segunda-feira, novembro 17, 2003

O Problema É Que Já Não É A Primeira Vez!

Embora já tivesse sido comunicado de urgência por fax às unidades de saúde, o Jornal de Notícias de 15/11/03 revela publicamente que

"INFARMED manda recolher fármaco da Ratiopharm

O Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento (INFARMED) ordenou a retirada do mercado de várias embalagens de um ácido acetilsalicílico genérico.
A autorização de introdução no mercado do fármaco em causa (uma versão genérica, sem marca, da conhecida aspirina) pertence ao laboratório Ratiopharm – Comércio e Indústria de Produtos Farmacêuticos Lda. A anomalia que levou à retirada do mercado prende-se com a dissolução do medicamento, que, segundo o INFARMED, "não cumpre com a especificação". Um problema que não é novo e já levou a anteriores retiradas do mercado, apesar de não afectar a saúde.
Segundo a informação do INFARMED, datada de 3 de Novembro, "foram mandadas recolher todas as embalagens" de ácido acetilsalicílico 100 mg dos lotes D05423, C08651, C14192, D11756, D15349 e da versão 500 mg do lote D11541.
"

sábado, novembro 15, 2003

A Bayer e os Outros

No Jornal de Notícias de 14/11/03, sobre o assédio aos médicos:

"Duas categorias
O relatório também detectou existir uma relação entre os médicos patrocinados e os níves de prescrição de produtos da Bayer. Os próprios delegados de informação médica recolhiam esses níveis, "nas conversas que travavam com os médicos, na observação que faziam dos seus doentes, no receituário do utente, a que tinham acesso, através de informação informal na farmácia da zona e pela análise estatística fornecida pelas empresas especializadas em vendas de medicamentos".
Os clínicos eram arrumados na categoria A ou B. Os primeiros seriam aqueles que consultavam mais de 15 ou 20 doentes por dia; os segundos ocupavam cargos de chefia. A partir daí, os delegados seleccionavam os médicos-alvo com base em três critérios: prescritores habituais que convém fidelizar; "opinion makers" que, não prescrevendo, têm muita influência junto dos colegas; forte possibilidade de virem a tornar-se prescritores. A IGS constatou que, "salvo raras excepções, só estes tipos de médicos eram patrocinados". Trata-se de médicos que prescreviam em "quantidades comercialmente significativas" e "muitos deles, não receitavam qualquer produto similar" (a investigação constatou que alguns dos medicamentos promovidos desta forma tinham similares no mercado, mais baratos).
As verbas disponibilizadas pela Bayer para essas "acções de promoção" eram "avultadas" (5 a 10% do volume total anual de vendas), mas não elásticas. Por isso, dos cerca de dez mil médicos com ficheiro na Bayer, apenas trezentos ou quatrocentos eram patrocinados anualmente, constatando-se uma grande "selecção"
".

Que pena eu não fazer parte desses trezentos ou quatrocentos!

O negócio do medicamento é um negócio de milhões para todos os intervenentes.
Sejam medicamentos químicos, homeopáticos, ervas, mezinhas, agulhas, benzedouras, etc, desde que se prometa a cura, com a estratégia da tensão (mais uma vez) em que se vive todos nos queremos libertar da doença e do mal.

Desses milhões apenas cabem migalhas aos médicos. E infelizmente há alguns que se deixam vender por essas migalhas.
Qualquer economista sabe que um produto tem um budget para promoção. Nesse budget promocional estão incluídas todas as despesas relacionadas, desde os ordenados dos DIM, as despesas de tipografia, as promoções nas farmácias e os assédios aos médicos.

E como o mercado é de milhões, todos os laboratórios investem, sejam multinacionais, nacionais, de marca ou de genéricos. E a melhor forma de investir é em médicos que prescrevam. Isso é óbvio.

Dentro da legalidade já participei em Congressos subsidiados pela indústria farmacêutica. Mas foram mais os que rejeitei. Viajar, comer, dormir à borla é muito bom. Mas há limites morais a preservar.

P.S.
Num dos últimos programas Prós e Contras, da RTP1, sobre Portugal, foi dito por um dos representantes governamentais que se tinham convidado jornalistas e directores de jornais nacionais e internacionais a passarem uns dias em Portugal para promover o país. O facto de terem aceite tais viagens, torna-os corruptos? Calro que não.

sexta-feira, novembro 14, 2003

Estratégia da Tensão II

Perguntam-me o que é a Estratégia da Tensão, termo que apliquei uns bilhetes atrás.

Fui ao Google e pesquisei Estratégia da Tensão e Tension Strategy.

