sexta-feira, março 31, 2006

Estudo Europeu Sobre Erro Médico

"Cidadãos têm medo mas confiam

Um estudo da União Europeia (UE) revelou que metade dos portugueses teme vir a ser vítima de um erro médico. Mas, apesar dos muitos receios, os doentes parecem confiar nos médicos. O «TM» ouviu alguns especialistas na matéria para saber como encaram estes resultados.
Cinquenta por cento dos portugueses receia vir a ser alvo de erros médicos e 59% considera ser provável sofrer um erro grave, provocado por um médico ou outro profissional de saúde, num hospital do nosso país. Estas são algumas das conclusões mais marcantes do estudo do Eurobarómetro da Comissão Europeia, o primeiro sobre erros médicos.
O trabalho, divulgado no início deste mês, revela que o erro médico é uma preocupação para a maioria dos europeus, embora a dimensão do fenómeno varie de forma considerável em todo o território europeu. Em média, 4 em cada 5 cidadãos do velho continente pensa que o erro médico é um importante problema no seu país.
Em Portugal, a percepção é semelhante – 77% dos inquiridos julga que o erro médico é uma questão preocupante. Mesmo assim, neste particular, estamos longe das cifras quase assustadoras da Itália, onde 97% dos cidadãos considera o erro médico um problema nacional importante.

Definição imprecisa

Mas quando se pergunta aos portugueses se pensam ser provável vir a ser alvo de um erro médico grave num hospital nacional, o número de respostas afirmativas (59%) coloca-nos em sétimo lugar, na tabela dos 30 países estudados, e acima da média comunitária (47%).
António Vaz Carneiro, médico e director do Centro de Estudos da Medicina Baseada na Evidência da Faculdade de Medicina de Lisboa, defende que estes números devem ser analisados com muito rigor, não só porque o problema do erro médico é complexo, mas também porque a percepção do conceito, por parte da opinião pública, é com frequência imprecisa. «Muitas vezes, aquilo que as pessoas pensam ser um erro médico é antes um efeito adverso ou uma reacção alérgica inesperada», explicou.
Por isso, Vaz Carneiro considerou, nas suas declarações ao «TM», que as pessoas estão confusas e, a crer nos números, muito assustadas, sem razão. «Se, de facto, mais de metade dos portugueses pensa ser possível um dia sofrer um erro médico grave dentro de um hospital nosso, então, estão fora da realidade, porque felizmente a percentagem de erro médico não é tão elevada», frisou.
Por seu turno, José Fragata, cirurgião e autor do livro O erro em Medicina, também ouvido pelo «TM», admitu que as cifras encontradas estão «dentro do que seria esperado», mas sublinha a peculiaridade deste estudo. Na verdade, os trabalhos até agora conhecidos (sobretudo oriundos dos Estados Unidos, Inglaterra e Austrália) baseiam-se na declaração voluntária ou revisão de processos feita por profissionais de saúde, enquanto o estudo da UE assenta em inquéritos efectuados ao público, «o que aumenta a sensibilidade, mas reduz a especificidade ou o rigor na definição de erro».
Neste contexto, o especialista destaca que, de acordo com o Eurobarómetro, o reconhecimento do problema entre a população é elevado, mas apenas um pequena parte declara já ter sido vítima de um erro médico (23%, no total, 16% em Portugal). Para o cirurgião, esta aparente discrepância «traduz bem o impacte da notícia e o papel dos media na divulgação, nem sempre bem feita, deste problema de saúde».
Já Guilherme de Oliveira, director científico do Centro de Direito Biomédico da Faculdade de Direito de Coimbra, disse ao «TM» que estes números estão em consonância com os resultados dos estudos realizados nos Estados Unidos sobre a matéria. «Não me admira que haja, na Europa, muito mais erro médico do que se pensa, se, de facto, a nossa realidade não for muito distinta da norte-americana. E os dados agora divulgados vêm mostrar que a população tem essa percepção ou, pelo menos, desconfia», afirmou o jurista.

Confiança nos profissionais

Apesar destas cifras reveladoras de uma apreensão generalizada em relação ao erro médico, é curioso notar que os cidadãos europeus parecem confiar nos seus profissionais. Entre nós, os dentistas são os mais merecedores da confiança dos utentes (70%), seguindo-se os clínicos e o restante staff médico (ambos 68%).
Vaz Carneiro não tem dúvidas que a confiança demonstrada nos médicos é «um sinal positivo para a classe», enquanto José Fragata defende que este resultado ilustra a «complexidade das determinantes da relação médico-doente», entre as quais se destaca a confiança, «parte integral do “contrato de tratar”».
No entanto, a educação dos doentes é uma «batalha difícil» e que «está longe de ser vencida». E essa é uma tarefa dos médicos, lembra Vaz Carneiro.

Nórdicos são excepção à regra

No meio de um mapa em que reina o pessimismo, a Finlândia e a Dinamarca parecem ser as excepções que confirmam a regra. Estes são os únicos países onde apenas menos de metade da população considera importante o problema do erro médico. Pelo contrário, em Itália, na Polónia e na Lituânia mais de 90% dos inquiridos encara a questão do erro médico como um problema de alto relevo no seu país.
No geral, os europeus confiam mais nos dentistas (74%) do que nos médicos (69%). Os menos confiantes nos seus profissionais são os gregos, os cipriotas, os búlgaros e os polacos, enquanto, uma vez mais, os finlandeses se distinguem pela positiva, ao serem os mais crentes na capacidade do seus recursos humanos da Saúde."

in "Tempo Medicina"

terça-feira, março 28, 2006

Gripe Aviária: Leia Um Cheirinho De Ciência

Retirado do Jornal Tempo Medicina.

A lista de pessoas que vão ter prioridade na quimioprofilaxia da gripe foi encarada pelos meios de informação geral «de uma forma muito desagradável» e numa «perspectiva negativa», disse Graça Freitas, no Porto, lembrando que tal medida é para «benefício da sociedade».

A questão da lista das pessoas com prioridade para receber oseltamivir, recentemente apresentada, foi levantada por Filipe Fróis, do Serviço de Pneumologia do Hospital de Pulido Valente, no passado dia 18, no decorrer de uma mesa dedicada à pandemia da gripe, integrada nas Jornadas Galaico-Durienses, que decorreram no Porto.

