas os médicos também sofrem e são apanhados de surpresa muitas vezes e com a particularidade de desenharem logo o seu futuro próximo e verem o seu mundo a desmoronar num segundo.

No dia x falei horas com um médico amigo, revivemos o passado, falamos do presente e imaginamos o futuro próximo e longínquo, com muitos desenhos.

Marcamos novo encontro para quando o destino nos juntar, pois virtualmente vamos falando...

No dia x+1, perguntam-me:

- "Conheces o fulano?"
– "Perfeitamente, fomos colegas de curso!", respondo eu.
- "Olha, palpou uma adenopatia, foi ao hospital x e diagnosticaram-lhe um tumor com diversas metástases. Tá difícil! E esteve sempre assintomático!"

Difícil foi para mim gerir as emoções, mas lembrei-me: partilhar isto com o Mundo ajuda e assim talvez compreendam que os médicos são iguais a eles e não lhes podem resolver todos os seus problemas porque também não podem resolver os seus...

sexta-feira, março 03, 2006

Para Reflectir

Do jornal Tempo Medicina:

"Esperança de vida «aumenta quatro anos» em 2016

Cada dois anos e meio que passam a nossa esperança de vida aumenta um ano, «o que significa que em 2016 vai aumentar quatro anos em Portugal», disse Sobrinho Simões.

O director Ipatimup, que falava à margem da apresentação dos testes, referiu que «por cada ano de esperança de vida aumenta muito o número de cancros» diagnosticados, embora isso não intervenha de forma decisiva no número de mortes. «Felizmente, como estes cancros não são muito agressivos, não têm aumentado a mortalidade», afirmou.

Mas o facto de dois anos e meio corresponderem a um ano mais de sobrevida é, para o director do Ipatimup, «assustador», embora considere que esta situação não persistirá indefinidamente: «Isto não será sempre assim, a evolução é em planalto, mas é impressionante verificar quanto a Medicina tem conseguido aumentar a sobrevida das pessoas»."

Maria João Pires E Os Jornalistas

E depois não há iliteracia nos nossos jornais...

Ontem fui ouvindo.

MJP teve um efarte.

MJP não teve um enfarte, mas sim uma válvula entupida e vai fazer um by-pass. (Na TSF. Esta é a linguagem que usa o meu doente mais analfabeto. O jornalista quereria dizar coronária!)

MJP teve um mal-estar cardíaco e já recuperou.

MJP teve um enfarte e vai fazer um cateterismo.

MJP tem uma coronária constrangida.

E hoje finalmente o Jornal de Notícias anuncia: "MJP teve um enfarte do miocárdio e recuperou!" Um enfarte do miocárdio e recupera como que por milagre no dia seguinte!

O que todos queriam dizer era que MJP teve a famosa "angina de peito" ou síndrome coronário agudo.

As suas coronárias provavelmente "entupidas" de colesterol...

quarta-feira, março 01, 2006

Medicina Interna: Uma Especialidade Ameaçada

Retirado do jornal Tempo Medicina:

"A Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI) reuniu, pela primeira vez, os internos da área. Este encontro teve como objectivo promover o «espírito de corpo» e motivar os jovens médicos para a defesa e promoção da imagem da «sua» especialidade.

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Este 1.º Encontro Nacional dos Internos de Medicina Interna, que juntou cerca de 60 jovens médicos, pretendeu sobretudo cativar os recém-especialistas para a defesa da especialidade.

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De facto, como pano de fundo deste encontro estiveram os resultados de um estudo efectuado pela APEME, uma empresa especializada em planeamento e estudos de mercado, que revelou, entre outros dados, que 80% dos internistas considera que a especialidade está «seriamente ameaçada» ou «ameaçada».

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Estes internistas consideram que a flexibilidade na construção da carreira, o «prazer intelectual de fazer um bom diagnóstico», a possibilidade de «fugir» ao excesso tecnicista, a autonomia do internista ou a capacidade para aplicar as diversas aprendizagens e de ver o doente como um todo são alguns dos atractivos da especialidade.

.../...

A ideia de que os internistas podem desempenhar um papel preponderante nos novos modelos de gestão hospitalar que estão a ser ensaiados entre nós foi também trabalhada por um terceiro grupo de internos. Este delineou alguns argumentos, que podem ser apresentados em defesa desta tese. É possível, por exemplo, demonstrar o valor económico da prática da especialidade, evidenciando as vantagens de criar um «grande departamento» de Medicina Interna, que traria melhorias ao nível da gestão dos recursos, e de profissionalizar as urgências (o que libertaria os internistas para o trabalho assistencial).

Por fim, um último grupo de jovens clínicos delineou uma estratégia de comunicação para promover a imagem da especialidade. Posicionar o internista como o especialista de referência, o médico hospitalar fácil de localizar; promover a sua imagem como médico que está sempre presente no hospital, constantemente activo e a quem o doente pergunta o nome foram ideias sugeridas."


Segundo noticiaram os jornais, alguns hospitais de Lisboa já encerraram/desactivaram alguns serviços autónomos de Medicna Interna...