Esperava não encontrar nada e ter que dissertar aqui sobre o assunto. Mas não. Sendo assim, caso o meu amigo ainda se mostre interessado no conceito, encontrará referências sobre várias estratégias da tensão, aplicadas a vários domínios, desde a política, a guerra, o terrorismo, a física, etc.

Apliquei o termo para justificar a guerrilha que as nossas televisões fazem na exposição da doença, para manterem os seus leitores arredados de outros assuntos bem mais interessantes.

Como exemplo: há dias comemorou-se o Dia da Prevenção do Cancro da Mama. Todas as tvs se interessaram pelo tema e fizeram várias notícias sobre o assunto. Invariavelmente todas foram à procura de mulheres mastectomizadas (a quem se retirou uma mama). A TVI conseguiu encontrar uma doente, com cerca de 30 anos mastectomizada bilateralmente. Caso raro, pela idade e pela situação, embora os médicos saibam que a mama restante está sempre em risco. As perguntas não foram sobre a prevenção, as perguntas foram tétricas, como já estamos habituados a este tipo de jornalismo.
Mas a estratégia de manter as pessoas em tensão permanente, comprovou-se no dia seguinte, pois várias mulheres jovens me solicitaram em vários locais a prescrição de uma mamografia de urgência, pois se aquela jovem ficou sem as duas mamas, também lhes poderia acontecer o mesmo.

Moral da história: a mensagem da prevenção, do rastreio, da auto-palpação, das mamografias periódicas de acordo com as guidelines em todas estas mulheres não passou! Passou foi o medo, a ansiedade, o medo de morrer.
Quando esta ansiedade se diluir, a prevenção volta a ficar esquecida, até nova reportagem.
E se descobrirem uma mulher com mamas supranumerárias (que também as há) e todas com cancro e multi-mastectomizada, as audiências subirão em flecha.

"A pessoa, o todo, é muito mais que a soma das partes".

Frase retirada d' O Bisturi, com a devida vénia.

Se em Portugal tudo funcionasse como funciona em alguns países mais desenvolvidos, nomeadamente em alguns países nórdicos e até em certo ponto nos EUA, onde nasceu o especialista na pessoa, há dezenas de anos,

cada pessoa teria um especilista - o médico de família e não o médico indiferenciado, ou o médico da caixa, que é o que se passa na nossa realidade. Mas o médico de família especialista só terá sentido, quando o doente o reconhecer como interlocutor válido, o que presentemente não acontece para algumas franjas da sociedade.

Cada órgão ou sistema terá o seu especilista - são as clássicas especialidades hospitalares.

A comunidade teria o seu especialista, que seria o médico de saúde pública, mas em Portugal contam-se pelos dedos os que assumem essa tarefa.

Com o evoluir da sinistralidade, apareceram os novos especialistas em emergências hospitalares ou intensivistas (multi-órgãos ou sistemas).

quinta-feira, novembro 13, 2003

Unidades acusadas de seleccionar os doentes ...

Inspecção-Geral da Saúde Investiga Denúncias Sobre Hospitais SA
Por JOANA FERREIRA DA COSTA
Público, Quarta-feira, 12 de Novembro de 2003

"Unidades acusadas de seleccionar os doentes para evitar, por exemplo, situações de ocupação prolongada das camas"

Não sei onde está a perplexidade dos jornalistas.

Uma unidade SA tem que dar lucro. Um doente com um AVC, com uma demência ateroesclerótica, um cancro terminal e dezenas de outras doenças crónicas e degenerativas não dão lucro.

Só consomem recursos de hotelaria, higiene e pessoal.

Fora com eles, pensam os administradores SA.

Vamos lá empurrá-los para as unidades públicas...

Estratégia da Tensão

o Hugo A, presumo que é biólogo ou ligado à Biologia/Antropologia/ou outras ciências adjacentes, continua a não compreender o alcance daquio que escrevo.

Li o seu comentário ao bilhete sobre os cancros nos animais domésticos e concordo com o que escreveu em dois bilhetes, um sobre investigação biomédica e outro sobre a notícia na TV.

Só que a minha indignação não está "nos cancros dos animais domésticos" per se mas no relevo dado à notíca, num telejornal e com direito a entrevistador no estúdio e tudo!

A estratégia da tensão permanente existe mesmo.

PS.: Afinal Hugo A. ainda é estudante? Ou jovem licenciado? Lendo o seu escrito sobre a exposição dos dinossáurios, quando diz que "No total, tendo gasto €3 por pessoa (com cartão de estudante), achei que foi interessante."

