quinta-feira, fevereiro 24, 2005

"Umana cosa è"

Depois te ter falado na conferência do Prof. Lobo Antunes subordinada ao tema "Para Onde Foi o Dr João Semana?" recebi alguns pedidos para indicar os locais (links) onde se poderia ler o que foi dissertado.

Mas também não encontrei.
Apenas uma breve notícia sobre a realização da conferência e poucas linhas sobre o conteúdo. Foi no Correio da Manhã e naturalmente, como não houve mortes nem alegadas negligências médicas a notícia não passou de 2-3 linhas perdidas no fundo de uma página qualquer.

Contudo, o Google deu-me outra ligação para a página da Associação dos Médicos de Família Portugueses onde se pode ler a Conferência de Abertura do 9º Congresso Nacional de Medicina Familiar, realizado em Viseu em 26 de Setembro de 2004, também pelo Prof. Lobo Antunes e subordinada ao mesmo tema e intitulada "Umana cosa è".

Leiam que vale a pena!
E talvez me compreendam melhor.

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

A Viúva - Como Os Jornais Exploram O Sentimento

Comércio do Porto de 20 de Fevereiro de 2005.

Como SUSANA CARAVANA transformou um caso cheio de 'ses' numa notícia com este título:

"Família pondera processar hospital por alegado erro médico".

"Homem de 57 anos deu entrada no hospital com dores lombares e morreu duas horas depois de ter sido medicado" - conclusão da CSI-Lisbon liderada pela Susan Caravan - Foram os médicos! Foram os médicos!

Mas logo no primeiro parágrafo, o erro passa a negligência (pois, não esqueçamos - Foram os médicos! Foram os médicos!)

"Uma família do concelho de Barcelos pondera processar o hospital de Santa Maria Maior por uma alegada negligência médica. Em causa está uma injecção que os familiares suspeitam ter provocado a morte do doente em menos de duas horas após a entrada na unidade hospitalar".

…/…

"Eram cerca das 23h00 e ele deu entrada por volta das 21h20, foi tudo muito rápido", recordou Maria da Conceição.
Ainda em choque e sem entender o que se tinha passado, a viúva foi ainda surpreendida pelo inchaço exagerado do corpo do marido. "Quando fomos vesti-lo, verificámos que corpo tinha inchado de tal forma que nenhuma roupa lhe servia. Nem os fatos de treino XXL lhe serviam, teve que ir sem roupa. Não percebo isto porque ele morreu na quinta à noite e o funeral foi no dia seguinte. Penso que não havia motivo para tal".

Agora, a família aguarda o resultado da autópsia para determinar se vai ou não processar o hospital de Barcelos por alegado erro médico.


"Não houve negligência", diz hospital, mas o título é o que diz a viúva: “Alegada negligência médica




A viúva não tem culpa, ainda vai chorar muito, quando interiorizar a perda. Nessa altura a Susanita lá andará de caravana pelos hospitais do Norte, à procura de mais mortes. Qual ab

domingo, fevereiro 20, 2005

Confesso: Hoje passei-me! (Continua, Talvez)

Confesso: hoje, durante um serviço de urgência passei-me!

Confesso: hoje, ao almoço ingeri o que não devia! (E ainda estou de serviço!)

Confesso: hoje, no resto do turno, vou dizer que sim a tudo e a todos, não me vou chatear para não passar completamente para o outro lado, aguardarei calmamente pelo fim do plantão, para ingerir o que me faltou ingerir ao almoço, para ficar bem comigo!

Confesso, hoje, descobri que as urgências fazem mal à minha saúde mental!

Não me reconheço!

O que fui, o que sou!

(Aconselho a leitura por todos os meios e rapidamente da conferência do Lobo Antunes: "Onde Pára O João Semana?"

Taxas? Tá Tudo Doido!

Provavelmente os nossos jornalistas ainda se julgam em campanha eleitoral, tamanhas são as barbaridades encontradas nos títulos da imprensa a propósito da inspecção da Inspecção-Geral de Saúde.

A própria Inspecção cada vez está mais mediática e em vez de esclarecer e investigar pedagogicamente, e punir quando necessário, procura denegrir directamente ou fornecendo aos jornalistas, informações deformadas para denegrir constantemente a actividade de todos os funcionários das estruturas de saúde.
Estará a IGS conluiada com os interesses dos grandes grupos privados que procuram "engolir" as parcelas do SNS lucrativas?

