sexta-feira, novembro 10, 2006

A Letra De Médico...

TM 1.º CADERNO de 2006.10.11

"E ESTA?
Receita para analfabetos
De vez em quando, lá vem a «letra de médico» para animar a difícil relação dos prescritores com as farmácias. Aqui, nesta secção, ainda há bem pouco tempo remoçámos o assunto, com o recurso aos dados de um estudo da agência americana do medicamento — FDA — e com o alerta de que já há médicos condenados, nos Estados Unidos, por causa da ilegibilidade da escrita.

Na sequência, um leitor atento recordou ao «TM» uma saborosa estória de uma Lisboa distante, a dos alvores dos anos 40. João Armando de Aragão e Rio, assim se chama o médico que nos escreveu, conta que um dia um trabalhador das obras se despediu da sua empresa para rumar a um novo emprego, no Porto. Pediu, então, uma carta de apresentação — elogiosa, já se vê — para o seu futuro patrão. Mas o problema é que tão analfabeto era o empregado como o patrão, que de forma desenrascada, rabiscou uma folha de papel e meteu-a dentro de um envelope.

O trabalhador, legitimamente curioso, terá pedido a um polícia que lhe lesse a carta, mas o cívico, também analfabeto, remeteu o homem para a farmácia próxima, onde decerto lhe atenderiam o pedido. E assim foi. Depois de uma espera na fila, lá chegou o trabalhador à sua vez. Num ápice, o homem da farmácia pegou no papel rabiscado, desapareceu no interior e trouxe uma receita aviada, com a solene indicação de que deveria ser tomada três vezes ao dia…
E esta?

D.C
."


0612111C12406DC41A

13 comentários:

Mário de Sá Peliteiro disse...

Hoje isso nunca aconteceria, o homem da farmácia seria um farmacêutico.

Essa "estória" serve então para demonstrar que o trabalho do médico é mais eficiente se houver o complemento de um bom serviço de Farmácia.

Valia a pena pensar nisto e deixarmo-nos de guerrinhas em que quem ganha não são nem os médicos nem os farmacêuticos...

Anónimo disse...

Felizmente com as receitas a computador isso ficará tudo para a história. O mesmo não se pode dizer de alguns registos clínicos...

Anónimo disse...

Só me apetece dizer uma coisa...
E quando é o médico que tem dificuldade em entender o que escreve o outro médico?
Quando se vira o feitiço contra o feiticeiro então passam a ser ambos analfabetos.
Contra mim e contra muitos estou a falar.
Peliteiro, com o levantar dos problemas e a sua discussão é que podemos melhorar algo. Mas eu escudo-me sempre na desculpa de me ter esquecido dos óculos...

naoseiquenome usar disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
naoseiquenome usar disse...

A mim antes de mais, apetece-me dizer "graças a Deus"... e por artes da graça não divina, ser entendida.


Depois,
Su,
quase que também graças a Deus, o processo clínico começa (também) a estar informatizado em vários hospitais. Trata-se ainda de uma aplicação cara e pesada, que faz com que os utilizadores, por vezes sejam demasiado herméticos na escrita e, portanto, não fique de todo, só por esse facto, facilitada a leitura dos registos, com imediatos ganhos de eficiência. Mas é esse o caminho.

De resto, onde ainda não existe a informatização, o que "me apetece dizer", parafraseando o J.F. é que mais vale ter registos clínicos "com letra de médico", do que não os ter de todo, como muitas vezes acontece.

Quanto à "estória",M.S.Peliteiro, e ao analfabetismo, trata-se de apenas um retrato caricaturado de tempos idos, onde até o polícia é chamado de cívico :)
Hoje este analfabetismo que correspondia à falta absoluta de instrução, ao desconhecimento do alfabeto, felizmente encontra-se senão totalmente, quase, erradicado. O pior é o analfabetismo funcional que vai grassando.

Assim sendo e sem mais por ora, permitam-me lembrar, também aqui, que os registos clínicos são um dever do médico e um direito dos doentes, fundamentais para uma boa continuação de cuidados!

naoseiquenome usar disse...

