quarta-feira, janeiro 12, 2005

Mutismo Selectivo vs Útero Dilatado

Várias vezes e apesar de avisar que "este blogue não é um consultório on-line", sou solicitado a comentar ou explicar alguns termos que os leitores têm dificuldade em compreender.

E é para isso que aqui estou.

Explicar e não ensinar. Criticar e não corporativizar a minha profissão.

É óbvio que há perguntas que são dificeis de responder! (Minha querida Maria, não sei qual o motivo pelo qual o seu útero está dilatado!)

ou outras que não têm resposta! (Meu querido Henrique, que lhe posso responder: "E a si?... não há ninguém que lhe explique nada? Sabe que só mesmo os mais ignorantes é que se comportam desta forma? Não deve saber. Se é como a maioria dos médicos que conheço, não só não sabe como acha isso impossível. Sabe que era exactamente essa a postura dos padres na Idade Média?... Era!... E, um dia foram substituidos pelos médicos."

Nós, médicos, estamos sempre disponíveis para aprender, temos sempre outros médicos mais super-especializados em determinados assuntos, que nos transmitem conhecimentos. Mas ... aceitamos explicações de Medicina apenas de outros médicos. “Olhe, Henrique: ainda ontem um electricista com a quarta classe me explicou como funcionava um dispositivo que lá apareceu no hospital: Electricista Explica Como Funciona Um Dispositivo A Um intelectual. Bom título de blogue, não acha Henrique?

Olhe Henrique, outro exemplo: hoje um técnico da PT Comunicações, explicou-me a razão pela qual a minha ADSL não funcionava. E eu que andei mais de 10 dias a tentar perceber. Esse técnico, que não será intelectual, em 10 minutos descobriu que o fax interferia e curto-cicuitava o split. Veja lá, em 10 minutos! Como vê recebo muitas explicações. Mas, como deve imaginar não ia pedir explicações para a minha ADSL a um pastor, ou a um vaqueiro, ou a um gestor da Galp. Eu sei que o Henrique compreende.

Mas esta lenga-lenga, que se prolongou demasiado, serviu para chegar ao mutismo selectivo.

Uma professora perguntava-me se o mutismo selectivo existe.
Concluí que na Internet existe, foi de lá, dessa inesgotável fonte de sabedoria (depois de filtrada!) que retirei esta frase de um grupo de discussão. A referência desapareceu, que me desculpe o autor:

O que caracteriza o mutismo selectivo é uma incapacidade de falar em situações sociais específicas (escola, por exemplo), portanto pode ser confundido e mesmo incluir fobia social... Como ela não aparenta nenhuma dificuldade de linguagem, poderia ser diagnosticado mutismo selectivo, com uma avaliação adequada claro. O mutismo selectivo inclui timidez, medo das relações sociais, isolamento, retraimento social, alguns comportamentos compulsivos, negativismo, comportamento controlador ou negativista, principalmente em casa. Normalmente inicia-se antes dos 5 anos de idade, e deve-se fazer um diagnóstico diferencial com problemas de linguagem e outros, para ter a certeza do diagnóstico. Para além do diagnóstico, o importante é perceber a razão da perturbação existir, ...
".

Mas uma definição muito mais simples é "situacion en que el niño decide con quien hablar y cuando hablar".

Dá quase para perguntar: será mesmo uma doença ou será mais uma não-doença!

Eu por vezes apetece-me ficar mudo selectivamente tantas vezes!

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Demagogia: A Meta Dos 5 000 Anos

Foi na SICNotícias. Poderia ter saído no Correio da Manhã ou da famosa boca.

Mas não.
Foi a Sicnotícias. Um dislate. Se não houvesse iliteracia científica, particularmente na área da Medicina, estas notícias não passavam...

Aquela estação pretende-se actual, informativa e para intelectuais, ou pelo menos para interessados no Conhecimento. Não é o canal História, nem a SIC Comédia, nem outras siques

Afirmava a jornalista: "A reflexologia foi descoberta há 5 OOO anos."

Provavelmente leu aquilo que o reflexólogo ou será reflexologista ou refléxico lhe colocou no teleponto.

Ficamos a saber que há 5 000 mil anos alguém descobriu a reflexologia. Quer dizer 3 000 anos Antes de Cristo .... Quer dizer, nessa altura morria-se aos 20-30 anos.
Uma pequena história, esta verdadeira:

"Há muitos e muitos anos, era na pedra que o Homem registava os acontecimentos que presenciava no seu dia-a-dia. Depois descobriu que alguns materiais, tais como as cascas de certas árvores e as folhas das palmeiras serviam para riscar e eram muito mais fáceis de trabalhar.

Cerca de 4 000 anos antes de Cristo nascer, começa a usar-se, no antigo Egipto, o papiro. Fabricado a partir de uma planta chamada Papyrus, esta tela não pode ainda ser considerada como papel.

Foram os chineses que inventaram o papel, cerca de 100 anos depois de Cristo nascer. No entanto, só no século X foi conhecido no continente africano e introduzido na Península Ibérica pelo povo mouro.
Em Portugal, os primeiros escritos em papel datam de 1288 e de 1334."

Ainda acreditam que estas alternativas ao conhecimento têm crédito?

Então eu agora para tratar dos meus testículos vou deixar que mexam nos meus calcanhares? Isto segundo a Sic Notícias.

E quando quiser capar o meu gato, corto-lhe as patas traseiras.

Agora compreendo a razão pela qual um doente ficou impotente quando lhe foi amputado o pé.

E as consultas hospitalares da patologia do pé, passarão a ser efectuadas por sexologistas.

E também passei a compreender a razão pela qual os jogadores de futebol, quando fazem a barreira para a marcação de um livre, colocam as mãos num sítio, chamado Calcanhar de Aquiles e poem-se em bicos de pé para não ficarem com os t... no chão.



domingo, janeiro 09, 2005

Atraso Indesculpável. As Minhas Desculpas Ao Cibertúlia

Sei que fui mal educado e não respondi a uma pergunta do simpático blogue
Cibertúlia.

Foi em Outubro de 2004.

Mas confesso que trabalho de mais. São 12 horas diárias! (E ainda em alguns fins-de-semana.)

E só depois, no posto de comando, posto.

Mas é preciso compreender: os médicos, que neste momento marcham vergados sob o peso dos media, com todos os holofotes para si virados, à espera de uma escorregadela, para serem fotografados em flagrante delito, ganham de salário base, líquido e a meio da carreira (e da vida!) : cerca de 250 contos.
É muito? É pouco? Não respondo.

Para mim não chega. O Pai cibertúlia, que tem uma filha no internato complementar, e portanto, já na profissão, sabe do que falo.

Por isso, há que recorrer aos bancos, aos saps, à privada, às convenções, etc.

Dizia-se no Cibertúlia de então:
"Já ninguém diz «atitude». Mas, ontem à noite, ninguém se lembrou do seu correcto significado: a postura do primeiro-ministro é digna de anedota. Para a frente e às arrecuas, ora atarracado, ora empertigando-se... Uma lástima. Um médico lhe diria que não se senta assim."

Pois não!

A postura é muito importante para nos mantermos saudáveis. Como o prova a queda do primeiro-ministro, após sucessivas incorrecções posturais. Mas, por vezes, uma determinada postura, pode ser má para uns, e boa para outros. Quando a postura é instável, um pequeno abanão é suficiente para a queda e o "levante" pode ser difícil.

Mas também há posturas incongruentes ou de difícil compreensão: ora se empurra um objecto, instável, mas com uma base de apoio segura, para depois do empurrão, se apelar à estabiliade com maiorias absolutas e a entendimentos pós-traumáticos com quem acabou de cair!

Não entendo. Ou estou eu demente (hipótese a considerar, de tanto neurónio gastar) ou estão os outros dementes.

Mas como dizia o Marujo, em relação às posturas:" ... Uma lástima!"

Por isso vou fugir para aqui: aqui sei que o meu voto vai valer tanto, como tem valido nestes últimos 20 anos. Que os nossos políticos possam compreender que há quem se abstenha activamente e não comodamente.

sexta-feira, janeiro 07, 2005

Grande Investigação: Germano Ferreira Vítima Da Epistaxis

O JN de 06/01/05 revela-nos o grande furo jornalístico do fim-de-ano, pela difícil investigação subterrânea de Salomão Rodrigues.
Enquanto os seus colegas procuravam informar a comunidade mundial dos acontecimentos no Golfo de Bengala, Salomão Rodrigues, de bengala na mão, conseguiu descobrir a primeira vítima da epistaxis assassina.

Ei-la, a vítima, perante a qual me curvo, segundo foto publicada no referido jornal pelo repórter Manuel Azevedo:



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Salomão Rodrigues confirmou que a vítima "regressou a casa. Quase sem forças para se manter de pé." Mas mesmo sem forças logrou deslocar-se ainda mais uma vez ao Hospital.

Segundo apurou Salomão Rodrigues, a vítima foi observada por diversos médicos que se limitaram a olhar para a "anemia entretanto adquirida pela perda constante de sangue" e viraram costas.
Por isso a vítima teve que fazer "Dez deslocações aos hospitais de S. Sebastião, em Santa Maria da Feira, e de V.N. Gaia em apenas três dias".

Para que conste a vítima "foi assistido por um especialista em otorrinolaringologia e, mais tarde, enviado para casa" contra a sua vontade.
O especialista bem avisou: se voltar a sangrar, fique em casa, não volte ao Hospital, que pode ser fatal.

Mas, "Não demorou muito tempo para que a hemorragia voltasse. Nova deslocação ao S. Sebastião, onde mais uma vez foi atendido e enviado para casa." - Bolas, gritou nessa altura a senhora do senhor vitimizado. [O JN não traz foto da mulher da vítima. Segundo mentideros do corredor, a vítima não autorizou que a fotografia da sua senhora viesse no JN].

Salomão Rodrigues apostou em continuar à porta do hospital e teve êxito: "No dia seguinte, a situação mantinha-se e Germano Ferreira voltou ao Hospital da Feira. Como não havia especialista de otorrino, foi enviado para o Centro Hospitalar de Gaia. Colocaram-lhe um novo tampão no nariz...", segundo apurou o jornalista junto da auxiliar de acção médica, vizinha da vítima, as postas de sangue eram tantas que parecia uma menstruação, como quando estava com o mioma igual ao da ..., daquela que veio na Caras (ou na Lux, ou antes na Maria?).

"Naturalmente, foi perdendo sangue. Apesar dos protestos dos familiares para que o ..." sangue parasse.
"Na madrugada de sábado continuou a perder a sangue e, por isso, foi ao S. Sebastião. Mais uma vez foi reenviado para o Centro Hospitalar de Gaia, que, por sua vez, o manda para casa." Salomão não conseguiu confirmar a existência de novo tampão. Presume que lhe foi posto um tampão na narina sangrante.

"Só que as hemorragias não pararam."
Apesar das preces e "Farta do vaivém constante entre Feira e Gaia, a família de Germano Ferreira decide," atravessar para a outra margem e mudar de santo: deixar cair S. Sebastião e recorrer ao Santo António milagreiro.

No Santo António "é confirmada a debilidade física, devido a perda excessiva de sangue, e imediatamente internado, onde ficou hospitalizado até ao passado dia 4." Feitas as contas a vítima ficou internada 1 (um) dia! Fantástico!

