segunda-feira, dezembro 01, 2008

Do Lado Da Doente: Houve Erro de Diagnóstico.

Gosto de ler estas notícias do Correio da Manhã sobre os minutos de fama que paga a quem lhe denuncie casos de eventual negligência médica.

São notícias que se sobrepoem linha por linha, dia a dia.

Os médicos, para o Correio da Manhã, nunca erram. São sempre negligentes…

Agora as baterias abatem-se sobre Strech Monteiro, conhecido obstetra.

Lendo a notícia, fácilmente se compreende que não foi diagnosticada uma infecção no pós-operatório, nosocomial e portanto sempre com bactérias muito mais resistentes aos antibióticos.

Mas gostava de conhecer as razões científicas que levaram à cesariana. Foi pressão da mãe? Pressão do médico? Inevitabilidade científica?

Foi um risco que se correu. Fica a dúvida…

Ah, e mais um erro: nãe é “histeroctomia” mas histerectomia…

Também é giro como o jornalista, transforma um drama e tragédia em história de amor sentimental. Ah grande  João Carlos Malta.

 

Eis a notícia:

“Bragança - queixa apresentada à Inspecção-geral das Actividades de Saúde

Negligência pós-parto deixa mãe internada

Rodrigo tem seis meses e nos primeiros tempos de vida pouco pôde estar com a mãe, Filipa Madeira. A jovem, de 26 anos, deu à luz em Maio, e desde então tem estado quase permanentemente internada, segundo ela devido à negligência dos médicos no Hospital de Bragança. Actualmente, está na Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital de Santo António, no Porto, e não há data prevista de alta. Só uma certeza: não poderá ter mais filhos.

Há uma queixa enviada em Junho à Inspecção-Geral das Actividades de Saúde (IGAS), estando a decorrer um processo de averiguação.

O calvário de Filipa começou depois do parto de cesariana, altura em que foi transportada para enfermaria cheia de dores, o que a impedia de pegar no filho ao colo.

Quatro dias depois entra de serviço o médico Strecht Monteiro, que lhe dá alta de imediato. Na queixa ao IGAS, a jovem descreve a situação da seguinte forma: "[...] arrancou-me o penso e, sem me fazer qualquer desinfecção, disse-me que a ferida precisava de andar ao ar e... que aquilo não era nenhum hotel. Já estava a fazer muita despesa ao Estado e que era melhor ir embora porque se me acontecesse alguma coisa deixava de ser responsabilidade do hospital".

Fez 80 quilómetros até casa, em Vila Flor, onde um dia depois teve de ser assistida porque a febre não passava. Foi-lhe diagnosticada uma infecção na ferida da cesariana. O antibiótico que lhe foi receitado de nada serviu.

Dois dias depois volta ao Hospital de Bragança, ainda com febre, e "a Dr.ª Adelaide Abrantes, de urgência, ordenou à enfermeira que fossem retirados os agrafos e começaram a espremer, abrindo-me a ferida, para que o líquido saísse, e colocaram-me um dreno. Sofri muito ao ponto de gritar".

A jovem afirma ter estado quatro dias "com a barriga aberta", sem realização de qualquer exame. Ao fim de quatro dias é operada, mas a dimensão da infecção já era muito grave. Teve remover o útero.

Contactada pelo CM, fonte do Hospital de Bragança afirmou estar a colaborar com o IGAS para o "esclarecimento da verdade".

"QUERIA VER O FILHO A CRESCER"

"Além de todo o sofrimento a que tem sido sujeitada, Filipa desejava, sobretudo, ver o filho a crescer. Até ao momento teve poucas oportunidades para estar com ele", disse ao CM o marido, Vítor Pereira.

A situação clínica da mulher levou também a que Vítor mudasse a sua vida, mas o pior é em muitas situações ver o desânimo da esposa. "Às vezes está mais deprimida, outras encontro-a com mais força", disse.

A revolta do marido de Filipa fica-lhe estampada na face quando relembra o tratamento dispensado à esposa no Hospital de Bragança. "Quatro dias, sem que lhe fizessem nada, nem um exame. Se fizessem um trabalho sério, isto não atingiria as proporções que está a ter agora, com seis meses de sofrimento. Nunca me disseram porque é que não a operaram logo", afirmou Vítor Pereira.