É estranho!

A IGS analisou 40 Hospitais e Centros de Saúde.

Os jornais falam, (falam e não dizem nada!)

- Milhões de euros roubados dos cofres do Estado!
- Funcionários "abarbatam-se" com o dinheiro dos utentes!
- Funcionários auto-isentam-se!
- Depositam enormes quantidades de "massa" nas suas contas pessoais!
- 70% das isenções são ilegais!
- Bombeiros estão isentos! (pois estão!)

A IGS anda mas é muito distraída, pois muito antes de descobrir esta pólvora, já tinham sido instaurados muitos processos, pontuais é certo, a administrativos com irregularidades, incluindo o roubo, na gestão das taxas moderadoras.

Como em todas as profissões que recebem dinheiro "fresco".

Mas a história é sempre a mesma: para a saúde, a árvore é propositadamente confundida com a floresta.

Estou confundido com a comunicação social!

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Lucy In The Sky Ou The Day After

Apresento-me: sou agnóstico.
Justifico: aguardei o dia seguinte ao dia do funeral, para postar.
Respeito portanto os sentimentos religiosos dos outros, mas considero que as religiões são profissões de fé individual e do foro íntimo de cada um.
Não concordo que a Irmã Lúcia tenha vivido enclausurada toda a sua vida, presumo que desde a adolescência e portanto não lhe foi permitido comunicar com o mundo exterior em total liberdade. Portanto também não sei se era ou não apoiante de Salazar, mas que a Igreja disso fez publicidade, não restam dúvidas.
Eu não fui e não sou apoiante de Salazar. E mais não digo sobre a participação política, que não cívica, da Irmã Lúcia.


Mas se a Irmã Lúcia, os Pastorinhos e outros santos e beatos portugueses existem, porquem deixaram uma velhinha cair da janela de um hospital? E uma jovem puérpera morrer no CHAM, deixando um filho órfão ao cuidado da zelosa cunhada? E porque deixaram morrer três doentes seguidos no Hospital de Lagos?
A resposta é simples: os médicos, essas abstrusas (para a comunicação social, claro!) figuras de bata branca, estão vendidos ao diabo (com letra pequena para não me chamarem seguidor de satã), são impiedosos, e têm um poder superior ao dos Santos e Beatos portugueses.
E se a Irmã Lúcia viveu até aos noventa, aos médicos o deve, principalmente à sua médica de família. Sim a Irmã Lúcia acreditava nas potencialidades de ter um médico de família (segundo os jornais à data da vinda do Papa a Portugal.)


Mas quando iniciei a escrita era para falar da TSF. Sim da TSF que me martirizou ontem com a transmissão de uma missa.
Por momentos convenci-me que estava na Rádio Renascença

terça-feira, fevereiro 15, 2005

Os Médicos Não São Carcereiros...

De um longo e-mail que o colega Alfredo Vieira enviou, respigo os dois últimos parágrafos:

"Quanto à queixa do senhor do artigo, era o que faltava que uma pessoa não se pudesse atirar de uma janela de uma instituição hospitalar. Ou sair quando quisesse. Ou recusar tratamento. Mas devem ser as emoções a falar, inconformadas pela perda de um ente querido.

Já que não acredito que, uma vez internado o próprio numa instituição hospitalar (não psiquiátrica), ele aceitasse que o obrigassem a tratar-se, a ficar coercivamente internado, a ser vigiado entre grades como um presidiário até nos momentos mais íntimos da sua higiene, etc.... Dê-se por isso o desconto à inconsciência secundária à dor natural do luto.
Claro que com o jornalista "abutre", é outra conversa, mas... adiante."


"Em suma:
o Hospital não é uma prisão;
os funcionários de um hospital não são carcereiros;
ninguém é obrigado a submeter-se a um tratamento;
ninguém é obrigado a submeter-se a um internamento;
o Hospital não é um lar;
o melhor sítio para se morrer é, sempre, junto dos seus.

A morte é uma inevitabilidade comum a todos nós, e só devíamos ter esperança em ser tratados pelos nossos filhos da forma que tratamos os nossos pais; a mais, obviamente, eles não estarão moralmente obrigados, e seria por isso sensato transmitir um bom exemplo. A questão é: e tu, onde, e com quem gostarias de estar aquando da tua última agonia?