"Os familiares de Germano Ferreira dizem-se "revoltados"" contra a frase "A culpa é do sistema" e contra a "orgânica do sistema".

Afirmaram que "que não vão pedir qualquer responsabilidade ou indemnização," caso a sua foto venha publicada no jornal, assim como a teorização académica da senhora do Germano: "chamar a atenção dos médicos "para tratarem melhor os doentes"" e "Não há direito que nos tratem desta maneira".

"O JN esperou, até ontem, sem sucesso, por uma reacção do Centro Hospitalar de Gaia", mas apenas conseguiu um post do blogue Médico Explica Medicina A Intelectuais.

O autor deste blogue, tentou em vão procurar na internet uma outra fotografia do sr Germano para comparar com a presente e poder aquilatar a "debilidade física", pois a foto apresentada no Jornal de Notícias, presumivelmente é anterior à epistaxis galopante.

quinta-feira, janeiro 06, 2005

Contra As Colonoscopias, Marchar, Marchar!

O Correio da Manhã iniciou uma campanha diária (pelo menos em dois dias sucessivos) contra as colonoscopias!

Transformou as complicações descritas em todos os livros de texto como possíveis, mas estatisticamente irrelevantes, em notícia.

Em dois dias seguidos lá encontrou dois doentes (carago, grande investigação jornalística!) com complicações pós-colonoscopias.


É irrelevante para o jornalista pseudo-científico se as colonoscopias são úteis ou não para diagnósticos precoces do cancro do cólon em Portugal e assim serem úteis para a comunidade.


Fizesse o senhor jornalista grandes campanhas nas páginas do seu jornal generalista e popular para os cidadãos acorrerem em massa aos seus médicos de família para estes requisitarem colonoscopias a utentes com risco acrescido de cancro do cólon ou requisitarem análises às fezes para pesquisa de sangue oculto e seria lembrado pela comunidade científica como um grande jornalista.


E já agora, se necessitar de mais umas perfurações do intestino grosso no decurso de colonoscopias, eu posso arranjar-lhe, pelo menos dois casos não fatais.
Para além do cachet para o perfurado, eu que não fui o perfurador, não abdico da minha comissão.


E seria de esperar outra coisa do Correio da Manhã?

Medicinas ... Alternativas .... À Inteligência

Por e-mail, alguém me enviou este naco de prosa de um alternadeiro, publicado num jornal regional, o Diário Regional de Viseu em 27/12/04.

Trata-se de publicidade encapotada, pois como se pode ler num texto pretensamente informativo, lá vem o nome da Clínica BioSorriso, uma verdadeira policlínica: há tarot, há orelhoterapia, há esoterismo, vulgo bruxaria, etc.

Mas vale a pena ler a entrevista de um médico alternadeiro. O negrito, como não podia deixar de ser é meu.

"Numa época em que, cada vez mais, se fala e se recorre à medicina não convencional, também apelidada de medicina alternativa, o Diário Regional de Viseu partiu à descoberta de algumas destas práticas, com destaque para a Kinesiologia, uma das valências disponíveis na Clínica BioSorriso, situada na Quinta D'El Rei, em Viseu.
O nosso jornal .../... a necessidade de promover os diferentes tipos de terapias alternativas.

DRV - O que pode um cliente encontrar na "BioSorriso"?
Alfredo Rodrigues Nunes - Acima de tudo encontra uma clínica dentária e um centro de terapia alternativa, com Kinesiologia, Auricoloterapia, Reiki, Osteopatia, Auriculoterapia, Tarot, associados ao esotérico e às medicinas alternativas.

DRV - A medicina alternativa é uma prática muito procurada?
ARN - ... Até porque se o nosso corpo tem a capacidade de nos pôr depressivos, também tem a capacidade de nos pôr bem, depende da maneira como pensarmos.
A psicossomatização dos traumas é, acima de tudo, emocional e nunca física.

DRV - Então qual é a resposta da medicina alternativa face à ineficácia da medicina "tradicional"?
ARN - A medicina tradicional não é ineficaz. Os médicos são importantes em caso de cortes no corpo, na necessidade de operações, adimitração [??] de antibióticos em caso de infecção, etc; em que a medicina alternativa não consegue fazer nada. Nós não curamos ninguém, o corpo é que tem a capacidade de se curar.
O nosso corpo é constituído pelo mental, emocional e físico, temos três partes que se reúnem numa só. Os médicos curam e abrangem o físico, mas não entram muito no mental e no psicológico, e esquecem que somos uma estrutura composta por três partes. As medicinas alternativas entram por aí, pelo lado emocional e mental, tendo resultados no campo físico.
.../...
DRV - Em que é que consiste?
ARN - A Kinesiologia compreende um conjunto de técnicas que se podem chamar de "técnicas de saúde" ...
Mas no fundo é sempre o corpo que se cura, eu não curo ninguém, isso é ponto assente.
...
A Kinesiologia consiste num sistema de feedback entre o corpo e os órgãos, e ninguém melhor que o nosso corpo para se conhecer a si próprio. Por exemplo, se temos um trauma, o mesmo vai-nos causar um mal-estar a nível emocional e, consequentemente, a nível físico. Este sistema de feedback entre os órgãos e os músculos permite, através da análise de um músculo saber o estado de um órgão, e sabendo isto é possível fazer uma associação emocional a esse órgão. Se for uma pessoa exigente, com picos de alegria e de tristeza, revoltada com a vida, isto é possível de saber através da associação dos órgãos com os músculos e com as emoções.
A cada órgão está associada uma emoção: ao fígado é a revolta, e ao estômago, de certa forma também, mas é essencialmente a inflexibilidade.
Assim, através do teste muscular podemos saber, na realidade, como a pessoa se encontra. Pode dizer-se que, a nível da medicina alternativa, este é o melhor método de diagnóstico que temos.
Esta técnica permite-nos diagnosticar casos de stress, bloqueios, falta de energia, dificuldades de aprendizagem, depressões, colesterol, epilepsia, úlceras, viroses, desequilíbrios emocionais, tumores, reumatismo, diabetes, doenças transmissíveis, entre outras.
...
... classe médica muito conservadora, com uma mente pouco aberta para este tipo de terapias, por isso a regulamentação das medicinas alternativas passa, acima de tudo, pela evolução de uma nova consciência do nosso "eu" no seu conjunto.
A nível de medicinas alternativas, não temos a possibilidade de receitar e acreditamos que, na maioria das situações estes também não são necessários. Por vezes, ainda se coloca a questão de trabalharmos sob a tutela dos médicos, mas, de certa forma, quem pratica medicinas alternativas não aceita fazer deste meio um circuito fechado, onde só alguns têm acesso.

DRV - Por onde passa o futuro deste tipo de medicina alternativa?
ARN - O nosso mundo está em mudança, o que tem trazido uma grande abertura a nível espiritual, ou seja, as pessoas estão mais abertas àquilo que antes desconheciam. Os processos de cura já não passam tanto pelos comprimidos, mas sim pela aceitação e compreensão daquilo que a sociedade pede a cada pessoa.
O ser humano tem dois hemisférios: o hemisfério esquerdo, que é o mais curioso; e o hemisfério direito, que é o sensitivo. Muitas vezes, em caso de conflito, a energia dos hemisférios é cortada, e gera-se um debate entre o que pensamos e o que sentimos. Esta situação pode originar um trauma que advém das divergências entre o que nos é pedido pela sociedade e o que achamos que somos capazes de fazer. E depois não nos podemos esquecer que a sociedade de hoje é uma sociedade de consumo, de protagonismo; e no meio disto há pessoas que se sentem bem e outras que se sentem forçadas. Quando a sociedade não nos permite fazer aquilo que nós gostamos, e que no fundo nos realiza e faz felizes, vamos desenvolver traumas e psicossomatizá-los - as chamadas depressões que, actualmente afectam muitas pessoas.
Então, o nosso futuro passa também por fazer compreender às pessoas que sociedade e pessoa são elementos distintos, o que pensamos é uma coisa e o que sentimos, muitas vezes, é outra.

... Dá-nos uma base de sabedoria e complemento que nos faz entender melhor a sociedade, o porquê das coisas.
A Kinesiologia e outras medicinas alternativas são muito importantes, na medida em que tudo o que seja psicossomatização de traumas, se relaciona com o interior do ser humano, dando origem a bloqueios. As terapias de medicina alternativa têm essa função de romper com os traumas e medos que tantas vezes nos bloqueiam. Logo, quando as pessoas se sentem livres de preocupações são muito mais felizes, visto que nós fomos feitos para nos ocuparmos das coisas no momento certo, e não sofrer por antecipação.

DRV - Mas isso é um pouco difícil tendo em conta a mentalidade instituída na nossa sociedade…
ARN - É mesmo isso. A sociedade não é perfeita e tem muitas coisas que vão contra a nossa natureza, e quando isto acontece formam-se as doenças.
.../...
É importante também ter-se sempre presente a noção de que o ser humano necessita de três energias fundamentais: a saúde, a felicidade e o dinheiro; e não o protagonismo, a competição e o dinheiro.

Não lhe querem marcar uma consulta para o psiquiatra?

Cinco Mil Anos!

Não tenho a certeza, mas duvido muito que há 5 000 anos se soubesse o que era a diabetes ....... talvez mais um insulto à inteligência dos intelectuais.

Mas como a iliteracia científica alastra no meio intelectual, o das letras, o que não se peocupa com a ciência ... tudo é possível!




terça-feira, janeiro 04, 2005

Vou Iniciar O Ano Criticando Os Médicos E As Suas Instituições ... III

O que vos vou contar é verdade. Não é ficção.


Passou-se num banco de um hospital que agora contrata médicos por atacado, com nomes do género, Ali qualquer coisa, tsky qualquer coisa, andez do outro lado do Atlântico e outros nomes mascarados de médicos e disfarçados com uma bata branca.


Uma doente entra na triagem com dor torácica. Na triagem consideram que é uma dor não cardíaca e enviam-na para os azuis e verdes.
É consultada por um indíviduo com fala-al, tez morena, que começa assim a consulta:


- Então de onde veio não lhe fizeram nada? Esses médicos não prestam. Bem lhe poderiam ter feito um electrocardiograma.

- Mas a senhora está doente? E vem tratar-se para aqui? Olhe que eu não vinha! Os médicos daqui não prestam!

- Eu estou cá a trabalhar porque preciso de ganhar a vida.
- Mas se adoecer enquanto cá estivar, vou tratar-me ao estrangeiro.


Até que a paciente decidiu falar:
- Senhor doutor, autoriza-me que eu no meu país, me possa queixar das minhas maleitas?


[E eu que até gosto da cultura árabe...]


Agora sim, jornais e têvês do meu país, criticai as urgências, criticai os médicos, criticai, que eu vos apoio.


Agora temos a mesma luta em prol da qualidade...

segunda-feira, janeiro 03, 2005

O Médico Explica Patrocina Um Blogue Especial

Aqui.

Vou Iniciar O Ano Criticando Os Médicos E As Suas Instituições ... II

À pergunta que o blogue 100Norte me solicita neste bilhete, respondo com o que escrevi há 13 meses e alguns dias, no meu modesto blogue: aqui, para os curiosos!