SEM DATA PREVISTA PARA A ALTA

Após a histeroctomia — remoção do útero – esteve até 25 de Maio nos Cuidados Intensivos em Bragança. A situação começou a agravar-se cada vez mais e foi transferida para o Porto. " A minha vida estava em risco, fui numa ambulância do INEM acompanhada por um médico e anestesista, fui entubada, pois estava com problemas respiratórios e com anestesia geral para que pudesse fazer a viagem", descreveu na queixa à IGAS. Desde aí já teve de ser submetida a três intervenções cirúrgicas.

Até Setembro passava quinze dias no Hospital e quinze em casa, mas nessa altura apanhou um outro vírus e a infecção levou outra recaída, que lhe afectou os intestinos, os rins e os pulmões. Voltou ao internamento na Unidade de Cuidados Intensivos e ainda não tem data prevista para a alta.

 

João Carlos Malta”

23 comentários:

Anónimo disse...

Um verdadeiro hino à charlatanice jornalistica de fazer chorar as pedras da calçada !
Será que a jovem mãe faz mesmo as declarações que são reproduzidas?
Será que o obstetra faz mesmo aquelas afirmações dignas de figurarem no compêndo de como poupar $$$ ao Estado?

Anónimo disse...

Olá
Procuro a verdade e a certeza dos factos. Em tempos idos procurei em Évora e em Lisboa a devida atenção para tratamentos de saúde oral. Porque fui obrigado a esperar 11 anos para começar a tratar devidamente os dentes, padeço actualmente de severos danos físicos irreversíveis para o resto da vida.
Não me resigno e quero que o caso não seja esquecido; se porventura tiver interesse em saber da minha penosa vida à procura de tratamentos e ser sistematicamente negligencia, tanto pela ARS do Alentejo como pelos Serviços Médico-Universitários de Lisboa, veja o meu relato neste endereço: http://meusorrir.blogspot.com/
Fico muito agradecido por toda e qualquer ajuda que possam levar à justiça os culpados que negaram-me os tratamentos que na devida altura procurei ter; porque, apenas e tão só, quero que essas pessoas que deviam ter-me prestado ajuda e tratamento passem a ter as mesmas condições de vida, em termos de saúde oral, que eu hoje tenho e que vou ter até ao resto da minha vida.
Qualquer ajuda que possa contribuir para identificar essas pessoas será bem vinda; podem escrever-me para tempogero@mail.com
Se necessário levarei o caso ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.
Bem-haja.

India disse...

Boa tarde,

infelizmente conheço bem tanto o médico como o jornalista em causa e não me causa espanto nenhum que o médico tenha produzido aquelas declarações, conforme foi dito pela mãe. É muito triste ver como os médicos sempre se defendem e como gostam de ser irónicos com o trabalho dos outros e com os dramas dos outros, sim, porque eu gostava de ver como é que o senhor responsável do post se sentiria se fosse com ele.... Além disso, um erro negligente de um médico pode ter graves consequências. Escrever mal um termo técnico, que eu saiba, não produz consequência nenhuma. Mas os senhores podem sempre ser negligentes não é verdade? Vêm para aqui levantar questões como "quem será que aconselhou a cesariana", a insinuar que provavelmente foi a mãe, e que tivesse sido? então os senhores doutores não têm formação suficiente e adequada para indicar quando é que deve ou não ser feita uma cesariana? Meus amigos, não há desculpas. Isto aconteceu num hospital público e acontece vezes demais. Espero que a Inspecção Geral de Saúde faça justiça, pelos transmontanos que aqui insistem em viver,

sombra e luz disse...

Não sei que se passou com este caso, mas há qualquer coisa errada no facto de acusarem de incúria e insensibilidade um médico como o Strech Monteiro...

Por duas vezes tive o previlégio e a sorte! de conferir e registar na carne e na alma o imenso profissionalismo e humanidade do referido clínico...
impossível ele comportar-se como essa besta que aí vem referida no artigo... poderia jurar!...

Negligências há muitas mas desse médico, não acredito.