Obrigado pelo serviço público continuado."

domingo, fevereiro 13, 2005

O Filho Da Doente Que Caiu Da Janela

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Não seria muito mais elucidativo jornalisticamente falando, publicar a foto da vítima, a inditosa senhora idosa?
Que interessa aos leitores saber quem é o filho da idosa? Só lhe intereressa mesmo a ele, para mostrar aos amigos e netos: "Tás a ver, sou famoso! Tou bonito!"

O Correio da Manhã continua a ser o recordista da perfídia.
O jornalista que assina a notícia (Carlos Jorge Monteiro) não tem culpa. Ele sabe o que o jornal quer.

O título é: "Insegurança: Unidade de Cantanhede não tem janelas trancadas"

Era suposto tê-las trancadas? Claro que não.
Não sendo um hospital psiquiátrico, também não é uma prisão, embora para muitos familiares, era bom que os hospitais fossem transformados em prisões e "depósitos de idosos que só atrapalham...."

A seguir lá vem o habitual segundo parágrafo: "O filho da doente afirma que vai processar o Hospital de Cantanhede, alegando falta de segurança"

A verdade vem ao de cima: "Embora a Lei não preveja a obrigatoriedade geral de trancar as janelas, ..."

Depois vem a imaginação empírica e direccionada sempre contra os técnicos: Apesar de desconhecer as circunstâncias da queda, que ainda não foram apuradas, o filho de Balbina Martinho admite que ela “possa ter-se atirado”, justificando a atitude com “uma alteração de comportamento provocada por um medicamento forte que andava a tomar e que tem efeitos secundários [incluindo alterações comportamentais]”.

"... ido à casa de banho, na companhia de uma auxiliar médica – que ficou à porta –, subido à sanita e caído."

E porque ninguém pensa em suicídio?
Porque pensar em suicídio é pensar em falta de afecto para com os idosos. Mas é óbvio que se uma doente se atira de uma janela, é um caso de suicídio, até prova em contrário!

Um dos primeiros doentes que acompanhei no Internato Geral, num hospital de Lisboa, suicidou-se, atirando-se de uma janela. Tinha uma doença crónica e incurável.

Volto a repetir, os hospitais não são prisões, embora na sua génese histórica, estivesse precisamente o "esconder e isolar" oa doentes da comunidade.

sábado, fevereiro 12, 2005

Não Fui Eu Que Disse, Mas Podia Ter Dito

O Povo passa a legislatura a dizer mal dos políticios! 90% das vezes com razão.

Um Abstencionista Activo, diz no seu blogue:

"Nós portugueses gostamos muito de dizer mal dos políticos mas quando se trata de eleições lá vamos todos (salvo seja, nós não!) em fila, metemo-nos na bicha como se precisássemos do naco de pão que eles nos dão e desatamos todos a votor, um pouco por todos, repartidamente conforme as apetências e os paladares.É um erro. Em primeiro lugar não conhecemos quase nenhuns a não ser o chefe de cada um e mesmo assim muito mal. O Chefe diz agora o que desdiz depois. Também não nos devemos fiar dos chefes de cada partido mesmo que sejam eles os que conhecemos melhor. Mas numa lista de candidatos a maioria são os chamados "leitores", os que lêem o jornal enquanto decorrem os trabalhos do Parlamento".

A Compressa Entre A Joana E O Rui

A resposta do Rui Miranda:

".../...
Cara Joana,
Sim, sei que as contagens são feitas pelo instrumentista e pelo circulante.

Não sei se todas as normas foram cumpridas, não estava lá.

Sim, sei que as equipas cirúrgicas variam consoante a instituição.

Eu não disse que a culpa é do instrumentista. Disse, sim, que é sua função contar o material utilizado. E que é indesculpável que se falhe esta ou não se intervenha.
Claro, em caso de sua presença, tem toda a razão.

Eu não chamo "passadores de ferros" aos enfermeiros instrumentistas, porém, conheço muitos colegas que o fazem.
Jádefendi variadíssimas vezes a importância da presença da equipa de enfermagem no Bloco Operatório. Continuo a fazê-lo.

Frustração? Não, nunca foi meu objectivo ser enfermeiro do Bloco.

Vontade de dizer mal? Não. Apenas pretendi realçar que existem outros profissionais, os enfermeiros, que também têm funções e importância. Que merecem os louvores e as críticas também.

