A insustentável gravidade das cirurgias do lado errrado
Por Jorge Varanda, in Público.
As cirurgias erradas não são uma fatalidade. A sua probabilidade de ocorrência pode ser reduzida a quase a zero. Aprender com os erros e não escondê-los, é o caminho que os países mais evoluídos estão a trilhar
Alguém tem de dizer o que deve ser dito a partir do caso de cirurgia do lado errado que terá ocorrido a 12 de Abril no Hospital de Vila Real: uma mulher de 25 anos operada ao pé esquerdo, em vez do direito. Perder esta oportunidade é contribuir para que casos de tal natureza ocorram, apesar, felizmente, da sua extrema raridade. É imprescindível que se diga que estes erros não são hoje uma inevitabilidade.
Para carregar mais o cenário, lembre-se que os casos de cirurgias do lado errado são potencialmente devastadores.
Os casos mais graves arrepiam só de pensar neles, como o da amputação da perna errada ou a ablação do seio errado. Tais situações ocorreram no passado e podem acontecer no presente, se nada for feito para mudar os procedimentos preparatórios dos actos cirúrgicos. Nos EUA, a Joint Commission on Accreditation of Health Care Organizations analisou as causas 126 casos reportados de cirurgias erradas.
Há que afastar a ideia estabelecida que o erro se deve pura e simplesmente à negligência do cirurgião, o qual, nessa lógica, sendo o culpado deve sofrer as consequências do acto.
A moral assumida pelo direito e pela opinião pública leva a que alguém deva sempre expiar "o pecado". É o nosso fundo moral judaico e cristão a impor-se. Acontece, porém, que o desenho dos processos de trabalho está na origem da maior parte dos erros. Se o médico operador chega à sala com o doente já anestesiado e o campo operatório lhe apresenta a parte errada do corpo, o risco de errar pode consumar-se. Acrescente-se que nenhum dos elementos que prepara o doente é o cirurgião. Por isso, é o próprio desenho do processo de trabalho que contem em si o germe do problema.
A Saúde tem vindo a aprender com as metodologias da qualidade aplicadas noutros sectores de actividade, onde a experiência diz que mais de 80 por cento dos problemas são gerados nos processos de trabalho, ou seja na forma como se encadeiam os procedimentos que conduzem ao resultado pretendido.
Contudo o desenho dos processos de trabalho é da responsabilidade dos níveis de gestão das organizações e não obrigatoriamente do profissional individual apanhado no turbilhão do problema.
O objectivo principal deste texto é o de transmitir a mensagem de que as cirurgias erradas não são mais uma fatalidade. A probabilidade de ocorrência de tais casos pode ser hoje reduzida praticamente a zero. Este assunto foi tratado no contexto da acreditação de um grupo dos antigos Hospitais SA pela Joint Commission International, tendo sido traduzido e divulgado entre eles para aplicação "o protocolo universal para prevenir a cirurgia do local errado, do procedimento errado e da pessoa errada".
Esse protocolo propõe basicamente os seguintes procedimentos:
- Processo de verificação pré-operatório.
- Marcação, em geral com tinta indelével, do local do corpo a operar, com a colaboração do doente.
- Verificação final mesmo antes da operação começar, na presença dos membros da equipa operatória.
O meu apelo vai no sentido de, com a liderança apropriada do Ministério da Saúde, no que se refere ao SNS, das Ordens e dos gestores e lideres médicos e de enfermagem dos hospitais públicos e privados se promova a difusão deste protocolo para que em Portugal ninguém mais tenha que sofrer as consequências desastrosas de erros tão devastadores como as cirurgias do lado errado.
A Saúde é uma actividade de risco elevado. Problemas de segurança de vária natureza (erros com medicamentos, erros na administração de sangue, infecções adquiridas em ambiente hospitalar, queimaduras, úlceras de pressão, quedas, erros de diagnóstico) podem acontecer na prestação de cuidados. As áreas de maior complexidade e de maior densidade tecnológica aumentam o risco, designadamente unidades de cuidados intensivos, blocos operatórios e emergência.
O modo tradicional de tratar esta realidade não serve o interesse público da segurança do doente: a abordagem judicial dos casos de erro em Saúde leva a que o sistema se feche sobre si mesmo, não analise as causas-raiz dos problemas e não actue preventivamente sobre as fontes dos erros.
Aprender com os erros e não escondê-los, é o caminho actual que os países mais evoluídos do mundo estão a trilhar. Como em tudo, só a verdade e a transparência nos ajudam a avançar. Responsável do programa de acreditação pela Joint Commission International dos antigos Hospitais SA


