segunda-feira, agosto 11, 2008

Que a culpa não morra solteira se isso for o caso

Morreu ao embater com ambulância do INEM
Dúvidas levantam-se quanto ao cumprimento da sinalização luminosa em Cedofeita
JN
MANUEL VITORINO
Um motociclista morreu, sábado, após o embate contra uma ambulância do INEM em serviço que, segundo testemunhas, terá passado um sinal vermelho. A PSP apenas admite que viatura "iria em marcha de urgência".


A potente Honda 600 era um monte de ferros retorcidos e ficou pintada de vermelho, junto aos semáforos do cruzamento das ruas de Aníbal Cunha, com Sacadura Cabral, a poucos metros da igreja de Cedofeita, no Porto. No chão, estava um cadáver, restos de órgãos, uma enorme poça de sangue do jovem Rui Miguel Ferreira, 23 anos, morador na Rua de Miguel Bombarda, em Cedofeita. Junto à vistosa máquina, capaz de atingir 280 quilómetros, uma ambulância do INEM com a porta direita destruída, pára-brisas estilhaçado e muita gente emocionada perante o triste e macabro cenário.

Foi ontem, cerca das 18, 30 horas. "Temos dados que testemunham a ausência de excesso de velocidade. O tacógrafo não mente", adiantou, ao JN, um dos enfermeiros do INEM.

Quanto ao eventual desrespeito do condutor da ambulância do INEM diante do sinal vermelho e sinalização da marcha - questão fundamental para avaliar a responsabilidade do embate -, a mesma fonte optou por não responder.

"Tudo indica que a ambulância estaria em marcha de urgência", afirmou, mais tarde, ao JN, o oficial de serviço ao comando da PSP do Porto, que evitou fazer mais comentários, uma vez que não são conhecidos os resultados das perícias feitas. "O caso será entregue ao Ministério Público. Houve uma morte. Vamos averiguar", disse.


"Só o excesso de velocidade do condutor da moto poderá justificar tal grau de violência. Ele arrancou e espetou-se contra a ambulância. Foi tremendo o estrondo", garantiu um homem de meia-idade, que evitou alongar-se.

No entanto, e segundo o JN apurou, duas outras testemunhas apressaram-se a fornecer as suas identidades à PSP no sentido de apontar responsabilidades ao condutor da ambulância do INEM, cujo porta-voz (e apesar das diligências feitas ao longo da tarde pelo JN) esteve sempre indisponível para comentar a ocorrência.


"Foi um estrondo enorme. A ambulância ainda tentou desviar-se, mas não conseguiu evitar o choque. Quando cheguei, vi os médicos do INEM e um cadáver no chão", contou Fernando Cardinal. "Era uma jóia de rapaz. Não merecia este fim", dizia José Vidal. Chega, entretanto, a companheira, mais amigos da vítima. "Ainda hoje [ontem] vi-o a andar de mota. Devia ir para o café". Por perto, os bombeiros limpavam os destroços, chapa, restos do volante. E os ténis que trazia calçados.


O que diz o decreto-lei (Artigo 65º)
No que concerne à cedência de passagem, os condutores devem "ceder a passagem aos condutores dos veículos referidos no artigo anterior ". No outro ponto do articulado, afirma-se: "sempre que as vias em que tais veículos circulem, de que vão sair ou em que vão entrar se encontrem congestionadoas, devem os demais condutores encostar-se o mais possível à direita, ocupando se, necessário, a berma". Exceptuam-se os casos em que "as vias públicas onde existam corredores de circulação" ou "auto-estradas e vias reservadas a automóveis e motociclos, nos quais os condutores devem deixar livre a berma"


Secção IX, artigo 64º
Quanto ao trânsito de veículos em serviço de urgência, a lei diz que "os condutores de veículos que transitem em missão de polícia, de prestação de socorro ou de serviço urgente de interesse público assinalando adequadamente a sua marcha podem, quando a sua missão o exigir, deixar de observar as regras e os sinais de trânsito, mas devem respeitar as ordens dos agentes reguladores do trânsito". Além disso, "os referidos condutores não podem, porém, em circunstãncia alguma, pôr em perigo os demais utentes da via, sendo designadamente, obrigados a suspender a sua marcha".

3 comentários:

Anónimo disse...