Começa assim:

"Escreve o Mata-Mouros: "Há muito tempo que um artigo num jornal não me dizia tanto. Esmagador na descrição do país que ainda somos.", acerca de um drama por que passou um filho ao acompanhar sua mãe numa ida ao banco do HSM e que faleceu na mesa de TAC. É um drama! E embora só a autópsia possa revelar a causa da morte, o longo tempo de espera, 7 horas, para se obter um diagnóstico (para se fazer um TAC!) não tem defesa possível.

Há cerca de um ano, "Por motivos de saúde que requereram uma opinião urgente de determinada especialidade, desloquei-me por mais do que uma vez à urgência central do Hospital de Santa Maria. Segui todos os trâmites que seguem todos os outros doentes: inscrição, espera, triagem, e aguardei, aguardei e aguardei, observando."

E termina asim:

"E já agora pergunto: quantos habitantes da blogosfera, não recorreram já às urgências hospitalares centrais por dor de dentes? Por dor de ouvidos? Por dor de *...."
_________
dor
do Lat. dolore
s. f.,
sofrimento físico ou moral;
mágoa, aflição;
pesar;
dó;
condolência, piedade;
remorso.


Vou Iniciar O Ano Criticando Os Médicos E As Suas Instituições ... I

com uma visão científica, e não mediática. Nem lucrativa, nem medida pelas audiências.

Mas sendo os médicos pessoas, assim como os seus pacientes, podem errar, serem de bom carácter ou mau carácter, saudáveis do ponto de vista psicológico ou simplesmente esquizofrénicos.

Por este motivo, defende-se em numerosas instituições que em situações de grande responsabilidade, como por exemplo, no decorrer de uma cirurgia, de uma reanimação, durante um simples SAP, o médico nunca deverá actuar sozinho: também pode ter um enfarte ou uma morte súbita, entre outras situações!

Artigo do British Medical Journal, interessante e actual.

segunda-feira, dezembro 27, 2004

Aviso

Novo endereço de correio electrónico: memai@sapo.pt.

domingo, dezembro 26, 2004

Perdas de Natal

O sr M. Velhinho faleceu no Natal.

"- Senhor doutor acha que o meu Velhinho está para morrer?
- Minha senhora, o senhor Velhinho está muito velhinho, mas nós não podemos, nem sabemos adivinhar o futuro. Uma hora, um dia, uma semana, um mês, um ano, tudo pode acontecer ao seu marido velhinho."


8 dias depois desta conversa o sr Velhinho faleceu.
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"Doutor, perdoe-me, sei que isto não é um consultório on-line, mas poderia dizer-me o que é leucemia galopante (ou leucemina fulminante)? é que tenho uma GRANDE amiga minha que morreu com 16 anos este verão... : "Ela tinha tudo pela frente... Fiquei revoltado... apenas gostava de saber o porquê desta patologia aparecer, visto que ela sempre foi saudável, tendo ido dia 3 de Julho ao hospital por uma dor de garganta e ter morrido no dia seguinte... Uns a chorar por Portugal ter perdido com a Grécia, ela (R.) a lutar pela sua (curta) vida..."
D F, 19 anos."


A GRANDE amiga faleceu por uma doença fulminante. Há várias doenças fulminantes. Em horas levam um vida perante a impotência da Ciência e dos médicos. As leucemias fulminantes são um caso paradigmático. Em muitas o primeiro e único sintoma é uma dor de garganta. Mas há mais, desde hepatites fulminantes a septicémias fulminantes.

Nem erro de diagóstico, nem negligência médica, nem problemas iatrogénicos. Mas algo cuja etiologia ainda não foi esclarecida totalmente...

O Natal É ...

... O Que O homem Quiser (Ou O Homem Permitir!)

sábado, dezembro 25, 2004

Silêncio Pós-Consoada

Explicações e Presunções

Consoada.

À volta de uma mesa, com o bacalhau e as batatas, e uns copos de tinto

economista explica economia a intelectuais

juíz explica justiça a intelectuais

advogado explica advocacia a intelectuais

professor explica pedagogia a intelectuais

artista explica arte a intelectuais

matemático explica matemática a intelectuais

e um Médico Explicou Medicina a Intelectuais.

Manteve-se anónimo apesar de nele falarem.

Ninguém foi presunçoso.

Explicar medicina a intelectuais será presunção?

Não será presunção outros intelectuais pensarem que dominam a Medicina?

Quanto à Visão, agradeço a distinção! E informo que sou absolutamente desconhecido nesse local.

P.S.: Só admito o adjectivo de prezunçozo ao Alvino.

sexta-feira, dezembro 24, 2004

Na Minha Terra

Não há vaidades.
O pensamento é livre.
Não há limites para a imaginação.
Faz-me falta olhar para a minha terra.

Só é pena pela primeira vez não encontrar na minha terra quem gostava de encontrar, mas as leis da vida ninguém as decreta, ninguém as promulga. Existem e são inexoravelmente o nosso destino...

quinta-feira, dezembro 23, 2004

Também Vou À Terra

O médico explica também vai à terra.

Não sabe se na terra terá novas tecnologias.

De qualquer forma Boas Festas.

Se Santas ou não, dependerá da Fé de cada um.

terça-feira, dezembro 21, 2004

Não Há Triagem de Manchester Que Resista Ao Isolamento

Ou à honestidade!

Depois de ter passado todas as barreiras coloridas, ei-la frente a frente com o médico.

Pela triagem, era a "falta de ar" que a afligia.

Frente a frente:

- Então de que se queixa?
- Estou muito doente. Estou mesmo muito doente. Mas a verdade é que estou só. O isolamento é que me mata.

Não há tratamento urgente para isto.

Não há explicações a dar aos intelectuais sobre isto.
E quantos intelectuais também passam por isto?
Alguns. Pelos mails que vou recebendo!

Este episódio está a acontecer. Interrompi a consulta para "bloggar". E para pensar no Natal.

E entrou-me um cisco para os olhos, tenho que limpar esta humidade da Humanidade.

segunda-feira, dezembro 20, 2004

Apontamento Sobre O Velhinho

- Senhor doutor gostava que fosse ver o meu pai a casa. É muito velhinho. Tem 91 anos.
- Mas de que é que ele se queixa?
- Deixou de andar. Deixou de falar. Está muito velhinho.
- Amanhã passo por lá. Pode ser?
- Sim.

No dia seguinte. Já em casa do paciente.

- Como se chama este velhinho simpático?
- M Velhinho.
- Sim. Velhinho eu sei que ele está. Mas qual o apelido dele?
- Velhinho. Chama-se M Velhinho.
- Velhinho?
- Sim senhor doutor o meu marido está muito velhinho e chama-se Velhinho.

No fim da consulta.

- Senhor doutor acha que o meu Velhinho está para morrer?
- Minha senhora, o senhor Velhinho está muito velhinho, mas nós não podemos, nem sabemos adivinhar o futuro. Uma hora, um dia, uma semana, um mês, um ano, tudo pode acontecer ao seu marido velhinho.

sábado, dezembro 18, 2004

Ai estes Jurnalistas E Os Micronavios

Mas como sempre a culpa é do médico . Transcrevo:

"Identificação electrónica é obrigatória há cinco meses.
Mais de 200 mil cães já têm "microship".

Segundo o Público de hoje, andam por aí mais de 200 mil cães com micronavios... Seja lá isso o que for!!! De facto é adequado para um país de marinheiros.
É este o jornalismo que temos..."


Se não acreditam, está aqui, no Poblico, de 22 de Nubembro.

sexta-feira, dezembro 17, 2004

Um Pedido

de um jurnalista do Poblico ao Médico Explica Medicina A Intelectuais e largado na caixa do correio.

quinta-feira, dezembro 16, 2004

Acreditem Que Gostava ...

... de escrever mais e relatar alguns episódios da minha vida.


Hoje trabalhei mais de 12 horas.
Trabalhar significa para nós, ouvir, intervir quando necessário, deixar ouvir, discorrer "placebamente", ouvir, ouvir, ouvir, intervir pouco, intervir muito, intervir intensivamente, intervir nos limites, ultrapassar os limites, ir buscar ao Além alguns, deixá-los partir também, sorrir às vezes. Ouvir sempre!

Passadas doze horas, às vezes é necessário descomprimir.
Desligar a televisão. Apagão.
Ficar só neste mundo que não nos compreende.
Desconfiar daqueles que só gostam da $aúde.


Há dias um colega confessou-me que gostava de me conhecer. Porquê? A maior parte dos médicos são anónimos como eu. Ninguém os conhece. Há generalistas e generali$$$tas. Há especialistas e especiali$$$tas. Desde o mais simples interno geral ao mais afamado chefe de serviço há uma plétora de homens e mulheres conscientes da sua profissão.

Fico com erisipela quando as televisões e outros media fazem passar apenas a nódoa e transformam-na em regra.

Há médicos amigos dos seus doentes, desde o médico de família que o conhece há 20 anos, ao intensivista que o observa apenas durante horas.


Hoje depois de 12 horas de trabalho assistencial diverso (é preciso ganhar a vida!) alguém me convidou para o primeiro aniversário da sua vida.

Gostei do presente do aniversariante: "para o meu querido médico!". Tocou-me fundo.
Mas sei que os médicos só são queridos quando as "coisas" correm bem. Que me perdoe o aniversariante, mas o médico tem sempre esta perspectiva.
Só espero que não leiam este post até repousar nas profundezas dos arquivos.

Mas, após doze horas no limiar da incerteza e do risco: É ou não é? Foi ou não foi? Será ou não será um enfarte? Evacuo ou não evacuo? Será só uma reação aguda ao stresse ou uma crise de hipertiroidismo?
Depois de doze horas deixei-me levar pelo sabor do champanhe.
Foi o que me ofereceram.
Foi o que bebi.
Foi o que excedi.
Fez-me bem.
O álcool pode ser um bom psicofármaco, quando prescrito ou auto-medicado com consciência.

Mas não abusem, por favor!

segunda-feira, dezembro 13, 2004

[também posso ir?]

Carta resposta publicada no pasquim Expresso (ex-referência do jornalsmo português) de 11-12-2004:

"Li no artigo «Farmácias com descontos chorudos» (EXPRESSO, 4-12-04), uma «sugestão de notícia» acerca da conduta dos médicos: ainda no passado fim-de-semana, cerca de 150 psiquiatras estiveram no Algarve, a convite de um laboratório, mas sem programa científico.

Além de considerar que uma jornalista não deve produzir trabalho profissional genérico, sem rigor de concretização, a não ser que se trate de artigo de opinião, o que este não pretende ser, e que tenho o EXPRESSO por semanário onde a especulação sob capa de notícia não tem lugar, apelo à publicação de desmentido a que acrescento prova. Como palestrante no Simpósio Científico, que se realizou a 27 de Novembro no Algarve - Stª Eulália (se é a este que se querem referir), envio o programa científico e também a comunicação científica que apresentei.

Reitero o meu mais profundo protesto quanto a mais uma vileza relativa ao bom nome dos médicos portugueses. Convido as senhoras jornalistas, autoras da notícia, para um encontro [também posso ir?] onde talvez possamos compreender as razões de tais repetidos comportamentos persecutórios face ao bom nome dos médicos e lhes ajude a discernir as sérias repercussões que este tipo de atitude tem na saúde das populações.