É mesmo estudante ou foi um uso menos legal do Cartão de Estudante? Temos que dar o exemplo, aqui por estes lados...

Ir ao Médico ou Ir à Bruxa?

O Frederico, o Nietzsche e o Schopenhauer disseram que, "Mesmo a ganhar somos gozados. Temos de ir ao médico."

Aguardei pela consulta, o Nietzsche e o Schopenhauer, já sabia que era difícil aparcerem, mas o Frederico podia ter aparecido. Receitar-lhe-ia o Prozac. Parece que a depressão existe mesmo por esses lados.
E aporia a Portaria 543/01 para as depressões graves, arrastadas e de difícil cura

Nos outros assuntos, espero que tudo esteja a correr bem!

quarta-feira, novembro 12, 2003

Literatura Médica VII

"Data:

TC Torácica

Ficha Técnica:

Exame efectuado com cortes de 7 mm de espessura adquiridos em programação espiral, tendo-se documentado o presente exame com janelas para estudo do mediastino e parênquima pulmonar.

Leitura do Exame:

Ao nível da região do mediastino anterior no espaço pré-vascular junto à articulação condro-costal esquerda observámos massa grosseiramente oval contorno lobulado, densidade tissular que atinge as maiores dimensões aproximadamente ao nível da emergência da artéria pulmonar principal com cerca de 44 mm por 28 mm de diâmetros onde se observa marcada destruição da extremidade anterior da costela. Esta massa estende-se inferiormente em topografia anterior ao pericárdio que comprime aparentemente sem invasão, sendo estes aspectos muito sugestivos de neoformação de etiologia a esclarecer (costela? pleura?) a avaliar por biopsia.

Ao nível do lobo direito do fígado observamos duas formações ovais de densidade líquida e parede fina em relação com quistos biliares.

Restantes aspectos sem alterações."


In um qualquer relatório de um TAC torácico, pertença de ninguém.

"Estou um bocado preocupada. Gostava que o meu filho se lembrasse do pai..."

A Ana tem um Blog simpático onde conta a sua vida do dia a dia.
É minha leitora e está preocupada com a doença do ex-marido e pai do seu filho.
Tudo isto são informações do seu blog. Escreveu-me preocupada com a miocardite do pai do filho. Por isso diz que quer que o filho se lembre do pai. E pediu-me para lhe responder num bilhete.

Aqui vai:
Miocardite é um termo genérico. É uma situação inflamatória do músculo do coração, o miocárdio.
A gravidade da doença depende de muitos factores, desde a intensidade da inflamação até à doença que lhe deu origem.
Algumas causas: infecção viral (gripe, echovirus, herpes simples, varicela, hepatite, Epstein-Barr e citomegalovírus, Coxsackie B), bacteriana, HIV, por fungos ou protozoários.

Medicamentos, substâncias químicas, ambiente (poluição), radioterapia, gravidez e outras numerosas doenças sistémicas também são associadas com o desenvolvimento de miocardite.

"Um dia [no inferno] em Santa Maria." A Minha Experiência como Doente.

Escreve o Mata-Mouros: "Há muito tempo que um artigo num jornal não me dizia tanto. Esmagador na descrição do país que ainda somos.", acerca de um drama por que passou um filho ao acompanhar sua mãe numa ida ao banco do HSM e que faleceu na mesa de TAC. É um drama! E embora só a autópsia possa revelar a causa da morte, o longo tempo de espera, 7 horas, para se obter um diagnóstico (para se fazer um TAC!) não tem defesa possível.

Há cerca de um ano, "Por motivos de saúde que requereram uma opinião urgente de determinada especialidade, desloquei-me por mais do que uma vez à urgência central do Hospital de Santa Maria. Segui todos os trâmites que seguem todos os outros doentes: inscrição, espera, triagem, e aguardei, aguardei e aguardei, observando.
As comunicações móveis e os cochichos entre os vizinhos de cadeira, ambos facilmente audíveis, permitiram que fosse suspeitando dos diagnósticos dos meus colegas de ocasião (longe de imaginarem que o colega de ocasião era um médico-doente).
Como médico, entristeceu-me ver a sala de espera repleta de pequenos casos: pais com filhos com febre, filhos com os pais com febre, pequenos traumatismos, infecções urinárias, lombalgias à espreita de uma chapa, cefaleias e depressões e outras situações menores.

De quando em vez entravam alguns directos.

