sexta-feira, abril 09, 2004

Alerta (Antigo) do Infarmed Sobre O Propofol...

Alerta de Segurança

Propofol-Lipuro 1%® (propofol):
rabdomiólise, acidose metabólica, insuficiência cardíaca

O Propofol-Lipuro 1%® (propofol) é um anestésico geral intravenoso de curta duração indicado na:
- indução e manutenção de anestesia geral;
- sedação de doentes ventilados nas unidades de cuidado intensivos;
- sedação para diagnóstico e procedimentos cirúrgicos, usado isoladamente ou em combinação com anestesia local ou regional.

O Grupo Europeu de Farmacovigilância, do Comité de Especialidades Farmacêuticas da Agência Europeia de Avaliação de Medicamentos, tem vindo a avaliar a ocorrência de rabdomiólise, acidose metabólica, insuficiência cardíaca e outros efeitos indesejáveis, bem como a posologia e a utilização em crianças para os medicamentos contendo propofol, tendo concluído ser necessário actualizar a informação de segurança para estes medicamentos.

Embora não tenha sido estabelecida uma relação causal entre os efeitos indesejáveis graves na sedação (basal) em doentes com idade inferior a 16 anos (incluindo casos fatais) a sua ocorrência tem vindo a ser notificada no decurso do emprego do fármaco fora das indicações aprovadas. Estes efeitos consistem na ocorrência de acidose metabólica, hiperlipidémia, rabdomiólise e/ou insuficiência cardíaca. Estes efeitos foram mais frequentemente observados em crianças com infecções do tracto respiratório, a quem foram administradas doses que excediam as doses recomendadas para os adultos internados em Unidades de Cuidados Intensivos.

Também foram notificados casos similares, muito raros, de ocorrência de acidose metabólica, rabdomiólise, hipercaliémia e/ou insuficiência cardíaca de progressão rápida, (fatal em alguns casos), em adultos tratados durante mais de 58 horas com doses superiores a 5 mg/kg/h.
Estas doses excederam a dose máxima aconselhada de 4 mg/kg/h normalmente indicada para a sedação do doente internado numa Unidade de Cuidados Intensivos. Nestes casos a insuficiência cardíaca, geralmente, não respondeu ao tratamento de suporte com fármacos inotrópicos.

Na sequência desta informação o titular de A.I.M., B.Braun Medical, submeteu uma Medida Urgente de Segurança, por forma a actualizar a informação no Resumo das Características do Medicamento com um carácter de urgência e divulgar aos profissionais de saúde envolvidos uma carta sobre este assunto.

Neste contexto, o INFARMED deseja chamar a atenção dos profissionais de saúde, para os seguintes aspectos:

Não deverá ser excedida a dose máxima recomendada de 4 mg/kg/h de propofol, dose normalmente suficiente para assegurar a sedação de doentes ventilados mecanicamente quando internados numa Unidade de Cuidados Intensivos (duração do tratamento que exceda um dia).
Existe a possibilidade de surgirem os efeitos indesejáveis anteriormente referidos (acidose metabólica, hiperlipidémia, rabdomiólise e/ou insuficiência cardíaca), pelo que se recomenda, logo que surjam os primeiros sinais, a diminuição da dose administrada, ou a alteração para um outro fármaco com acção sedativa.
Propofol está contra-indicado em doentes com idade igual ou inferior a 16 anos, na sedação em Unidades de Cuidados Intensivos.

Qualquer esclarecimento adicional poderá ser solicitado através dos contactos:

Centro de Informação de Medicamentos e Produtos de Saúde:
Telef.: 21 7987373
e-mail: cimi@infarmed.pt

Direcção Operacional de Farmacovigilância e Segurança de Medicamentos e Produtos de Saúde:
Telef.: 21 7987140
e-mail: infarmed.cnf@infarmed.pt

INFARMED, 20 de Fevereiro de 2003.

A Direcção Operacional de Farmacovigilância e Segurança de Medicamentos e Produtos de Saúde.

(Negrito do médico explica medicina)

Onde É Que Eu Estava no 25 de Abril? Com o Rouvière.