Este médico referiu que o assunto foi divulgado à população «de uma forma extremamente negativa», sendo «útil esclarecer os colegas sobre os critérios que presidiram à elaboração dessa lista de pessoas indicadas para fazer quimioprofilaxia de longa duração».

A subdirectora-geral da Saúde Graça Freitas, prelectora nesta mesa, reconheceu que, de facto, houve «situações muito desagradáveis» na informação, garantindo que esta medida «não vai privilegiar elites», nem os cidadãos incluídos são beneficiados.

«Pelo contrário, são pessoas que vão trabalhar no duro horas e horas a fio», acentuou. Como explicou, Portugal procedeu como todos os países desenvolvidos, visto que a reserva de oseltamivir, além de contemplar o tratamento para 2,5 milhões de portugueses, se destina também à quimioprofilaxia das pessoas «consideradas prioritárias», porque vão «prestar serviços essenciais ao País».

Quanto aos critérios, Graça Freitas esclareceu que não foram apenas contemplados médicos e enfermeiros, sendo a escolha feita por «um grupo de peritos», em função do tecido social e seus grupos profissionais, e, naturalmente, «com base na literatura internacional».

A responsável disse mesmo que, se vier a contrair a gripe, gostaria que «um dos médicos presentes ou outro qualquer» estivesse saudável para a tratar. «Isso é a noção de quimioprofilaxia prioritária», frisou, garantindo que «o resto da população não vai morrer por falta de medicamentos».

Planos de contingênciaNa sua apresentação, dedicada ao tema «Que fazer antes, durante e depois» da pandemia da gripe, centrado, nomeadamente, na aplicação do plano de contingência, que como se sabe se estende a vários ministérios e empresas, Graça Freitas disse que foi necessário fazer cenários, os quais tiveram que ser revistos.

O cenário mais crítico apresentado refere-se a um pico de uma semana em que, com uma «taxa de ataque» de 25%, estarão doentes 413 mil pessoas. A subdirectora-geral da saúde enumerou ainda outros cenários para consultas médicas no período pandémico, apontando quatro eixos «importantíssimos» que estão a ser desenvolvidos: «A informação em saúde, a prevenção e controlo com medidas de Saúde Pública (internamento, ambulatório, vacinas e medicamentos), a comunicação e a avaliação do processo».

A responsável disse que estão a ser criados mecanismos para «impedir fugas de medicação armazenada», lembrando que quando os frascos do fármaco forem distribuídos aos centros de saúde, farmácias e hospitais, o mesmo doente, com o mesmo episódio de gripe, só pode ter acesso a uma receita. «Mesmo que vá a 10 médicos diferentes, tem que haver algum tipo de controlo, e isso passa obviamente pela informática», sublinhou, lembrando ainda que «há que impedir os médicos de prescreverem a quem não reúna critérios para prescrição».

Mutação adaptativa.

Na mesma reunião, Maria de São José, professora da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, fez o ponto da situação da gripe aviária, lembrando que um dos receios mais evidentes é que os humanos possam ser infectados de forma concomitante com o H5N1 e o vírus da gripe sazonal.

Neste caso pode ocorrer a recombinação, ou seja, a mistura dos genes de uma estirpe humana com o H5N1, situação que, informou a especialista, «daria ao vírus da gripe aviária aquilo que ele pretende: possibilidade de se transmitir facilmente, adquirindo uma hemaglutinina». Mas também a mutação adaptativa pode ocorrer, já que «quanto mais tempo este vírus estiver no homem mais possibilidades temos que recomece a adaptar-se», sublinhou Maria de São José, reconhecendo que «a situação não é, de maneira alguma, favorável para nós».

Como lembrou, a evolução do H5N1 durante os anos 2004-2005 foi «muito preocupante», sobretudo porque «aumentou a variedade de hospedeiros» e começou a matar aves migratórias e também gatos e tigres (147 tigres, segundo disse, morreram na Tailândia por comer carcaças de galinhas infectadas).

Falência multiorgânica: Maria de São José comparou a gripe de 1918 com a gripe aviária, no que diz respeito a severidade, lembrando que os doentes têm apresentado, além da pneumonia viral primária, que se complica depois com a síndrome de dificuldade respiratória aguda, «uma falência multiorgânica», inferindo que «parece ser a resposta imunológica a responsável por este quadro tão dramático».

De qualquer forma, a farmacêutica referiu que, apesar de hoje se tentar extrapolar a mortalidade desta gripe para a de 1918, temos que pensar que presentemente temos muito melhores cuidados de saúde, muito mais medicamentos, mais meios de diagnóstico e muito maior capacidade de produção de vacinas.
Por outro lado, em 1918 havia «uma população muito mal nutrida, saída de uma guerra».

Traçando um quadro mais optimista, Maria de São José disse que o H5N1 pode continuar a ter dificuldade em «saltar a barreira das espécies, como de resto continua a ter, se atendermos aos milhões de aves de capoeira que já foram infectadas» e aos 177 casos humanos. «Sabemos que não estamos perante um vírus humano» e que ele «tem dificuldade em se adaptar à multiplicação nas nossas células», disse, concluindo, ainda num cenário optimista, que o H5N1 «pode nunca chegar a ter capacidade de se transmitir de pessoa a pessoa».

H5N1 «aumentou a estabilidade ambiental»«O vírus está muito mais voltado para as aves domésticas e para os modelos animais, e aumentou a estabilidade ambiental, o que começa a tornar possível a transmissão ambiente-pessoa, como já aconteceu em alguns casos através de fezes de galinhas ou de outras aves domésticas doentes», salientou Maria de São José.

De resto, para a especialista, o que se passou na Turquia foi «alarmante» (aparecimento de 20 casos humanos em apenas duas semanas), já que no Sudoeste asiático, conforme recordou, «nunca se criaram clusters tão grandes», o que a levou a concluir que aí possa ter havido também transmissão inter-humana.

Por outro lado, «mostrou-se que as estirpes H5N1 isoladas na Turquia começaram a apresentar alterações preocupantes, ou seja, uma mutação», sublinhou a especialista, esclarecendo que isso «faz com que a hemaglutinina da gripe aviária já comece a aumentar a sua afinidade para os sectores das células humanas»....

A gripe e o «empolamento interno» O «empolamento interno e internacional» relativamente à gripe das aves foi criticado pelo pneumologista José Miguel de Carvalho, do Hospital de Santarém, ao defender que o que se tem visto até agora são «situações autonomizadas».

