sábado, agosto 14, 2004

A Traição Do Laboratório Genérico!

Hoje foi um dia irrepetível.
Um dia em que, se o trabalho não fosse estar 12 horas de banco, "metia baixa".

Entrar de plantão logo de manhã com uma forte odontalgia (dor de dentes), uma polpite que se avizinha e só pensar na dor, transtorna-me.
Não me posso transformar em doente. Não posso mostrar um fácies de doente, carente de afecto e compreensão. Eu estou ali para tratar dos outros. Não posso inverter as posições.

Os doentes vão aparecendo.

A meio da manhã instala-se uma cefaleia tipo enxaqueca. Nunca antes tal tinha sentido: dor pulsátil, unilateral, ligeira fotofobia. Dia ruim.

Almoço.

Duas horas depois começo a sentir uma epigastralgia (dor de estômago). Esta é habitual. Estou há 3 anos à espera de tempo para repetir a esofagogastroduodenoscopia! (endoscopia digestiva alta).

Os doentes vão desfilando. Os casos vão sendo resolvidos.

Só as minhas queixas é que não: odontalgia, cefaleia e epigastralgia. Mas com a dor de estômago é que não posso. Ainda para mais fico com medo e não tomo qualquer analgésico. Vou à procura de um PPI ou IBP qualquer.

Tanto delegado de informação médica que por aqui vai passando, que alguma amostra de um omeprazol ou outro prazol qualquer deverá estar por aqui esquecida.

Procuro, procuro e não encontro.

Lá está! Em cima de um armário jaz uma embalagem de Omeprazol ITF, cheia de pó. É isso. É um omeprazol genérico. Guardo no bolso da bata e respiro de alívio. Pelo menos a epigastralgia dentro de uma hora poderá estar aliviada.

Continuo a consultar. Mentalmente vou procurando água.
Já sei. Há um colega que trás sempre uma garrafa.
Com a garrafa na mão, uma dor na cabeça, uma no estômago e outra na boca, preparo-me para abrir a embalagem e alcançar o desejado comprimido.

Aberta a embalagem, que vejo eu: rebuçados. O laboratório substituiu os comprimidos por rebuçados, para adoçar a boca aos médicos.
Por isso a embalagem estava abandonada no armário, cheia de pó!

Desiludido, olho para o relógio: são 20 horas. Vou-me embora. Levo comigo o dever cumprido e as três dores que me acompanharam silenciosas nestas doze horas.

São 23 horas. Chego a casa. Vou às últimas do Público. Já tomei o meu omeprazol. Espero que o efeito se inicie rapidamente. Que leio? Não. Não pode ser. Mais sete jovens que morrem numa estrada. Entre 15 e 25 anos. Não há paz na estrada!

Não aguento mais. Vou dormir. Só assim as dores se afastarão de mim.
Amanhã não vou trabalhar.

TGIF

TGIF não é uma sigla, nem um acrónimo da medicina.

A Gazela do Deserto explica.

sexta-feira, agosto 13, 2004

Imagens-Choque: Cuidados Paliativos Serão Necessários?

"Sou mãe adolescente": Aconselho A Sua Leitura

Aconselho a leitura (a superficial e a profunda) deste novel blogue:

Pela qualidade da escrita inocente,
pela qualidade da adolescência não vivida,
pela rara qualidade da vontade de escrever na adolescência.
Pela vontade introspectiva.

Começa asim:

"Cheguei
Tenho muita necessidade de partilhar com alguém a minha experiência. Além disso, fui forçada a abandonar a escola e resta-me este meio para continuar a exercitar a escrita. Desejem-me boa sorte!
"

e confessa, aquilo que deve ser um alerta para todos os pais e mães:

"o facto de não termos sido amados pelos pais na altura da vida em que mais precisávamos, a amargura de termos tido que estancar durante anos as lágrimas que quisemos libertas no colo de alguém"

Eu desejo!

E desejo que ame tanto o seu filho, como ama o pai, que não a amou ou não soube amar.

quinta-feira, agosto 12, 2004

"É de fugir a sete pés." Concordo. Mas Não Do 2001!

O AIFAI (quem lê o Aviz está permanentemente actualizado!) no bilhete "Top para começar mal o dia, revisto e aumentado" diz-nos:

"- "Still The Same" - Bob Seeger - Por acaso também é o autor do tema precedente. E pensar que, nos idos de 70, este tema passava na discoteca "2001", no Estoril."