Estudava Anatomia, num quarto alugado em Lisboa, na rua onde se localiza o Colégio Moderno e reside o dr Mário Soares. Estava no 2º ano da faculdade e preparava o exame de Anatomia Descritiva ainda do primeiro. Horas e horas debruçado sobre o grande tratado em quatro volumes: Anatomie Humaine, de Rouvière, analisando minuciosamente as suas gravuras com os ossos e todas as suas características (não havia dinheiro para comprar esqueletos ou atlas mais pormenorizados) e decorando as suas legendas e textos em francês.

Depois de horas e horas de estudo, já noite, relaxei-me a ouvir o programa Limite enquanto lia o livro O Julgamento dos Padres de Macuti que tinha comprado dias antes na Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa (era um livro proibido). Ouvi as senhas e ouvi a primeira mensagem. Aqui posto de comando das Forças Armadas, ensonado, voltei a adormecer. Acordei novamente, já o movimento se desenrolava, os Padres do Macuti no chão, o Rouvière continuava à minha espera, ouço novamente as notícias: o fascismo caía. Na rádio continuava a ouvir-se o Posto de Comando e a pedia-se à população para permanecer em casa.

Neste dia, 25 de Abril, tomei talvez a única decisão de que me arrependo em toda a minha vida: obedeci àquela voz da rádio e fiquei em casa.

Não estudei Anatomia, não li os padres de Macuti, não festejei o primeiro 25 de Abril como depois vi festejar pela TV, não mandei SMS, nem e-mails a ninguém, não telefonei aos amigos (não havia telemóveis e o telefone da casa, fechado a cadeado, só recebia chamadas), restou-me então, seguir a Revolução pela televisão, a anos-luz da CNN.

Como tudo seria diferente se se repetisse o 25 de Abril hoje…

quinta-feira, abril 08, 2004

Está À Minha Frente E Diz:

"Fiz análises a tudo, a tudo mesmo, mesmo a tudo e estava tudo bem."

"Tenho uma comichão pelo corpo todo. Já fui a dois médicos e disseram-me que era dos nervos! Mas eu sei que não!"

Uma pausa.

"Sabe eu ando muito stressada. Tenho muitos problemas na minha vida."

Sorri. Mediquei-a e não pude fazer mais nada.

Apenas me lembrei de uma reportagem recente no Correio da Manhã, sobre a primeira das mortes de Lagos, onde um elemento do povo, fotografado com um barrete na cabeça, idade marota, afirmava peremptoriamente e com convicção de quem percebe de tudo:

"Eu vi logo que foi um grande erro!"

O Caso de Lagos: E Se O Anestésico Genérico É mesmo o Responsável?

O erro médico em geral não é sistemático, embora possa acontecer e haja casos na literatura.

Repito: E se a origem do problema está no medicamento usado?

terça-feira, abril 06, 2004

Body Piercing - Já Foi Algum Piercingador Julgado E Condenado?

Como podia? Se até as (os) jornalistas usam piercings! (E médicos também!)

Hoje contou-me um colega que trabalhou numa unidade de emergência movimentada, com uma jovem enfermeira, de bata aberta, umbigo maroto a espreitar e a sorrir e um belo piercing apelativo.
Como pode um médico trabalhar assim?


"Antibiotic prophylaxis, and infective endocarditis


Infective endocarditis (IE) is associated with a high degree of morbidity and mortality and generally presents in patients with altered and abnormal heart architecture combined with exposure to bacteria through trauma and other potentially high-risk activities, including body piercing.

Modern social behaviour has resulted in increased popularity of the practice of body piercing, particularly amongst the adolescent population and there has been a marked rise of cases of IE directly attributable to this practice.

In this article we wish to examine the aetiology of such cases reported in the literature, with particular emphasis on causal organism, as well as to discuss the role of antibiotic prophylaxis and awareness in such at-risk patients within the primary care community."


in Journal of Antimicrobial Chemotherapy, Advance Access published December 19, 2003.

"Morte de doentes no Hospital de Lagos leva a processos disciplinares"

Distribuida pela Lusa, esta notícia é muito grave.

