terça-feira, outubro 16, 2007

O Novo Luto à Andy Warhol: Umas Linhas De Fama!

Nós, médicos, psicólogos e afins, sabemos que o luto se inicia pela indiferença e negação da perda (morte).

Essa negação, agora, faz-se com o eco dos "me(r)dia" que usam o sentimento das pessoas para venderem mais uns jornais, pagando míseros salários a jornalistas estagiários que a tudo se prestam, eles também à procura da "caixa" que lhe dê passagem directa para um órgão de comunicação de referência. Mas será que ainda os há?

Há mais de 30 anos aprendi o termo 'eclampsia', um verdadeiro temor para os médicos em virtude da alta mortalidade que sempre origina. É uma espécie de hipertensão maligna, fatal.

Mas a irmã gémea da falecida, em vez de se recatar e preparar o luto, pois ainda terá muito que chorar e sofrer (nessa altura já os media estarão longe e à procura de outras gémeas.

Em homenagem à grávida falecida, a notícia completa e o meu lamento pelas afirmações proferidas pela sua irmã gémea, Inês Baptista, que ainda não teve tempo de chorar a morte da sua irmã. Mas fá-lo-á, disso tenho a certeza.

Sublinhado: as não-notícias que fazem a notícia.

"V.F.X: Família de grávida que morreu vai processar hospital

A família de uma mulher grávida do Carregado, cujo funeral se realizou no domingo, pretende mover uma acção judicial contra o Hospital Reynaldo dos Santos, em Vila Franca de Xira, por alegada negligência na morte da familiar, mas hospital contrapõe.

"Vamos até às últimas consequências, até perder as forças", relatou à agência Lusa Inês Baptista, irmã gémea de Alexandra Alves Baptista, de 31 anos de idade, que faleceu na quinta-feira, "A autópsia acusou que ela tinha uma hemorragia hepática e uma eclâmpsia, mas para mim não chega", disse a familiar, que admite recorrer aos tribunais.

Inês Alves Baptista não compreende como a irmã faleceu, após passar "de uma hora para a outra" a sofrer de lesões hepáticas que lhe "rebentaram o fígado", quando não tinha quaisquer antecedentes clínicos e uma vez que "se fosse doente as análises que tinha feito há uma semana acusariam".

Contactada pela Lusa, a directora clínica do Hospital Reynaldo dos Santos, Ana Alcasar, ainda sem conhecer o resultado da autópsia, revelou que, numa primeira avaliação preliminar efectuada ao longo de segunda-feira, "não terá havido negligência por parte dos profissionais", mas a unidade hospitalar vai abrir um processo de avaliação interna, como acontece "sempre que há uma morte inesperada", no sentido de apurar responsabilidades.

Alexandra Alves Baptista, grávida de 31 semanas, deu entrada na quinta-feira pelas 10:30 no hospital vila-franquense com tensão alta a 15/8, onde ficou internada, tendo sido a segunda vez que recorreu à unidade (da primeira vez sentiu também contracções) devido a problemas de hipertensão, causada por um alegado nervosismo resultante da morte de um familiar.

Foram administradas duas injecções para controlar a tensão, após receber medicação oral que não surtiu efeito (em vez de baixar, subiu a tensão para 22/12).

"Não sei que injecções eram, mas dez minutos depois a minha irmã começou a piorar, queixando-se de dores mesmo muito fortes na barriga e nos rins, estava cheia de suores, aos vómitos e a querer revirar os olhos", contou Inês Alves Baptista, numa altura em que a tensão já tinha descido para 10/5.

Por parte do hospital, "não há uma relação causa-efeito", explicando que os problemas de hipertensão com alterações no sistema renal (eclâmpsia) são "frequentes" no fim da gravidez, mas neste caso o problema "desenvolveu-se de forma mais ou menos abrupta".

Face ao estado clínico reservado, os médicos decidiram transferi-la para o Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa, a fim de retirar o bebé de dentro da mãe e colocá-lo na incubadora, já que o Hospital Reynaldo dos Santos apenas dispõe de incubadora a partir das 34 semanas.

O agravamento da situação clínica obrigou os bombeiros a regressarem para trás [    quem deu a ordem?] de modo a antecipar a operação, conseguindo tirar ainda com vida o recém-nascido, que acabaria por morrer minutos depois.

No momento da intervenção,"surgiu um problema porque ela estava com uma hemorragia hepática", contou Inês Alves Baptista, recebendo a informação do médico de que a sua irmã teria de ser reencaminhada para o Hospital Curry Cabral, para ser submetida a um transplante de fígado.

Após dar aí entrada às 22:00 horas, acabaria por falecer meia-hora depois devido a uma hemorragia hepática e a uma eclâmpsia, segundo o resultado da autópsia, deixando duas filhas de sete e nove anos de idade.

"Se ela estava com dores, se tinha a tensão alta desde há uma semana, porque não a mandaram logo para o São Francisco Xavier?", questiona a familiar, para quem "tem de haver um culpado".

O Hospital Reynaldo dos Santos aguarda agora pelos resultados do processo de averiguações, que deverão ser conhecidos dentro de quinze dias, remetendo mais explicações para essa altura.

Diário Digital / Lusa "

Ganda contradição da irmã gémea que afirma no iníquo que a irmã estava de óptima saúde.

A eclampsia mata e a hipertensão também...