A discoteca 2001 faz parte do imaginário de muitos estudantes de medicina e não só.

Quantas, quantas, quantas e quantas vezes se ia directo da faculdade para o 2001 e vice-versa.

Bela vida a de estudante universitário.

Será que ainda existe com a mesma simbologia?

quarta-feira, agosto 11, 2004

O Público Confirma O Blogue

A blogosfera antecipou-se aos media.

Não há cuidados paliativos em Portugal. Ou o que há é pouco, segundo o jornal Público.

Bons artigos sobre um relatório da OMS. Bom serviço público do Público e da jornalista Isabel Leiria.

Falta de Cuidados Paliativos Causa "Sofrimento Desnecessário" a Doentes Terminais.

Muitos Gostariam de Morrer em Casa.

Três Perguntas a António Lourenço Marques: "Em Portugal estamos atrasados 20 anos"

(ligações não permanentes)

Futuros Médicos: O Que Pensam Do Cancro E Dos Cuidados Paliativos ?

"Caro Médico que explica (caro futuro colega)
Tenho lido o seu blog nos últimos dias (como sempre), tendo assistido não só à "rixa" (hesitei em usar esta palavra mas faltou melhor) como à transcrição dos e-mails que lhe têm enviado...

Não quero de modo algum desvalorizar a dor que é a perda de familiares próximos (ou não) ou amigos, .../... de modo a que tenho todo o respeito por quem por isso passou porque infelizmente sei que chegará a minha vez. Sei muito bem que as pessoas não duram para sempre, só não tive a infelicidade de ser atingido por uma dor dessas...
Creio eu, e segundo conversas com professores da Faculdade e médicos amigos, que há meses inquiri sobre este assunto, há anos não se morria de cancro. Se bem que o médico soubesse que de tal se tratava, a família ficava a saber que era "morte natural"... Tudo bem até aqui... Morrer de velhice, morrer de morte natural, era assim que se morria. Fazia sentido em pessoas de certa idade.
No entanto, tudo muda de figura, quando se tem contacto com crianças vítimas cancro. Muitas delas até sobrevivem, outras não têm a mesma sorte... E é verdade que custa ver idosos à beira da morte (vejo-o bastantes vezes, infelizmente). Mas custa muito mais ver crianças nessa situação.
Por uma vez tive oportunidade de visitar o piso 7 do IPOFG, o Serviço de Pediatria. As palavras não fazem justiça às imagens que guardo. A tristeza, a desolação de crianças, pais, amigos...


E haverá apoio governamental extraordinário para esta situação? Ou apenas as ONGs, as IPSSs?
É de lembrar que algumas destas crianças serão os professores de amanhã, os médicos de amanhã, quem sabe, os políticos de amanhã...
Talvez saiba responder a esta pergunta: o que se faz por estas crianças?"

Lixinha (?) do blogue 100Norte.

Não sei, não! Não lhe sei dar uma resposta! Ou melhor, até sei, mas não quero dar.

terça-feira, agosto 10, 2004

Imagens Choque: A Opinião De Uma Socióloga.

"Olá.
Boa noite.
... de facto eram imagens muito fortes e que fiquei impressionada.
No entanto não estou em desacordo com a publicação desse tipo de imagens se fôr para sensibilizar, para fazer com que uma pessoa pare e pense.
De facto a publicação de imagens choque é cada vez mais utilizado nas acções de sensibilização.

Em 2002, o governo brasileiro decidiu colocar imagens chocantes nos maços de tabaco. Estas imagens mostram as consequências mais comuns do tabagismo, como mau hálito, impotência sexual, doenças cardíacas, complicações na gravidez e cancro do pulmão. A foto do bébé numa unidade de neonatologia é sem dúvida a mais chocante.
A imagem é acompanhada da frase: “Ministério da Saúde adverte: Em gestantes, o cigarro provoca partos prematuros, o nascimento de crianças com peso abaixo do normal e facilidade de contrair asma”.

Países como a Austrália e a Islândia já pediram autorização ao governo brasileiro para utilizar a foto do bébé prematuro.
Um estudo feito pelo instituto de pesquisas britânico Cancer Research UK concluiu que as imagens chocantes nos maços de cigarro são a maneira mais eficaz de convencer um fumador a largar o vício.