Erro ou negligência, repetidas em 48 horas pelo mesmo médico, levanta muitas dúvidas sobre a vigilância que uma instituição deve exercer sobre os seus membros.

Ressalvo: a confirmarem-se as conclusões preliminares da IGS.

"O Ministério da Saúde instaurou hoje processos disciplinares ao director clínico do hospital distrital de Lagos e a uma médica anestesista, na sequência da morte de dois doentes no bloco operatório daquele estabelecimento.

Segundo um relatório da Inspecção-Geral de Saúde (IGS), foram apurados "elementos que podem pôr em causa a actuação da médica responsável pelos actos anestésicos praticados" nos doentes que vieram a falecer, "bem como a própria actuação do director clínico do hospital".

Uma mulher de 44 anos e um homem de 35 morreram a 29 de Março e 02 de Abril de paragens cardio-respiratórias no bloco operatório do hospital de Lagos, onde se encontravam para realizarem operações simples.

O documento salienta que as ocorrências têm "em comum o facto de serem pequenas/médias cirurgias, previamente programadas, tendo como interveniente directa a mesma médica anestesista".

Segundo a IGS, os indícios recolhidos apontam "para a exclusão de dúvidas sobre a funcionalidade do bloco operatório do Hospital de Lagos" e classificou como correcta a decisão do ministro da Saúde de encerrar o bloco operatório do hospital, a partir do dia 30 de Março, "como medida cautelar"
."

Como médico, considero a minha profissão de risco permanente.

Hoje, durante o meu dia de trabalho, fui vítima de várias negligências de várias profissões: desde uma empresa de informática, até ao almeida da minha rua que me riscou a viatura.
Todas me provocaram mau humor.
Só.
Não morreu ninguém

segunda-feira, abril 05, 2004

Senhor Doutor Quero Fazer Um Check-up A Tudo, Com Análises Gerais E Um Taco Ao Corpo Todo

Publicou o Expresso um dossiê sobre Medicina Familiar, com vários artigos interessantes sobre as especificidades desta especialidade, descritas na óptica dos seus intervenientes, pois todos os artigos são assinados por diversos médicos de família.

De todos, o que me despertou mais atenção foi o do médico Carlos Martins, sobre as actividades preventivas.
São desmistificados alguns conceitos e apresentada uma tabela genérica sobre as actividades preventivas relevantes e baseadas na evidência. Não foram publicadas referências sobre as afirmações produzidas, mas num artigo para um público generalista talvez fosse desnecessário.

Tratando-se de um dossiê, presume-se que foi elaborado a pedido e pago pela APMCG.

ISTO É QUE ME PREOCUPA.

Para se dizerem verdades, politicamente correctas e por vezes impopulares, particularmente para os intelectuais que não as compreendem, contrariando muitas vezes páginas e páginas de publicidade encapotada, é necessário pagar.

Para se afirmar que não são necessários rastreios de base populacional para o cancro da próstata é necessário pagar, caso contrário, teríamos a ira dos urologistas.

Para se afimar que bastam alguns simples procedimentos (medir a pressão arterial, determinar a glicémia e o colesterol, pesar e fazer uma simples pergunta) para se saber se há ou não risco cardiovascular, tem que se pagar, caso contrário todos os cardiologistas se levantariam contra a comunicação social, especialmente os que têm consultório particular.

Outras afirmações se poderiam fazer e outras iras se levantariam, particularmente de quem "com o medo do cancro" lucraria.

Algumas frases para ler e reler:

"Seria óptimo se traduzisse uma vontade real das pessoas mudarem os seus hábitos para estilos de vida mais saudáveis e de romperem com costumes e rotinas que implicam um risco elevado para a saúde. Contudo, aquilo que se constata na prática é precisamente o contrário…"

"... pretendem frequentemente efectuar uma bateria de análises e exames de diagnóstico para poderem continuar a cometer os seus erros alimentares, a consumir bebidas alcoólicas em excesso e o seu tabaco, entre outros".