India disse...

pois, mas nem sempre as pessoas se comportam como esperamos e infelizmente não me admiram nada atitudes destas, aliás, muito frequentes por parte dos profissionais de saúde para com os doentes. É óbvio que uma pessoa doente sstá fragilizada e leva tudo um pouco a "peito" mas a falta de sensibilidade e humanismo por parte destes profissionais continua a ser uma óbvia e gritante lacuna da sua formação. Eu tenho profissionais de saúde na família e eles próprios admitem já se terem comportado de forma menos "humana" mas sentiram o mesmo na pele quando foi com eles ou/e com os deles.... aliás, o melhor exemplo que eu vi foi o da minha avó: deu entrada na urgência de Bragança com um enfarte e o diagnóstico foi "problemas de estomâgo". Depois de três idas à urgência, o tal familiar profissional de saúde acompanhou-a e pediu um electrocardiograma. Resposta do médico que estava no turno: "vou fazê-lo mas porque somos colegas, porque a senhora não tem nada. Mas faço às suas custas, vai pagar o exame". Foi com esta má-vontade que o exame foi feito, como um favor a um colega de profissão. Os resultados do teste foram estes: transportada de urgência para o hospital de vila real.
Mas ficam sabendo que por mim nesse dia não era apenas uma pessoa que ia para vila real de urgência....

NA disse...

Infelizmente vejo-me obrigado a concordar com o(a) india. Os médicos muito raramente admitem os seus erros. E gostam muito da ironia como se viu neste post. Tão eruditos para umas coisas - como erros ortográficos - mas depois fazem tantas asneiras na prática clínica. A verdade é que gostam muito de dizer que eles é que sabem de medicina (o que é, obviamente verdade), mas depois quando a coisa dá para o torto também muito facilmente dizem que foi por pressão do doente. Caramba! Os médicos não são nenhumas meninas indefesas. São uma classe que cultiva o elitismo e que não se deveria escudar em pessoas - regra geral leigas na matéria - quando as coisas correm mal. Os médicos não são paus mandados. Têm autonomia e conhecimentos técnicos que os deveria impedir de cometer erros grosseiros que é sabido que, apesar de nunca os admitirem, cometem amiúdes vezes. Quanto ao facto de por ser o médico X ou Y não poder errar... Só não erra quem não faz. O problema não é errar. "Herrar é umano." O problema é negligenciar e sacudir sempre a água do capote. Talvez fizesse falta em Portugal sites como há nos EUA, por exemplo, em que as pessoas avaliam médicos e deixam testemunhos sobre os mesmos. Cumprimentos, NA.

Medico Explica disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Medico Explica disse...

não é ilitreracia, mas iliteracia (palavra que nem existe em dicionários portugueses...)

Medico Explica disse...

Parece que os comentadores India e NA são iliteratos. O fim deste blog é precisamente combater a iliteracia. Não sei se são iliteratos ou se já estão, também, cegos com a cultura anti-médico prevalecente nos intelectuais. Meus caros, "atão" eu não encimei o post com o título "do lado da utente"? Sabem o que isso quer dizer? E depois não digo que houve erro médico? Negligência apurará ou não a IGAS.
E se tiverem paciência de lerem os post antigos, até eu já aqui confessei que errei.
Todos erram, já sabemos. Desde o canalizador até ao piloto de aviação, passando pelos médicos. E se há alguma profissão que mais tem feito, através de estudos científicos e de práticas para combater aquilo que é inevitável (erro humano) tem sido a Medicina. Outra coisa que combato é o aproveitamento mediático desses mesmos erros, que conduzem invariavelmente à procura de os esconder. Nenhum profissional, qualquer que ele seja, gosta de ver os seus erros em praça pública. Essa é outra questão, do foro da psicologia. Meus caros, então não tenho o direito de perguntar porque se fez a cesareana? Uma coisa posso garantir: se não tivesse havido cesareana, não tinha havido infeção provocada pela cirurgia, pois parece que foi o que aconteceu...

Para si India: casos como os seus acontecem às dezenas, mas posso-lhe garantir que são mais os ECG que se fazem que estão negativos do que o contrário. Já aqui disse também várias vezes que as idas às urgências, presentemete são um perigo de saúde pública...

Sara disse...