Um denominador comum nas suas conversas para justificar a vinda ao hospital central era o facto de não terem encontrado uma alternativa personalizada em quem pudessem confiar, isto é, o seu médico de família.
Os próprios reconheciam que poderiam ser tratados noutro local e terminavam assim: não encontrei o médico de família, não o pude contactar, o centro de saúde estava fechado, para ir a outro médico que não conheço, venho antes aqui, etc.
Se estes doentes tivessem uma relação personalizada, próxima do seu médico ou uma pequena equipa de médicos, se os médicos dos centros de saúde fossem responsáveis pela organização dos seus serviços, se ganhassem pelo que produzissem, incluindo consultas telefónicas tipo call-center, não tenho dúvida de que os doentes prefeririam muito mais uma opinião conhecida, que aceitariam e que lhes transmitisse confiança e os médicos sentir-se-iam com mais vontade de trabalhar, se o seu ordenado não dependesse apenas da assinatura mensal da folha de ponto, quer trabalhem no duro, quer cocem as paredes e das muitas vénias ao Sr. Director
".

Este texto tem um ano ao qual dei o título de "As Portas Fechadas".

Este é que é o problema das nossas urgências hospitalares. Lado a lado, a atrapalharem-se e a atrapalharem os médicos e outro pessoal da saúde, estão feridas com meio centímetro e grandes eventrações, estão infecções urinárias e septicémias, estão traumatismos cranianos com massa encefálica no exterior e pequenos "galos", estão paragens cardíacas e neuroses cardíacas e muitos outros exemplos.

Haverá por parte de alguns utentes falta de civismo, mas para muitos, falta de informação ou mesmo de alternativas.

E já agora pergunto: quantos habitantes da blogosfera, não recorreram já às urgências hospitalares centrais por dor de dentes? Por dor de ouvidos? Por dor de *....
_________
dor
do Lat. dolore
s. f.,
sofrimento físico ou moral;
mágoa, aflição;
pesar;
dó;
condolência, piedade;
remorso.

segunda-feira, novembro 10, 2003

Tenho Um Aliado! Fundamentalista, Mas Aliado.

Com a devida vénia transcrevo um excerto de um bilhete do blogame mucho:

"Fundamental
Os que me conhecem sabem que sou um fundamentalista primário.
E, contra o tabaco sou mesmo dos piores.
Não que tenha anda contra o tabaco em si, acho até louvável que a Tabaqueira e a Philip Morris ganhem honradamente a vida a distribuir pelo País e pelo mundo uns cancros de pulmão, catarros e expectorações.
.../...
No entanto, quando me toca pela porta, a coisa fia mais fino.
E, aviso desde já, não faço tenção de ir ao IPO visitar uns senhores que, só porque lhes apetece andar de chupeta na boca, um dia lhes começa a dar umas tossicas, por acaso fazem um raio-X e aparece uma sombra escarrapachada num pulmão.

.../..."

O resto pode ser lido aqui.

Saúde Mental

Anedota do Dia (via e-mail)

"O professor de Psicologia tinha acabado de falar sobre saúde mental e começou a fazer perguntas aos alunos. Abordando a depressão, perguntou:
- Como diagnosticam um doente que num minuto anda de um lado para o outro, gritando com toda a força que tem e, no minuto seguinte, senta-se com a cabeça entre as mãos, chorando incontrolavelmente?
Um aluno sentado na última fila da sala levanta o braço e responde:
- Treinador do Benfica?"

Se Não Tivesse Ouvido, Não Acreditava.

Mas, o cancro dos animais domésticos, nomeadamente cães e gatos, foi uma notícia de um telejornal, na RTP1.

Entre Bombas, Orçamentos, Iraques, Casas Pias, Ferros, Cimeiras e Durões, houve espaço para a importante notícia de que há cancros nos animais domésticos.

Já não chega amedrontar-nos diariamente com doenças e deficiencias várias, para agora assediarem o nosso bem-estar psicológico com os cancros dos bichos que vivem e convivem connosco, lado a lado?

sábado, novembro 08, 2003

1º. Congresso Nacional de Prevenção do Tabagismo

Do sitío oficial da Direcção-Geral de Saúde (e já que se falou em fumadores passivos na polémica do Aviz que teve a marca Português Suave como ponto de partida) para quem quiser aprofundar o tema do fumador passivo:

"O 1º. Congresso Nacional de Prevenção do Tabagismo terá lugar no Auditório Culturgest, Edifício Sede da Caixa Geral de Depósitos em Lisboa, nos próximos dias 17 e 18 de Novembro de 2003.

Durante este Congresso comemora-se ainda os 20 anos da Prevenção do Tabagismo em Portugal e o Dia Nacional do Não Fumador - 17 de Novembro (Segunda-feira).