A meu ver, a classe tem feito excelentes progressos e concerteza continuará a fazê-los.

Não pretendo gerar polémicas, pensei ser benéfica a minha intervenção. Pelos vistos, a colega interpreta-a como uma agressão à classe. Não a vejo como tal. Não voltarei a comentar o "caso da compressa". Agradeço a sua intervenção enquanto profissional do Bloco, penso que foi oportuna.
Com os melhores cumprimentos, Rui
"

Gritos: Só Gritos!

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A campanha eleitoral continua a sucessão de gritos e horrores que se iniciaram na pré-campanha.

São os golpes baixos, os golpes médios e golpes altos: objectivo único - o Poder a todo o custo!

Continuo a engrossar a percentagem dos indecisos.

Por isso, continuo a apoiar este Blogue.

A Compressa: Mais Explicações

Da Joana:
".../...
Oh meu caro, então o Sr. como enfermeiro não sabe que a contagem é sempre efectuada por dois enfermeiros na sala cirúrgica? Pelo instrumentista e pelo circulante, ou em caso de falta do instrumentista, por um dos cirurgiões e pelo circulante.
Sabe se as normas foram todas cumpridas e se estavam todos os elementos presentes?
Sabe com toda essa certeza, que nem todos os blocos operatórios possuem capacidade humana ou técnica, ou meramente politica, para suportar equipas de três elementos de enfermagem em sala.
Acusa deliberadamente o enfermeiro instrumentista? Que gesto feio da sua parte Sr. Enfermeiro. Acaba de se misturar com o trabalho jornalístico que leu.
A marca opaca, filete habitualmente azul, é visível tal como disse ao Rx.
Estranhamente ninguém lhe pede este simples exame, que até para uma dor de um calo já vi pedir?!
Cinco anos de queixas, [quanto às queixas da utente, o assunto é outro, pois falta saber a relação causa-efeito)] mas a culpa é do instrumentista? E chamar passadores de ferros aos colegas?... Alguma frustração em relação ao bloco, algum sonho despedaçado que não o deixaram viver? Simples vontade de dizer mal, ou mera situação ilustrativa de como a nossa classe progride?"
Nota: darei o direito de resposta e depois acabou a polémica. Assim todos os leitores ficam a saber como funciona um bloco operatório, dito pelos próprios.

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Outro Explicador Para Intelectuais: As Compressas Das Domésticas

"Nao defendo os médicos, muito menos quando por erro prejudicam doentes...

Mas que não é preciso estar bêbado, drogado, drunfado, para esquecer uma gaze ou qualquer outra coisa, penso que nao é...

Há boas domésticas que queimam panelas e provocam incêndios!...
Porquê? Porquê? Porquê?

Gostei de ouvir o seu tom forte ao dizer "Teve que ser o tanas"...

é bom que todos saibam e as mentalidades comecem a mudar... e porque não "senhores" das letras serem os primeiros?

Catarina

Outro Explicador Para Intelectuais: A Verdadeira História da Compressa

"É enquanto seu leitor e enfermeiro que lhe escrevo.

Em primeiro lugar, quero falar-lhe do esquecimento da compressa em si.

Como deve saber, a responsabilidade de contabilizar todo o material que é utilizado numa cirurgia é do enfermeiro instrumentista. Assim, se faltavam "as 190 gramas" de gaze, o enfermeiro deveria ter intervido. Não o fez, é indesculpável. Erros, toda a gente os comete,
mas falhar uma contagem, quando isso é sua função? Depois não querem ser apelidados de "passadores de ferros"...

Em segundo lugar, os cinco anos de esquecimento da compressa.
Será que o Hospital de Famalicão não tem um aparelho de raios-x. É que todas as compressas utilizadas no bloco têm a marca opaca, precisamente para estes casos em que são esquecidas nas cavidades... e certamente que os médicos de Famalicão sabem pedir exames. Os do Hospital de S. João também. E todos sabem analisá-los.

Por último, o trabalho jornalístico. Concordo totalmente com a sua opinião. É de lamentar que alguns destes profissionais careçam de conhecimentos sobre deontologia quando têm tanto poder nas mãos. É de lamentar também o crescente sensassionalismo a que se assiste.

Mas é isso que vende não é?