Atrevo-me a "responder" ao anónimo talentoso e de grande capacidade de articulação temática, que:
- Em termos de direitos humanos, os leitores que por aqui passaram ficarão com o registo da matéria subjacente ao artigo e julgo que todos a condenarão;

- em termos mais "profissionalizantes", a única conclusão a reter, é como "Resumo da Ópera" que, a ética profissional e a ética (?) política nunca devem confundir-se.

naoseiquenome usar disse...

*queria dizer: os leitores que por aqui passarem

Anónimo disse...

Porque é que os farmacêuticos pensam sempre que estão em guerra com os médicos?
Guerras, só com alguém de jeito e não com meia dúzia de laparotos que trabalham com a caixa registadora numa farmácia.

CPAF

Mário de Sá Peliteiro disse...

... não são os farmacêuticos que estão em guerra, nem a procuram.
Como se vê pelo comentário anterior.

Medico Explica disse...

Em defesa de Mário de Sá Peliteiro:

Concordo consigo, o comentário anterior é deselegante. Este meu post não pretendeu atacar ninguém, mas apenas transcrever uma história do "Tempo Medicina" onde se conclui que a má letra dos médicos é um problema antigo, que se mantém e que tem que ser resolvido...

Anónimo disse...

Deselegante ou não, a verdade é que o comentário reflecte um pensamento comum. Eu partilho desse pensamento. Chamem-me ignorante, chamem-me o que quiserem...mas a verdade é que eu quando vou à farmácia dou "o papel", recebo o medicamento e pago...ao farmacêutico ou técnico de farmácia. Ou seja, eu não vejo diferença (enquanto utente) entre estes dois profissionais e por isso apelo, a quem sabe, que me responda à seguinte questão: "Mas afinal, o que faz o farmacêutico que torne o pensamento em causa imoral, errado ou idiota?".
Obrigado.

Anónimo disse...

O Pires anda por aqui. Cada cromo!

Mário de Sá Peliteiro disse...

Anónimo das 4 e 46:

A diferença entre Farmacêuticos e Técnicos de Farmácia deve ser menor que a existente entre a irmã de um médico radiologista e esse mesmo radiologista, mas existe sim.

Eu, licenciado, pós-graduado, especializado, experiente e tal e tal, sempre que me meto atrás de um balcão de Farmácia fico acometido por um nervoso miudinho e penso sempre que poderia ter feito melhor, que deveria saber mais sobre este ou aquele assunto, etc., etc.. É porque sou burro, de certeza!

Por outro lado, os jovens licenciados em C.Farmacêuticas quando iniciam o Estágio em Farmácia, se não acompanhados muito de perto, fazem as mais disparatadas asneiradas. No decorrer do curso devem ter sido lobotomizados ou devem ter sofrido um processo de metamorfose Kafkiana estranha.

Ainda, os cursos superiores que existem em todo o mundo, licenciaturas, pós-graduações, especializações, etc. etc. devem ser uma cabala dos Farmacêuticos para se imporem na sociedade, já que não têm aplicação prática nenhuma; talvez uma cabala orquetrada pela ANF... Ou pelo Pinto da Costa...

Enfim, julgo ter respondido à sua dúvida sistemática, mas como uma imagem vale por mil palavras, faça uma experiência, tente vestir uma bata e coloque-se atrás de um balcão de Farmácia a atender doentes - vai ver uma imagem de urso ignorante, um imenso urso, veja, veja cada vez com mais nitidez, um urso, com cara de parvo, ignorante.

No caso de o anónimo ser médico (porque há tantos anónimos nas caixas de comentários?) já o caso muda de figura, já se safaria bem melhor, e com umas semanas de estágio já não faria figura de urso (o que nos poderia levar a explorar a hipótese de acabar com os cursos de Farmácia e a torná-los uma das especializações de medicina), faria a mesma figura que eu, com umas semanas de estágio, teria se me metessem a dar consultas, por exemplo, num Centro de Saúde. Talvez figura de panda, um panda pequenino...