domingo, setembro 28, 2008

Histórias de uma jovem enfermeira desaproveitada

Não resisto a aqui reproduzir um post lido num blog de uma jovem enfermeira, desempregada ainda ao que parece.

Minha cara amiga, nunca desista de ajudar os outros! E obrigado por este bocado de prosa e pelo que a ele está subjacente


Nisto olho para o lado e está um rapaz completamente deitado, aparentando dormir, no passeio…
E eu a pensar de mim para comigo, mas será que é de mim? De cada vez que venho ao Parque das Nações atraio? Só pode…Olha, está tudo bem contigo? Nisto o J. chega-se ao pé de mim e diz…”Ui!… Não era preciso ser médico para saber o que se passa com ele…está com aquilo que bem diagnosticado se pode chamar de” puta de uma narsa”…Chamo-o novamente.“Olha estás sozinho? Como te chamas?”“Chamo-me P.” e nisto começa aos vómitos… e eu “impecável” (penso de mim para comigo).Desvio-me, ponho-lhe uma mazinha no pescoço outra na testa e faço aquilo para que estudei durante quatro anos (e à borla).Toma lá um lenço. Passo-lhe a minha garrafa de água, onde tenho a certeza que não voltarei a tocar. Lava a boca.
Estás sozinho P.?Naum, não estou com um amigo, o Pilas (foi mesmo o nome que ele disse) …E onde está o Pilas? pergunto-lhe…Naum sei…És de Lisboa?Naum, sou de Esmoriz…Pois bem me pareceu que havia qualquer coisa de familiar naquele sotaque…Ok…o teu amigo está por aí?Pausa para voltar a vomitar…Meto-o em PLS com a ajuda do J., que está morto de riso…Tens o número do teu amigo? Não, mas tenho o meu telemóvel…Ligas para ele? És tão gira…aaah…Puto, tem juízo que eu devo ter idade quase para ser…tua irmã mais velha…Passa-me o telemóvel para a mão...
Ligo para o amigo… que passado um bocado aparece…Tu é que és o Pilas? pergunta-lhe o J.Iah…Olha é melhor tu levares o teu amigo para casa que ele não está em condições…Aaahh… Viemos de metro e depois de comboio… íamos ficar até às 6 da manhã e depois apanhávamos outra vez o metro e o comboio (esta conversa aconteceu por volta das 2 da manhã).Pois mas o teu amigo não está em condições e não devias ter deixado aqui sozinho. Podia-lhe ter acontecido alguma coisa bem grave, se eu e a aqui a Madre Teresa não o tivéssemos encontrado.
O miúdo está visivelmente atrapalhado.E eu lembrei-me de quando era caloira e de como o sentido de grupo nos levava a protegermos umas às outras e como nunca deixávamos a C. sozinha quando ela estava bêbada e a fazer-se a tudo o que mexia (mesmo que fosse já de uma certa idade, careca e barrigudo) e não consigo perceber porque raio este miúdo foi deixado no passeio por um amigo, que se foi continuar a divertir e a beber, deixando que alguma coisa lhe pudesse acontecer.O miúdo tem frio, está deitado na pedra e a tremer, tem uma camisola debaixo da cabeça que lhe serve de almofada.Olho para ele.Olha, tens de vestir a camisola.Ele levanta-se vomita mais um bocado e começa a chorar.Não consigo…E eu a pensar “porque é que estes miúdos fazem estas merdas?”Eu ajudo-te, digo-lhe.Perante a risota do pessoal.Enfermeira L., a mãezinha dos meninos mal comportados diz a Cat enquanto se ri.Ajudo-o a meter-se novamente em PLS e tapo-o com a minha capa, enquanto o previno que se a vomitar que o praxo.
Nisto o J. volta-se para o amigo Pilas e pergunta-lhe se ele não pode chamar um táxi…O miúdo faz-se verde, roxo, azul e amarelo e lá nos explica que o dinheiro que tinham com eles tinha sido quase todo gasto em álcool e que o P. vive para os lados de Almada, sozinho numa casa que os pais lá têm…Então e agora, como é que vocês vão fazer para ir para casa? O teu amigo não pode ficar aqui…Diz-lhe o J.O outro miúdo olha para nós com olhinhos de Bambi…E eu com olhinhos Bambi olho para o J.Oh J. tu moras para aqueles lados…podias dar-lhes boleia,O J. olha para mim furioso.Estás doida, só podes. E se os gajo me vomita os estofos do M*rcedes?E aquilo não é para os meus lados é para aí 3 milhões de quilómetros para a frenteNah…nem pensar…Vá lá, eu vou contigo… e depois tu dás-me boleia para casa…
E assim acabou a minha noite, a fazer vigilância vomitiva…para garantir que o carro do meu caríssimo amigo não ficava todo vomitado, enquanto ele fazia a sua boa acção anual…
Deixamos os dois miúdos em casa…Talvez porque se eu tivesse um filho que estivesse numa situação deste tipo eu gostaria que fizessem algo semelhante por ele.Talvez porque espero ter filhos conscientes e responsáveis que não façam estes disparates.Porque nunca os fiz e espero não o fazer…Enfim…
Esta mega-recepção deu-me muito em que pensar…Parece que os miúdos são cada vez mais inconsequentes e…tontos…não sei…O amigo Pilas quando o estávamos a ajudar a levar o amigo para casa pediu-me desculpa e eu expliquei-lhe que ele não tinha que pedir desculpas, que eles eram caloiros e que eu percebia, mas que o juízo é importante e o que se passou com o amigo dele não deve acontecer, mas que se for para acontecer há que ter cuidado e a certeza que há alguém de confiança que olhe por nós e que nos ajude, para que não aconteça nada de mal…É que não podemos contar com desconhecidos…hoje fui eu e o meu amigo betinho que vos ajudámos, mas o teu amigo podia ter sido assaltado, podia ter entrado em coma alcoólico se não vomitasse…e depois como é que vocês iam explicar isto aos vossos pais?E essa é que é a grande questão…