Rui Miranda"

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Sabe O Que É Um Medicamento Órfão?

Em linguagem popular para intelectuais, é um medicamento que foi investigado e é necessário para tratar doenças raras, portanto um bem público, mas que não se comercializa porque não rende à indústria farmacêutica. Não acredita? Está aqui, mas pode começar a ler:

"Définition of orphan drugs

The so-called 'orphan drugs' are intended to treat diseases so rare that sponsors are reluctant to develop them under usual marketing conditions.

The process going from the discovery of a new molecule to its marketing is long (10 years in average), expensive (several tens of millions of euros) and very uncertain (among ten molecules tested, only one may have a therapeutic effect). Developing a drug intended to treat a rare disease does not allow the recovery of the capital invested for its research."
(continua)

E quando os hospitais SA decidirem só tratar as doenças que lhes rendam, como vai ser?

A Compressa, A Cadela E A Dona Dela


A dona da cadela, sorridente, depois de ter recebido a "sorte grande": uma compressa na barriga!

Uma compressa esquecida numa cirurgia ou até qualquer outro instrumento é uma situação recorrente em qualquer cirurgia. É uma complicação que obriga os cirurgiões e acompanhantes de uma qualquer intervenção cirurgica a contarem antes e depois todas as compressas utilizadas.
Se tal acontecer é importante esclarecer que outros factores concorreram para isso. Por exemplo, se o médico estava bêbado, drogado, drunfado, se agiu sem competência para tal, se não foram seguidos todos os procedimentos, etc, etc.
Trata-se de um erro, que deverá ser sempre bem ressarcido pela instituição, pois o doente não tem culpa do sucedido.

MAS NÃO É NOTÍCIA. SÓ EM PORTUGAL!!!

Para mim é muito mais grave que um médico se tenha aproveitado da situação e operado a utente particularmente, pois como se diz na notícia: "Teve de ser numa clínica privada", diz o marido.
Teve que ser o tanas. Isto é que se devia denunciar. O Serviço Nacional de Saúde dá resposta a todos os casos urgentes.

Portanto não foi por opção da doente. Opção foi apenas a foto com a cadelinha ao colo.

Mas do que mais gosto, é de ler a notícia e os seus adjectivos.

"Andou cinco anos com 190 gramas de gaze na barriga.
Surpresa.
Compressa, deixada durante uma intervenção cirúrgica, detectada em exame.
Lesada acusa Hospital de Famalicão de "irresponsabilidade" e pondera recurso a tribunal.

"Helena já sorri, aliviada, não conformada e ainda incrédula. Durante anos, Maria Helena Rocha andou a "arrastar-se". Fortes dores na barriga, devido a problemas uterinos, tiravam-lhe o descanso e não havia notícias sobre quando seria operada. O dia chegou. Em finais de Novembro de 1999. Na intervenção cirúrgica, feita no Hospital de João de Deus, em Famalicão, Maria Helena perdeu o útero. E ganhou anos de sofrimento, sem saber que a causa eram 190 gramas de gaze esquecidas na sua barriga.
"Foi Deus que me salvou", [Anda muito atrasado este Deus, cinco anos para a salvar!] hoje, aliviada mas não conformada. O marido, Joaquim, acrescenta "Foi Deus e o ginecologista que a assiste. Se não a tivesse operado, cinco anos depois, e retirado a gaze, ela morria, sem sabermos porquê".
A história de Maria Helena é semelhante a outras. São casos idênticos que têm em comum o sofrimento, a supresa perante a descoberta, a denúncia. Na casa daquela doente, localizada em Folgosa, Maia, o assunto é, volta e meia, tema de conversa.
Joaquim não cala a revolta. Pondera recorrer aos tribunais. Maria Helena, mais comedida, alega que a "Justiça é lenta", embora rotule de "irresponsabilidade" o esquecimento da gaze durante a primeira operação.
O estranho da situação é que, após a operação no Hospital de Famalicão, Maria Helena foi transferida para o de S. João, no Porto, alegadamente devido a perturbações urinárias. Lá esteve internada três semanas, no serviço de Nefrologia. "Fiz exames e mais exames. Não me detectaram nada", conta. Recambiada para Famalicão, recebeu alta hospitalar e andou em consultas alguns dias. "Tomei remédios para tudo. Até para combater uma depressão. Mas continuava sentir-me mal. Tinha picadas na barriga, que inchou muito", relata. Cinco anos depois da intervenção cirúrgica, o ginecologista de Maria Helena detecta, durante um exame vaginal, "algo estranho". Decide operá-la com urgência. ". No dia 2 de Dezembro passado, Helena voltou a uma sala de operações. E é dito, na altura, pelo médico, que, para além de lhe ter retirado um ovário, também havia recolhido "uma peça de gaze com 190 gramas de peso". Isso seria confirmado, quatro dias depois, com um relatório de exame anatomapatológico. No Hospital de Famalicão, não há, por ora, comentários. "Terá de haver uma reclamação para que se possa procurar o processo", disse, ao JN, Maria José, directora clínica."




