quarta-feira, maio 12, 2004

Sanguessugas!

Sou convidado para o lançamento nacional de um novo (?) medicamento. Convite semelhante aos convites que acontecem em todas as outras áreas de actividade.

A empresa, uma multinacional, esmerou-se convidando centenas de médicos com maior potencial de prescrição. Em tudo idêntico à escolha dos convidados em todas as outras áreas de actividade: convidar quem, à partida, possa melhor comercializar (vender) o produto.

Instalar os convidados num dos melhores hotéis de ***** da capital é ponto de honra. Em tudo idêntico à acomodação oferecida a convidados de outras áreas de actividade (lembro-me do INATEL ter acomodado dezenas de jornalistas em Porto Santo para apresentar os seus planos, lembro-me de uma empresa ter convidado dezenas de jornalistas para uma deslocação à Eurodisney para apresentar os seus projectos).

Antes do jantar, uma sessão científica com alguns cérebros médicos nacionais relacionados com a doença para a qual o medicamento está direccionado. Noutras actividades, a sessão científica será substituída por uma festa escort, muito privada, como aconteceu em muitos lançamentos de produtos.

Na sessão científica um conhecido professor expunha num slide a história da evolução do tratamento de determinada doença. No início da década de 50 do século passado, afirmava que se usavam no seu serviço hospitalar sanguessugas para diminuir a volemia em determinados doentes.

Afirmou que assistiu ao seu desaparecimento e que tinha medo de assistir à sua reentrada no serviço à boleia do revivalismo das chamadas "medicinas alternativas" e naturais.

Por mera coincidência, no dia seguinte, o Público publicava longas páginas sobre as "medicinas alternativas", entrevistando os seus praticantes, descrevendo os seus eventuais benefícios, descredibilizando a medicina-ciência, publicitando gratuitamente (ou não!) empresas, praticantes, práticas, etc.

Por outro lado, como as sanguessugas são muito mais baratas que os medicamentos, até eu não me admiraria que futuramente se prescrevesse numa ficha hospitalar: R/ sanguessugas – 4 sessões diárias, 3 x por semana, ou até: R/ 1 litro de chá de barbas de milho.

Após o jantar, um concerto. Noutras actividades ou com outros convidados, talvez um concerto pimba, ou uma sessão de striptease consoante os participantes: feminino, se os convidados fossem do ramo automóveis) ou masculino, se fosse uma empresa de cosméticos. Mas sempre com o mesmo objectivo: deixar os convidados bem impressionados e cativá-los para o lançamento do produto.

Após o concerto, regresso ao hotel. Noutras actividades, com outros convidados, talvez a continuação da festa escort, talvez uma noite na discoteca com bar aberto, sei lá, tanta coisa que se pode fazer à noite.

Mas afinal de que sanguessugas falei?

domingo, maio 09, 2004

Sanguessugas

Na desenvolvimento posterior deste bilhete atentem aos negritos.

Substantivo feminino.
1. Zoologia
nome vulgar de uns anelídeos, parasitas temporários, da classe dos hirudíneos, de corpo comprimido ventralmente, e com uma ventosa em cada extremidade, que vivem em locais húmidos e na água, por vezes ainda utilizados para fazer sangrias;

2. popular
pessoa que bebe muito;

3. figurado
pessoa que explora outra do ponto de vista material e/ou emocional;

4. figurado
pessoa que pede constantemente dinheiro a alguém;
(Do lat. sanguisúga-, «id.»)

(in Dicionário On-line da Porto Editora)

sexta-feira, maio 07, 2004

20 mg Será O Mesmo 40 mg? E 500 mg será o mesmo que 1 gr?

Ao passar a vista pelas "Web Pages referring to this page, last 24 hours" deste blogue deparei com um acesso vindo de um post do arquivo do bom blogue desBlogueador de conversa datado de 20 de Julho de 2003.

Admirado (já todos conhecemos os ratos de biblioteca) e curioso com o que este rato de blogues (aquele que pesquisa na profundidade os arquivos antigos dos nossos blogues!) estaria a pesquisar, lá fui também eu à Torre do Tombo do desBlogueador de conversa ver o que se teria passado no ano passado.