Manuel Costa Guerreiro, Cruz Quebrada
"

Notícia Esquisita e Mais Uma Vez Manipuladora ... Falam, Falam, Falam E Não Dizem Nada"

Notícia muito esquisita do Comércio do Porto de 11/12/04 do jornalista João Santos.
Por um lado e mais uma vez, o título não condiz com o conteúdo. Manipulação! Desrespeito pelos leitores.

O título postula peremptório:
"Segredo profissional na saúde é ainda mal percebido"

O que é um profissional da saúde para o Povo? Médico, médico, médico, médico e só depois os outros profissionais, nomeadamente os enfermeiros.

O que diz a notícia?

"Esta é uma das principais revelações patentes no livro do enfermeiro .../..., ontem apresentado numa sessão que decorreu no edifício do Sindicato dos Enfermeiros. A publicação do livro surgiu no âmbito da tese de mestrado em desenvolvimento e subordinada ao tema "Teologia e Ética da Saúde". José Azevedo incluiu na sua investigação um inquérito realizado a um universo de mais de trezentos enfermeiros tendo sido verificado, entre um grupo significativo de elementos, um entendimento "mal percebido" e um "enorme subjectivismo" em questões que rodeiam a aplicação e a defesa do segredo profissional. José Azevedo, presidente do Sindicato dos Enfermeiros, actual enfermeiro-chefe do Hospital São João, têm desenvolvido um importante conteúdo teórico sobre a enfermagem e as suas ligações ao campo ético e social na sociedade. Paralelamente conta um trabalho reconhecido pelos seus pares enquanto dirigente no sindicato a que aderiu há mais de trinta anos."
  1. A notícia fala de um inquérito a cerca de 300 enfermeiros. O título fala dos profissionais da saúde, isto é, os médicos não sabem o que é o sigilo profissional.....
  2. Quem conhecer o sr enfermeiro Azevedo, sabe muito bem que a notícia não pode corresponder à verdade.
  3. Mestrados: quem quer comprar?. Vendo a crédito e a prestações...

sexta-feira, dezembro 10, 2004

European Heart House

Je suis la.

Confesso que aceitei o convite de uma multinacional do medicamento para visitar e frequentar um curso integrado num Programa Educacional da Sociedade Europeia de Cardiologia.

Aceitei. Pronto. Pelos que tenho recusado por nao oferecerem credibilidade.

E nao houve contrapartidas, descansem.

Talvez nunca conhecesse a European Heart House.

A industria farmaceutica tambem pode ter um papel positivo na preparacao cientifica dos medicos, com cuidado e com limites.

segunda-feira, dezembro 06, 2004

Ri-te, Ri-te

O Boticário poveiro, decidiu (mais uma vez) meter-se comigo. Está no seu direito, até já estava com saudades. Diz ele que se riu "... com vontade da gaffe assumida do médico explica medicina a intelectuais que não estudou toxicologia nem compostos organoclorados e portanto diz, como os jornalistas que ele adora corrigir, "Dealdrina". Sabe sempre bem ver um presunçoso a espalhar-se no tapete. Então, sua sapiência, não conhecia o 1,2,3,4,10,10-Hexacloro-6,7-epoxi-1,4,4a,5,6,7,8,8a-octa-hidro-1,4-,endo,exo-51,2,3,4,10,10-hexa-8-dimetanonaftaleno?"

Diz que sou presunçoso. Só não sei como é que um presunçoso admite ter errado.

Mas como o gosto de ver irritado, atiro-lhe com as negociatas do seu chefe: João Cordeiro.

"Farmácias com descontos chorudos
Há laboratórios que oferecem às farmácias mais 30 embalagens de um genérico pelo preço de dez. No final, o Estado é que paga
OS LABORATÓRIOS que vendem genéricos estão a fazer ofertas chorudas às farmácias para que estas prefiram os seus medicamentos aos da concorrência. Em vez dos médicos, o alvo destes laboratórios são agora os farmacêuticos, estando já generalizada a oferta de variadíssimas bonificações - as quais vão desde os créditos em viagens às ofertas, que chegam a 300% sobre a compra de embalagens do medicamento (pela compra de 10 caixas, recebem-se de borla mais 30).
Os responsáveis do sector - do Ministério da Saúde à própria Associação Nacional das Farmácias (ANF) - afirmam-se «preocupados» com a situação que, segundo o próprio presidente da ANF, João Cordeiro, torna «completamente irracional o mercado». Vive-se mesmo, disse Cordeiro ao EXPRESSO, «o salve-se quem puder».
"
.../...
"Há cerca de um ano, Luís Filipe Pereira recebeu uma denúncia onde eram relatados vários exemplos desta prática. Nessa denúncia, que chegou a ser noticiada, eram feitas referências a dois laboratórios nacionais de genéricos e a exemplos concretos de bonificações, lançando a suspeita sobre as margens de lucro que as farmácias estavam a obter à custa dos genéricos."
Para que não diga que faço censura, (notícia que não aproveite para censurar os médicos, não é notícia), aqui vai o resto da notícia da Graça Rosendo, no Expresso de 04/12/2004:

"Ainda no passado fim-de-semana, cerca de 150 psiquiatras estiveram no Algarve, a convite de um laboratório, mas sem programa científico. Também esta semana, outro laboratório levou para Roma 15 psiquiatras, com acompanhantes, numa acção de promoção de um outro medicamento. Em Novembro, artistas como Herman José, Luís Represas e Rui Veloso foram contratados para animar reuniões ditas científicas que juntaram, em diferentes jantares, mais de dois mil clínicos. Os anfitriões foram diferentes laboratórios e o objectivo dos encontros foi sempre o mesmo: promoção de medicamentos."

E ninguém me convidou. Será que não me conhecem? Pois eu conheço tantas delegadas de informação médica tão simpáticas. Será que não sou simpático? Também quero ir.
Também quero ir como foram muitos farmacêuticos a Marrocos convidados pela Farmoz, um laboratório de genéricos. Mas para a Gracinha Rosendo, só os médicos é que viajam... E depois admirem-se porque é que o sr João Cordeiro quer que os farmacêuticos tenham liberdade de troca de genéricos. A Farmoz levá-los-ia a uma volta ao mundo...
"O CONSUMO de apenas três medicamentos aumentou em €32,2 milhões a despesa dos portugueses com fármacos, nos primeiros nove meses do ano. São quase 12% dos €277 milhões de crescimento apurado neste período, revela um estudo da Associação Nacional de Farmácias (ANF) a que o EXPRESSO teve acesso. O mesmo estudo revela que a dispensa destes três medicamentos - Clopidogrel, Rosuvastatina e Escitalopram - era inexistente ou residual no período homólogo de 2003. E qualquer deles é o mais caro dentro da sua família e não tem genérico." - aqui estou de acordo com a ANF. Só que uma das críticas para a introdução de genéricos era a de que as novas moléculas teriam preços exorbitantes e pelos visto parece confirmar-se.

"O consumo de Clopidogrel aumentou de forma considerável, enquanto decresceu a procura da Ticlopidina e do Dipiridamol, que, segundo o estudo da ANF, actuam de igual modo na prevenção do acidente cardiovascular. Entre Janeiro e Setembro foram vendidas 360 mil embalagens de Clopidogrel que custaram mais de €20 milhões. A própria «aspirina de 100 miligramas faz o mesmo efeito», diz o presidente da ANF, o farmacêutico João Cordeiro." Mas diz mal, porque essas moléculas não actuam da mesma forma, nem têm as mesmas indicações.
Eu apoiaria uma inspeção a todos os médicos que presceveram clopidogrel para prevenção primária, pois este óptimo medicamento só deverá ser utilizado em determinadas situações muito específicas.

sexta-feira, dezembro 03, 2004

Muitos Intelectuais Só Conhecem O Médico ...

... dos consultórios da grande privada, os professores doutores, ou das grandes clínicas onde recorrem em situações de crise e vulneráveis.

Por isso, quando a vulnerabilidade desaparece, aparece a revolta contra o poder médico, a revolta contra os €€€€€€ que lá desapareceram e generalizam esses médicos (os barões da medicina) a toda a classe médica.

Mas o médico também é isto:

A minha 1ª vez

"Não. Não é sobre o que estão a pensar. Esta história é acerca do meu primeiro contacto directo com "doentes", ou melhor dizendo, com utentes do SNS.
Corria a Primavera do meu 1º ano na Faculdade. As nossas grandes preocupações, eram a conveniente preparação da 1ª QUEIMA, esse momento memorável de todos os estudantes do Porto, em que pela primeira vez deixam de ser caloiros e passam a ser aceites como "iguais entre iguais".

Apenas alguns dias antes desse tão importante momento, tive a missão de realizar um "inquérito de satisfação" aos utentes de um CS na região do Grande Porto. De relação médico-doente, propriamente dita, não tinha nada. Contudo, o peso da bata-branca, desde cedo aprendi ser importante para estabelecer esta relação. E foi numa dessas belas manhãs de Abril (ainda frias e chuvosas), que depois de ter acordado às 6h00, para poder chegar ao CS antes da abertura (às 08), que senti ter a minha primeira experiência, o meu primeiro contacto real com doentes. Até aí, mais não sabia do que espreitar por um microscópio e "conversar" com as peças inertes do Teatro Anatómico.

Ela era simpática. Dizia que tinha 96 anos, mas não lhe daria mais de 90 :). Pequenina e magrinha. Filha de pescador, viúva de pescador e mãe de pescador. Tinha nascido no início do século. Tinha conhecido reis, presidentes e ditadores. Lembrava-se de tudo claramente. Tinha uma saúde de ferro - HTA, ICC classe II NYHA e DM tipo 2 (longe de mim imaginar o que significava tudo isto... só o compreendi uns tempos mais tarde).
As cerca de 20 perguntas de que era composto o questionário (não demoravam mais do que 5 minutos) deram conversa para quase uma hora. Vieram à baila histórias da juventude, o namorado que a abandonou e foi para o Brasil, o casamento, os filhos, o casamento dos filhos, os netos, o casamento dos netos, os bisnetos, as fotografias dos bisnetos. As queixas dos médicos (os outros, porque o dela era muito bom - graças a Deus). As esperas no CS, o preço dos medicamentos, a reforma que era baixa.
Palavra-puxa-palavra eu que era um doutor-muito-jovem (como ela fazia questão de me chamar - olha o efeito da bata branca) fui-me deixando enlear pela conversa, pela necessidade de carinho e atenção. Ainda hoje, quando não tenho tempo para ouvir e utilizo a "técnica de entrevista" tantas vezes ensinada e aprendida uns anos mais à frente, me lembro daqueles olhos carentes, de quem precisa de ser ouvido.

Entretanto é chamada para a consulta. Levanta-se com genica impressionante para os 96 anos bem-vividos e beija-me na face. Vai-se embora dizendo: "Sr. Doutor, quando vier trabalhar para aqui quero ser sua doente. Vou pedir para trocar de médico"
Também eu gostaria de a rever. Não conhecia ainda o significado de "empatia" esse palavrão atrás do qual os médicos se escondem para defender a sua sanidade mental."

quinta-feira, dezembro 02, 2004

Vital Moreira: Corporativista

Em 16 de Novembro de 2004, publicou Vital Moreira (VM) no Público, um artigo intitulado: "A Disciplina das Profissões".