"...desconhecem que a medicina actual, não obstante o facto de toda a evolução das últimas décadas, não dispõe de um conjunto de exames que possam dar ao cidadão uma garantia semelhante à dos electrodomésticos: “após estes exames, o senhor terá uma garantia de vida saudável por dois anos.” "

"Quando um fumador se dirige ao seu médico e lhe pede uma radiografia pulmonar para ver como estão os seus pulmões, pode ver essa sua pretensão justamente recusada. E porquê? Porque os vários estudos de investigação que foram efectuados para esclarecer se se deve usar a radiografia pulmonar como método de rastreio do cancro do pulmão não demonstraram que os benefícios superem os prejuízos. E cada vez que alguém se submete a uma radiografia está a submeter-se a uma dose substancial de radiações que, por sua vez, também têm efeitos cancerígenos."

"Um outro exemplo é a mamografia quando utilizada para rastreio do cancro da mama na mulher sem queixas, sem antecedentes pessoais ou sem antecedentes desta doença na sua família. ... uso deste exame só se revela eficaz ou seja, só diminui a mortalidade provocada por aquela doença quando usado de dois em dois anos nas mulheres com mais de 50 anos. Nas mulheres com idades entre os 40 aos
50 anos, este método de rastreio deve ser muito bem ponderado pois os benefícios não superam os prejuízos. .../... Os prejuízos do uso indevido deste método de rastreio passam pela exposição desnecessária às radiações, pelo elevado número de falsos positivos, pelas biopsias desnecessárias que terão que ser efectuadas e também pela desnecessária ansiedade e incómodo que cria na mulher que a ele se submete."


"Também tem sido frequente a solicitação de marcadores tumorais como forma das pessoas se assegurarem de que não têm cancro. Até agora, com base na evidência científica, nenhum marcador tumoral se revelou eficaz como método de rastreio de qualquer cancro. Nem mesmo o tão popularizado PSA como forma de rastreio do cancro da próstata, nos homens que não apresentem qualquer queixa prostática. Poderão os excelentíssimos leitores questionar-se sobre os malefícios de fazer uma simples análise ao sangue, como é o caso do PSA. Deixando de lado a questão dos custos desnecessários de um rastreio universal aos homens assintomáticos acima dos 50 anos, os malefícios estão sobretudo relacionados com o elevado número de falsos positivos e com o desconforto de outros exames desnecessários como as respectivas biopsias ou ecografias transrectais."

Pois então parabéns à APMCG, ao seu presidente e ao médico Carlos Martins, que investiram na qualidade da informação, contra "os dislates que se ouvem e lêem, por vezes inconscientes, ... para que os jornalistas (e outros intelectuais!) sejam o veículo para os 'media' não fomentarem a iliteracia científica" o lema deste simples blog.

domingo, abril 04, 2004

"Um milhão de portugueses sem água"

Noticia o Expresso de 27 de Março de 2004. Segundo a notícia um milhão dos nossos conterrâneos vive em residências sem abastecimento público de água.

Não ponho em causa as notícias dos jornais, mas se transformar os números absolutos em percentagem, teremos que cerca de 10% dos portugueses não têm água. Mas por outro lado não existem em termos estatísticos as doenças comuns de quem não tem água potável, como a cólera, as hepatites A, as disenterias, etc.

Começo a interrogar-me se não será o mesmo milhão de portugueses que não tem médico de família, segundo nos diz o Ministério...

E também presumo que deverá ter saído deste mesmo milhão os 4 900 portugueses interrogados pela DECO, pois num outro estudo recente sobre os centros de saúde da autoria do dr Vilaverde Cabral, as conclusões não poderiam ser tão diferentes, como foram....

A Morte em Frente E Os Centros Comerciais Ao Lado

A Morte de Frente, pode ler-se na Grande Reportagem de 27 de Março de 2004 (nº 168, ano XV, 3ª série). O artigo refere-se a uma reportagem em "directo", sobre a morte de um doente com SIDA.

Macabro. Macabro. MACABRO. macabro.

A exploração de sentimentos pelos media atinge proporções escandalosas.
Não sei para quem foram os honorários do personagem principal. Talvez para os herdeiros! O autor sei que os ganhou, como ganham todos os jornalistas e é um seu direito.
Mas o que me fez escrever esta mensagem, foi a última frase da introdução ao artigo, com a qual se pretende jusficar toda a reportagem: PARA AVISAR OS VIVOS.