«Por exemplo, na Turquia não haverá grandes meios», em termos de equipamentos sociais e de habitação, e «noutros locais as coisas acabam por ser evitadas». O facto de morrerem 100% das aves infectadas não é novo para este especialista, uma vez que se trata de «um mecanismo de autolimitação de expansão» da doença com a mortalidade.

«Até agora não temos exemplos de que o tal cenário catastrofista seja real», disse, considerando que, no entanto, continua-se a «vender o panorama de pânico» de 1918.

«Acho que há uma distorção», sublinhou. O pneumologista recordou que, apesar de tudo, há muitas doenças subestimadas no mundo. «Muitas pessoas morrem por falta de tratamento e, mesmo nos nosso país, há falta de dinheiro para comprar os remédios e às vezes morre-se por causa disso», acrescentou, lembrando ainda que «em muitos locais as autoridades de Saúde subestimam essa questão, mesmo a nível internacional».

terça-feira, março 21, 2006

Passo Dias E Dias Sem Ver Ninguém... (cont.)

E revendo a sua ficha de entrada, hoje era o seu dia de aniversário. 77 anos.

E não lhe dei os parabéns!

E será que alguém se lembrou?

Passo Dias E Dias Sem Ver Ninguém...

... acaba de afirmar a doente ao levantar-se após a consulta e fechando a porta do gabinete médico da urgência.

Satisfeita porque já falou com alguém, desconhecido, mas alguém que a ouviu.

As queixas foram muitas e o médico tem que compreender que ISTO para a doente era uma urgência. Por isso a mediquei com antidepressivos, enquanto a ia ouvindo, mas o melhor seria prescrever-lhe o antigo companheiro que a deixou há 10 anos. Ela tem agora 77.

Para o médico será sempre uma FALSA urgência. E para a estatística.

Dramas sociais em directo, que a Internet nos gabinetes médicos permite postar.

segunda-feira, março 20, 2006

Para Os Pais Que Merecem Ser Trocados Por Dois Peixinhos Vermelhos


Com a devida vénia transcrevo este post do blog portocarago:



"Neil Gaiman e Dave McKean juntaram-se em boa hora para escrever um daqueles livros que os adultos compram desculpabilizados com a desculpa de ser para as crianças: "O Dia em que troquei o meu pai por dois peixinhos vermelhos".
A história é muito simples, à falta de cromos, um menino resolve trocar um pai que passa o tempo todo a ler o jornal. O problema é que a mãe não está muito pelos ajustes. E o segundo problema é destrocar todas as trocas sucessivas.

Neil Gaiman e Dave McKean, O Dia em que troquei o meu pai por dois peixinhos vermelhos, Vitamina BD / Devir Livraria, Lda., 56 págs., 15.00E
"

domingo, março 19, 2006

Manuel Antunes: Quem Lhe Pagará As Horas Extraordinárias?

Manuel Antunes afirmava dias atrás, a propósito da redução de gastos em horas extraordinárias, "assim mais vale entregar as chaves"... do seu serviço de cardiologia nos HUC. Criticou o ministro e o seu governo porque lhe tocava no ordenado.
Sabemos da enorme dedicação do pessoal do seu serviço que recebe horas extraordinárias 24 sobre 24 horas. Não critico. As horas extraordinárias são para quem trabalha. E trabalha-se muito, não só no serviço do senhor dr Manuel Antunes, mas também em muitos outros serviços dos cuidados de saúde primários, secundários e terciários e altamente diferenciados. Uns mais visíveis que outros.

Mas, pergunta Manuel Antunes...

"Financiamento do Serviço Nacional de Saúde: chegou a hora de mudar?"

Sabemos que há muito que mudar no Serviço Nacional de Saúde.
Há abusos por parte dos profissionais e por parte dos doentes!
Há desperdício generalizado, por parte dos utentes e dos profissionais!
Há muita irresponsabilidade e desresponsabilização por parte das administrações, dos profissionais e dos, novamente, utilizadores!

E segundo Manuel Antunes: "optemos pelo princípio do utilizador-pagador. Em minha opinião, este é o melhor modo de contribuir para a sustentabilidade do nosso SNS e para evitar a perda da sua universalidade. De outro modo, são os mais pobres quem mais tem a perder."

E perderão.

O Serviço Nacional de Saúde tem que ser financiado pelo Estado no seu todo.
As regras têm que ser mudadas, os utilizadores têm que saber quanto custam ao Estado e têm que ser responsabilizados pelos seus gastos, assim como os prestadores têm que ser responsabilizados pelas suas prescrições...

sábado, março 18, 2006

Escrevia Um Jornalista ...

... num jornal diário, dissertando sobre a "visita" do Ministro Correia de Campos ao Parlamento que as USF (Unidades de Saúde Familiar) iriam substituir os SAP encerrados.
O leitor não tem conhecimentos para saber se a notícia é falsa ou não.
Lê e inconscientemente vai armazenando a informação (errada).
Um médico ou outra pessoa ligada à organização dos Cuidados de Saúde Primários percebe que há um erro crasso na notícia.
Mas, o que mais me preocupa é o facto de o erro esconder uma realidade muito mais profunda do meio jornalístico: quem comete um erro deste quilate demonstra que não tem conhecimento nenhum sobre a organização dos Cuidados de Saúde Primários, nem a presente, nem a futura com as Unidades de Saúde Familiar, que serão, não uma alternativa aos Centros de Saúde, mas uma nova forma de trabalhar para os médicos de família e uma nova forma de assistência para a população, particularmente nas grandes zonas urbanas.
As USF com o seu funcionamento moderno e mais próximo da população que assistirá poderá ser a pedrada no charco que são os grandes Centros de Saúde das cidades.
Centros de Saúde impenetráveis para a população activa que esporadicamente deles possa necessitar.
As USF poderão gerir melhor as necessidades dos doentes crónicos, os quais, pela organização "caixificada" dos actuais Centros de Saúde ocupam todo o tempo assitencial disponível.
Isto o jornalista não saberá, concerteza ao dizer que as USF irão substituir os SAP encerrados...

terça-feira, março 14, 2006

Falar Sobre Jornais?