Como sempre a deontologia destes jornalistas é directamente proporcional à inteligência do público a que se destina.


Eu diria que 90% das palavras utilizadas são da mente do jornalista e não da boca da dona da cadela.

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Deus E A Líbido (E O Pénis, Também)

Com a devida vénia, transcrevo do blog Diário Ateísta este bilhete (com o título original, sem pénis) que por sua vez é o último parágrafo de um artigo de CARLOS VALE FERRAZ com o título "Os Bispos Espanhóis e o Preservativo".

E transcrevo porque me aborreço ao ver muitas jovens mães a baterem nos jovens bebés quando estes nus, brincam com o seu pequeno pénis, ainda sem saberem que se trata de um pénis ou o que é o prazer ou o que é a líbido.

Por outro lado foi Deus (para quem crê na Sua existência) que nos deu um órgão que se chama pénis e uma outra coisa, ainda mais difícil de descrever que se chama líbido.

Por um lado, as instituições e particularmente a Igreja, direccionam toda a sua actividade na repressão da líbido. Por outro lado, toda a comunicação social, direcciona a sua actividade em explorar a líbido.

É muito complicado viver nesta sociedade.

O tal parágrafo:

«Talvez os sacerdotes das várias grandes religiões sejam homens comuns. Se o forem e parece que o são e até gente ordinariamente considerada respeitável pelos seus seguidores, de expressão grave, gestos solenes, falas calibradas, vestes sublimes, então merecemos que os bispos espanhóis opinem sobre o uso do preservativo, que os ulamas decretem sobre os cremes de beleza das mulheres islâmicas, que os rabis pratiquem cirurgia em crianças e que os sacerdotes hindus celebrem casamentos arranjados entre meninas de quatro anos e homens adultos. Entretanto, talvez porque os seus deuses estão ocupados em regular os impulsos da libido, multidões morrem de fome, de doença e de guerras, muitas delas santas

terça-feira, fevereiro 08, 2005

O Fumador Passivo, Outra Vez...

"European study confirms that environmental tobacco smoke is a risk factor for lung cancer and other respiratory diseases, particularly in ex-smokers."

"To investigate the association between environmental tobacco smoke, plasma cotinine concentration, and respiratory cancer or death, researchers carried out a nested case-control study within the European prospective investigation into cancer and nutrition (EPIC) involving 303 020 people from the EPIC cohort (total 500 000) who had never smoked or who had stopped smoking for at least 10 years, 123 479 of whom provided information on exposure to environmental tobacco smoke. Cases were people who developed respiratory cancers or died from respiratory conditions. ... The main outcome measures were newly diagnosed cancer of lung, pharynx, and larynx; deaths from chronic obstructive pulmonary disease or emphysema."

"The researchers concluded: “This large prospective study, in which the smoking status was supported by cotinine measurements, confirms that environmental tobacco smoke is a risk factor for lung cancer and other respiratory diseases, particularly in ex-smokers."

Para os cépticos, está aqui.

Ca Grande Galo

Há dias passei um atestado a um doente que estava doente.

Hoje recebi um galo em casa!

Conclusão: fui enganado. O doente não estava doente.

P.S.: mas não devolvi o galo, que servirá para um gostoso arroz de cabidela...

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

A "Obrigação" Do Estado

À minha frente um casal de idosos, esmorecidos, segundo dizem.

Ele está a ser tratado a dois cancros em locais do corpo distintos e distantes e com a consequente depressão reactiva.

Ela esmorece-se por ele. Acredito.
É uma família portuguesa bonita por fora e bonita por dentro.
São Povo. Sempre trabalharam. Acredito em tudo o que me dizem.
São daquelas pessoas cujo fácies transparece verdade.