Há uma grande máxima na medicina e afins que explica muito bem este fenómeno: "O que é comum é comum, o que é raro é raro". Já imaginaram se a todos os doentes admitidos nos SU se realizassem estudos analiticos, ECGs, TACs (como tantos pedem)...enfim...Vejam as estatisticas das triagens nos SUs por este país fora e vão perceber muita coisa;)

Anónimo disse...

O problema é que quando o raro acontece e não foi detectado, o doente vem para os jornais acusar que foi mal tratado ou mal avaliado ou negligenciado e os jornais insinuam que essa é a realidade e a pratica diária passando uma imagem que os medicos são profissionais insensiveis que não querem saber dos doentes e se estão a borrifar para a Medicina... mas isto é como tudo... qdo cai um aviao e se fala nisso durante 1 semana parece que andar de avião é a coisa mais arriscada do mundo... e ninguem se lembra dos milhares de situações que correm bem e funcionam... essa é que é a verdadeira pratica da Medicina, infelizmente nunca mencionada nos tabloides

MIa disse...

O que acho incrível é que alguém que seja formado em medicina não se compadeça com o sofrimento físico do ser humano. E se fosse a sua filha naquela situação?
Talvez pensem que essa frieza vos torna melhores médicos mas é ela que vos impede de "olhar com olhos de ver" um cem número de situações.
Desconheço se a vossa Ordem vos faculta aulas de deontologia mas se não, deveria. Não é por causa de noticías desta que a classe médica é mal vista.Por incrível que pareça 9 em cada 10 pessoas tem uma queixa semelhante a esta para contar. "Porque não são médicos" dirão voçês. "Porque não são bons médicos" digo eu. Como uma vez já referi aqui não é legítimo que a qualidade de um serviço seja medida por quem o presta mas sim por quem o recebe e neste momento o "cliente" está insatisfeito. Se calhar era uma boa altura para admitir que algo de muito errado se passa com o Vosso procedimento.
O facto de terem "a faca e o queijo" na mão; uma ordem que é simpatizante com a negligência grosseira e uma lei benevolente, permitiu a proliferação de médicos arrogantes e desleixados. (Ressalvo aqui, as honrosas exepções).

Um médico que não se preocupa e que dê o tipo de resposta que foi dado a essa senhora até pode ter tirado 300 mestrados nos Estados Unidos e um Doutoramento em Coimbra não inspira confiança.

Mia disse...

E duvido que os 9 em cada 10 insatisfeitos tivessem uma doença rara...

Psiquiatra da Net disse...

Pois, Mia... 9 em cada 10 pessoas tem uma história dessas para contar... e os médicos levantam-se todos os dias de manhã, a pensar: "Quem é que eu vou matar hoje? Deixa cá ver, o sr. Arlindo? Não, esse é um tipo porreiro... Ah, pode ser a D. Berta... Ela até cheira mal dos pés... Além disso, já deu ao Mundo 9 filhos e já viveu tempo que baste..."

Aliás, se pegarmos na mesma amostra, calculo que essas 9 em cada 10 pessoas digam mal de todos os canalizadores, pedreiros, advogados,farmacêuticos, professores, bate-chapas, pintores e juízes com quem se cruzam... já para não falar nos restantes funcionários públicos, "essa corja que nos suga o dinheiro dos impostos"...

Aliás, aqui para nós, que ninguém nos lê, acho que o problema, a culpa de tudo, mas mesmo tudo (até dos atentados em Bombaim) é da ordem dos bate-chapas... Eles é que não dão formação...

Agora sem ironia...
É muito precipitado tirar qualquer tipo de conclusões sem ouvir os vários lados da questão. Ainda mais, concluir liminarmente que se tratou de "negligência"... Já agora, quem é que será a pessoa em melhor posição para julgar de que forma é aplicada a legis artis? Será um jornalista do Correio da Manhã? Será um jurista na IGAS? Ou será um médico do Colégio da Especialidade da Ordem?

NA disse...