A sua leitura trouxe ao consciente uma história de hoje na consulta (que - infelizmente - de tão banal já tinha arquivado no sub-consciente a caminho do inconsciente).

Diz-me o doente com o seu ar ingénuo e suplicativo:

- Doutor, passe-me genéricos, são muito mais baratos!
- Mas eu passo-lhe sempre genéricos, sempre que posso e há!
- Pois, mas na última receita fui à farmácia tal e disseram-me que não havia genéricos. Mas depois fui à farmácia tal $ tal e deram-me os genéricos e muito mais baratos, quase metade do preço.

Enquanto o doente descrevia as suas aventuras o médico ia passando a vista pelas suas últimas análises aos lípidos e pela sua última medicação.

- Ouça lá. Olhe que o seu colesterol subiu para 350. Você é diabético, hipertenso, obeso, tem angina de peito. O seu colesterol assim leva-o directo para a cama do hospital, se não o levar para outro sítio!

Depois de muita conversa explicativa e moralizadora o doente mostra-me os seus novos medicamentos genéricos:

- Eu prescrevi 28 comprimidos de 40 mg pravastatina (de marca, porque não há genéricos), a farmácia tal $ tal aviou 60 comprimidos de 20 mg de pravastatina genérica. Estava explicada a sua subida do colesterol.

A rematar a consulta ainda me diz:
- Ando outra vez com mais dores, podia-me passar outra vez aquele das dores, mas o genérico, que dá para dois meses.
- Olhe que a farmácia tal $ tal também me aviou o genérico muito mais barato.
- Tá bem, diga lá qual é!
Mostrando uma caixa de 60 comprimidos de nabumetona a 500 mg. Deslizo o olhar para a sua ficha e leio: Balmox (a marca de nabumetona) 1 gr.
- Oh meu caro: olhe, as dores estão explicadas, você tomou metade do que eu lhe dei, o colesterol também, você tomou também metade do que devia tomar. Quando tiver o enfarte, vai ver como teria valido a pena gastar mais um bocadito.
- E já agora não se esqueça vá à farmácia tal. Nessa pode confiar e é de certeza uma boa farmácia. Avie-se sempre nela.

Tal tem nome e tal $ tal também.

Uma árvore não faz a floresta, mas que las hay...hay!

quinta-feira, maio 06, 2004

Abruptamente Também Este Médico Se Lembrou Do Abrupto

Parabéns ao JPP pelo seu aniversário na blogosfera e principalmente pela referência que é e pela força impulsionadora que deu (dá) a este espaço da Internet.

quarta-feira, maio 05, 2004

"Erro Médico É Problema da Medicina do Século XXI"

Titulava o Público no passado sábado, dia 24 de Abril um artigo de Liliana Carvalho, sem insultar uma classe, sem confundir erro com negligência, sem mistificar um problema real.

De cor, lembro-me do acidente aéreo que vitimou dezenas de crianças nos céus da Europa por um erro de um controlador aéreo, poderia lembrar-me de um erro catastrófico por dezenas de profissões e todos consideramos que quem errou foi uma pessoa e não uma profissão.

O problema dos médicos é que ao gerar diariamente milhões de actos, decisões, avaliações, prescrições, diagnósticos, estão mais sujeitos a errar do que outras profissões. Por outro lado, um pequenino erro médico pode originar grandes e graves complicações.

Por isso o erro médico tem que ser encarado como um problema eminentemente médico e intrínseco à profissão. Terão que ser os profissionais e as suas sociedades a encontrar mecanismos de defesa e controle para os erros médicos.

A pressão que se exerce sobre nós e o medo de errar é tão intenso que...

Num último banco saltei da secretária e corri atrás de um doente antes que este se diluísse no meio da multidão das salas de espera, porque subitamente uma ideia parasita ocupou todos os meus neurónios e repetia: enganei-me na receita! Enganei-me no medicamento! Mas afinal, depois de conferida a receita, tudo estava como pensado e portanto correcto.

Assustado ficou o doente por ver um médico a correr atrás dele. Crise de ansiedade aguda, má adaptação ao stress, cada vez mais frequentes nos médicos.