Diz VM que "Justifica-se plenamente o destaque dado aqui no PÚBLICO de domingo passado à publicação das decisões disciplinares pela Ordem dos Advogados. Primeiro, porque se trata de um gesto inédito, pois é quase desconhecida a prática disciplinar das nossas ordens profissionais. Segundo, porque se verifica que a função disciplinar de uma profissão tão importante como a dos advogados está a ser efectivamente exercida, incluindo várias decisões de expulsão da profissão nos casos mais graves. Terceiro, porque, face aos acrescidos riscos para a deontologia profissional na sociedade actual, uma iniciativa desta natureza é uma importante arma contra a desconfiança e o descrédito das profissões."

VM tem publicado muitos artigos em que acusa toda uma classe profissional, os médicos, de corporativista, de que os erros médicos e mesmo a negligência são escondidos inter-pares e que a Ordem dos Médicos é relapsa na condenação de casos disciplinares. Isto tem dito VM ao logo dos anos.

Quando o lia, estava convencido de que VM era um estudioso da problemática das Ordens profissionais e nomeadamente da Ordem dos Médicos. Mas não. Pelos vistos VM sempre escreveu de cor. Levado pelo "ódio" que muitos intelectuais têm contra os médicos, particularmente os juristas, escrevinhava sem ter lido pelo menos um único número da Revista Ordem dos Médicos.

Neste artigo em referência, VM desde a primeira linha até ao último ponto final, enaltece e idolatra a sua Ordem e a sua decisão de publicar na sua revista os processos disciplinares que ele mesmo instaura. Diz, e com toda a razão, que os advogados devem ser julgados pelos seus pares. Digo eu, que os médicos devem ser julgados também inter-pares, assim como os engenheiros, etc.

Agora.
Porque em tempo sempre criticou a Ordem dos Médicos por querer ser ela a analisar os contextos e os erros ou negligências médicas, em parceria com outras estruturas.

E mente.
Talvez por negligência, quando afirma que é inédito a publicação dos processos, das decisões e dos resultados referentes a queixas instauradas contra médicos e dirigidas à Ordem dos Médicos.

Há dezenas de anos que o Boletim da Ordem dos Médicos publica as sanções, incluindo as penas de expulsão contra médicos...

domingo, novembro 28, 2004

Meu Caro FJV: Quanto Ao Pequeno-Almoço, De Acordo! Quanto Ao Primeiro Cigarro...Tanto Faz

Quanto ao pequeno-almoço, inteiramente de acordo. Deve ser um pequeno-almoço grande. Erradamente se chama pequeno e as pessoas no seu stresse diário ainda o encurtam mais: na quantidade, na qualidade e na disponibilidade. Compreende-se que, depois de quase 12 horas sem ingerir alimentos, nos devamos abastecer de energias para os gastos previsíveis de um novo dia.
Quanto ao primeiro cigarro, ser depois das onze, ou antes das dez, sinceramente tanto faz, se te dá prazer ao madrugar, com o mar em frente, fuma e fuma por mim, que fumei muitos com o meu anónimo mar como testemunha e o cheiro da maresia a misturar-se com o aprazível cheiro do tabaco.
Mas, agora não. Até o mar vai esvaecendo, mesmo no imaginário...

sábado, novembro 27, 2004

Situs Inversus E A Queixa do Esperma Escuro

Esta semana duas consultas foram diferentes da rotina habitual.

1) Ao observar um doente, sempre do lado direito com é da praxe, não encontrava os órgãos que habitualmente é esperado encontrar, quer na palpação e auscultação. Intrigado, mas sem lhe dizer nada, fui ver os exames complementares que ele trazia no seu saco de plástico: lá estava, uma ecografia com o fígado do lado esquerdo e o baço do lado direito, uma radiografia ao tórax e lá estava, o coração no local inverso. É um situs inversus completo. É raro.

2) Não foi este, mas outro jovem de 91 anos que se apresentou no consultório particular, com um reportório de várias queixas subjectivas, pouco valorizáveis pelo próprio doente e que prenunciam sempre a existência de uma última queixa, esta geralmente a mais importante para ele.
E lá apareceu ela. Quando me preparava para prescrever algum placebo para aquele idoso saudável, eis que me diz:
- "Sr doutor, só mais uma coisa. O meu esperma desde há uns meses que aparece escuro, parece sangue."

Pois é, para aqueles que pensam que não há vida sexual nos idosos, e que em muitos lares reprimem qualquer manifestação sexual ou afectiva entre os idosos, aqui está um bom exemplo do contrário...

Não Chega Pagarmos Mais Impostos

Também querem que paguemos mais pelos medicamentos!

Segundo o Correio da Manhã de 27/11/04:

"REMÉDIOS MAIS CAROS PARA A CLASSE MÉDIA"

"A comparticipação dos medicamentos vai ser alterada a partir de 2005, beneficiando as pessoas mais pobres e as que têm doenças incapacitantes. Opiniões contrárias já se fizeram ouvir por esta reforma penalizar ainda mais a classe média (trabalhadores por conta de outrém), ou seja, aqueles que mais pagam impostos."

Médico de Família Contra Obstetra

Já por várias vezes escrevi que não quero ser o advogado dos médicos de família portugueses. Os especialistas em medicina geral e familiar em Portugal têm várias estruturas representativas e a diversos níveis: Colégio da Ordem dos Médicos, APMCG, sindicatos e até uma associação de médicos de família privados, da qual não recordo o nome.

Choca-me que algumas outras especialidades médicas duvidem da sua idoneidade e muitas vezes por motivos subterrâneos: quer se queira ou quer não, os médicos de família portugueses, mesmo com a falta de médicos que há, distribuem-se por Portugal inteiro.

Mas não há só médicos de família em Unhais da Serra ou Pedrógão Grande, também os há professores universitários, ideólogos das especificidades da cultura generalista em Medicina, como o Prof. Armando Brito de Sá, médico de família, na Unidade de Saúde Familiar Rodrigues Miguéis, em Lisboa, e professor auxiliar na Faculdade de Medicina de Lisboa, Instituto de Medicina Preventiva, que, em artigo on-line no jornal Tempo Medicina responde aos dislates do presidente da SPOG (sem linke do artigo, porque só é acessível a médicos, segundo esclarece o Tempo Medicina, por imperativos legais).
No número de 15 de Novembro do «Tempo Medicina» publica-se uma reportagem sobre a abertura do XVII Congresso Português de Obstetrícia e Ginecologia. O Presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Ginecologia (SPOG), Prof. Carlos Jorge, terá, segundo o «TM», comentado o que considera ser a «fraca actuação dos médicos dos cuidados de saúde primários». Mais adiante, na peça, surge um parágrafo que reproduzo na íntegra:
«O responsável da SPOG chamou ainda a atenção para o facto de não estar definido “o que fazer e quando fazer” no apoio às grávidas, a quem são feitas “consultas sobre consultas”. Para o obstetra, as inúmeras ecografias prescritas apenas obedecem ao “critério” da “inspiração do momento”, reflexo do desempenho do médico de família, que se limita, “na maior parte dos casos”, a ser “um preenchedor de papéis”. Por seu turno, as consultas de planeamento familiar “não passam de mera distribuição de contraceptivos” e o rastreio do cancro da mama padece, no seu entender, de uma “ausência de sistematização”.»
As afirmações do Prof. Carlos Jorge, em si mesmas preocupantes, assumem gravidade inusitada por virem do responsável primeiro de uma instituição prestigiada como a SPOG. Trata-se de um conjunto de generalidades depreciativas de uma especialidade inteira que, convenhamos, são difíceis de rebater, pela formulação desestruturada que apresentam.
Senão, vejamos:

1. O que se entende por «fraca actuação»? Seria interessante conhecer os critérios de qualidade utilizados pelo Prof. Carlos Jorge para efectuar este juízo, bem como ter acesso aos trabalhos de avaliação em que se baseia para o proferir em público.

2. Aparentemente, não estará definido «o que fazer e quando fazer» no apoio às grávidas, a quem serão feitas «consultas sobre consultas»; inúmeras ecografias serão pedidas segundo o «critério» da «inspiração do momento». Não sei se estaremos a falar do mesmo país. Como médico de família efectuo desde sempre consultas de saúde materna, segundo as Orientações Técnicas definidas pela Direcção-Geral de Saúde (incluindo, naturalmente, critérios para número e intervalo entre consultas), referenciando as grávidas aos serviços de Obstetrícia segundo os protocolos estabelecidos, com excepção das situações patológicas necessitando de cuidados hospitalares em tempo específico. Cabe ao Prof. Carlos Jorge demonstrar que não é esta a prática comum dos médicos de família portugueses que efectuam saúde materna, e que o quase milhão e meio de consultas nessa área por eles efectuadas no triénio 2000-2002 (1-3) não obedeceu aos critérios de racionalidade e adequação desejáveis. Na verdade, a generalidade da literatura internacional aponta para que, no que diz respeito à grávida de baixo risco, o médico de família obtém os mesmos resultados na gravidez que o obstetra, com menores custos (4), menor número de gestos (5) e maior satisfação para as mulheres por ele seguidas (6). Não dispomos de dados nacionais, mas não há razões para suspeitar de que entre nós se viva uma situação diferente.

3. É referido pelo Prof. Carlos Jorge que o médico de família será, «na maior parte dos casos», um «preenchedor de papéis». É público que os médicos de família são regularmente confrontados com a solicitação, deontologicamente indefensável, de transcrição de exames complementares de colegas de outras especialidades. Não irei abordar esse assunto, que tem merecido debate aprofundado em espaço diverso.

4. O Presidente da SPOG considera que as consultas de planeamento familiar «não passam de mera distribuição de contraceptivos». Suspeito, por esta afirmação, de que o Prof. Carlos Jorge não conhece os centros de saúde, ou de que a sua amostra, a existir, estará profundamente enviesada. A simples aritmética respeitante, por exemplo, ao número de DIUs distribuídos pelas ARS (e, por definição, colocados) nos centros de saúde portugueses poderia dar-lhe uma outra ideia da realidade; este evidente desconhecimento leva-o, por outro lado, a ignorar o trabalho diário de enfermeiras e médicos que efectuam ensino e esclarecimento no contexto das consultas de planeamento familiar nos centros de saúde em todo o País. Foram efectuadas, segundo os dados acumulados da Direcção-Geral da Saúde para os anos de 2000, 2001 e 2002, mais de dois milhões de consultas de planeamento familiar e saúde da mulher nos cuidados de saúde primários portugueses (Quadro II) (1-3). A desqualificação desta actividade proferida pelo Prof. Carlos Jorge é, ela mesma, inqualificável.

5. Entende o Prof. Carlos Jorge que o rastreio do cancro da mama padece de «ausência de sistematização». Por uma vez, estamos de acordo. É hoje impossível perceber objectivamente qual a situação real, entre nós, deste rastreio; por extensão, o mesmo raciocínio é aplicável ao rastreio do cancro do colo e a outros problemas de saúde fora do âmbito da presente discussão. Tal não se deve, contudo, à ausência de promoção e execução destas técnicas nos cuidados de saúde primários portugueses, mas à inexistência de sistemas fiáveis de registo que permitam quer a eficiente chamada das mulheres pertencentes à população-alvo, quando tal se justifica, quer a monitorização e avaliação desse processo. Trata-se de um problema para o qual há muito os responsáveis da Medicina Geral e Familiar portuguesa chamam a atenção e que, naturalmente, não é resolúvel com medidas avulsas, mas através de um sistema integrado de registo que permita a avaliação sistemática destas actividades a todos os níveis.