Tudo bem que sou um iliterato. Já dizia o outro: todos somos ignorantes, apenas o somos em diferentes matérias. É óbvio que se pode perguntar o q se queira: pq é q houve cesareana; pq é q o sol é quente e está lá em cima; e pq é que a água é molhada? Agora caro MEMAI, perdoe-me mas acho que está a ser um snob arrogante. Eu próprio o sou, admito, mas o caríssimo está certamente também a sê-lo. A ser médico, no mau sentido da coisa. Estarei cego? Quiçá... Serei iliterato? Sou. Mas olhe que não sou o único que está equivocado. Quanto aos muitos exames feitos que são negativos e aos que não são feitos e deveriam ter sido, parece-me que há um problema a nível técnico, da parte dos médicos. Isto, visto de fora, parece revelar q os médicos não sabem bem que exames complementares de diagnóstico devem ou não pedir, especialmente dos SU. Visto de fora, repito. Cumprimentos, NA

Medico Explica disse...

Caro NA
Para se saber que exame se deve pedir, é preciso conhecer a sua especificidade, a sua sensibilidade, o valor predictivo, e outros parametros.
E digo-lhe mais: um conhecido meu, na casa dos 50, fumador, com seguro de saúde, decidiu ir para o ginásio. Consultou o melhor cardiologista, fez n exames. Tudo negativo. Uns meses depois, mesmo no ginásio, teve um enfarte! Sabe porquê? Porque apesar de ter todas as coronárias entupidas, havia uma coronária estúpida que dava o sangue suficiente para todo o coração. Até que essa decidiu também entupir durante um exercício no ginásio. Fez cateterismo na mesa da operação e só lá é que se revelou isto. Que me diz? Negligência? Erro? Azar? O cardiologista seria um bate-chapas? Nada disso, porque exames com 100% de sensibilidade e especificidade não há... Agora já vê, caro faramacêutico porque erram os médicos.

NA disse...

Caro MEMAI, percebeu bem que eu não critiquei o facto de os médicos errarem ou não. Claro que erram. Como erram os farmacêuticos. Como erram os bate-chapas. Como "erram"/induzem em erro os exames. O que critiquei, e critico, é a arrogância que parece estar adsorvida na classe médica (sim, sei que estou a generalizar e isso é má política). O caro médico deu-me um exemplo de uma pessoa que fez todos os exames, o cardiologista "autorizou-o" a ir para o ginásio e teve um desfecho menos bom. Diz-me q tal pessoa fez n exames. Poder-lhe-ia perguntar: será que foram os adequados? Acredito, sem pingo de ironia, que foram, e q o médico não foi negligente. Tem toda a razão, regra geral, ao aumentar a especificidade diminui-se a sensibilidade de um método analítico (e vice-versa). Terá sido azar, certamente. E repito que o digo sem qq ironia. Mas a verdade é que tal como acontecerão milhares de casos semelhantes a este, em que a culpa não é de ninguém (talvez o paciente devesse ter tido um estilo de vida mais saudável), porque a Ciência ainda não é perfeita; haverá tantos outros em que há erros e negligência. A culpa muitas vezes é dos jornalistas, também leio coisas que me dão arrepios e q mais parecem de uma edição de dia das mentiras, mas os médicos (como classe) QUASE nunca admitem que cometem erro ou negligência. E QUASE sempre são muito arrogantes no que toca a esta questão. Concorda comigo ou estou assim tão errado? Como bem afirmou, não serei tão letrado como o MEMAI, mas caramba, também não me acho completamente idiota. Cumprimentos, NA

Medico Explica disse...

Caro NA, veja a resposta no post.

Mia disse...

Médico:

Acredito que não acordam com a diposição de matar mas acordam com a disposição venha lá outro, vamos despachar isto e com sorte nenhum vai morrer pelo raio da minha disposição menos diligente.

Pelo menos é isso que as "vossas" (sem querer generalizar e generalizando) atitudes e conversas deixam transparecer.


Essas 9 até podem ter más experiências com o canalizador e ter a casa inundada, pedreiros e a casa mal estucada, advogados e estarem presos, farmacêuticos e não terem metadona, professores e chumbaram o ano, pintores e a casa meter dó, bate-chapas e estar a pagar um carro novo, juizes e sentirem-se injustiçados, mas se tiverem uma má experiência com um médico ficam afectados na integridade física. Não foi só a mente e a carteira, foi o corpo, instrumento de sobrevivência, que sofreu.

Não existe nenhuma outra profissão que implique maior responsabilidade.