O programa inclui, entre outros, os seguintes temas:

• Doenças Provocadas pelo Tabagismo
• Prevenção do Tabagismo nos Jovens
• Tabagismo Passivo
• Cessação Tabágica
• Legislação
• Economia e Controlo do Tabagismo.

A participação neste Congresso é gratuita, sendo necessário preencher uma ficha de inscrição.

Ver cartaz*
Ver folheto com o programa e a ficha de inscrição*
."

* estas ligações nesta data não estão funcionais.

sexta-feira, novembro 07, 2003

Elizabete, a Mãe. D. Miquelina, a Avó.

Os jornais falavam.

A Sic Notícias foi entrevistar, presume-se que para melhor esclarecer.

A Mãe, disse "prontos" e "os médicos são os culpados."

A Avó disse "se tinha uma coisa grave, tinha que ser tratada."

Só não entrevistaram QUEM DE FACTO usou estes personagens populares e vai ganhar umas massitas à custa de mais um processo contra os cabrões* dos médicos.

E eu digo: não há paciência!

* Esta palavra alguém disse nessa entrevista, em ruído de fundo.

Literatura Médica VI

"Assinala-se posição alta dos bulbos jugulares bilateralmente, um aspecto mais marcado à esquerda que atingem o nível horizontal da espira apical da cóclea e contactam o aqueduto do vestíbulo, um aspecto também evidente à esquerda da jugular. Trata-se de uma variante anatómica, sem seguro significado patológico. Não há sinais de deiscência do bulbo."

In um qualquer relatório de uma TAC CE, pertença de ninguém.

terça-feira, novembro 04, 2003

Estou Fulo Com A Catarina Gomes!

Numa entrevista da jornalista Catarina Gomes à farmacêutica Noémia Lopes, (PÚBLICO, Quarta-feira, 29 de Outubro de 2003) apreciei as resposta da farmacêutica e considero ausentes de rigor científico as perguntas da Catarina. Assim, subliminarmente se vão acusando os médicos daquilo que eles não fazem ou querem, mas, também assim se vai passando a mensagem negativa para os meios intelectuais.

A curta entrevista intitulada "O Leigo Já Não É Sujeito Passivo" sobre automedicação, em duas de três perguntas, apresenta afirmações sobre o que pensam os médicos, que reputo de falsas, demagógicas e deontologicanente (para os jornalistas) condenáveis.

Nós, médicos, estamos habituados a, em cada afirmação pública que se faça, utilizar uma referência escrita para justificar essa afirmação.

Desafio a senhora jornalista publicitar a referência escrita onde justifica que os médicos "condenam a automedicação" ou a "consideram indesejável"

Provavelmente a senhora Catarina não sabe o que é automedicação.

A automedicação como o nome indica, refere-se à auto-resolução de alguns problemas que afectam os doentes e que eles poderão tratá-los, recorrendo ou não a medidas farmacológicas.

A automedicação tem balizas, e isso é o que nós dizemos:
- uma simples diarreia, de um ou dois dias, pode ser resolvida só com hidratação, mas uma simples diarreia, ou que se repita ou cujas fezes sejam sanguinolentas, p.ex., pode necessitar do diagnóstico médico.
- uma simples febre, pode ser auto-resolvida com "esperoterapia", mas se, apesar de simples for acompanhada de fotofobia, petéquias ou outros sinais, terá que recorrer imediatamente ao médico.

A automedicação, deveria ser ensinada aos doentes pelo Estado ou pelo Serviço Nacional de Saúde, sem interesses económicos directos na questão. Agora resumir a automedicação, a medicamentos sem receita médica, é transformá-la na dependência directa do fârmaco, é medicalizá-la, é torná-la dispendiosa.
É fazer depender o doente das grandes multinacionais do medicamento, que já está pelo excesso de medicamentos de prescrição obrigatória por médicos, ao acrescentar ainda os medicamentos de venda livre.

Medicamentos esses que devem existir, mas com opção de escolha do doente, entre tomar ou não tomar.

Alguém acredita que ao balcão de uma farmácia, se receita água? Espera?

Vivemos numa sociedade hiper-medicalizada, por culpa dos médicos, aos quais agora se querem juntar os farmacêuticos!

Lixo

"Toda a política de Saúde tem de ser dirigida ao cidadão. Para ser justa e solidária, é fundamental que tenha como princípio esse primado", disse no JN de 25/10/03 o Ministro da nossa Saúde.

"Só me trazem lixo para aqui!", afirmou um médico avençado, indiferenciado, estrangeiro, numa urgência dum hospital público, que se quer candidatar a SA.

Lixo = doente terminal com síndrome febril.