O artigo:

"Nós não estamos a lidar bem com o erro nem com os conflitos de interesses". Estes foram dois dos "problemas" apontados por Sobrinho Simões, .../... "Somos uma classe muito corporativa que esconde os erros dos outros", acrescenta. Na opinião do investigador, estes problemas traduzem a passagem de uma medicina como "profissão liberal" para uma medicina que é "institucional e empresarial". Outro problema que considera "gravíssimo" é o envelhecimento: "Estamos a melhorar imenso na cura, estamos a conseguir prevenir, mas não estamos a conseguir cuidar"".

segunda-feira, maio 03, 2004

Comunicar A Notícia da Morte

É sempre uma situação desagradável e não desejada por nenhum médico comunicar a notíca da morte de alguém, a alguém que a não espera.

A Morte é uma perda irreversível e irreparável. É um choque para quem a recebe.

A maior parte dos médicos não sabe lidar com a morte, nem com os sentimentos que dela dependem, apesar de a tratarem por tu diariamente e de ser uma sua companheira de profissão.

Situação explorada pelos media para os quais quem entra num hospital ou num serviço de urgência, ou mesmo "quem vai ao médico" não pode morrer.

O nosso povo reage sempre de uma forma admirada quando um médico adoece. Um médico não pode ter doenças, porque é médico, simplesmente por isso. Como um polícia não pode roubar, ou um banqueiro ser pobre.

Fui procurado por uma família conhecida para comunicar a morte não esperada de um filho ao seu pai. Pediam-me "porque o pai sofre do coração" e é sempre melhor ter um médico por perto. Acedi.

Mas sinais dos tempos: o pai tinha 101 anos e o filho (o filho preferido) tinha 80 anos.
Mesmo antes de comunicar a notícia, emocionei-me (os médicos também se emocionam!).

Mais emocionado fiquei ao assistir ao choro convulsivo de um homem com 101 anos a chorar a morte não esperada de um seu filho de 80 anos.

Mas será que aos 80 anos há mortes não esperadas?

Mas o que não era suposto esperar era o médico chorar!

sábado, maio 01, 2004

Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! O Pinto da Costa É Um Forreta!

"Adianta ainda o Expresso que o Ministério Público cita o episódio de um relógio que Pinto da Costa terá oferecido a Valentim Loureiro, depois de ter apelado à sua capacidade de influência para não ser castigado num processo de acusações contra um árbitro.

O reduzido valor do relógio [150 €], no entanto, deitará por terra qualquer acusação se não forem encontrados elementos que consubstanciem as suspeitas dos investigadores
.
"

Então paga um favor ao Major com um relógio pechisbeque (Do inglês pinchbeck, «id.», de C. Pinchbeck, antr., relojoeiro inglês, 1670-1732).

Muito mais de 30 contos já ganhou o Expresso com os jornais que vendeu com o título.

E ganhou-os ilegal e abusivamente.

E Já agora quantos relógios não ofereceu já o Pinto da Costa a jornalistas, médicos, juízes, merceeiros, trolhas, jardineiros. E já agora: e a namoradas?

sexta-feira, abril 30, 2004

Sociedade Hipocondríaca, Sociedade Hipócrita (actualizado)

Vivemos numa sociedade hipocondríaca.

Durante um zapping pelas "nossas" rádios e pelos "nossos" noticiários televisivos com facilidade só econtramos notícias de doenças com muitos "coitadinhos" a contar as suas histórias. Passamos das caridadezinhas para os pobres para as noticiazinhas dos doentes.

Vivemos numa sociedade hipócrita.

Simultaneamente, e por vezes intervalando essas notícias assistimos aos apelos desmesurados ao álcool, ao tabaco, ao sedentarismo, à velocidade, à violência, ao desperdício, ao supérfluo, etc.

Prevenção?
Ensino?
Esclarecimento?
Preocupação?

Sim, quando isto der muito lucro!

E assim fiquei deprimido: desde o despertar, enquanto ensonado me barbeava, enquanto me "duchava", enquanto ingeria as primeiras calorias, enquanto conduzia o coche (influência de tantos colegas e enfermeiros espanhóis) até ao hospital, por mais que mudasse as estações de rádio a temática era a mesma.