Voçês tem a vida das pessoas nas mãos caramba. Da mulher que nunca será feliz se não for mãe e que ficou sem ovários, do homem que por causa de um dignóstico errado andou toda a vida cansado, do senhor de idade que mandaram para casa porque tinham muitas camas ocupadas e morreu, da que pensava que não tinha cancro (por causa de uns exames errados)e contraiu divídas mas que não vai poder trabalhar, da que pensava que tinha e fez as partilhas em vida e afinal ainda vai ficar muito tempo por cá...

Enfim, tenho de acreditar que os Senhores têm consciência do que as Vossas acções podem manter uma situação de sofrimento, melhorar, piorar ou até mesmo acabar com a vida de uma pessoa.

Como disse, não existe nenhuma outra profissão que implique maior responsabilidade daí entender que, ao contrário dos bate-chapas, voçês precisam de uma Ordem forte, honesta e principalmente, Exigente!

Ser indulgente não vos protege em nada. Dia a pós dia a vossa classe está mais descredibilizada e os médicos mais desleixados. Sim, os erros acontecem e não convem que fiquem com as mãos amarradas com medo de errar mas temos de certificar que fizeram tudo o que é humanamente possível para acertar porque se não o conseguem estão na profissão errada. A vida e um corpo de um homem não são cobaias.

Mais, se as aulas de Deontologia fossem fortes saberiam que mais que ser importa parecer e neste momento a maioria parece estar-se nas tintas curtindo arrogantemente o sentimento de impunidade e desresponsabilização das suas acções, desafiando e gozando (por vezes à frente destes) com as preocupações dos utentes.


Quanto a pessoa ideal para julgar a forma como é aplicada a legis artis a meu ver seria um Juiz que também fosse médico sem ligações à Vossa Ordem, i.é. que não tivesse interesse em proteger a Vossa classe mas sim os cidadãos pois aparentemente a Vossa Ordem "protege"-vos a todo o custo mesmo quando deveria responsabilizar-vos.

PS_Desgeneralizando, ressalvo as honrosas exepções.

Medico Explica disse...

Mia, vá estou de acordo consigo. Abaixo todas as Ordens! não tem necessidade de existir. Nenhuma delas. São um resquicio do Estado corporativo.

Placebo disse...

O problema aqui, é que as pessoas continuam a achar que não têm o direito de ficarem doentes, de ficarem com handicaps devido a doença, e inclusive a morrerem.

Confundem muitas vezes uma triste sina com negligência; não destrinçam a sua individualidade (tão ilusoriamente inflacionada) da multiplicidade de pessoas (aliás, todas...) que os serviços de saúde têm que atender, favorecendo o erro em casos mais raros, ou com apresentação mais invulgar (e tornando-o inevitável, apesar da Medicina defensiva que cada vez mais se cultiva), ou em caso de sobrecarga horária da pessoa que atende, ou em casos de um simples azar num dia mais infeliz.
Daí talvez uns acharem o médico o máximo, e outros terem opinião inversa.

Depois, claro, há os negligentes. Ninguém o esconde, mas também ninguém está interessada em cultivar o conceito.

Acreditem, nomeadamente os senhores que vêm para aqui sentenciar isto e aquilo sobre este e aquele médico, que existindo negligência (e existe mesmo), não é nos jornais que a vão encontrar. Ou só por acaso o farão, será uma questão de sorte, e nem terão sequer o privilégio de o saber.

Uma pessoa emocionada desculpa-se, e em geral controla-se.
De um jornalista devia poder esperar-se melhor. E, lamentavelmente, raramente se pode esperar algo mais para além de mediocridade, leveza e manipulação de sentimentos neste campo....

Um abraço, caro MEMAI, é sempre um prazer visitar o seu blog!

Psiquiatra da Net disse...

Mia:

Acho que os seus comentários reflectem a mentalidade do nosso país.

Será que os diagnósticos são 100% correctos sempre, mesmo respeitando a legis artis, ou obedecem às regras da sensibilidade e especificidade?
E será que os tratamentos são 100% eficazes ou será que muitas vezes o facto de um tratamento resultar é um milagre?
Será que a função do médico de Medicina Geral e Familiar ou o que está no Serviço de Urgência é fazer os diagnósticos mais brilhantes ou é estar preparado, na medida do possível, para saber diagnosticar e tratar as situações ameaçadoras da vida e depois excluir as causas mais frequentes e encaminhar as raras?