Pois eu acho que a melhor frase será: PARA VENDER MAIS REVISTAS!

Não está em causa a qualidade, o empenho e o desempenho da jornalista Felícia Cabrita, o que está em causa são os temas escolhidos para que um (a) jornalista (a) se torne (também) conhecido e seja ele também notícia, deixando de ser o seu motor.

Shopping. Shopping. SHOPPING. Shopping.

São duas notícias indissociáveis na sua filosofia, a anterior e esta do Expresso de 27/03/04.

"'Shopping' liga a hospital
A URBAMINHO inaugurou a Galeria Comercial Campus São João com ligação directa ao edifício das consultas externas do Hospital de São João. Para o perímetro do hospital está ainda prevista a instalação de um hotel da cadeia Ibis."


No futuro veremos os médicos, enfermeiros e outro pessoal da saúde, com publicidade nas suas batas às lojas desses centros comerciais.
Os laboratórios farmacêuticos perderão a corrida.

Ninguém leva a mal que o médico tenho uma bata, onde se possa ler: "Visite BodyShop" ou "Compre na Batta".

sábado, março 27, 2004

A Profissional da Bata Aberta

João Tilly, referenciado na mensagem anterior, sobre "uma profissional de bata larga, aberta e esvoaçante de cor verde" interroga-se se seria médica ou enfermeira, inclinando-se para a primeira hipótese.

Muito provavelmente será uma enfermeira, pois desde há uns anos, passaram a trabalhar de bata aberta, desconhecendo a justificação de tal facto.

O Lado Lunar do SNS ou Quando a Inspecção Geral de Saúde Deve Entrar em Acção

Ao João Tilly, vizinho bloguer do João Tilly - Textos e imagens sobre Seia, Ensino, inJustiça, Jornalismo e Actualidades apresento os meus pêsames pela perda de seu Pai.
Todas as perdas são importantes e geram dentro de nós uma revolta intensa.
Revolta essa que aumenta, tanto mais, quanto mais nos sentirmos injustiçados.
Quanto mais sentirmos que a perda poderia ser evitada.

Da descrição que João Tilly faz numa mensagem no seu blog, ressaltam duas conclusões primeiras: a ausência de um diagnóstico e as constantes deslocações entre hospitais.

A ausência de um diagnóstico só poderá ser esclarecida com um inquérito da IGS ou do próprio hospital ou da Ordem dos Médicos, ou das três entidades em simultâneo. Não está em causa a ausência de um diagnóstico, pois muitas vezes, por mais que se investigue, não se conseguem obter conclusões. O problema reside na questão: foram ou não utilizados todos os meios para investigar? Ou foram feitos consecutivamente diagnósticos errados?

As constantes deslocações entre hospitais são a factura a pagar pela disseminação de instituições hospitalares em espaços geográficos contíguos: Seia, Guarda, Covilhã, Fundão, Castelo Branco. Falta de planificação, cedência a interesses autárquicos e bairristas, são a causa. A recente polémica sobre as maternidades e a pediatria nos hospitais da Guarda e Covilhã, separadas cerca de 30 quilómetros são um exemplo bem recente e esclarecedor!

Ai Estes Jornalistas! Ai Esta Deco!

Deco por Deco, prefiro o Deco.

Fui sócio da primeira Deco. Da segunda Deco/Proteste, "desarrisquei-me" e ainda não estou arrependido.

A segunda Deco é um atentado aos consumidores, por muita boa vontade que possa ter.

Recebi na caixa do correio o relatório completo do estudo da Deco sobre os Centros de Saúde.

Não é que os médicos de família precisem de advogado, mas, enquanto todos os jornais e a própria Deco enfatizavam os aspectos negativos dos CS, nomeadamente que 30% dos inquiridos detestavam os CS e outras afirmações do género, não vi nenhum jornal ou jornalista "pegar" na afirmação de que 70% dos inquiridos estão satisfeitos com o seu médico de família e por arrastamento com os CS onde trabalham.

quarta-feira, março 24, 2004

"Haverá nos médicos alguma homeofobia?"