Durante a viagem lembrei-me da nova Santa portuguesa: pedi um milagre - que quando chegasse ao hospital tivesse todos os doentes curados - e a Santinha de Balazar ouviu-me: quando cheguei estava tudo curado, dei alta a todos, enfermaria vazia.
Por um dia não vou ouvir falar mais de doenças! Desde que permaneça dentro da enfermaria vazia (pois, telefonarei à Telepizza, fumarei um charuto - se o FJV não se esquecer!, beberei umas cervejas, sentar-me-ei numa cama vazia e não verei televisão).

domingo, abril 25, 2004

Não Podemos. Nem Queremos. Mas Por Vezes Temos Que Sorrir.

Temos que sorrir com os enganos dos nossos doentes, é a tal iliteracia cultural.

Acabou de afirmar o doente: "Fiz um Tac e tenho uma hérnia fiscal na coluna".

A Manipulação da Comunicação Social: Não Estou Sozinho na Percepção do Mau Cheiro!

Quando numa noite de insónias iniciei este blog, pensava que podia lutar sozinho contra a manipulação dos media em relação a um grupo vasto de profissionais, que prestam um serviço público, quer em serviços do Estado, quer em serviços privados, mas sempre um serviço público. E um serviço para o grande público. Um serviço que o 25 de Abril massificou e democratizou.

Também pretendia "esclarecer quem me procurasse" e alguns jornalistas procuraram.

Por isso, lá por haver um Luís que é Salgado (entre outras epítetos) e Matos (Matos por parte do MRPP ou similar) que dá aulas de jornalismo, não critico todos os jornalistas.

Mas aprendi a protestar no silêncio, pois, (e desculpem-me os puristas da língua, esta minha brejeirice) sempre que um médico dava um peido, nos jornais podia ler-se "Os médicos peidaram-se" e logo um rol de conclusões precipitadas, todas relacionadas com o cheiro do dito.

Mas, nem todos os médicos expelem ventosidades pelo ânus, ruidosas ou não, como consequência de um problema (não é uma doença!) mais vasto e com vários nomes técnicos: aerofagia, aerocolia, meteorismo, flatulência, como resultado d' "A digestão de alguns alimentos pelas bactérias do intestino leva a maior produção de gás do que outros. A fermentação no intestino e que leva à produção de gás, pode ser a partir da lactose (contida no leite e derivados), da frutose (contida nas frutas), de certas fibras vegetais e de carboidratos contidos no trigo, aveia, milho e batatas. Geralmente o gás derivado da fermentação de vegetais tende a ser sem cheiro, enquanto aquele resultante da digestão de carnes, mal cheiroso." (Aqui a ligação da propriedade intelectual.)

E todo este tratado para me juntar à indignação do Aviz e do Miguel Sousa Tavares no Público sobre a manipulação dos media (para não generalizar aos profissionais, os jornalistas).

Podem ler pela pena do FJV com o título: "MAS A MANIPULAÇÃO, SENHORES":

"Mas a manipulação não é apenas privilégio da "imprensa desportiva". Para quem ouve os noticiários da rádio (com a montagem de peças cortadas à vontade de cada editor, ou a recolha de depoimentos de várias "personalidades" que estão todas do mesmo lado) ou vê os rodapés das televisões (com adjectivos multiplicados ao sabor de cada hora), por exemplo, a conclusão não é muito diferente. Mas preparem-se. Vem aí mais. É o triunfo do common-sense e das "verdades".

MST escreve na sua crónica "Apito Entalado"*:

"Consciente disso, ao terceiro dia de "Apito Dourado", a imprensa atirou-se, sôfrega, a uma nova pista lateral: Pinto da Costa. Já anteontem, auscultando o que se passava em algumas redacções de Lisboa, eu percebi a pergunta/desejo que andava no ar e em todas as cabeças: "Será desta que chegam ao Pinto da Costa? É que, se não chegam, nada disto tem verdadeiramente interesse." Ao terceiro dia, então, ultrapassando a questão central, todavia menor, da disputa entre o Gondomar e os Dragões Sandinenses, a imprensa lisboeta lá achou que já tinha terreno para explorar a "pista Pinto da Costa". Atente-se nas manchetes de ontem do PÚBLICO e do "Diário de Notícias"." e
"Mas não é só o envolvimento a ferros do nome de Pinto da Costa neste processo que caracteriza a cegueira da imprensa responsável. Levados por um entusiasmo que tem raízes patológicas na clubite desportiva que a todos toca".
___
* ligação não permanente.

sexta-feira, abril 23, 2004

Senhores Jornalistas: O Médico Explica

Bastava consultarem um dicionário (e há tantos on-line) para não cometerem os dislates de ontem e foram tantos os jornais que lhes perdi a conta.

