Para Os Fundamentalistas Do Relógio de Ponto!
Paulo Mendo, médico e ex-ministro da saúde no Primeiro de Janeiro de hoje.
Fui muito prejudicado quando o dr Paulo Mendo foi ministro. Só o Tribunal me deu razão, mas concordo com este seu artigo.
"Pontualidade e livro de ponto
Noticiaram, há dias, os jornais e a televisão que nos hospitais públicos a presença do pessoal passaria a ser feita por controlo informático biométrico. Disso será pioneiro o Hospital de Matosinhos onde esse método acaba de entrar em pleno funcionamento.
Julgo que o processo é mais ou menos o seguinte: o funcionário chega, digita o seu passe, põe o dedo onde a máquina manda e a sua presença e hora é registada.
Método que a tecnologia tornou simples e eficaz e que naturalmente saúdo. Mas, com a experiencia de quarenta anos de vida hospitalar, já vi e vivi não sei quantos processos de controlo das presenças, sem que lhes possa atribuir uma qualquer influência no verdadeiro funcionamento dos serviços.
Lembro-me que o relógio de ponto era usado no controlo das presenças médicas no Hospital de S. João, quando este foi inaugurado. Quem entrava marcava o ponto e o mesmo fazia à saída. Simplesmente, como é óbvio, não era o ponto que controlava o que o médico fazia entre a entrada e a saída devidamente registadas. Por isso, qualquer um podia sair, ir à sua vida extra hospitalar e quando tinha tempo, lá para o fim da tarde, vinha marcar o ponto de saída, ficando comprovado o seu dedicado trabalho, tantas vezes para além das horas contratuais!
Foi esse processo abandonado e durante a minha vida profissional conheci variadas tentativas de exercício deste controlo. Assim no Hospital de Santo António, quando ainda era administrado pela Misericórdia do Porto, existiu, durante um período longo, um livro de ponto que íamos assinar ao Gabinete do Director, havendo assim um controlo visual e hierárquico sobre as entradas.
Mais tarde passou a assinar-se o livro de ponto nos serviços, com, escrita pelo interessado, a sua hora de entrada e de saída, sendo posteriormente, esse livro, que permanecia no serviço, substituído por folhas de ponto, que eram recolhidas pelos serviços centrais administrativos, pouco tempo depois do início do horário de trabalho. E confesso que nunca vi que esses vários processos fossem mais do que tentativas falhadas para controlar a produtividade do pessoal, nomeadamente dos médicos.
E, isto, porque a única forma de garantir a presença funcional de alguém é fazê-lo indispensável para que o trabalho se processe. Nos grupos de funcionários trabalhando em equipas, onde cada qual é responsabilizado perante o grupo e onde a sua falta intempestiva bloqueia todo o trabalho, a marcação da entrada não passa, quando muito de uma necessidade administrativa, sendo completamente inútil para avaliação da produtividade do funcionário.
Se o funcionário não está responsabilizado perante os outros, se não tem tarefas marcadas, se não tem horários a cumprir, então o registo de entrada para nada serve, por que não será esse registo que o impedirá de nada fazer, de permanecer no bar a ler o jornal ou mesmo, eventualmente, a sair, definitivamente, ou regressando para marcar o ponto de saída se a isso é obrigado.
Se o processo agora incrementado é uma simples e talvez necessária acção burocrática, nada nos diz da eficiência dos “controlados”, se não assentar numa organização do trabalho em que seja nítida e conhecida a responsabilidade de cada qual face aos outros.
E existindo isso o controlo de entrada e saída é, funcionalmente, inútil.
Muito mais importante seria uma permanente luta contra a falta de pontualidade, doença crónica deste país, que ocasiona ritmos de trabalho lentos, início de acções programadas com atrasos inadmissíveis e representa uma falta de respeito pelos outros, que seria intolerável, se não fosse um pecado que todos aceitam, porque quase todos praticam
Conto uma história passada há dias com um amigo meu.
Convocado para uma junta médica às dez e meia da manhã, aí chegou, cumpridor e responsável como sempre foi, um pouco antes da hora.
Depois de esperar mais de meia hora, vê sair os elementos da junta que vão tomar um “cafezinho” a meio da manhã, interrompendo o seu trabalho, desprezando quem na sala de espera aguardava a sua vez e provavelmente nem lhes passando pela cabeça que estavam a fazer qualquer coisa de inadmissível.
E o mais grave é que nesta nossa terra ninguém protesta, tal é a aceitação da entrada nas consultas com duas horas de atraso, do início das conferências sem respeito pelos horários programados, da chegada às reuniões muito depois das horas marcadas e que sistematicamente o “maldito trânsito” justifica.
E, como verificou uma equipa que recentemente fez um estudo sobre este nosso defeito (congénito?), todos os entrevistados se queixaram da falta de pontualidade dos outros, mas todos, ou quase todos, se afirmaram praticantes de uma pontualidade exemplar.
Talvez por isso seja tão difícil uma pedagogia da pontualidade!
E essa sim é que deveria poder ser sujeita a permanente monitorização informática generalizada."