Pergunta o leitor Nuno Ramos, referindo-se à homeopatia.

Não, caro leitor. Nos médicos não há qualquer medo irracional em relação à homeopatia, nem preconceito contra a homeopatia, nem sequer ódio em relação à homeopatia.

O que há, é falta de evidência científica de que essa prática alternativa traga qualquer benefício para os doentes. Ou qualquer cura para as doenças.

Não basta o Manuel ou o José ou a Zeferina referirem que se deram muito bem com esses remédios para as suas dores nas costas, ou para as suas dores musculares ou para a sua sinusite. São necessários estudos científicos bem estruturados e desenvolvidos com milhares de utilizadores e com percentagens de sucesso superiores às do placebo.

A ciência incorpora as novas descobertas quando estas se tornam reprodutíveis em vários centros.

Não se pode afirmar que a Medicina esteja contra qualquer coisa que melhore a saúde dos doentes. A Medicina já reconheceu a acupunctura e as técnicas manipulativas.

Para mim, a homeopatia foi uma das maiores fraudes do século vinte e se a comunicação social continuar a proteger tudo o que é considerado alternativo, será sempre difícil denunciar estas práticas.

Não concordo com a própria filosofia da homeopatia: as diluições milesimais das moléculas causadoras das doenças, de tanto se diluirem em água desaparecem e nada mais fica que dois átomos de Hidrogénio e um de Oxigénio. Por mais que afirmem o contrário....

sexta-feira, março 19, 2004

No Coments!

"Associação Nacional de Farmácias Critica Judiciária e Médicos"

O presidente da Associação Nacional das Farmácias (ANF), João Cordeiro, acusou ontem a Polícia Judiciária (PJ) e a Ordem dos Médicos (OM) de tentarem pôr em causa a imagem de seriedade dos farmacêuticos portugueses
.", dos jornais.

O sr dr João Cordeiro deve estar a sentir o que os médicos sentiram quando há uns anos iniciou uma campanha contra a seriedade de todos os médicos, colocando nas farmácias da sua associação cartazes onde se denunciava a corrupção de toda uma classe, generalizando casos particulares a toda uma profissão.

Digo o mesmo que digo dos meus colegas: quem prevarica, quem coloca em risco a saúde dos doentes, tem que ser denunciado.

quarta-feira, março 17, 2004

E Se O Médico de Família Desaparecer?

A figura do médico de família ainda não foi descoberta pelos intelectuais portugueses e particularmente pelos jornalistas. Sobre o internista hospitalar poucos saberão que é um especialista em medicina interna.

(Numa anterior greve de médicos de família uma jornalista afirmou que estes médicos só serviam para transcrever para o Serviço Nacional de Saúde os pedidos dos médicos privados!)

Para os intelectuais, se parece que dói o coração, vai-se directamente ao melhor cardiologista, de preferência a um que tenha a anteceder no nome a palavra professor; se parece que aquela tosse não passa ao fim de 8 dias, vai-se ao pneumologista, mas se se aguardasse mais 3 ou 4 dias, desapareceria como que por milagre.

É tão giro dizer: o meu pedopsiquiatra, porque dizer, o psiquiatra dos meus filhos, já pode fazer pensar que somos malucos. Nem que vá ao cardiologista uma vez de 10 em 10 anos, será sempre o meu cardiologista.

Há duas especialidades por quem tenho enorme respeito: os generalistas e os internistas.

Os primeiros são os médicos de família, que em Portugal existem há pouco mais de 20 anos, mas nos países desenvolvidos, pertencem a uma especialidade com dezenas e dezenas de anos em constante evolução. A American Academy of Family Physicians foi fundada em 1947! A Associação Portugesa dos Médicos de Clínica Geral foi fundada em 1981. Em Portugal os médicos de família herdaram uma pesado fardo, do qual ainda não se conseguiram (ou não deixaram!) libertar: as famosas Caixas de Previdência (ainda hoje se diz "vou à Caixa") e os burocráticos Serviços Médicos-Sociais.