Já desisti.
Hoje lendo vários jornais, perdi a conta às notícias sobre as variadas "negligências" anunciadas.
Em algumas notícias concluí que poderia haver matéria para negligência, mas a forma de as tratar, reality-showando-as confundem o leitor e ficamos sem perceber o desenrolar dos factos.
Desde a verruga saltitante, que deu um pulo de uma mesa directamente para o caixote do lixo, até à agulha que perfurou o pulmão durante uma infiltração na omoplata, OBVIAMENTE evidente erro, passando pela absolvição da mártir de Matosinhos que era acusada por um casal de pais leigos e ansiosos de ter recusado assistência médica a uma criança saudável e cujos jornais ainda hoje referiam: "Médica acusada de recusar assistência absolvida".
Paradigmático este título. Foi absolvida pelos tribunais, mas continua a ser acusada pelos títulos dos jornais.
Até o coitado do juíz parece que a absolveu, apenas porque a não pode condenar. Não tinha provas, conclui-se. Mas já as tinha quando acusou a médica, na leitura da sentença, de falta de solidariedade.
Como se vê, é um juíz português: absolvo-te, mas acuso-te.
Não dá para criticar mais. As palermices são tantas...

domingo, março 12, 2006

Vocês Falam, Falam, ... Mas Os Médicos Também Sofrem

Para uns, os médicos são seres que nunca adoecem...

Para outros, os médicos têm que ser aquilo que Salazar impunha às enfermeiras e hospedeiras: não-seres humanos, estereotipos sempre ao serviço de quem precisa, com a nuance de qque, quem decide o quê e quando precisa é quem está "precisado". Doente imaginário ou real.

Para outros, ainda, os médicos são uma merda (todos os médicos são uma merda!) porque um deles fez merda ao próprio, ao primo, ao cunhado ou simplesmente ao vizinho!

Pois, mas os médicos também sofrem e são apanhados de surpresa muitas vezes e com a particularidade de desenharem logo o seu futuro próximo e verem o seu mundo a desmoronar num segundo.

No dia x falei horas com um médico amigo, revivemos o passado, falamos do presente e imaginamos o futuro próximo e longínquo, com muitos desenhos.

Marcamos novo encontro para quando o destino nos juntar, pois virtualmente vamos falando...

No dia x+1, perguntam-me:

- "Conheces o fulano?"
– "Perfeitamente, fomos colegas de curso!", respondo eu.
- "Olha, palpou uma adenopatia, foi ao hospital x e diagnosticaram-lhe um tumor com diversas metástases. Tá difícil! E esteve sempre assintomático!"

Difícil foi para mim gerir as emoções, mas lembrei-me: partilhar isto com o Mundo ajuda e assim talvez compreendam que os médicos são iguais a eles e não lhes podem resolver todos os seus problemas porque também não podem resolver os seus...

sexta-feira, março 03, 2006

Para Reflectir

Do jornal Tempo Medicina:

"Esperança de vida «aumenta quatro anos» em 2016

Cada dois anos e meio que passam a nossa esperança de vida aumenta um ano, «o que significa que em 2016 vai aumentar quatro anos em Portugal», disse Sobrinho Simões.

O director Ipatimup, que falava à margem da apresentação dos testes, referiu que «por cada ano de esperança de vida aumenta muito o número de cancros» diagnosticados, embora isso não intervenha de forma decisiva no número de mortes. «Felizmente, como estes cancros não são muito agressivos, não têm aumentado a mortalidade», afirmou.

Mas o facto de dois anos e meio corresponderem a um ano mais de sobrevida é, para o director do Ipatimup, «assustador», embora considere que esta situação não persistirá indefinidamente: «Isto não será sempre assim, a evolução é em planalto, mas é impressionante verificar quanto a Medicina tem conseguido aumentar a sobrevida das pessoas»."

Maria João Pires E Os Jornalistas

E depois não há iliteracia nos nossos jornais...

Ontem fui ouvindo.

MJP teve um efarte.

MJP não teve um enfarte, mas sim uma válvula entupida e vai fazer um by-pass. (Na TSF. Esta é a linguagem que usa o meu doente mais analfabeto. O jornalista quereria dizar coronária!)

MJP teve um mal-estar cardíaco e já recuperou.

MJP teve um enfarte e vai fazer um cateterismo.

MJP tem uma coronária constrangida.

E hoje finalmente o Jornal de Notícias anuncia: "MJP teve um enfarte do miocárdio e recuperou!" Um enfarte do miocárdio e recupera como que por milagre no dia seguinte!

O que todos queriam dizer era que MJP teve a famosa "angina de peito" ou síndrome coronário agudo.

As suas coronárias provavelmente "entupidas" de colesterol...

quarta-feira, março 01, 2006

Medicina Interna: Uma Especialidade Ameaçada

Retirado do jornal Tempo Medicina:

"A Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI) reuniu, pela primeira vez, os internos da área. Este encontro teve como objectivo promover o «espírito de corpo» e motivar os jovens médicos para a defesa e promoção da imagem da «sua» especialidade.

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Este 1.º Encontro Nacional dos Internos de Medicina Interna, que juntou cerca de 60 jovens médicos, pretendeu sobretudo cativar os recém-especialistas para a defesa da especialidade.

.../...

De facto, como pano de fundo deste encontro estiveram os resultados de um estudo efectuado pela APEME, uma empresa especializada em planeamento e estudos de mercado, que revelou, entre outros dados, que 80% dos internistas considera que a especialidade está «seriamente ameaçada» ou «ameaçada».

.../...

Estes internistas consideram que a flexibilidade na construção da carreira, o «prazer intelectual de fazer um bom diagnóstico», a possibilidade de «fugir» ao excesso tecnicista, a autonomia do internista ou a capacidade para aplicar as diversas aprendizagens e de ver o doente como um todo são alguns dos atractivos da especialidade.

.../...

A ideia de que os internistas podem desempenhar um papel preponderante nos novos modelos de gestão hospitalar que estão a ser ensaiados entre nós foi também trabalhada por um terceiro grupo de internos. Este delineou alguns argumentos, que podem ser apresentados em defesa desta tese. É possível, por exemplo, demonstrar o valor económico da prática da especialidade, evidenciando as vantagens de criar um «grande departamento» de Medicina Interna, que traria melhorias ao nível da gestão dos recursos, e de profissionalizar as urgências (o que libertaria os internistas para o trabalho assistencial).

Por fim, um último grupo de jovens clínicos delineou uma estratégia de comunicação para promover a imagem da especialidade. Posicionar o internista como o especialista de referência, o médico hospitalar fácil de localizar; promover a sua imagem como médico que está sempre presente no hospital, constantemente activo e a quem o doente pergunta o nome foram ideias sugeridas."