Os médicos de família portugueses realizam, desde o início da sua carreira, actividades no âmbito da saúde da mulher englobando saúde materna, planeamento familiar, diagnóstico e terapêutica de situações comuns, rastreio de neoplasia mamária e do colo uterino, e acompanhamento da menopausa, referenciando aos seus colegas obstetras/ginecologistas as mulheres que necessitam de intervenção em meio hospitalar. Os médicos de família continuarão a realizar estas actividades, em colaboração que se deseja cada vez melhor com os seus pares nos hospitais, sabendo que prestam um serviço insubstituível à população e conscientes de que a sua intervenção poderá ser sempre melhorada. Nesse sentido, continuamos a trabalhar.
Referências bibliográficas

1 Direcção-Geral da Saúde. «Centros de saúde e hospitais. Recursos e produção do SNS 2000». Lisboa, Direcção-Geral da Saúde; 2003.
2 Direcção-Geral da Saúde. «Centros de saúde e hospitais. Recursos e produção do SNS 2001». Lisboa. Direcção-Geral da Saúde; 2003.
3 Direcção-Geral da Saúde. «Centros de saúde e hospitais. Recursos e produção do SNS 2002». Lisboa, Direcção-Geral da Saúde; 2004.
4 Khan-Neelofur D, Gulmezoglu M, Villar J. «Who should provide routine antenatal care for low-risk women, and how often? A systematic review of randomised controlled trials. WHO Antenatal Care Trial Research Group». Paediatr Perinat Epidemiol, 1998; 12 Supl 2: 7-26.
5 Tucker JS, Hall MH, Howie PW, Reid ME, Barbour RS, Florey CD, McIlwaine GM. «Should obstetricians see women with normal pregnancies? A multicentre randomised controlled trial of routine antenatal care by general practitioners and midwives compared with shared care led by obstetricians». BMJ, 1996; 312: 554-9.
6 Villar J, Carroli G, Khan-Neelofur D, Piaggio G, Gulmezoglu M. «Patterns of routine antenatal care for low-risk pregnancy». Cochrane Database Syst Rev, 2001; (4): CD000934.

Notas do Médico Explica: sublinhados da sua responsabiliade, foto retirada do sítio da jornal Tempo Medicina, peço desculpa por não aparecerem os quadros referidos no texto. Por fim, sou anónimo, mas não sou o Armando Brito e Sá.

segunda-feira, novembro 22, 2004

Medicinas d'Alterne

Leitora amiga enviou-me esta notícia.


"Não se esqueça da criança ... a criança!", vociferou o JT.


Pois mais um exemplo da grande devoção que todos os pais têm pelas suas crianças.


JT, se eu lhe contasse o que vejo, diariamente, sobre as crianças e seus lindos pais, diria que não estava a acontecer...


"Alemanha: casal vegetariano condenado a prisão por subnutrição do filho

O tribunal de Paderborn, na Alemanha, condenou esta quarta-feira um casal vegetariano a dois anos e meio de prisão por considerar que não cuidou correctamente do seu filho de 15 meses, que se encontrava subnutrido.

O pai, de 44 anos, e a mãe, uma enfermeira de 36, foram considerados culpados de infligir danos físicos que provocaram a morte do bebé, falecido em Março com uma pneumonia.
Segundo os especialistas, a criança morreu devido a uma pneumonia agravada por carências alimentares. O casal alimentava a criança com leite de amêndoas e noz de coco. A criança foi tratada pelos pais durante 15 dias apenas com oleos naturais, antes de ser internado com uma pneumonia grave, à qual não sobreviveu.

O juiz considerou que este não se tratava de um «caso típico de negligência», uma vez que «os arguidos pretendiam o melhor para o seu filho», mas referiu que os pais deviam ter consultado um medico quando a criança adoeceu.


Copyright Diário Digital 1999/2004 http://diariodigital.sapo.pt/"

domingo, novembro 21, 2004

Quando As Pessoas Ficam Cegas Pelo Ódio, Não Conseguem Ler E Interpretar O Que Se Escreve.

Resposta a um e-mail:

Caro J T

Assunto: Não se esqueça da criança... a criança...
- Qual criança? As que morrem assassinadas pelos pais, pelos padrastos, pelos vizinhos, ainda ontem foi condenado um casal a 14 anos de prisão. Parece que não eram médicos! Eram pais.

Já reparou que os seus últimos posts têm a ver com os processos que estão a ser levantados a médicos alegadamente negligentes?
- Exactamente, não só os últimos, como muitos outros. Sempre disse que os médicos devem ser condenados sempre que se prove que foram negligentes. O que não concordo é com a feira mediática que se faz à volta disso mesmo. Feira das vaidades. Os familiares aproveitam-se dos seus entes queridos falecidos para a sua vaidade própria.

Isso não lhe diz nada?
- A si é que não lhe diz nada? Como vê tambêm falo de colegas meus negligentes e que devem ser condenados. E você quantos dos seus pares já foram criticados no seu blogue? Envie-me os links, por favor... De quantos professores agressores de alunos já falou? De quantos professores que usam força desproporcionada contra os seus alunos? Sabe, caro amigo, tenho dezenas de professores de todos os graus de ensino na minha família. Compreendo-os. Não os persigo...

Falta a criança assassinada dentro do útero materno por um obstetra e os seus forceps - é assim que se diz?
- Assassinada? Isso não é forte de mais? Sabe, a minha filha quando nasceu também teve uma fractura do crâneo. Fui ler a literatura e isso é frequente. Um parto não é inóquo, embora se pense que sim. Se houve ou não negligência? Espero que os tribunais decidam. Mas uma coisa lhe garanto: quando o obstetra utilizou os forceps, não foi com intenção de matar... E sabe, não leu bem, refiro-me a três obstetras: dois do Amadora-Sintra e um de Mirandela.


Tal como lhe disse, o tempo em que o pessoal se calava já lá vai...
- Estou de acordo consigo: esse tempo foi com o 24 de Abril.

A partir de agora é preciso muito cuidado... muito mesmo, porque até a agressões a médicos, e não sei se pior, iremos assistir.
- Já assistimos. Ainda você andava de cueiros e já uma médica era assassinada em Abrantes por se recusar a passar uma baixa. E outros casos já houve. A nossa profissão é uma profissão de risco. Já o sabemos desde que há doentes psiquiátricos. Com as provocações da campanha dos media, a tendência agravar-se-á. Não tenho dúvidas.

É que não se pode brincar com a vida das pessoas, está a ver?
- Exactamente. Não se pode brincar. Com excepção da fome, como em África, das guerras como a do Iraque, da pobreza, como em Darfour, da pedofilia, como na Casa Pia, da exploração de homens, mulheres e crianças, como faz o capitalismo selvagem, os bancos e as seguradoras que nos exploram até ao tutano...

Bom fim de semana.
Também para si. O meu será a trabalhar 24 horas em 48 horas. Trabalhar? Talvez não. Os médicos não trabalham ... porra! Assassinam, matam, estropiam, gozam com as pessoas, usam-nas, negligenciam, erram! Todos. Mudemos todos para os alternativos...

sábado, novembro 20, 2004

SPOG

Na mesma semana em que o presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Ginecologia (SPOG) afirmava do alto da sua cátedra que as grávidas não eram convenientemente assistidas a nível dos cuidados de saúde primários (venham ao meu consultório, venham, deveria estar ele a pensar...) a Inspecção-Geral da Saúde e o Ministério Público deduziam acusação contra três colegas obstetras do sr presidente, por negligência médica grave, da qual resultou a morte de dois lactentes.


Acusar os médicos que trabalham nos mais de trezentos centros de saúde espalhados por Portugal é uma acusação injusta e infundada.


A opção da grávida é lei, e se uma grávida optar por ser assistida no Hospital CUF-Descobertas, em Lisboa, outra optará por ser seguida pelo seu médico de família em Unhais da Serra, para onde nenhum obstetra se decidiu mudar de armas e bagagens.


O sr presidente da SPOG que se preocupe em melhorar a qualidade da assistência hospitalar às grávidas, porque numa semana três obstetras condenados num país tão pequenino, é obra e deixe os médicos de família em paz, estes sim, distribuídos pelo Portugal profundo.


Estou plenamente de acordo com o encerramento de maternidades que apenas servem os interesses pessoais de quem lá trabalha - são as famosas quintas.




Peço Desculpa Aos Leitores...

Mas eu também fui enganado pela desplicência dos nossos jornalistas. (Alguns. Não quero generalizar como a comunicação social, em relação aos médicos).

Desplicência? Não. Negligência, má-prática jornalística, ultrapassagenm da legis artis, desprezo para com o público consumidor de notícias.

A TSF on-line em 19/11/04 feriu-nos os tímpanos e encandeou-nos a íris com a "dealdrina".

E eu acreditando na boa fé da rádio de referência e na competência dos seus jornalistas, confiei que seria dealdrina, o pesticida da moda, o mediático.

Mas não. O nome está incorrecto. Diz-se DIELDRINA.

Mas como não espero que a TSF peça desculpa a um seu ouvinte, peço eu desculpa aos leitores deste modesto blogue: dieldrina e não dealdrina.
Para os interessados:
Propriedades Físicas - A substância pura (também designada pela sigla HEOD) apresenta-se sob a forma de cristais brancos....
Propriedades Químicas - é um composto estável ao calor e à luz...
Aplicações - intervém como matéria activa na preparação de insecticidas...
Vias de Penetração - inalação, cutânea, ingestão...
Riscos - não é uma substância inflamável. .../... Devido à toxicidade dos fumos emitidos aquando da combustão as pessoas encarregadas da luta contra incêndio serão equipadas de aparelhos de protecção respiratória, autónomos e isolantes. Após um período latente de 20 minutos a 24 horas as intoxicações agudas manifestam-se por contracções musculares que podem dar lugar a um coma convulsivo, por vezes precedido de cefaleias, vertigens, náuseas vómitos e diarreia (sobretudo depois de ingestão). .../... provoca ligeira irritação da pele e das mucosas que é muitas vezes reforçada pela presença dos solventes; estes últimos, bem como os óleos vegetais, favorecendo a absorção da dieldrina, aumentam a sua toxicidade. A exposição prolongada à dieldrina, entre outros sintomas, pode dar origem a irritações brônquicas, a dermatoses, e lesões hepáticas e a perturbações do foro neurológico.
Medidas de Prevenção - Devido à toxicidade impõem-se severas medidas de prevenção...
Cuidados Médicos - Aquando da admissão, evitar expôr ao produto as pessoas portadoras de afecções neurológicas, hepáticas e renais ou de dermatoses crónicas. Em caso de projecções cutâneas ou oculares, de grande inalação ou de ingestão, alertar imediatamente o médico do trabalho.
(Mais em http://www.eq.uc.pt/~mena3/dieldrina.html)

sexta-feira, novembro 19, 2004

Dealdrina - Guerra de Tabaqueiras?

Segundo os jornais de hoje, a Direcção-Geral da Saúde "por uma questão de precaução, vão ser retirados do mercado os lotes de SG Ventil e SG Filtro, as duas marcas onde foi detectada a dealdrina, um pesticida cancerígeno".