Reunidos em Vilamoura no seu 21 Encontro Nacional ouviram o Sr Ministro fazer muitas promessas sobre a melhoria dos cuidados prestados nos Centros de Saúde. Travaram uma luta recente contra uma lei que o Ministério promulgou, mas que o próprio Ministério, ainda antes de a regular, já a ultrapassou criando uma nova figura: a fagocitose dos Centros de Saúde pelos Hospitais empresa. Terá o Médico de Família os seus dias contados? O seu futuro incerto? Uma conclusão é certa: não é com estas indefinições que se cativam médicos para trabalhar com motivação nos cuidados de saúde primários...

Os internistas ou especialistas em medicina interna, são (ou foram!) a alma e o corpo de muitos hospitais e por muitas décadas. Eram os médicos que primeiro encontrávamos nas urgências hospitalares.
Actualmente as tutelas dos hospitais SA estão a privilegiar os intensivistas para as emergências hospitalares e os médicos indiferenciados e enfermeiros para as triagens (de Manchester) e os atendimentos nas urgências.

Segundo a própria Sociedade Portuguesa de Medicina Interna os seus anos dourados foram na década de 50, tendo a sociedade sido fundada em Dezembro de 1951. Se a constante evolução da Medicina para a especialização e o permanente aparecimento de muitas sub-especialidades dentro das várias especialidades, originou um movimento contrário na área extra-hospitalar, com o aparecimento da filosofia generalista, agora mais diferenciada, na área hospitalar, a medicina interna ia perdendo elementos e importância e segundo a SPMI, "a 28 de Maio de 1983 efectuou-se uma Assembleia Geral da SPMI na qual estavam presentes apenas 4 sócios efectivos". Mais tarde "a SPMI entrava assim na sua 2ª fase, em que partia da estaca zero" e não "conseguiam evitar um movimento irreversível e já consumado: a separação das sub-especialidades médicas. Daí em diante a Medicina Interna teria que assumir a sua própria identidade e iria tentar sozinha recuperar o tempo perdido."

Proximamente realizará o seu 10º Congresso Nacional. Será que vai conseguir recuperar o tempo perdido?

segunda-feira, março 15, 2004

Sei Que Há Bons E Maus Jornalistas,

assim como há bons e maus médicos, quer se fale de ética, de conhecimento, de valores.

Recebi mensagens de alguns jornalistas referindo que os títulos dos seus artigos não correspondiam ao que eu afirmava na minha mensagem.

Eu sei, pois li vários títulos.

Para que não haja mal-entendidos, foi no Diário de Notícias de 10 de Março de 2004, numa notícia assinada (ou melhor "notícia assassinada") pela jornalista Elsa Costa e Silva

"Aborto pode duplicar risco de cancro" foi a afirmação infeliz escolhida pela referida jornalista.

Pura manipulação.

Por exemplo:
- um dos factores de risco do cancro do colo do útero é o comportamento sexual das mulheres, isto é, está actualmente demonstrado que a precoce idade da primeira
relação, a sua grande frequência e especialmente a existência de múltiplos parceiros sexuais e a diversidade de contactos sexuais destes aumentam a probabilidade da existência de cancro cervical.

Poderei eu afirmar no título de um qualquer jornal "As Relações Sexuais Provocam Cancro"?

domingo, março 14, 2004

Ler Jornais Provoca Cancro

Foi o povo português recentemente insultado pela distribuição de uns abjectos panfletos de qualidade duvidosíssima que lembravam uns outros panfletos com uns vinte anos de idade onde se afirmava que os comunistas comiam criancinhas ao pequeno-almoço e que matavam os idosos com injecções atrás da orelha.
Nestes afirmou-se que se vendiam fetos em Taiwan para serem servidos ao jantar e posteriormente afirmou-se que o aborto aumentaria o risco de cancro da mama.
Afirmações desprovidas de qualquer suporte científico ou qualquer estudo publicado em alguma revista científica, independentemente do seu rigor.

Os jornais falaram.
No primeiro caso, criticando quase unanimemente. No segundo, a maioria dos media, não credibilizou a afirmação, mas um houve que afirmava em título: “O Aborto Provoca Cancro”. Assim escarrapachado para que todos lessem. Por trás estaria como é óbvio um jornalista, talvez jornalista.