P.S.: quero acreditar que não soubesse o significado correcto! Deixem-me acreditar nisso!

segunda-feira, novembro 03, 2003

Exposição Pública da Doença – Algumas Dicas Para a TVI (E Não Só!)

É o primeiro serviço público que este blog oferece!
E com muito orgulho.

Aqui poderão as televisões procurar as doenças para as notícias que encerram os nossos telejornais.
Haverá doenças para todos os públicos.

1) DISSECÇÃO DA AORTA – doença gira, em que a grande artéria do nosso corpo se auto-disseca. Pode ser uma urgência. Era uma grande “caxa” jornalística acompanhar a dissecção no seu percurso, desde o primeiro sintoma até à sala de operações.

2) COARCTAÇÃO DA AORTA – outra doença da nossa maior artéria. Será divertido entrevistar um doente coarctado e logo depois o cirurgião anti-coarctador (pois o tratamento é cirúrgico), de preferência o Prof. Manuel Antunes. Não esquecer as batas verdes.

3) DUCTUS ARTERIUS PATENTE – o nome em latim fica bem, em português poderá ser persistência do canal arterial. Se se contratar um bebé (ou os seus pais), com lágrimas dos avós, de permeio, durante a cirurgia, o share será máximo. Como é uma cirurgia programada, podem anunciar durante semanas!

4) ESTENOSE MITRAL – é uma doença banal, mas presidencial desde que o Presidente foi operado. Fica sempre bem dizer: tenho a doença do presidente.

5) ANGINA DE PEITO, DE PRINZMETAL e INSTÁVEL – três doenças semelhantes, com o mesmo sintoma. Dor no peito. Uma crise em directo, por exemplo num talk-show é uma ideia a não perder.

6) ENFARTE AGUDO DO MIOCÁRDIO – esta é uma sugestão para um programa do Herman. Convidar um intelectual fumador de três maços por dia, consumidor exagerado de álcool, com colesterol acima dos 400 mg/dL, hipertenso grave não tratado, obeso, com antecedentes familiares (aqui têm que ter um bom apoio das assistentes de pesquisa). Iniciar o programa com perguntas que lhe provoquem demasiada ansiedade e stress. É enfarte em directo garantido. A reanimação com uma equipa de uma VMER (já a postos nas bastidores) com entrevista durante a reanimação será um ponto alto do programa com vendas garantidas para outras televisões.

7) TAQUICARDIA SUPRAVENTRICULAR PAROXÍSTICA – se filmada no paroxismo …

8) MORTE CARDÍACA SÚBITA – só contratando a Maya se poderá prever este evento. Mas será um êxito internacional. O programa poderá continuar na autópsia.

9) HIPERTENSÃO ARTERIAL / DIABETES – apesar de serem as doenças que provocam mais óbitos, não são muito telegénicas. Não será de apostar para o público em geral. Só actualizações no Canal Medicina.

10) DOENÇA PULMONAR OBSTRUTIVA CRÓNICA – mais conhecida por DPOC e muito ligada aos fumadores. Tossir permanentemente durante um talk-show, com uns cigarritos à mistura é uma boa propaganda ao tabaco.

11) ASPIRAÇÃO DE CORPO ESTRANHO – se o corpo estranho for o processo da Casa Pia e for aspirado completamente por alguém, até desaparecer, não haverá médico que o consiga recuperar. A principal complicação da aspiração de corpos estranhos, com diagnóstico tardio, é uma infecção piogénica do órgão, com o aparecimento de abcessos purulentos, de difícil controle.

12) SÍNDROME DE CHURG-STRAUSS – é um boa doença para o maestro Vitorino de Almeida dissertar na SIC Notícias por analogia com o Strauss das valsas.

13) SILICOSE, ASBESTOSE e outras PNEUMOCONIOSES – são doenças dos trabalhadores. Portanto não se mostram ao povo. Mostram-se em grandes reportagens direccionadas para a classe média alta para poder dizer angustiada: coitadinho do nosso povo trabalhador! Uma mesa redonda seria invariavelmente moderada por deputados do PCP e BE.

14) APNEIA DO SONO – é a doença da moda (assim como a fibromialgia), mas esta é real e causadora de muitos acidentes de trabalho e de viação. Sucesso garantido.

15) DOENÇA DO REFLUXO GASTRO-ESOFÁGICO (DRGE) – é também uma doença recente, mas que não é televisiva. Não haverá muito interesse em filmar um doente com azia e pirose. Aliás, azia e pirose é o que mais se sente quando se ligam as televisões!

