domingo, novembro 09, 2008

"É HORRÍVEL DIZER QUE NÃO"

Falta de meios
Cuidados paliativos estão a recusar doentes incuráveis por falta de camas

09.11.2008 - 09h14 Catarina Gomes


Na primeira unidade de cuidados paliativos do país, a funcionar no Hospital do Fundão, "o aumento enorme de doentes a precisar de cuidados paliativos" tem levado a que alguns sejam recusados. "A capacidade está esgotada em termos de internamento", diz o director do Serviço de Medicina Paliativa da unidade, Lourenço Marques. Muitas vezes, quando voltam a ter lugares, "o doente morreu, ou já não se consegue contactar". O médico, que gere um serviço com dez camas, conta que 25 por cento dos doentes ali internados chegam menos de cinco dias antes de morrerem. "É de terceiro mundo. Quando estão moribundos, é que vêm", diz. "Alguns morrem a caminho, na ambulância.


"Os cuidados paliativos servem para aliviar o sofrimento físico (com o uso de fármacos) e emocional (a equipa inclui psicólogos) de pessoas com doença incurável e progressiva. Os principais destinatários são quem sofre de cancro e de doenças neurológicas degenerativas e graves, entre outras."É horrível dizer que não"Lourenço Marques sublinha que um doente que nunca foi tratado para a dor já não responde facilmente às terapêuticas. "Os sintomas ficam totalmente descontrolados e sofrem até ao final.


Estes doentes não surgem de repente. A responsabilidade é da equipa de saúde que os assiste", defende, criticando os casos de "obstinação terapêutica e abandono" que diz existirem. "A continuidade de cuidados é obrigatória." Só este ano, morreram no serviço 100 doentes. Desde a sua criação, em 1992, morreram 1200, a que se juntam outros 100 que estavam a ser seguidos por apoio domiciliário.O responsável diz que o hospital é "a única solução" em cuidados paliativos na área de Castelo Branco e Guarda. Neste momento, calcula que tenham oito doentes à espera de iniciar cuidados paliativos.


Jorge Maria Carvalho, médico coordenador da equipa domiciliária de cuidados paliativos da Santa Casa da Misericórdia de Azeitão, no distrito de Setúbal, tem o mesmo problema: "Temos imensos pedidos mas não temos capacidade para mais." Esta equipa, que faz parte da Rede Nacional de Cuidados Continuados, dá apoio a um máximo de 30 pessoas mas tem muitas vezes que dizer que não - "é horrível dizer que não".Aos doentes que ficam de fora resta-lhes ir às urgências quando se agravam os sintomas, ficam "numa situação de pingue-pongue".

O objectivo da equipa domiciliária da Santa Casa que junta médicos, psicólogos, assistentes sociais e fisioterapeutas é prestar apoio para que os que queiram possam morrer em casa.


Listas de espera

Adna Gonçalves, directora da Unidade de Cuidados Paliativos do Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto, refere que "o serviço está sempre cheio" e só é possível dar resposta aos doentes do hospital. Mesmo assim, as 20 camas disponíveis não são suficientes e, no IPO, há doentes a receber cuidados paliativos noutras enfermarias. "Um terço dos que morrem com cancro beneficiaria com cuidados paliativos." Nos doentes que entram pela consulta externa, "há algumas semanas de espera".


Emília Fradique, enfermeira da equipa intra-hospitalar de suporte em cuidados paliativos do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, sublinha que, além de "as ofertas não serem assim tantas e haver listas de espera, nos hospitais também se sentem outros problemas". "Há falta de sinalização dos próprios médicos" quanto aos doentes a precisar de cuidados paliativos, alerta. A profissional de saúde refere-se a " clínicos que praticam obstinação terapêutica". "Investem mal nos doentes até ao fim. Estão preparados apenas para curar e não percebem as necessidades evidentes destes doentes e familiares."