2 comentários:

Unknown disse...

E depois temos o ministro gago a dizer mal da praxe e que esta tem de acabar...

Sahaisis disse...

Caro MEMAI obrigado por este seu simpático post...não creio ser desaproveitada, acredito profundamente que como para tantos outros a minha vez há-de chegar... apesar de estar bastante impaciente já, porque como sabe a falta de prática em profissões como a minha (e a sua) é prejudicial a um bom desempenho...enfim é o país que temos...não deixo de ser enfermeira por não estar a exercer...não o deixo de ser em todos os momentos da minha vida.. faz parte de mim...não vou deixar de o ser só porque não há vaga para mim em nenhum hospital, clinica ou centro de saúde deste país...sei que sou uma boa enfermeira, sei que serei ainda melhor quando começar a trabalhar e o que o prova são estes momentos, em que no meio da rua, perante alguém que não conheço de lado nenhum não deixo de fazer aquilo que sei e sou capaz...
um abraço ;)
mccap: se quer que lhe diga francamente acho que subjacente ao estado deste miúdo estava precisamente a praxe (de notar que fui membro de uma comissão de praxe, tendo ocupado um cargo decisivo na mesma) o que muito me irrita, porque cabia aos doutores responsáveis por este caloiro não o deixarem sozinho e tresmalhado, num passeio junto a uma barraca que nem era da sua faculdade. se aceitamos praxar os caloiros, se os incentivamos a estes momentos não devemos ser responsáveis (no sentido da solidariedade entre colegas) pelo que acontece a estes mais novos a quem supostamente pretendemos integrar no grupo e iniciar nas lides académicas? concordo com a praxe, tenho boas recordações de praxar e ser praxada, não concordo com a proibição desta, mas não posso concordar com determinadas coisas que acontecem (nomeadamente do tipo desta)...