É óbvio que se tratou de uma mentira científica grosseira.

Mas eu, médico que vou explicar aos intelectuais (alguns) a mais recente descoberta científica, já comprovada, mas ainda não publicada: Ler jornais provoca cancro não só nos olhos, mas em qualquer parte do corpo.

O estudo interrogou todos os leitores de vários jornais e chegou à conclusão de que entre os leitores se encontravam portadores de cancros do estômago, pulmão, tiróide, testículos, ânus, pele, mama, útero, etc. Os investigadores pensam que se trata da absorção das tintas pela saliva, quando se manuseiam as folhas de papel, depois da humidificação das pontas dos dedos.

Já há informações de que se estará a formar um movimento contra os jornais.

sexta-feira, março 12, 2004

Um Operário Da Contrução Civil Workaholic Em Anasarca

Já o conhecia.
Quando entrou na urgência, o diagnóstico foi feito de imediato. Estava em anasarca.
50 anos. Era portador de uma insuficiência cardíaca grave. Classe IV da classificação da NYHA.
Último percurso de quem nunca seguiu as indicações e as terapêuticas anti-hipertensoras.

A hipertensão mata, grito muitas vezes aos meus doentes, mas devagar.

Este episódio não era o primeiro e, pensava ele, não seria o último. E eu, sempre a pensar que poderá ser o último…

Mesmo em repouso, a sua dispneia era intensa, e com dificuldade diz-me:

- Trabalhei até ontem. Sabia que estava a piorar. Mas já sei como é. Fico aqui uns dias, tiram-me os líquidos com umas agulhas e para a semana já estou a trabalhar.

Não sabia ele que a sua cardiopatia hipertensiva se ia agravando cada vez mais e que um dia, já não sairia do hospital pela porta por onde entrou.

Durante anos tentei explicar-lhe que a sua pressão arterial elevada já se tinha transformado em doença a que se dá o nome de hipertensão arterial e que esta já tinha danificado o coração, agravado pelos valores altos do colesterol.

Já lhe tinha explicado que estas crises seriam cada vez mais frequentes e mais graves e que uma delas seria invariavelmente a última.

Mas nada o demovia do seu trabalho na construção civil. Era um verdadeiro workaholic.

Mas o que eu não esperava era que o doente seguinte, fosse seu pai, com 88 anos, e que à pergunta:

- De que se queixa?

Após uma ligeira pausa, responde-me:

- Como está o meu filho? Está mal, não ?

- Durante toda a vida, nunca se preocupou connosco, foi sempre desligado. Mesmo quando estamos nós doentes não nos visita, apesar de viver ao pé!

Perante o meu silêncio, levantou-se a chorar e desapareceu.

Pensei: foi a melhor maneira que descobriu para se informar da situação da doença do filho, provavelmente já habituado ao péssimo funcionamento dos sistemas de informações dos hospitais!

quinta-feira, março 11, 2004

A Política do Terror, Nunca Resolveu!

A minha homenagem a todas as vítimas do terrorismo está em toda a força deste post que peço emprestado à Adesse.



P.S.: um obrigado ao leitor José Armando que me enviou por mail umas dicas para estas ligações directas.

quarta-feira, março 03, 2004

Comentário ao Seguro de Saúde

De P. Casella, médico:

"Excelente exemplo do que, à nossa medida, já se vai verificando entre nós ... Quando digo à nossa medida também os preços dos nossos seguros de saúde são incomparavelmente mais baratos que nos EUA, logo ....
Apesar de não ter nenhuma convenção com os novos "donos" da saúde gerida por empresas de seguros não resisto a citar um Colega mais velho que quando surgiram estes novos sistemas dizia . "eles pagam 2500 escudos por uma consulta e querem ter um Urologista, eu dou-lhes apenas 2500 escudos de Urologia o que é manifestamente pouco...". Apesar de se dizer que temos a Medicina mais cara da UE eu estou convencido que abaixo de certos limites ou com imposições restritivas de diversa ordem a praxis médica vai-se degradar na sua qualidade, com reflexos directos sobre a relação médico doente.
".

Sublinhado do blogue.