Segundo as notícias, a Secção Regional do Norte da Ordem dos Médicos quer que o Sr Ministro se demita por causa da educação infantil e do estudo dos solos.

Confuso.

Trocaram o O pelo E. Pensaram assim: pé não se escreve com o, senão seria pó. Portanto a ciência que estuda o pé tem que ser Pedologia, com e de pé.

O sr luís salgado matos insultou-vos ontem, por menos chamou-vos rústicos.
Eu não insulto. Eu explico.

Esclarecendo:

PEDOLOGIA - ciência que estuda os solos e os seus processos de formação. A pedologia estuda o solo nos aspectos físico, químico e biológico, procedendo à sua caracterização e classificação.

PEDOLOGIA - estudo da educação infantil; ciência do primeiro ensino; (De pedo-+-logia)

PODOLOGIA - tratado acerca do pé; (Do gr. poús, podós, "pé" +lógos, "tratado" +-ia)

(dos dicionários)

quinta-feira, abril 22, 2004

Agradecimentos a Intelectuais do Médico Explica Medicina

- ao Blasfémias (ex-Mata-Mouros, Cataláxia, Cidadão Livre) pela sua apreciação positiva a este despretensioso lado da blogosfera, na rubrica Blasferas (III ed.);

- ao gs e ra pelos ** (talvez tenham razão!);

- ao FJV pelas suas ofertas com dedicatória e com as desculpas pelo não agradecimento na altura devida, mas a ansiedade profissional foi mais forte. (E eu ainda à espera dos charutos prometidos! - apesar de ex-fumador, tenho amigos que os fumarão.);*

- à Mariamar pelo seu post sobre o meu "o meu 25 de Abril";

- ao beijinho que deslizou pela Estrado do Coco (e que retribuo pela mesma via);

Respostas a Intelectuais do Médico Explica Medicina

- para Ana da vida dos meus dias que escreve: "Ora diga-me lá, Sr. Doutor, os estabelecimentos públicos de saúde não são assim tão maus como nós os pintamos, pois não?". Não. Eu nunca os pintei. Têm deficiências, insuficiências e virtudes, muitas;

- para o Alex do Blog do Alex que pergunta "O que pensa disto [Depois que a enfermeira costurou o corte com uma agulha comum e uma linha de costura de algodão, mãe e filho foram transferidos e tratados por Valle e sua equipe no hospital mais próximo] o Bisturi e o Médico explicador?". É a verdadeira Medicina Rural**, meu caro amigo!

- Para o Miguel Sousa, aqui vai a ligação.

______________________
* Posso enviar por e-mail a minha morada.
** Medicina Rural faz parte do léxico usado na medicina geral e familiar e pretende caracterizar a prática do médico de família em meio rural, longe, muito longe das urbes hospitalizadas.

segunda-feira, abril 19, 2004

"... a condenação do Dr. F. na pena de censura ..."