16) SÍNDROME DE MALLORY-WEISS – uma boa hematemese de sangue vermelho vivo, se apanhada em flagrante num ambiente encarnado, como por exemplo, uma conferência de imprensa do PCP ou nas recentes eleições do Benfica e expelida em direcção a um operador de imagem, seria um momento televisivo único.

17) SÍNDROME DE BOERHAAVE – também uma doença aguda dos alcoólicos. Por exemplo, um inquérito de rua na 24 de Julho: Sofre do síndrome de Boerhaave?

18) DOENÇA DE WIPPLE – para além de ter um nome engraçado, tem um sintoma que pode ser aproveitado para programas de Domingo à tarde: movimento rítmico contínuo dos músculos oculares com a mastigação ou por outras palavras, miorritmia óculo-facial-esquelética ou óculo mastigadora.

19) FISSURA ANAL – doença a passar na SIC Radical, com anuscopia ou rectosigmoidoscopia em directo, com a introdução do fibroscópio pelo próprio Rui Unas.

20) HEPATITES A B C D e E – seria interessante fazer um debate moderado pela Laurinda Alves e Júlia Pinheiro, duas apoderadas das medicinas ditas alternativas, com um portador de cada tipo: um jovem para a A, um ex-toxicodependente para a B, para a C a Pamela Anderson e um transplantado hepático, um da classe média para a D, um da alta burguesia representaria a E, ainda um ex-alcoólico para a hepatite alcoólica, outro para a medicamentosa e por último, um para a auto-imune.

21) SÍNDROME DE BUDD-CHIARI – só pelo nome deveria ser produzida para o futuro canal 2.

22) COLEDOCOLITÍASE, CATARATAS, COXARTROSES, GONARTROSES – entrevistar estas doenças e fazer um concurso cujo tema seria, quem mais demorou a entrar na sala de operações.

23) ASCITE – seria uma doença para abrir o telejornal da TVI, de preferência contratar o ascítico com o maior abdómen, em vésperas de drenagem, e que se candidataria ao Guiness Book of Records. Poder-se-ia chamar o Director de Programas para in loco confirmar através da palpação daquela barriga, que se estava na presença de um abdómen sob enorme tensão e aplicar a primeira agulha para a sua drenagem.

24) LEUCEMIAS – sejam crónicas, agudas, mieloblásticas, linfocíticas ou de células pilosas. Em qualquer canal, a qualquer hora, para qualquer público. A das células pilosas tem sido pouco explorada.

25) POLICITEMIA VERA – doença desconhecida de muita gente, tem um nome sonoro, que vende. Ainda se usam aqui as sangrias medievais. Em directo fica bem. A Vera Roquete poderia ser a entrevistadora.
26) LÚPUS ERITEMATOSO SISTÉMICO – LES – Como já ouvi hoje na RTP1, fica para uma segunda grelha.

27) SÍNDROMES MIELODISPLÁSICOS – como são doenças da terceira idade, tem pouca saída. Talvez na SIC Nostalgia.

28) MACROGLOBULINÉMIA DE WALDENSTRÖM e DOENÇA DE VON WILLEBRAND – estas doenças terão que ser divulgadas pela Bárbara Guimarães, nos seus programas culturais. Não são doenças generalistas.

29) ARTROSES – incluindo os bicos de papagaio, as artroses dos joelhos, das cruzes, etc. São doenças populares. São grandes fornecedoras do PECLEC. Indicadas para os programas da manhã, para o Goucha.

30) JOANETES – doenças vulgares. Programas da manhã. Esta pode ser para a concorrência. Mas, para o mesmo tema, no horário nobre, falar-se-ia hallux valgus, calçado, cabeça do metatársico, exostoses, bursites, etc. Poder-se-iam mostrar fotografias de joanetes célebres.

31) DPPCD – parece a sigla de um partido ou movimento, mas significa DOENÇA DE DEPOSIÇÃO DE PIROFOSFATO DE CÁLCIO DIIDRATADO. Só pelo nome merecia também um lugar ao Sol. Pode não abrir noticiários, mas pelo menos no novo canal 2.

32) POLIMIOSITE-DERMATOMIOSITE, SÍNDROMA DE SJÖGREN, POLIARTERITE NODOSA, VASCULITE DE CHURG-STRAUSS, GRANULOMATOSE DE WEGENER, ARTERITE DE TAKAYASU, DOENÇA DE BUERGER, SÍNDROMA DE BEHÇET, DOENÇA DE PAGET – grande furo jornalístico seria convidar os senhores Sjögren, Churg e Strauss, Wegener, Takayasu, Buerger, Paget e Behçet acompanhados dos seus doentes. Seria uma Grande Entrevista da RTP1 com os habituais comentadores.