Impressão minha ou o jornalista pretendeu veicular, de forma muito dissimulada, uma peça dramática muito "à la tardes da Júlia" da TVI. O sentimentalismo jornalístico despoja o imparcialismo, o qual alguns juram ser a coqueluche da notícia impressa em matéria viva. Contudo a forma como o operam transformam o papel quase impróprio para a reciclagem, e a notícia em si perfuma o mais nauseabundo lixo jornalístico. A cumprir o bem ou o mal, gente boa morre todos os dias e isso nunca deixou de ser tragédia. E a cumprir o bem também provocam-se acidentes trágicos. Que pena as motas não terem tacógrafo, talvez isso não fosse o suficiente para “vitimizar” o acidentado à luz do jornalismo, que por meios promíscuos subsiste numa luta fogosa contra o estado da assistência pré-hospitalar em Portugal.
Que se apurem as responsabilidades de forma devida, à luz da lei, e que a perícia tenha sido efectuada sem o dramaturgo por perto. Por outro lado, julgo que situações destas são reincidentes na zona do Porto, está na hora de descobrir o porquê.


Visão ENFernal

Gerofil disse...

Médico espanhol ameaça queixar-se da ordem a Bruxelas

O oftalmologista espanhol que em Março realizou 234 operações às cataratas em seis dias, no Hospital do Barreiro, admite apresentar queixa contra a Ordem dos Médicos na Comissão Europeia.

José Lillo Bravo diz estar "cansa- do de perseguições sem sentido", e afirma que a auditoria que a ordem está a realizar aos seus procedimentos obriga alguns hospitais portugueses, sobretudo no Alentejo, a adiar novos contratos para futuras operações.

O Hospital de Elvas - onde o médico já operou mais de mil doentes - e o de Portalegre são dois exemplos, tendo uma fonte da administração da Unidade Local de Saúde, presidida por Luís Ribeiro, avançado ao DN que a contratação do cirurgião está a ser estudada, como forma de acelerar as consultas de oftalmologia.

Porém, a administração, que afirma ter "total confiança" no cirurgião, proprietário de duas clínicas em Espanha (Badajoz e Mérida), prefere aguardar pelo resultado da investigação da ordem, que quer perceber como é possível realizar 40 cirurgias por dia, para que o processo decorra com total normalidade.

Contactada pelo DN, a Administração Regional de Saúde do Alentejo, em que o recrutamento de médicos espanhóis tem sido uma das saídas para fazer face à crise de profissionais, revela que nos hospitais do Norte alentejano há 254 pedidos de consulta, 193 dos quais já foram atendidos, existindo 161 pacientes em lista de espera.

O porta-voz da ARS alentejana, Mário Simões, diz que "a espera é sempre inferior a três meses" e garante que "nem todas as pessoas precisam de operação".

José Lillo Bravo, que afirma ainda não ter sido notificado para ser ouvido pela ordem, na qual está inscrito há oito anos, já apresentou uma primeira queixa na ordem espanhola, dando conta da alegada perseguição, mas está empenhado em fazer uma exposição a Bruxelas, defendendo: "Não é justo andarem a pressionar hospitais e doentes para que eu não opere. A melhor maneira de me investigarem é falarem com os meus pacientes. Eles que digam se alguma coisa correu mal."

O médico diz ainda ter em sua posse a cópia do bloco de Janeiro do Hospital do Barreiro onde foram realizadas 39 operações às cataratas em 12 dias, das quais 21 com recurso a anestesia geral. "Isso é que é de Terceiro Mundo e depois admiram-se que eu opere em cinco minutos. É curioso que nenhum colega do Barreiro subiu ao bloco para aprender comigo e agora questionam os meus métodos. Não posso tolerar mais isso."

O Hospital de São Bernardo, em Setúbal, também chegou a equacionar a contratação do oftalmologista, mas recentemente acabou por optar por alargar o horário de consultas com os médicos do próprio quadro, propondo-se realizar mil operações às cataratas no prazo de um ano.

ROBERTO DORES

(Diário de Notícias, 16 de Agosto de 2008)

esculápio disse...

O que importa agora é apurar se a ambulância ia efectivamente em socorro de alguém, se essa chamada estava perfeitamente identificada - para se apurar se o desrespeito das regras do código se justificavam perante a necessidade de salvar um bem de superior valor - e se o condutor da ambulância estava sob o efeito de álcool ou outras drogas. Depois digam que não avisei...