"1. No dia 16.12.03 o Conselho Disciplinar Regional do Sul da Ordem dos Médicos proferiu despacho de acusação contra o médico Dr. F, nele se dizendo o seguinte – e passamos a transcrever:
2. No dia 18.01.01 a participante, Senhora D. M., levou a sua filha C. à consulta de pediatria, do Centro de Saúde S.
3. A criança tinha ido previamente à consulta de clínica geral, tendo sido encaminhada para a consulta de pediatria por "aparente sinéquia dos pequenos lábios".
4. Na consulta de pediatria foi atendida pelo arguido que considerou tal sinéquia como indiciando negligência nos cuidados de higiene e falta de atenção da mãe, opinião essa que, em tom ríspido, ele comunicou à participante.
5. Tal opinião, nas circunstâncias em que foi emitida, era claramente abusiva, visto o arguido estar a condenar sumariamente a participante, sem atender a outras causas possíveis (...).
6. Para além disso o arguido optou pelo desbridamento físico da sinéquia da criança, provocando-lhe bastante dor e desconforto, quando é certo que o tratamento mais adequado e menos doloroso para a criança teria consistido na aplicação de creme com estrogénios durante uma semana (...).
7. Acresce que o arguido, talvez por se ter incompatibilizado com a participante logo no início da consulta, não perdeu grande tempo a explicar à queixosa o que se propunha fazer, não tendo, por conseguinte, obtido o seu consentimento informado.
8. Com base nos factos acabados de expor, o Colégio da Especialidade de Pediatria, no seu parecer de 17.08.01, considerou o seguinte – e passamos a transcrever:
a) «As aderências dos pequenos lábios são frequentes em crianças com menos de 6 anos e resultam de inflamação local associada ao estado hipo-estrogénico da pré-puberdade. A situação resolve-se geralmente de forma espontânea com a acidificação do pH vaginal, na puberdade. O tratamento de escolha consiste na aplicação de creme com estrogénios durante 1 semana. A separação mecânica das aderências só está recomendada se esta parecer fácil e não causar trauma significativo».
b) Não há informação clara sobre a necessidade de optar pelo desbridamento físico da sinéquia, e parece ter havido algum desconforto para a criança e para a mãe.
c) Não parece ter sido explicado à mãe a natureza do problema antes do tratamento realizado, nem colocadas as alternativas terapêuticas ou solicitado o seu consentimento explícito, ainda que verbal, para o tratamento.
d) Foi feito o diagnóstico, aparentemente sumário, de negligência de cuidados de higiene, numa situação em que havia outras causas possíveis (défice relativo de estrogénios, por exemplo).
e) Pelos motivos expostos considera-se que o Dr. F. praticou um acto terapêutico tecnicamente aceitável, embora não tenha considerado, outras opções porventura menos desconfortáveis para a criança não explicou previamente à mãe o procedimento nem obteve o seu consentimento informado, e formulou um juízo etiológico não fundamentado. Assim, parece algo questionável o comportamento do clínico no contexto descrito.
(vide parecer do Colégio de Pediatria folhas 4 a 6 dos presentes autos).
9. Atendendo ao exposto, violou o arguido os artigos do Código Deontológico que passamos a enumerar:
a) Artigo 26 do Código Deontológico, porque não prestou à doente os melhores cuidados ao seu alcance;
b) Artigo 27 do Código Deontológico, porque no exame clínico da criança não tomou em consideração a sua idade e sexo;
c) Artigo 43 do Código Deontológico, porque deveria ter usado de particular solicitude com a criança (…)
d) Artigo 38 do Código Deontológico, porque não esclareceu convenientemente a mãe da criança, acerca do problema da criança e do tratamento que pretendia realizar, não tendo posto à consideração da participante as alternativas terapêuticas existentes, nem solicitado o seu consentimento explícito.
(estivemos a transcrever trechos do despacho de acusação)
10. Apesar de regularmente notificado da acusação, através de carta registada com aviso de recepção, o arguido não apresentou qualquer defesa, sendo de presumir que nada tinha a acrescentar aos esclarecimentos já por si prestados.
11. Assim sendo, não apresentou o arguido qualquer facto ou argumento novo que fizesse a relatora do presente processo mudar a sua opinião já expressa no despacho de acusação.
12. Atendendo ao exposto, propomos ao Conselho Disciplinar Regional do Sul a condenação do Dr. F. na pena de censura, nos termos do artigo 16 do Estatuto Disciplinar dos Médicos.

Lisboa, 10 de Fevereiro de 2004"

Processo Disciplinar n.º 12102 RELATÓRIO FINAL, in Revista ORDEM DOS MÉDICOS, Março 2004.

O Luís Salgado Matos Está Mesmo Doente, Nem Os Jornalistas Escapam

Compreende-se porquê.
Trata-se de um auxiliar de investigação português.
É a prova de que o 25 de Abril está vivo. Há liberdade de expressão!