33) POLIMIALGIA REUMÁTICA vs FIBROMIALGIA – seria um Prós e Contras com a deputada Elisa de um lado e um polimiálgico do outro.

34) GINECOMASTIA – um concurso de beleza para homens, apresentado pela Teresa Guilherme ou pelo Júlio Isidro.

35) OSTEOPOROSE, MENINGITES, GRIPE – são doenças que só aparecem com grandes padrinhos por trás. Divulgam-se quando os padrinhos julgam oportuno.

36) BÓCIO – das primeiras doenças a ser expostas pelas ruas e praças, com grandes massas no pescoço. Não é necessário re-aparecer nas TVs.

37) SÍNDROME DE CUSHING, DOENÇA DE ADDISON e DOENÇA DE PAGET – mais uma mesa redonda, moderada por um endocrinologista de nomeada.

38) HIPOGONADISMO MASCULINO, HIRSUTISMO e DOENÇAS VIRILIZANTES DA MULHER – será muito difícil convencer estes doentes a exporem as suas doenças para o público em geral. Em tempos faziam parte do circo.

39) DENGUE, MALÁRIA, FEBRE AMARELA – doenças dos países pobres. Só saiem grandes reportagens a altas horas, para sermos poucos a ter vergonha da sociedade que criamos.

40) SÍNDROME DE CHOQUE TÓXICO ASSOCIADO A STAPHYLOCOCCUS AUREUS – a famosa doença dos tampões OB, que quase ia destruindo esta indústria. Também não deverá haver muitas interessadas a mostrar os seus tampões. Talvez a SIC RADICAL pudesse pegar.

41) DOENÇA DA ARRANHADURA DO GATO – doença engraçada para terminar um telejornal. Uma casa simpática com o felino causador, de preferência siamês ou mais exótico ainda, no colo da vítima.

42) INFECÇÕES – à TV que conseguir concorrentes para um novo Big Brother, proponho uma nova concepção. Seria assim: depois de isolados os 30 concorrentes numa casa hermeticamente fechada, lançar-se-iam dezenas de milhar de Streptococcus, Pneumococus, Staphylococcus, Clostridiuns, Bacillus anthracis, Corynebacterium, Bordetellas, Neisserias gonorrheae, Haemophilus, Legionellas, Salmonellas, Shigellas, Campylobacter jejuni, Vibrio cholerae, Brucellas, Francisellas, Yersinias pestis, Calymmatobacterium. Quem não adoecesse seria o vencedor. Entretanto, filmar-se-ia em directo o desenvolvimento das diversas doenças, com explicações práticas para alunos de medicina pelos mais reputados infecciologistas e bacteriologistas. Uma segunda edição seria com vírus e uma terceira com carrapatos.

43) NOCARDIOSE – é causada pela Nocardia asteróides e Nocardia brasiliensis. Um Cross Fire entre o cientista Carvalho Rodrigues pelo asteróides e o Filipe Scolari pelo brasiliensis. Poderia passar na Sport TV.

44) PÉ DE ATLETA – esta popular doença seria exclusiva também da Sport TV.

45) DEMÊNCIA, DELIRIUM, OLIGOFRENIA, DEFICIÊNCIAS VÁRIAS, CEGUEIRA – tudo isto já está exposto no Big Brother.

sábado, novembro 01, 2003

Literatura Médica V

"Aurícula Esquerda: 43 mm
Ventrículo Esquerdo:
- Diâmetro diastólico: 52 mm
- Diâmetro sistólico: 36 mm
- FE: 33%
- Septo Interventricular: 8 mm
- Parede posterior: 9 mm
Ventrículo direito: 15 mm

Relatório:
Ecocardiograma modo M e bidimensional revela:
1 - Válvula aórtica tricúspide com folhetos espessados e abertura sistólica mantida.
2 - Válvula mitral com folhetos finos, com cinética conservada e com fibrocalcificação do anel da mitral. Sem vegetações. Aparelho subvalvular mitral sem alterações.
3 - Raiz da aorta não dilatada, com paredes espessadas e com áreas de calcificação.
4 - Aurícula esquerda ligeiramente dilatada.
5 - Ventrículo esquerdo não dilatado, com paredes de espessura normal, função sistólica global normal e sem alterações da cinética segmentar.
6 - Cavidades direitas e pericárdio sem alterações
7- Ecodoppler cardíaco não realizado.

Conclusão: Fibrocalcificação mitroaortica. Dilatação auricular esquerda."


In um qualquer relatório de ecocardiograma, pertença de ninguém.