Segundo noticiaram os jornais, alguns hospitais de Lisboa já encerraram/desactivaram alguns serviços autónomos de Medicna Interna...

terça-feira, fevereiro 28, 2006

Conflito de Interesses.

No excelente blog Blasfémias este post sobre os diversos conflitos de interesse na Medicina.

Estando a actividade médica tão mercantilizada, desde o medicamento, a prevenção, as técnicas de diagnóstico, o apoio aos idosos, etc, etc, neste artigo pode ler-se que hoje em dia até os doentes têm os seus conflitos de interesse.

Acrescento: as faltas ao trabalho com "baixas" pagas, as indemnizações astronómicas pelas companhias de seguros, as percentagens de invalidez nos acidentes de trabalho,de viação, as reduções nos impostos, e até o "afecto" e a "pena" de quem está doente. Não nos esqueçamos que os primeiros hospitais eram hospícios onde se escondia quem estava doente...

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Acabou!

Com o extracto desta notícia da Lusa, onde se pode ler que uma professora universitária (mas não aplico a teoria boldânica e não incluo o senhor professor universitário de física, dr Boldão, no rol dos professores universitários a contas com a justiça) termina toda e qualquer resposta ao referido pofessor. A pouca qualidade dos seus argumentos, mas a sua repetição até à exaustão tem marcado a agenda deste blog.

Não pode ser!

O blog continuará, mas a agenda não será marcada pelo referido comentarista, embora o mesmo não seja banido dos comentários.

"27-02-2006 12:59:00. Fonte LUSA.
Saúde/Fraude: Burla superior a dois milhões euros leva seis arguidos a tribunal

Lisboa, 27 Fev (Lusa) - Seis arguidos, entre os quais três farmacêuticas,.../...

No âmbito deste processo, Gerarda Marques esteve em prisão domiciliária e Delmina Subtil foi obrigada ao pagamento de uma caução de 25 mil euros. Todos os arguidos estão actualmente sujeitos apenas ao Termo de Identidade e Residência (TIR).
Os restantes arguidos são Manuel Marques, marido da Gerarda Marques, que se fazia passar por enfermeiro, Artur Tavares, auxiliar de acção médica no Hospital de São José, em Lisboa, Henriqueta Marques dos Santos, professora universitária, Margarida Santos Leite e Rosário Mesquita Dias, ambas farmacêuticas.
"

domingo, fevereiro 26, 2006

Boldanices em bold

Diz o comentador residente e anti-médico primário deste blog, professor universitário de Física, sr dr Raúl Boldão:

"De acordo com este semanário, em média, cada médico, declarou como rendimento ilíquido anual, em 2003, qualquer coisa como 307.985€. O que, em moeda antiga, já sei que não estão para fazer contas por isso faço eu, representa, qualquer coisa como 61.745 contos. Ou, mensualizando, se tivermos a bondade de contar 14 meses por ano (com subsidio de férias e Natal), 4.410 contos por mês."

O sr Boldão e os seus acólitos já demonstraram que o seu grande problema são os ordenados dos médicos. Mainada.

Resumindo: INVEJA. Sempre foi um problema dos portugueses.

A INVEJA e a HIPOCRISIA. O Sr. Boldão diz que conhece médicos prevaricadores (casos de polícia e para a IGS) e afirma que os não denuncia porque são seus amigos. Mas, como apenas conhece as ovelhas negras desta nobre profissão, tem como princípio de análise a generalização: aliás, outra característica dos portugueses: o "eles" são os culpados de tudo.

Mas estou consigo Sr Boldão, também estou com inveja destes números que apresentou:
- se eu ganhasse 4,5 mil contos por mês, nem perdia tempo a discutir consigo.

E refere que é uma média!

Eu quero o meu dinheiro.

Quem se está a abotoar com a minha parte?

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Um Médico Às Mãos do Sr Dr Boldão!

  Posted by Picasa

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Ai Se Fosse Médico...

Como não é, apenas um diário regional (Diário de Leiria) contou esta história:

"Mulher acusa ‘padre’ exorcista de assédio sexual
m casal de Vila Franca, ele de 38 anos e ela de 31, pais de uma menina de cinco anos que sofre de hiperactividade, resolveram pedir ajuda espiritual, depois de esgotadas as tentativas através da medicina convencional e de não saberem como lidar com a situação. E foi ao 'padre' Humberto Gama, que conheceram através de reportagens televisivas, que decidiram recorrer, por três vezes.
Na primeira consulta, em Outubro do ano passado, e segundo relatou ao nosso Jornal o marido da paciente, nada de anormal se passou, tendo Humberto Gama referido que o problema não estava na criança mas sim na mãe, alegadamente possuída por um “espírito homossexual”, pelo que seriam necessárias mais consultas, ao que o casal acedeu.
No dia 28 de Dezembro voltaram à casa do 'padre', em Valinhos de Fátima, e foi aí que terão começado a acontecer práticas menos ortodoxas. Desta vez, e ao contrário da primeira consulta, o marido e a filha da suposta vítima já não estiveram ao seu lado, uma vez que terá sido levada para um quarto onde se encontrava, para além do 'padre', uma alegada enfermeira. "Aí, e para além de lhe ter apertado várias partes do corpo, ele introduziu o dedo na vagina da minha esposa e disse a essa rapariga que o fizesse também. Isso seria, segundo ele, para empurrar o espírito", recorda o homem, ainda longe de imaginar que no dia 11 de Janeiro deste ano é que o 'exorcismo' teria contornos mais perversos.
"Nesse dia ele foi sozinho para o quarto com a minha esposa, beijou-a na boca, apalpou-a, voltou a introduzir o dedo na vagina e exibiu o sexo dele enquanto gritava 'ama-me, ama-me!'", relatou o homem que só mais tarde teve conhecimento de tudo isto, uma vez que a esposa, temendo uma reacção mais violenta do marido, não lhe contou de imediato o sucedido, apesar de estranhar as práticas de exorcismo que lhe foram aplicadas, chegando mesmo a marcar uma quarta consulta "porque a minha esposa estava cada vez pior e eu fazia de tudo para ela ficar boa".
A quarta consulta nunca chegou a realizar-se, mas o casal 'consultou' a PSP de Fátima, onde apresentou queixa, "para evitar que mais pessoas sejam vítimas deste homem devasso e imoral disfarçado de padre e que só quer extorquir dinheiro às pessoas. Nós não queremos um tostão só queremos que seja desmascarado, para que não haja mais vítimas".
O marido da alegada vítima de abusos sexuais sublinha ainda o facto de Humberto Gama, a quem acusa de ter "mau carácter", dizer sempre que "os outros é que são doidos, doentes, e malucos com imaginação", para “se defender dos crimes hediondos que comete".
“Tentativa de extorsão”