Falamos de medicamentos. A confusão habitual.

A mulher tinha uma caixa na mão.
Pergunto:
- Quanto tempo tomou o seu marido esse medicamento?
- Não sei. Não sei quantos tinha a caixa!
- Leia por fora. Vem lá o número de comprimidos.

Gargalhada.

- Então não sabe que eu não sei ler!
- Então o seu marido que leia!

Nova gargalhada dos dois.

- Então não sabe que ele também não sabe ler!

Pois, de facto não sabia.
Nós os letrados esquecemo-nos que há muitos que não sabem ler neste Portugal do século XXI.

Remata a idosa, por momentos menos esmorecida:

- Ninguém nos mandou à Escola! Ninguém nos obrigou!

Pois é.
E ainda é assim.
O Estado actual demite-se de “obrigar” os nossos alunos a estudar e a cumprir a escolaridade obrigatória.

domingo, fevereiro 06, 2005

É Assim Que Sinto O Carnaval Lusitano

Tal com o FJV .
Com a devida vénia transcrevo do seu Aviz:

O Carnaval português sempre me afligiu. Lembro-me dele quando ainda só era Entrudo e não dispúnhamos daquelas raparigas da Mealhada a dançar na rua, debaixo de chuva, abrigadas pelos seus simpáticos biquinis. Essa é a primeira imagem que me assalta: o frio, o desconsolo meteorológico, a desadequação climática. Isso e os seus desfiles, em carros alegóricos montados em cima de tractores. E dos fatos de má qualidade, de brilho barato, cintilante nos domingos de Fevereiro, escarlates. Tinha pena das raparigas. Também me penalizava pelos rapazes, da cidade ou da província, muito machões durante o ano, mas que no Carnaval se mascaravam de meretrizes ou de tias velhas. Mas, insisto, o pior era o frio de Fevereiro, os chuviscos a meio da tarde, o granizo nas ruas de Ovar, de Cantanhede ou Olhão. Um resto de misericórdia vinha do fundo da consciência pedir protecção para os desfiles.
Aos desfiles, propriamente ditos, vi-os sempre pela televisão e bastou-me: umas raparigas sem o sentido das proporções dançavam muito mal o samba, agitavam bandeirinhas, sorriam, enregeladas, com peças de tule cobrindo uns corpos muito brancos que ainda não tinham feito a dieta habitual antes da época balnear. O corpo das portuguesas, neste domínio, é um campo de sacrifícios: durante o ano alimenta-se bem e corajosamente; entre Abril e Maio começa a penar e a penitenciar-se, preparando-se para a exposição solar do Verão. É um mundo de desgraças. Só o Carnaval, com as suas peças de tule com penduricalhos de brilhantes falsos em cima, permite entrever as carnes esbranquiçadas que hão-de estar mais passadas no S. João. As figuras, dos «carros alegóricos», são o bombo da festa tradicional – políticos da televisão, caricaturas sofríveis, mal pintadas, ditos de gosto duvidoso, misturando a tradição popular da província com a piada do Parque Mayer. Tirando o dr. Alberto João Jardim, saltitando na Avenida Arriaga, no Funchal, os desfiles são pobres. Pobres e cheios de frio.Depois, há umas actrizes de telenovela portuguesa e os seus companheiros de ofício, que vão também aperaltados no alto dos carros (que lembram, a milhas, os «trios eléctricos» de Salvador, eufóricos e encalorados): também aí é uma desilusão. Sob os tules, vêm mais panos para esconder a «beleza tradicional portuguesa». As actrizes de telenovela brasileira chegaram entretanto para animar um pouco a paisagem: sorriem muito, recebem o cheque, levantam os braços, cumprem a sua função.
Fico sempre espantado com as notícias das televisões, que falam dos «foliões» que aguardam a passagem dos desfiles: e as imagens dão conta de umas famílias apinhadas nos passeios, com os miúdos encavalitados vendo passar o cortejo de horrores. Isto, claro, sem falar da música permanente de «mamãe eu quero, eu quero mamar» que todas as discotecas do Algarve passam aos berros para que comboios de «foliões», organizados com a espontaneidade de uma missa em latim, se meneiem e transpirem adequadamente. Não sei. Não sei. Mesmo para Portugal, é muito horror junto."