Mas...

Não tem o tabaco mais de 4 500 substâncias químicas, das quais mais de 50 são cancerígenas?

Mais de 50 são reconhecidamente cancerígenas. Repito!

Ou será que o tabaco sem a dealdrina já não provoca cancro?

Mas, se é tão grave assim, a Inspecção-Geral de Saúde já abriu algum inquérito e o Mnistério Público já encontrou culpados por essa negligência? Ou não apareceram queixosos?

quarta-feira, novembro 17, 2004

17 de Novembro de 2004 - O Meu Dia Desde 1981

Dia Nacional do Não Fumador

terça-feira, novembro 16, 2004

Apagão Em Hospitais: Erro Médico, Erro Em Medicina, Erro de Quem?

O blogue Causa Nossa publicou um bilhete transcrito de um e-mail assinado por T A Fernandes com o título ""Apagão" em hospitais" e inserido em 8 de Outubro por VM, mais conhecido por Vital Moreira, e mais conhecido ainda entre os médicos pelo ódio que nutre pelos mesmos (segundo alguns dos seus inflamados artigos ... há uns anos foi um intransigente defensor do Pequito, que agora demonstrou o que na realidade é!) .

O TA Fernandes (que é engenheiro electrotécnico) teve a gentileza de me enviar recentemente um e-mail também sobre o assunto. Nele dizia que estava indignado, e que se tratava de uma negligência criminosa. Concordo com tudo.

Dizia-me ele que enviou também um e-mail de protesto para o Ministro da Saúde, para a Ordem dos Enfermeiros e para a Ordem dos Médicos.

Na resposta disse-lhe que também deveria enviar para a Ordem dos Engenheiros. Agora acrescento que deveria enviar também para o Sindicato dos Electricistas.

Na volta do correio, muito elegantemente TA Fernandes diz-me que não está contra os médicos, mas contra os gestores dos hospitais. Mas... os engenheiros electrotécnicos, Senhor?
Quem será o responsável por todos os circuitos de alta, média e baixa tensão num hospital?

Acredito na boa fé do TA Fernandes (já não da do VM, pois nem uma análise crítica fez ao e-mail!)

Mas o que me fez trazer aqui esta troca de e-mails é a cultura anti-médico que se vai instalando na sociedade: tudo o que corre mal nos hospitais ou nos centros de saúde é culpa dos médicos e dos enfermeiros.

Mas atenção: os médicos ainda são só médicos, embora cada vez mais dependentes dos engenheiros. De tensões altas e baixas, só as relacionadas com a pressão arterial. De circuitos, só as sinapses e os neurónios e outros circuitos semelhantes...

E é necessário cada um assumir as sua culpas.

Eu de electricidade só sei o que quer dizer on/off. E o que fazer quando está on ou off. E o que esperar que aconteça quando faço on ou off.
Maiii nada!

A Válvula Aórtica do Jornalista Fernando Oliveira Que Não Virou Juiz

A sua notícia no Jornal de Notícias de hoje é sobre a morte de uma doente ocorrida em 1999 em Vila do Conde e titula-a assim:

“Médico julgado por homicídio – Ministério Público sustenta que houve negligência no atendimento a doente que veio a falecer”

Sem dúvida uma notícia muito mais esclarecedora do que a do Comércio sobre o mesmo caso.

”O caso ocorreu às 22 horas do dia 3 de Novembro de 1999, quando Joaquina Maia deu entrada no serviço de urgência do Hospital de Vila do Conde, com dores de cabeça e vómitos. Era doente do coração, fez-se acompanhar de todos os medicamentos que tomava, mas apenas lhe foi diagnosticada uma enxaqueca.”

Teve alta três horas mais tarde, "porque já se encontrava consciente e colaborante". Menos de 48 horas depois, foi internada de urgência no serviço de neurocirurgia do Hospital de S. João do Porto, onde acabaria por morrer. "A doente apresentava o mesmo quadro clínico, cefaleia na nuca e vómitos, mas já sem consciência, porque a assistência médica prestada no Hospital de Vila do Conde não foi a adequada e só agravou o seu estado de saúde", lê-se na acusação do MP.

A afirmação do Ministério Público é muito polémica.

E mais polémica é quando diz:

“uma "simples auscultação" à paciente e verificar que tinha uma cicatriz de esternotomia mediana”

O Ministério Público demonstra que não sabe como se diagnostica uma hemorragia cerebral.

Já diagnostiquei muitas apenas pela clínica, incluindo a pesquisa de alguns sinais.

Um TAC hoje em dia certifica o diagnóstico.

Uma coisa posso dizer em 25 anos de exercício de medicina: nunca diagnostiquei uma hemorragia cerebral por auscultação cardíaca e visualização de esternotomia mediana.

Não passo cheque em branco a ninguém, nem tão pouco ao "médico José Gonçalves Extremina, residente na Póvoa de Varzim, com 41 anos, e aguarda julgamento com termo de identidade", segundo o Jornal de Notícias informa.

segunda-feira, novembro 15, 2004

A Válvula Aórtida da Jornalista Márcia Vara Que Virou Juiz

A sua notícia no Comércio do Porto de hoje é sobre a morte de uma doente ocorrida em 1999 em Vila do Conde e titula-a assim:


“Homicídio involuntário por negligência médica é julgado dia 25 em Vila do Conde”


Depois de ler a notícia cheguei à conclusão de que quem vai ser julgado é o médico e o Tribunal com o seu Juiz é que vai considerar se houve ou não homicídio involuntário por negligência médica, mas a Márcia diz-nos que já foi julgado, só falta ler a sentença, embora só no dia 25 é que o julgamento se irá realizar.

Hoje são 15 de Novembro, faltam 10 dias.

Mas que confusão, será que a Márcia anda metida com o Juiz? E o julgamento já está feito? Será algum furo jornalístico?

Confusão…

Da notícia:

“Vómitos e tonturas” – quem não as teve pelo menos uma vez na vida!

"tratamento negligente que deu à mulher” – como se pode afirmar se a consulta não tem assistência.

“Manuel Maia quer "que se faça justiça, porque o médico não deu a devida atenção" à mulher. - idem idem, aspas aspas.

“violou os deveres gerais de zelo e lealdade” – afirma peremptoriamente o Ministério Público.

“a uma hemorragia cerebral” – doença geralmente aguda, geralmente fatal, também conhecida por AVC ou “genericamente trombose”.

"Manuel Maia diz-se "revoltado" – compreendo. Eu também ficaria com a morte de alguém próximo.

“um sentimento que, garantiu ao COMÉRCIO, "só vai passar quando o tribunal condenar o médico" – desejo de vingança.

“"Se ele a tivesse examinada em condições, hoje, a minha mulher ainda estaria viva", conclui.” – quem garante? As hemorragias são fatais muitas vezes.

“A audiência está então marcada para o dia 25 de Novembro, a partir das 9h30, no Tribunal de Vila do Conde” – apareçam, o espectáculo vai começar com a artista Márcia Vara e cobertura mediática do Comércio do Porto.

Conversas de doentes

(Este post estava em draft no Blogger desde 13 de Outubro. Chegou a hora de ver a luz do dia!)

Os doentes são os primeiros a criticar os médicos pelos seus erros. E ainda bem,
mostram espírito crítico, excluindo o aproveitamento dos media e os minutos de glória que proporcionam, a verborreia que debitam e o ódio que destilam.

Mas não aceito as críticas de associações de doentes quando são feitas de forma superficial e leviana e muitas vezes com objectivos ocultos, pois muitas associações de doentes estão enfeudadas à indústria farmacêutica (sim, não são só alguns médicos. Também há doentes a receber da indústria. Era mais uma boa investigação jornalística...) ou a lobies médicos (que também os há!).

Regra geral as críticas são dirigidas ao elo mais fraco da cadeia assistencial: os médicos que labutam nos cuidados primários e que tanto geram ódio, como amor.
Tanto se lê nos jornais que "não percebem nada do assunto", como se lê que se fazem manifestações para impedir a sua retirada de um determinado local.

Isto vem a propósito de umas críticas já antigas de uma associação de doentes diabéticos (Não a APDP!) que se insurgia contra o tratamento dos diabéticos nos centros de saúde ou qualquer idiotice semelhante.

Estas conversas ouvi na sala de espera, hoje:

Uma: Ah! Esqueci-me da levar a insulina.

Outra: Hoje tenho 400, ainda bem, quanto mais alto melhor!

Outro: Remédios, quantos menos melhor! Quero é para o cérebro!

Ainda outra: Andar? Que andem eles!

Isto reflecte a iliteracia dos doentes portugueses.
Essas associações poderiam investir no ensino directo com os seus doentes, poderiam investir em reuniões no Portugal profundo, em vez de se reunirem em hotéis, em vez de organizar grandes campanhas de publicidade que muitas vezes têm como objectivo apenas o consumo de medicamentos...
______________________________________________________

Ontem foi um dia qualquer ligado à diabetes. Pela notícia da SIC deveria ser o dia dos Adolescentes Diabéticos Que Praticam Equitação.

Após 12 horas dominicais de trabalho, nada melhor que ligar a TV e ouvir as notícias fresquinhas: e ouvi, mais doenças, doenças, doenças, doentes, queixas.
Preferi ver os golos do Sporting, não sem antes ter ouvido a SIC a falar dos tais doentes diabéticos tipo 1, que são pouquíssimos quando se fala de epidemia da diabetes, pois é uma referência à diabetes tipo 2.

Mas dizia a jornalista do alto do seu saber: vejam lá como os médicos são uns incompetentes, atém proibiram esta jovem diabética de fazer hipismo, (palavras minhas). Jovem da classe alta, com uma mãe toda loiroca, com as mãos calejadas pelo trabalho de agarrrar as rédeas de um lindo cavalo, com o hipódromo ao fundo.

Mais um golo do Sporting...

sexta-feira, novembro 12, 2004

Quem Morrerá Amanhã? Eu? Tu?

Ontem, um familiar meu, numa estrada de Portugal em mais um estúpido acidente de viação: amputação dos dois membros inferiores...


Sabe Catarina ...

A estrada mata, mas não as vamos fechar. (No reverso da medalha, dão lucro ao País!)

Os automóveis matam, mas não os vamos deixar de vender, nem deixar de viajar. (No reverso da medalha, dão lucro à industria!)

O tabaco mata, mas não se proíbe a sua venda. (No reverso da medalha, dão lucro às tabaqueiras!)

Os aviões matam, mas não deixamos de voar. (No reverso da medalha, dão lucro, lazer e negócios!)

Os erros médicos podem matar, mas não vamos fechar os hospitais, nem despedir os médicos. O que até nem era mau, uma reforma antecipada e no reverso da medalha salvam também muitas vidas.

Como sempre tenho dito, os mais preocupados com o erro médico, são os médicos. Nem sequer os gestores dos hospitais, nem sequer a Mello Saúde

quinta-feira, novembro 11, 2004

"Não percebi completamente este seu post:"

Ok Tiago.
Eu estou cá para explicar. Embora não seja um especialista na orgânica interna da Ordem do Médicos, se alguem me puder corrigir, agradeço.

"De: T A F
Data: Quinta-Feira, 11 de Novembro de 2004, 2:00
Para: medicoexplicamedicina@iol.pt
Assunto: Atraso da Ordem dos Médicos

Boa noite!