Confrontado com estas acusações, Humberto Gama, que já foi acusado outras duas vezes por práticas de idêntico cariz, assegura que esta "não foi a primeira e não vai ser a última queixa contra mim", já que "tudo isto se trata de uma organização" que tem por objectivo denegrir a sua imagem.
Segundo o 'padre', o casal que agora o acusa de assédio sexual, "anda a ser tratado em psicologia e neurologia, que já correu seca e meca, não houve bruxo, não houve ninguém que eles não tivessem contactado", mas acabaram por bater lhe bater à porta, na sua residência perto de Fátima (possui outra em Murça).
"Vieram cá a primeira vez e eu disse-lhes que pensava que o mal vinha dela e do marido e não da filha. Depois voltaram uma segunda vez e eu tratei-os aqui (numa sala), sempre juntos, e aí eu disse-lhe que aquilo não era comigo, não era do meu aforro, porque aquilo é uma esquizofrenia" e porque "o pai estava aqui aos murros na mesa, e a mãe a tremer, eu e a enfermeira que estava comigo levámos a senhora para um quarto para impedir que a criança visse aquilo", recorda o 'padre'.
O casal voltou uma terceira vez, mas Humberto Gama diz que tudo o que eles contam se passou na segunda consulta e que da terceira já nem os queria atender mas acabou por fazê-lo. E mais, assegura o exorcista, "depois de todas estas coisas e das queixas ainda tentaram marcar uma quarta consulta, via telefone, e insultaram a minha empregada porque ela lhes disse, que se queria uma nova consulta, é porque gostou".
Para este homem, que até já foi candidato do CDS-PP à câmara de Murça, todo este caso é uma tentativa de extorsão de dinheiro, à semelhança de outros casos que já lhe sucederam, pelo que não tem problemas em sentar-se no banco dos réus, "porque depois quem pede uma indemnização sou eu", assegura, frisando que tudo não passou de "uma masturbação intelectual" de alguém que, ao contrário dele, "tem medo de dar a cara" e que neste caso “é a minha palvra contar a dela”, porque eu só estou aqui para ajudar as pessoas, e elas querem ser ajudadas.
O 'padre' explica ainda que o exorcismo "é uma energia que pode aparecer em qualquer parte", pelo que não faz sentido "colocar a mão na cabeça de uma pessoa, se o mal que ela tem está nas costas, e que os médicos também tocam nos pacientes", e desafiou-nos a assistir a um exorcismo para mostrar que fala verdade."

sábado, fevereiro 04, 2006

É Tudo Muito Complicado...

Anjos e demónios dos medicamentos
Artigo de João Paulo de Oliveira

Será o enquadramento legal em vigor suficiente para evitar conflitos de interesses entre médicos e companhias farmacêuticas? Para dez médicos americanos, liderados pelo Prof. Troyen Brennan, da Harvard University, não. Para o Prof. Paul Rubin, da Emory University, restringir a capacidade de comunicação da Indústria Farmacêutica (IF) porá em causa a Saúde Pública.
O actual contexto não poderia ser mais propício ao debate das relações entre médicos e IF. Persistem ainda os ecos da retirada do mercado de vários medicamentos, agravada por posteriores alegações de subtracção de dados «inconvenientes» sobre a sua segurança por parte dos investigadores e pelo envolvimento de prestigiadas revistas médicas na divulgação de informações desvirtuadas que os seus editores tomaram como boas; há cientistas que assumem ter falseado o resultados das suas pesquisas e utilizado o bom nome daquelas publicações para construírem uma glória efémera ou obterem dinheiro de forma menos lícita; há a polémica sobre os ghostwriters, médicos que serão principescamente pagos para assinar artigos com informação distorcida que não escreveram, credibilizando-os. E, last but not the least, há a crise económico-financeira em que os sistemas de Saúde procuram flutuar: em 2005, parlamentares ingleses quiseram policiar o marketing farmacêutico para reduzir a factura em medicamentos, alegando que muitos fármacos são prescritos sem que se conheça o seu perfil integral de efeitos secundários. Os seus esforços não foram avante, porque a IF é a terceira actividade mais lucrativa e pujante do país, e a ministra da Saúde, Jane Kennedy, afirmou à BBC ser do interesse do Governo britânico que a IF «mantenha a sua forte posição», sem prejuízo de continuar a pugnar por uma relação cada vez mais equilibrada entre as partes.

Tensão matricial

Estes afloramentos de uma tensão matricial que governa as relações entre a IF, os médicos e o poder ocorrem por vagas, mas a actual, tantos são os casos e os aspectos, gera desconfiança, mesmo um descrédito crescentes sobre a Indústria Farmacêutica e sobre os cientistas que para ela ou com ela trabalham, e não pode, por isso ser ignorada. O artigo de Brennan et al. é prova dessa inquietação. Publicaram um artigo na edição do passado dia 25 da JAMA, no qual propõem um conjunto de novas medidas restritivas da interacção entre médicos e IF, baseados em estudos que quantificam os aspectos negativos dessa interacção para os profissionais de saúde e para os doentes.
As medidas propostas incluem a proibição de aceitação de presentes, independentemente do seu valor, e a regulamentação da oferta de amostras e do financiamento da participação em congressos e simpósios. Na raiz destas propostas está, por exemplo, o artigo de Dr. Ashley Wazana, publicado também na JAMA em Janeiro de 2000.
Neste artigo, o psiquiatra da Universidade de Montreal, no Canadá, analisou 29 estudos sobre o relacionamento entre médicos e Indústria Farmacêutica, e concluiu, na maioria deles, pela existência de resultados negativos dessa interacção, nomeadamente prescrição não-racional, e prescrição crescente de fármacos mais recentes e caros sem vantagem demonstrada sobre os antigos da mesma classe, tendo os médicos demonstrado «falta de preocupação com a influência de presentes, material promocional, refeições e almoços de trabalho», que estarão na origem do favorecimento da companhia com a qual interactuam. Isto apesar de, como reconheceu o autor do artigo em declarações a The Medical Post, a introdução de guidelines nesta área ter «alterado significativamente as coisas».
No editorial que acompanhava o artigo da JAMA, o Dr. Robert Tenery, do American Medical Association Council on Ethical and Judicial Affairs, temperava as conclusões do Dr. Wazana, notando que «os delegados de informação médica podem ser uma valiosa fonte de informação para os médicos» e que «seria irrealista propor que todas as refeições, entretenimentos ou financiamentos são anti-éticos».