Já há cerca de um ano tinha insultado todos os médicos generalistas, apelidando-os de corticeiros em alfabetização.
Hoje na Secção Psiquiátrica do jornal Público publica uma crónica da má-língua onde insulta todos os jornalistas que não trabalhem nos grandes jornais da capital, apelidando-os de rústicos. Uns corticeiros, outros rústicos. Terá algum trauma contra o Mundo Rural?

E problema sexual? Terá?
Uma das suas preocupações é sobre a vida sexual dos médicos. E dos médicos holandeses, onde como se sabe, a posição social em relação ao sexo deverá estar nas antípodas da do sr Luís, que deverá ser parceiro daquele casto deputado.

Mas a má-fé do sr Salgado, está no ódio que destila contra os médicos.
Como mistura sexo dos médicos e ódio aos médicos, será que algum médico o assediou? Ou consumou mesmo algo? (Refere ele que cerca de 5% dos médicos holandeses já transaram com os seus doentes.) Estaria ele na Holanda na altura do inquérito?

Mas o que me revolta nos escritos deste senhor é a sua manipulação. Intitula a sua crónica assim: "O Caso dos Médicos", isto é, um título que generaliza o que vai dizer a todos os médicos do país. Lá pelo meio vai dizendo que nem todos os médicos são iguais. Diz que ainda há médicos João Semana.
Pois muito bem: O sr Matos parou no tempo. O médico João Semana pertence a uma topologia (como ele gosta de palavras caras!) que já não existe. Assim como já não há existe a prensa de tipos móveis de Guttemberg....

Mas muitas outras afirmações são imprecisas, falsas, manipuladoras, desonestas, vagas, indeterminadas, ambíguas, confusas, incertas, inexactas, adulteradas, enganadoras, indignas, desonrosas, indecentes e desprezíveis. E tudo isto apenas em 472 palavras. Tantas quantas o Público lhe encomendou.

Mas a prova que lhe dou, de que os médicos (já por mais de uma vez disse que não passo cheques em branco a todos os médicos, assim como não passo a outras profissionais.) também se julgam uns aos outros está na mensagem seguinte...............

domingo, abril 18, 2004

O Besugo Está Doente....

Mas a vida é assim.

A felicidade para uns, a tristeza para outros.

Com Paixões pelo meio.

Por causa de Paixões também eu já sofri muito! Quem não sofre com uma Paixão assim!

A angústia profunda está no "Brahms e quero que morram".

sábado, abril 17, 2004

Numa Semana Confusa, Uma (Esquecida) Conclusão Relevante

A nossa comunicação social esta semana esteve em grande: teve notícias e notícias sobre negligências, mortes, anestesias, erros, vírus, perigos, contágios, etc.

Entrevistou vítimas, ex-vítimas, futuras vítimas, primos das vítimas, amigos dos primos das vítimas.
Foi uma vitimização constante. Alarmou-se qb.

Dizer que estão trinta crianças internadas com suspeita de pneumonia adenovírica, é uma bomba jornalística. Quantas não estarão na hora seguinte? Interrogar-se-á o leitor, ouvinte ou telespectador. Assim ficamos reféns dos media.

Por outro lado.

Coincidência ou um forte e produtivo lobie a trabalhar, foram vários os órgãos da comunicação social que fizeram diversas reportagens sobre os bruxos modernos (e as suas clínicas, pois então!) apelidados pela querida comunicação social como, praticantes de medicinas alternativas.

Mas o que nos interessa a todos, apenas vi publicado num jornal médico generalista: Tempo Medicina

"A esperança de vida nos últimos 80 anos aumentou ao ritmo de 12 horas por dia, em 80 anos aumentou 40 anos"

"A ideia sobre quem são os indivíduos que devem ser considerados dentro da área [idosos] tem mudado e não se sabe se devemos adoptar o critério dos 75 anos, do séc. XIX, impor os limites dos 55 anos, e parece-nos que a linha dos 65 anos já não faz hoje muito sentido, quando a nossa esperança de vida ultrapassa os 80 anos"

Pois é, se não fossem os médicos (e outros técnicos), a medicina (e outras áreas do conhecimento científico) e até a própria comunicação social divulgando novos conceitos de saúde, higiene, prevenção, etc talvez ainda morressemos aos 30 e 40 anos.