Não percebi completamente este seu post:
http://medicoexplicamedicinaaintelectuais.blogspot.com/2004/11/estarei-com-mania-da-perseguio.html

Eu não conheço o caso, mas afinal há ou não há atraso da Ordem dos Médicos? [Claro que não!]

Houve algum atraso ou falta de iniciativa do bastonário? [Claro que não!]

Houve algum atraso ou falta de iniciativa do Conselho Disciplinar? [Claro que não!]

Era obrigatório que os pais apresentassem queixa [Claro que sim!]
ou a iniciativa poderia ter partido da própria OM? [Claro que só se houvesse alguma denúncia concreta e factual!]

Era preciso esperar pelo relatório da IGS? [Claro que sim, se não houvesse outra qualquer denúncia!] [Claro que sim!]

Estas não são perguntas de retórica, são dúvidas sinceras. Não tenho qualquer opinião formada sobre o caso.

Os meus cumprimentos.
--
taf@etc.pt
http://taf.net/ - http://taf.net/opiniao/
http://porto.taf.net/ - http://7arte.net/
"
O Conselho Disciplinar só se pronuncia após os orgãos dirigentes lhes enviarem os processos.
Os processos só são abertos em caso de denúncias, quer por particulares individuais, quer por instituições, quer pelo poder da IGS ou Tribunais.
Presumo que num caso de proporções nacionais e mediáticas a Ordem do Médicos pode abrir um inquérito. Se fosse abrir inquéritos a todas as notícias da TVI...

O Blog do João Tilly Ensandeceu?

Espero que não! Mas aquela dos 45% das mortes hospitalares se deverem a erros médicos, preciso de confirmar. Mas também é verdade que ninguém fala dos milhões que saiem dos hospitais curados...

Mas como vou a caminho de uma negligência hospitalar e provavelmente vou matar mais um por erro médico, logo, depois de um turno de urgência, após um bom jantar com um bom vinho, numa bela Pousada (a minhas expensas!) vou ter calma e discernimento para ler os últimos bilhetes do amigo João Tilly, ainda magoado pela morte de um familiar.

Se o João Tilly fizesse uma ligeira pesquisa veria que somos a única classe que se dedica a estudar e investigar os seus próprios erros, porque sabemos que deles depende a vida ou a morte. Nos Estados Unidos da América do Norte há dezenas de anos que se estuda para diminuir e prevenir o erro médico. E apesar disso há erros, e ainda muitos.

Os erros de um professor? Quais são? Um aluno que não aprende e que chumba. Será um erro? Claro que não. Mesmo que o professor passe a aula ao telemovel.... e o ano de atestado médico em atestado médico, para justificar aquilo que nenhum médico pode atestar: um enxaqueca levada da breca, uma depressão do caraças, uma cólica renal ontem e onteontem e amanhã, uma lombalgia ou "dor de rinses", ou muitos outros sintomas subjectivos não visualizados e como tal não quantificados. Mas os médicos dão o benefício da dúvida e atestam. Tem bom coração. Não duvidam nunca dos outros, ao passo que os OUTROS estão sempre a duvidar dos médicos...

Os erros de um jornalista? Quais são? Umas noticias erradas. Ou até inventadas? Mas que interessa, esconde-se atrás das fontes.

Mas nós não. Temos uma poderosa Inspecção Geral da Saúde sem médicos, só com juristas, temos uma Ordem dos Médicos forte e responsável e temos toda a comunidade de olho bem aberto...

Arafat? Arafat morreu por negligência médica. E até sem um diagnóstico, já viram. Que maus médicos, os franceses...

quarta-feira, novembro 10, 2004

Estarei Com A Mania Da Perseguição?

Sobre o mesmo assunto o governametal e ex-jornal de referência Diário de Notícias, informa: a Ordem dos Médicos só agora vai instaurar o processo, mesmo depois do jornalista colher informações na origem.

Mas a notícia que querem passar é, de facto, o "atraso da Ordem dos Médicos".


"O Conselho Disciplinar da Ordem dos Médicos, por seu lado, só agora vai instaurar um processo de inquérito para apurar responsabilidades. Segundo explicou ao DN, o presidente do conselho, Freire Andrade, esta decisão tardia tem a ver com o facto de o relatório da IGS «só nos ter sido enviado ontem pelo sr. bastonário e também porque os pais nunca nos apresentaram qualquer queixa directamente»".

Ordem Processa Médicos!

Para aqueles que nos consideram corporativos ou a Ordem dos Médicos (com todos os defeitos que tem...) como uma corporação onde tudo se esconde leiam a notícia do Expresso on-line
"Ordem processa médicos
Morte de criança no Hospital Amadora-Sintra
As conclusões da Inspecção-Geral de Saúde sobre a morte de uma menina no Hospital Amadora-Sintra em Janeiro, «indiciam má prática médica». O relatório chegou agora ao conhecimento da Ordem dos Médicos, que garante abrir um processo disciplinar aos clínicos responsáveis.
Os médicos envolvidos na assistência à criança vão ainda ser processados disciplinarmente pelo próprio hospital, como recomendaram os inspectores da Saúde. O relatório foi também enviado para o Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa, que já abriu o respectivo inquérito.
A menina de dez anos entrou no hospital no dia 9 de Janeiro para ser submetida a uma cirurgia do foro otorriolaringológico (extracção das amígdalas), mas não acordou no final da intervenção. Entrou em coma profundo, acabando por falecer
."
Também é uma alerta para todas aquelas mãezinhas e papásinhos que não descansam enquanto não mutilam seu filhos por espirrarem de mais ou pingarem sempre do nariz quando entram e permanecem nas creches ... geralmente na privada, porque nos hospitais públicos faz-se apenas o necessário.

domingo, novembro 07, 2004

Particularmente sensibilisado

Poderia listar as dezenas de e-mails e dos seus correspondendes emissores que me sensibilizaram com a sua preocupação quanto ao estado de saúde de quem não conhecem.

É engraçado. Desejarem melhoras a uma figura anónima desta interessante atmosfera, difícil de definir.

Eu sou anónimo. E quero continuar a sê-lo.
Isto é, não sou ninguém para quem me lê. Mas eu sei quem sou.

Como sei quem sou, é interessante receber e-mails do João, do Armando, da Catarina, da Isabel, do Joaquim, do Al, do Manuel, do Mário, do Alexandre, do Marco, da Carla, do Francisco e de muitos outros, anónimos e não anónimos.

Mas posso confirmar que não estive doente, mas senti-me doente. E quando um médico se sente doente tem muitas doenças por onde escolher. O catálogo é inesgotável.

Deve ser o doente mais chato para os outros médicos.

Lá tive que me sujeitar a acareações, intervenções, manipulações e outras investigações e o raio dos médicos não me encontraram nada.

Fica aqui escrito: se daqui a 5 anos tiver um cancro qualquer, solicitarei uma indmenização por má prática clínica.

Com tantas queixas que eu tinha, com tantos tubos que me introduziram, com tantos exames que me obrigaram a fazer, não encontraram nada. Nada que eu pudesse vender à TVI.

Mas senti-me na obrigação de convalescer!
Ninguém acreditou em mim: eu estava doente!
Como me augurava uma leitora: "deram-me uma palmadinha nas costas e disseram que não era nada."

Até acredito.
A mente por vezes não acompanha o corpo.
E a minha mente, depois de tanta desgraça observar, depois de tanta injustiça acompanhar, depois de tanto cadáver espiar e de tanta vida socorrer, depois de tanta vida ver desaparecer, depois de tanta morte tentar impedir, faliu. A minha mente faliu, fraquejou, ressentiu-se. Foi-se...

Só espero depois de tanto procurar uma doença sentida, não venha a morrer na estrada, como ainda hoje um cadáver me passou pelas mãos... Paz na Estrada! Bolas. Vou adoecer outra vez!

sábado, novembro 06, 2004

Vendedores de Esperança

A frase não é minha, mas poderia sê-lo.
Pertence a Nuno Lobo Antunes que na revista Lux escreve "Quando a doença atinge as crianças, a televisão e os jornais fazem notícia do desespero, e aliviam a sua má consciência publicitando intervenções de eficácia mais do que duvidosa, ou promovendo tratamentos 'no estrangeiro'".


Isto a propósito da golfinhoterapia, cartilagemdetubarãoterapia, cavaloterapia ou azinoterapia e outras alternativoterapias ou mesmo "os milagres realizados por fisioterapeutas em Cuba".

A Convalescença Continua, A Manipulação Para A Rua!

Se continuar a ler o Expresso terei certa recaída.
Será a minha altura de ser indemnizado pelo mal que me fez ler notícias manipuladas.
Refere esse pasquim que:
"A PFIZER, empresa farmacêutica que comercializa o Viagra, lançou uma campanha pública de sensibilização para o tratamento da disfunção eréctil, que em Portugal afecta cerca de 500 mil homens, dos quais apenas 31 mil são medicados. A campanha «Estou de Volta» tem um público-alvo transversal. Apesar de a disfunção eréctil afectar sobretudo homens com mais de 45 anos de idade, o problema não é apenas consequência do envelhecimento, podendo ter outras origens. O Viagra foi o primeiro medicamento inovador contra a impotência a ser lançado no mercado internacional ..."
Quanto valerá uma notícia na primeira página do Expresso?
Será que a inclusão desta "importante" notícia foi inocente?
Notícia que, segundo o mesmo pasquim, interessará a menos de 2% dos portugueses, notícia de transcendente interesse mundial, relacionada com o futuro da humanidade, com as mais importantes decisões para o equilíbrio geo-estratégico do mundo...
Será que esta notícia não fará parte da própria campanha do laboratório para provover o Viagra? E se for verdade, quanto renderá o negócio?
Mais uma vez fomos manipulados pelos interesses económicos da indústria farmacêutica e dos media.

Ressuscitado Pela Desonestidade Jornalística do Expresso

A "convalescença" foi abreviada pela desonestidade intelectual do pasquim que dá pelo nome de Expresso.

O Expresso já foi o EXPRESSO. Hoje é apenas mais um jornal que manipula a seu belo prazer os seus leitores.

Na sua primeira página de hoje, fala-se de ERRO MÉDICO.

Já várias vezes referi que o erro médico é uma preocupação frulcal da classe médica e de cada médico em particular. Assim como serão para as outras profissões (assim o espero!) os seus erros. A grande responsabilidade de se trabalhar com a vida e a morte, individualmente, "face to face" e diariamente, transforma o problema do erro humano num grande problema. Não se pode comparar a morte à privação da liberdade por 10 ou 20 anos, por um mero erro judiciário.

O livro que o expresso divulga foi escrito por médicos e baseado numa extrapolação de outros estudos europeus para a nossa realidade. Assim se chega ao número de 3 000 mortes por ano. Mas como decidiu o desonesto expresso intitular a notícia na sua primeira página? Assim:
"3 000 mortes por incúria"
Todo o desenvolvimento da notícia desmente o título. A merda do Expresso propositadamente manipulou-me e a todos os que o leram.
Fui ao dicionário para comparar os significados:
Incúria - Descuido, desídia, desleixo, desleixamento, desmazelo, desazo, relaxação, relaxamento.
Erro - engano, incorrecção, desacerto, equivocação, equívoco.
Mais palavras para quê?