Como será que deve ser feita a formação do médico? Deve ser uma formação durante o curso ou deve ser continua? Quem a deve ministrar e, sobretudo, financiar? Será a entidade empregadora, como aliás acontece noutras profissões, ou será o próprio médico? Ou será a indústria farmacêutica?

Será que em vez de uma postura acusatória em que todos os médicos são potenciais culpados devemos tentar prevenir que o erro aconteça, agindo de uma forma proactiva, dotando as equipas de profissionais em número suficiente e apostando na formação e reciclagem da formação das pessoas, ou dando condições de trabalho? Qual é que deverá ser o papel da Ordem nisso?

Por exemplo, no momento em que escrevo sou o único médico num hospital com mais de 700 doentes. Não tenho qualquer tipo de formação em suporte avançado de vida, e a minha formação em suporte básico foi há 10 anos, durante o curso. Pratiquei os seus conhecimentos uma ou duas vezes, se tanto, ao longo da minha vida, em situações reais.

Será que não devia ter direito a uma reciclagem sistemática da mesma, digamos, de cinco em cinco anos, no mínimo? Já agora, sendo os cursos de SBV tão caros, quem deve financiar essa formação?

Já agora, devo confessar que, em estudante, apontava o dedo ao colega que tinha receitado um analgésico a um doente com dores nas costas a quem foi diagnosticada uma neoplasia no pâncreas posteriormente, após as queixas de emagrecimento e icterícia... até ouvir o lado do clínico geral, e compreender que, muitas vezes, o nosso raciocínio é enviesado por aquilo que é frequente e com que contactamos diariamente, em detrimento do que é raro...

E já agora, porque é que não denunciamos as infracções graves às condições de trabalho, porque não exigimos que a Ordem e/ou as estruturas dirigentes nos hospitais e/ou Colégios da Especialidade criem orientações técnicas/recomendações?

Talvez porque haja medo de represálias? Talvez porque ninguém se queira comprometer/dar a cara? Talvez porque no passado houve muitos protestos (e falo por experiência própria, enquanto interno da especialidade) que caíram em saco roto?

Será que isso acontece apenas nos médicos porque, supostamente, são uma cambada de corporativistas ou acontece em todas as áreas?!?!

Não quero com isto, obviamente, desculpabilizar quem erra, e sobretudo quem o faz de forma negligente. Mas acho que há erros que se podem prevenir de forma proactiva...

E talvez, quando apontamos o dedo, como tal como quando apontamos o dedo ao funcionário das finanças ou ao empregado da limpeza, haja coisas das quais não sabemos o outro lado.

(E não falei nas pressões das administrações hospitalares para a rotatividade nas altas... seria outro tema, talvez para um post...)

Mia disse...

Psiquiatra:

È do conhecimento público a falta de recursos humanos nos hospitais portugueses e percebo que exista uma pressão para atender o maior número de pessoas no mais curto espaço de tempo. Não pense que considero uma profissão fácil. Muito pelo contrário. Têm de ser capazes de tratar cada utente individualmente, abstendo-se de considerações sobre o que veio antes e o que virá depois. Mais vale um bem atendido do que dez "a correr" mesmo compreendendo que a vossa pressa se deva ao facto de suporem que eventualmente "lá fora, à espera" se encontra uma situação que aparentemente é mais gritante, pois eventualmente pode não o ser. O médico tem, apesar dessas dificuldades,
responsabilidade mediata para com o paciente que está atender. Se devido às mesmas não é capaz de o fazer tem que reivindicar melhores condições ou abster-se de o fazer. Ninguém deve assumir responsabilidades com condições impossíveis. Ou acha que ainda assim é possível e o faz ou não faz de todo. Porque um mau serviço é uma “serviço aparente”, é um “não serviço". Serve para as estatísticas e nada mais. É verdade que as greves no sector da saúde são mal vistas mas ou realmente conseguem trabalhar bem nessas condições ou lutam por muda-las. Os utentes não estão à espera que as mesmas Vos desresponsabilizem de um mau atendimento pois se vão onde se fazem as omeletas presumem (e bem) que ali estejam ovos… e os Senhores são os cozinheiros.