Pois é, se não fossem os anestesistas, os hospitais e centros de saúde e quem lá trabalha, os aerossóis (embora em Portugal haja um abuso da sua utilização!) e outros sóis, talvez ainda se morresse por muitas patologias que arrasaram populações séculos atrás.

Pois é, mas tudo isto baseado nos conhecimentos científicos e não no empirismo das levadas ao colo alternativas à medicina.

quinta-feira, abril 15, 2004

Pontos Cardeais de Excelência

- Sulparati - "tudo é tão pouco"

- Sulanorte - "Como um oásis branco era o meu dia. Nele secretamente eu navegava. Unicamente o vento me seguia".

segunda-feira, abril 12, 2004

"Quero Matar O Médico!"

"Quero Matar O Médico!", foi assim que se apresentou um doente numa consulta de urgência alguns dias atrás.
A enfermeira, solícita e branca como a cal, bate à porta e diz com voz trémula:
- "Sr dr, está ali um doente que diz que o quer matar!"
- "Quer-me matar?"
- "Sim, até já mostrou a arma!"
- "Está agitado ou calmo?"
- "Aparentemente está calmo."
- "Então mantenha você a calma, telefone para a PSP, leve-o para a sua sala e vá-o observando"
Minutos depois, chega a sua vez da consulta e entra pacatamente para o consultório.
Senta-se, tira a arma e coloca-a em cima da mesa, começando a discorrer com um discurso desconexo e irrealista. Percebia-se logo que se tratava de um doente psiquiátrico descompensado.

Quase logo de seguida, bate novamente à porta a enfermeira e diz:
- "Sr dr estão aqui dois senhores da propaganda médica que lhe desejam falar."
- "Está bem." Respondi. Acrescentando em direcção ao doente:
- "Se o senhor deixar?"
- "Eu deixo. Podem entrar."

Segundos depois, já o doente estava desarmado. Tratava-se de dois agentes da PSP à paisana e que depois de o imobilizarem, constataram que se tratava de uma pistola de alarme, inócua.

É lógico que isto não chegou para ser notícia nos media. Se o médico morresse, talvez fosse notícia da primeira página, com esta legenda:

"Mais Um Caso de Negligência Médica: Doente Psiquiátrico Mal Tratado, Abate Médico."

Nota: história rigorosamente verdadeira.

Uma Opinião Sensata No Meio De Tantos Lagos de Água

No Diário de Notícias de 09 de Abril de 2004, algumas afirmações sensatas de um médico, Luciano Ormonde, presidente da Sociedade Portuguesa de Anestesiologia.


"não é possível em tão pouco tempo arranjar uma causa para explicar as mortes ocorridas em Lagos e que tudo tem de ser investigado, em vez de haver tentativas para arranjar rapidamente um culpado. Vivemos um período na saúde em que os genéricos são usados como balas políticas. Além disso, não se pode dizer que um produto é mau, quando foi aprovado pelo Infarmed e não há provas contundentes que levem a que seja retirado do mercado», acrescenta.

O médico de Santa Maria sublinha ainda que a anestesia «não é inócua para os pacientes e comporta riscos». São factos «escritos e reportados a nível mundial» e que dependem de diversos factores. O propofol, «tal como todos os medicamentos usados na anestesia, tem riscos». E diz ainda que os oito genéricos introduzidos recentemente com esta substância não são mais nem menos perigosos. «Há médicos que têm referido que apresentam características diferentes quanto à durabilidade das doses, mas são apenas impressões que não têm valor de prova».

sábado, abril 10, 2004

Pomada de Cu de Bebés

O final de uma consulta é sempre uma verdadeira caixinha de surpresas.
É quando se fazem os vários pedidos, que muitas vezes são o real motivo da consulta.

Já me tinha despedido da doente, jovem dos subúrbios da capital, quando ouço este pedido:

-"Senhor doutor, podia-me passar uma receita com a pomada de cu de bebés".

Sei que se referia ao eritema das fraldas, agora a que pomada se referiria, não sei. Antifúngica? Creme gordo? Cicatrizante? Emuliente? Óleo de amêndoas doces?

Ela sabia que era para o cú dos bebés....