Outro ângulo

Que «as coisas» não estão bem é evidente, mas como não há só uma verdade, será curioso examiná-las de outro ângulo, o que fez o Prof. Paul Rubin, na Regulation (Verão de 2005), a propósito do artigo do Dr. Wazana.
Escreve o docente de Economia e Direito na Emory University: «Os delegados de informação médica (DIM) recebem incentivos para venderem “excessivamente” os seus produtos; mas também fornecem informação de confiança acerca dos benefícios dos seus fármacos. Ao analisar os efeitos dos esforços de promoção e de vendas, é importante considerar os aspectos positivos e negativos do marketing farmacêutico». Ora, «a literatura é geralmente crítica daqueles esforços, centrando-se nos aspectos negativos da promoção (...) e embora se exprima em termos empíricos e científicos, e faça uso de dados, sofre de algumas fraquezas», acrescenta o Prof. Rubin, que não hesita em afirmar: «Se os mesmos métodos e nível de rigor fossem utilizados na análise de outro problema — por exemplo, a efectividade de um medicamento —, as publicações científicas rejeitariam a investigação e a FDA não aprovaria o fármaco». O articulista aponta, na análise em apreço, viéses de selecção, insistência no estudo de fármacos inefectivos e uma escolha de endpoints da qual, como o próprio Dr. Wazana salienta, está ausente, em todos os estudos revistos, o bem-estar do doente. O resultado, escreve, é que «não existe evidência na literatura de malefício para os doentes da promoção e do marketing farmacêutico; o que existe é evidência ambígua e fraca de prescrição imprópria com base num estudo holandês de 1982». Os outros estudos «mostram simplesmente que o contacto com os DIM cria uma impressão favorável da companhia e que os presentes levam a um contacto mais frequente com os DIM. Estes efeitos seriam maléficos se a promoção levasse a prescrição incorrecta ou lesiva para a saúde», mas não existem dados que o demonstrem.
De acordo com o articulista, uma das principais bases da economia de mercado — e ainda não inventámos outra menos má — é que «as actividades realizadas em proveito particular levam muitas vezes a benefício público». A seu ver, isto também é verdade para a IF.

O cerne da questão

No fim do artigo, o Prof. Rubin vai ao cerne da questão. Em 1983, Avorn e Soumerai sugeriram que um centro académico poderia fornecer melhor informação aos médicos do que os DIM, e que a Medicaid, a HMO ou a Veteran’s Administration poderiam financiar estes programas. Até hoje, nota o articulista, «nenhuma destas entidades se dispôs a fazê-lo (...). Não admira, porque o custo de fornecer informação aos médicos sobre medicamentos ronda os 11 biliões de dólares por ano (...). Mesmo que o actual processo de promoção de fármacos tenha falhas, é difícil pensar numa alternativa praticável. Também era bom que todos os médicos lessem regularmente jornais médicos, mas não lêem»...
Assim, o Prof. Rubin pensa que se os regulamentos e os códigos de Ética tornarem a capacidade de comunicação da IF «mais difícil ou mais cara, o custo não será apenas suportado pelas companhias. A principal consequência será que muitos médicos aprenderão menos sobre medicamentos, o que se reflectirá negativamente na saúde dos doentes».
As sociedades confiaram a investigação, produção e comercialização de medicamentos e outras terapêuticas à IF, e esta não tardou a construir empórios cotados na bolsa. Ora, este é um contexto onde, como os últimos anos têm demonstrado amplamente, a perversidade está sempre pronta a saltar, porque a pressão dos accionistas, a exigirem lucros de forma cega e permanente, é tremenda. Mas se a Humanidade tem hoje mais tempo de vida e com melhor qualidade de vida, deve-o em grande medida, no que dos medicamentos depende, à IF — onde decerto não apenas se movimentam anjos. Como em lado algum, de resto.
O debate em curso, que é legítimo, necessário, mesmo urgente, tem revelado por todo o Mundo onde se trava com mais calor algumas posições sem esforço etiquetáveis de hipócritas, mal fundamentadas, até maldosas, em certos casos. Espera-se que de todos os lados acabe por prevalecer o bom senso e o compromisso com o progresso.
Sem lucros não há investigação, e sem investigação o futuro da Humanidade estará ameaçado. Será concebível um Mundo onde, subitamente, se abandone a busca de novas moléculas para tratar melhor ou curar qualquer das patologias que continuam a afligir os seres humanos? Ou estarão os cidadãos dispostos a financiar, através dos seus impostos, um ministério da Investigação para o qual trabalhem todos os investigadores em Biomedicina, dotado de um orçamento construído no pressuposto de que os custos do desenvolvimento de uma nova molécula rondam hoje os mil milhões de euros?

joao.oliveira@tempomedicina.com

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Agrediu Um Médico. É Um Santo!

O autor, Francisco Pedro de Leiria ou Carlos Ferreira, que presumo serão jornalistas, (do Correio da Manhã, está tudo dito) noticiam hoje a agressão de um doente a um médico na urgência de um hospital.

Seria de prever uma notícia pedagógica condizente com uma agressão gratuita. Mas não. O senhor jornalista apresenta o agressor como vítima e o médico como vilão. É óbvio que o doente descarregou a sua frustração por ter um "tomate inflamado" e portanto não poder dar a sua quequasita habitual, no médico, mas a sua intensão seria agredir a instituição.

Refere o senhor jornalista que as agressões têm vindo a aumentar. Sem dúvida. E notícias como esta, com foto e tudo, são o motor desse aumento em progressão geométrica.

"Pedro Cordeiro afirma que agrediu o médico porque foi mal atendido no Hospital de Leiria

Um doente com uma inflamação num testículo perdeu a paciência nas urgências do Hospital de Santo André (HSA), em Leiria, e agrediu um médico a murro na cara. O clínico está de baixa e vai processar o agressor, que continua sem o problema de saúde resolvido.

Pedro Cordeiro, de 44 anos, tem passado os últimos cinco meses em aflição, por causa de uma inflamação no testículo esquerdo. A primeira vez que o problema surgiu deslocou-se ao Hospital de Leiria. Recebeu um diagnóstico desanimador. “Disseram-me que o problema só se resolvia com uma operação.”