8 comentários:

Anónimo disse...

a minha ignorância levou-me a procurar informação sobre eclampsia... realmente estas e outras situações acontecem e o pessoal que trabalha na área da saúde não faz milagres!!! Por outro lado também é complicado, pois raramente se consegue aceitar a morte de um ente querido, quando não se espera. Nestas situações é muito mais facil ter alguém para "apontar o dedo" e responsabilizar...
Eu sei o que digo!
Felizmente consegui manter o bom senso!
/PB

Anónimo disse...

Expliquem às duas filhas que esta mãe deixou a seus familiares que alguém naquele hospital não é culpado...
Sim Ok ela fez analises que diziam estar tudo bem, ora se uma grávida tem problemas de tansão ou hepáticas isso não vem nas analises?!...
Não é uma questão de arranjar culpados mas digam que o bebé trazia um hamatoma na cabeça, apresentando estado de sofrimento.
A verdade é...esta mãe foi ao centro de saúde,onde lhe mediram a tensão e estava alta para uma grávida, mandaram dirigir-se ao Hospital ela assim fez, deram-lhe 2 injecções às quais o bebé não resistiu e debateu-se contra a morte dentro do utero da mãe, que resultou no rebentamento do fígado, não resistindo bebé e mãe, acabaram por falecer os dois...
Não me venham com histórias de culpar ou não alguém, pois não se administra algo numa grávida sem ter certezas do que se vai fazer.
A família tá revoltada Sim, em grande sofrimento Sim, pois como explicar a 2 crianças felizes que iam ter um mano e lhes é dada a noticía que ficaram sem a mãe e bebé.
Tenho alguém que mt estimo, que não morreu lá, porque Deus não quis e se debateu contra a morte até ao ultimo segundo, num espeço de 12horas foi aberto 3 vezes e com 3 anestesias gerais, tal como ele se debateu contra a morte, também este bebé o fez, nunca pensando que estaria a matar a sua mãe.
Também sou mãe e não quero sequer imaginar o sofrimento desta mãe e filho até ao ultimo suspiro.
Acho que a revolta nesta situações toma conta da nossa alma mas, se a pessoa que tanto estimo, tivesse (Deus me livre) falecido, o que diriam aqui, o que diria a autopsia?! ... Vinham pedir que fossemos benovelentes e que nos conformassemos porque acontece....Ora caramba, não pode ser assim, não são Deus são médicos mas, eles melhor que ninguém devem de saber o que fazem e sejamos justos, com revolta ou sem ela...
Ver a dor na cara daquela família, que estava prestes a ter alegria nos lábios e no olhar, realmente é algo que nos deixa sem palavras...
Que Deus nos ajude e proteja, pois não sabemos nunca o que pode acontecer a nós ou aos que amamos.
Com os melhores cumprimentos a todos os leitores.

Anónimo disse...

Cara Anónima: o seu ente querido não foi aberto (operado) nem uma vez para divertimento dos médicos. Isso lhe asseguro. Nem a segunda, nem a terceira.
Quanto ao caso em apreço, muita confusão vai no seu comentário. É necessário combater o erro médico. É necessário punir a negligência. Mas também é necessário ter bom-senso.

naoseiquenome usar disse...

Erro? Negligência? Ou a morte que ainda não é anacrónica e não se compadece?

Anónimo disse...

Comentei no meu blog:
http://juramentodoshipocritas.blogspot.com/

Placebo

Anónimo disse...

A necessidade de encontrar um culpado é compreensivel,é-nos inato canalizar, se possível, a nossa revolta e angústia sobre alguém. Tal como é aceitavel tentar perceber se houve ou não negligencia. Contudo este caso de eclampsia, como ja foi expicado, embora em linguagem erudita e médica, não é sempre possível diagnosticar com analises anteriores, é uma situação de hipertensão arterial maligna, que nao tem nada a ver com a dita "tensão alta" do senso comum, esta sim mensuravel e possivel ser detectada numa simples medição. Portanto, apelo ao bom senso e à evicção de comentários sem substrato. Boa tarde.

SG disse...

Resposta/Comentário à anónima de quarta feira, dia 17:


O problema da Medicina e dos Hospitais e da Saúde em geral é que o que os "clientes" que a procuram o fazem para obter algo que não existe: a imortalidade.

É preciso que as pessoas percebam que se morre! Que há limites à capacidade de resolver as situações com que nos deparamos diariamente.

Mesmo que as tensões altas e os problemas hepáticos sejam detectados nas análises, não passam a ser situações menos graves. Pela descrição sumária, penso que se tratou de um síndrome HELLP, que tem elevada mortalidade. Ninguém teve culpa por aquela senhora morrer, é assim mesmo: morre-se muito dessa doença. Mesmo que se seja jovem e previamente saudavel e mesmo que duas crianças sofram muito por ficarem sem Mãe.

médico utente de médico disse...

Fiquei comovido com a situação, mas como médico sem o que é a eclampsia...tenho uma situação grave com o meu filho, todos os exames foram normais e os cuidados foram excepcionais..mas é mesmo assim...eu percebo pq sou médico e sei ate aonde se vai...mas a minha familia não percebe...e ainda bem é sinal que desejam a vida e a saude... por isso aceito bem a injustiça de que somos alvo nestas situações é sinal que os doentes tem fe na infalibilade médica, que não existe.....