Luís Capelas, professor do Instituto Superior de Ciências da Saúde da Universidade Católica, fez estimativas baseadas nas mortes em Portugal em 2007 e chegou à conclusão de que a cobertura nesta área não chega a um por cento das necessidades. "A grande falha no sistema são as equipas comunitárias móveis que vão às casas e aos lares. No que toca apenas ao número de camas, a cobertura é maior e chega aos dez por cento: existem cerca de 80 camas, seriam precisas 800. Cerca de 21 por cento das mortes em Portugal são por cancro e 60 por cento terão necessidades de cuidados paliativos", nota o especialista.


A coordenadora nacional da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (que inclui os paliativos), Inês Guerreiro, diz que na rede há 71 camas para paliativos. Até ao final do ano aponta-se para 150 camas de internamento e quer-se que todos os centros de saúde venham a ter equipas domiciliárias que também darão apoio nesta área. Para Inês Guerreiro, contudo, mais importante do que ter unidades específicas é levar a cultura dos cuidados paliativos a todo o sistema - com todos os profissionais empenhados no alívio de sintomas e apoio emocional. Por isso, estão a apostar na formação.

3 comentários:

Anónimo disse...

Para os médicos é uma frustração serem pressionados a dar altas a doentes internados em hospitais de agudos, sabendo que a suposta integração em rede de cuidados paliativos é uma ficção... antigamente muitos desses doentes ficavam nas consultas de quem tinha feito o diagostico ou internado o doente; desde a criação da rede de cuidados paliativos, no meu hospital esses doentes tiveram de passar todos para a rede e os novos doentes tb...se já era dificil dar apoio regular por tantos médicos assistentes, de familia ou hospitalares, que iam seguindo estes doentes, como é que querem agora que uma equipa de meia dúzia de pessoas preste apoio a centenas de doentes?? Quem restruturou este sistema não fazia a mínima ideia do numero de doentes que existiam em cuidados paliativos... ou se calhar até fazia, mas o que interessa agora não é que a rede seja eficaz, interessa é dizer que Portugal tem uma rede nacional de cuidados paliativos, criada por este Governo, mesmo que a ela não chegue a ninguém!
Parece a restruturação dos SU... nalguns hospitais que tinham equipas de urgencia que chegavam a 50 pessoas, com as diferentes especialidades, os doentes mesmo assim esperavam horas.. restruturaram as equipas e criaram emergencistas exlcusivos do SU, só que cada equipa passou a ter agora meia dúzia de medicos que supostamente têm de ver os doentes todos! Claro que agora os doentes esperam 9, 10, 11 horas para serem atendidos!
Mas este tipo de organização sem redimensionar os recursos, não se fica por aqui... já todos fomos a uma loja do cidadão... se é mais fácil aceder aos serviços juntos num local, tb a verdade é que para levantar um BI ou um passaporte se espera um dia inteiro. Pois se os serviços antes distribuidos por dezenas de delegações, com centenas de funcionarios, passaram a concentrar as actividades num mesmo local com meia duzia de funcionarios, o que é que se espera? O cúmulo é que na loja do cidadão chegam a estar menos funcionarios do que estavam em cada uma das repartições ou delegações de cada concelho...
Para quando é que se se vai neste páis, uma medida verdadeiramente ponderada, com resultados reais,para servir de facto, as populações e não apenas para poupar dinheiro ou atingir estatísticas?

Vera Carvalho disse...

Cuidados Paliativos deviam ser praticados por profissionais com formação específica. Isto para que se evite o encarniçamento terapêutico que muitas vezes vemos nestas unidades...

Se compararmos alguns bons exemplos como Ipo e outras unidades recentes de paliativos , vimos a diferença. Falta um pouco a cultura da instituição e do utente.

Anónimo disse...

Os CP chegam a 1% dos que deles necessitam, é aqui dito e corresponde à minha percepção. Na área onde trabalho como médico de família é suposto haver uma equipa de CP mas quando contactamos os profissionais a resposta é sempre a mesma: só existem virtualmente, estão "nomeados" há vários meses mas ainda ninguém tem horário alocado para o efeito e o mais que fazem é sugerir-me que faça isto e aquilo ao doente. Isto não são CP, isto é fingir e apregoar que se tem o que não se tem. Fazer CP é fazer uma omelete que leva muitos ovos e não me parece que actualmente haja dinheiro, nem sequer a real intenção de o gastar, para comprá-los.