Três dias depois, o serralheiro voltou às urgências, com o mesmo problema. O diagnóstico manteve-se, mas com uma variante. “O especialista mandou-me pedir credenciais ao médico de família para apresentar nas consultas externas, mas nunca fui chamado pelo hospital.”

Há quatro meses, regressou às urgências, passou uma tarde com gelo na zona inflamada, recebendo alta a seguir. Terça-feira, a inflamação voltou a manifestar-se. O doente dirigiu-se de novo ao hospital, com o testículo “do tamanho de um punho fechado”, sendo recebido pelo mesmo especialista. Quando este lhe disse que teria de “entrar na lista de espera das operações”, Pedro Cordeiro perdeu as estribeiras e agrediu-o a murro. A PSP tomou de imediato conta da ocorrência.

ADMINISTRAÇÃO INDIGNADA

Segundo o director clínico do HSA, o caso “não justifica atendimento num serviço de urgência”. Por isso, o doente foi orientado “para tratamento cirúrgico através da consulta externa do hospital”.

Hélder Leitão lamenta a excessiva pressão por parte do doente para contrariar as regras de acesso aos cuidados hospitalares não urgentes e que, por causa da atitude “indigna e reprovável”, o clínico tenha sofrido “danos físicos consideráveis” e ficado de baixa médica.

OFENSAS E AGRESSÕES SUCEDEM-SE

AUMENTO

Um estudo efectuado pela Direcção-Geral de Saúde concluiu que as agressões a profissionais de saúde têm vindo a aumentar. As zonas mais problemáticas, segundo o estudo, são o Norte, Centro e Lisboa e Vale do Tejo."

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

"O doente perdeu a confiança no médico"

No jornal Tempo Medicina:

Carneiro Chaves sugere contrato para reabilitar imagem da profissão
A necessidade de elaborar um contrato entre os médicos e a sociedade para que esta recupere a confiança nos clínicos e a redefinição do modelo que rege a prática médica foram dois conceitos-chave da conferência com que Carneiro Chaves assinalou a sua jubilação.
«O doente perdeu a confiança no médico», disse Francisco Carneiro Chaves, defendendo a realização de um «contrato entre o médico e a sociedade» em que a «a sociedade reconheça o que é a Medicina, o que os médicos fazem no seu dia-a-dia e aceitem a existência de uma margem de erro nas suas decisões».
O gastrenterologista falava aos jornalistas no final da conferência «Medicina clínica e profissionalismo», tema escolhido para assinalar a sua jubilação, numa cerimónia que decorreu no passado dia 27 de Janeiro, na Aula Magna da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP).
Um dia antes de completar os 70 anos, Carneiro Chaves deixou em aberto o lugar de director do Departamento de Medicina do Hospital de S. João, que ocupava a par da actividade como professor catedrático da FMUP.
«Antigamente a confiança no médico era ilimitada», lembrou, acrescentando também não ser isso o que se pretende. O que se quer, vincou, é que, sendo muito mais informados e interventivos que antigamente, os doentes e a sociedade em geral têm que ser capazes de entender a Medicina não como uma questão estritamente técnica, mas como uma arte. «As expectativas criadas por uma cultura de divulgação científica e a tentativa apressada, feita sem senso, de passar achados científicos para a prática clínica justificam, pelo menos em parte, uma exigência da opinião pública que muitas vezes está para além do que é razoável», disse.
Ao mesmo tempo, lembrou, as organizações que dominam os vários sistemas de saúde «exercem pressões, levadas por vezes ao excesso, e por isso indesejáveis, em áreas que não são da sua competência, como quanto ao número de doentes a observar num dado período de tempo, ao mesmo tempo que incentivam ou impõem restrições ao recurso a outras especialidades, ao pedido de meios auxiliares de diagnóstico ou à prescrição de fármacos».
A divulgação, por parte da comunicação social, de erros ou insucessos da profissão sem o respectivo «destaque dos aspectos positivos» conduz também, nas palavras do especialista, ao «aparecimento frequente de litígios e de queixas de má prática que criam no médico insegurança e são determinantes na prática da chamada medicina defensiva».

Profissionalismo

Limitação importante à intervenção clínica é a escassez de recursos, «sejam técnicos ou económicos», disse, frisando que, não sendo a solução destes casos da responsabilidade dos médicos, cabe-lhes a eles «enfrentá-los e apelar para a sua solução. Também a burocracia, as guidelines e «as condições impostas pelas organizações ao exercício da profissão como a sobrecarga de trabalho, os horários excessivos e o pagamento inadequado» são factores a ter em conta, e a explicar aos doentes, quando se trata de limitações à prática da medicina clínica e que «ameaçam por todo o lado os valores do profissionalismo».
E o profissionalismo, conceito que, lembrou, congrega múltiplas características da profissão, como sejam «os deveres para com o doente como o respeito e a integridade; a resposta às necessidades do doente e da sociedade para além dos interesses do médico; a responsabilidade perante o doente, a sociedade e a profissão; o compromisso para a excelência e o desenvolvimento profissional contínuo; a capacidade de dar uma resposta que tenha em conta a cultura e os valores de cada doente», deve ser um desígnio a perseguir pelos médicos. E, assim entendido, o profissionalismo «pressupõe para além de uma adesão estrita aos princípios éticos da profissão, a capacidade do médico criar uma verdadeira inteligência emocional que lhe permita conhecer as suas próprias emoções assim como as emoções dos outros e geri-las».
Carneiro Chaves propõe, então, um novo modelo para a prática da Medicina, diverso do que considera a actividade limitada exclusivamente à aplicação dos conhecimentos científicos na solução dos problemas de saúde. Os médicos devem também ser educados, disse, para servirem como «agentes de mudança, que lhes permita intervir ajudando os doentes a ajustarem-se à mudança que representa a doença, o sofrimento e a morte que continuam a ser inerentes à condição humana».
Na sua intervenção, o professor defendera ainda a necessidade de o papel de interlocutor entre o doente e as várias especialidades que muitas vezes se agrupam para o tratar caber a um médico com formação generalista, como é o caso dos especialista em Medicina Interna, na prática hospitalar, e os médicos de família, no ambulatório, «sem que se pretenda defender, em todas as circunstâncias, a liderança das equipas médicas por estes especialistas», frisou.

Paula Mourão Gonçalves