Outros exemplos existem (como é o caso da morte de animais para vestuário de luxo) e provaram dar resultado.

A falsa ideia de que não é preciso mostrar porque todos sabemos o que isso é ... não passa do que o próprio nome indica Falsa Ideia.E é esta a minha opinião!

CGFL"

segunda-feira, agosto 09, 2004

Olá!

"Olá", disse T do blogue dias que voam.

"O amigo ABS chamou a atenção para a polémica sobre um assunto me toca pessoalmente, por o ter vivido.
Quando li o seu texto que descreve como explica a filha à doença do pai, comparo a sua atitude com o médico da minha mãe, que me dava a notícia enquanto ela se vestia, depois de ele ver a a e a examinar. Nunca algo me custou tanto, fingir que não tinha importância uma nova operação ou tratamento. Sorrir e afagar a minha mãe e evitar os medos e fantasmas. Falamos de cancro, no caso. Não tenho vocação dramática, e ainda hoje sonho com aqueles momentos. Pesadelos, mais concretamente.
Mas não me queria alongar muito nesse aspecto pessoal.
Há o aspecto desumanizado da morte. O doente ligado às máquinas, a morrer devagarinho, isolado, sem a família ao lado porque só pode entrar uma pessoa de cada vez e cinco minutos para se despedir.
Exerci esses cinco minutos com imensa revolta, queria que a minha mãe morresse de mão dada comigo e rodeada pela família.
Assim não aconteceu. Mandaram-nos para casa e aguardar o telefonema.
Há coisas que de facto não compreendo. Temos que saber ajudar a morrer. Rodear de afecto a pessoa que se vai embora.
E conservar-lhe até ao fim a dignidade humana.
Era só isso. Gostei de o ler apesar de ser um assunto de que me custa falar ou polemizar acerca.
Por isso lhe escrevi a carta . Obrigada por ter a pachorra de a ler. Às vezes é mais fácil escrever as dores interiores do que verbalizá-las.
T"

domingo, agosto 08, 2004

Estou De Férias, Espero Não Voltar Assim!

IMAGENS FORTES COM UM OBJECTIVO: Paz na Estrada!









Cuidado Com O Sol De Agosto!



Fundamentalismos em toda a parte. Este foi em Copacabana.

"E a humanidade dobrou o jornal aliviada".

Do blogue SULPARATI, com a devida vénia à sua autora, MariaMar, lembrei-me de transcrever este seu post sobre um "post" do Miguel Torga, no seu Diário.

E lembrei-me porquê?
A minha filha hoje "faz anos", se tivéssemos vivido em Hiroshima, não teria tido tempo para os fazer.


"Caldelas, 8 de Agosto - Em Hiroxima, onde a bomba atómica foi lançada, tudo quanto era vida morreu. Por causa do fumo e da poeira que se levantaram, o mundo esteve de respiração suspensa durante vinte e quatro horas, sem saber o que tinha acontecido. Mas hoje, de manhã, os jornais, diligentes, já estavam senhores da verdade inteira. Não tinham morrido vinte, trinta ou quarenta mil pessoas, como era de temer. Para matar a ridicularia de quarenta mil pessoas não era necessário tanto sonho. Não, felizmente, não se tratava de um desapontamento. Nem quarenta, nem sessenta, nem setenta mil mortos. Isto é: todos os seres vivos liquidados!
E a humanidade dobrou o jornal aliviada.

Miguel Torga, Diário
"

Um crime contra a Humanidade, nunca julgado.

E que tal uma visita guiada ao sítio da cidade: www.city.hiroshima.jp

sábado, agosto 07, 2004

Com A Dieta Na Carteira Durante 50 Anos!



O doente já vai nos 97 anos e como me disse segue religiosamente a sua dieta que um meu colega há 50 anos lhe ofereceu com a perigosa e imperativa ordem médica: "Até ao fim da sua vida!"

E ele assim fez. Até ao fim da sua vida, que se espera ainda longa. Talvez mais um futuro centenário!

Objectos Em Extinção. E A Promessa do Abrupto?

O Abrupto em 29/07/2003, postava:
"O nosso médico “para comemorar a recente façanha do Bloco de Esquerda que conseguiu institucionalizar a magia e o esoterismo (tão na moda!)” envia “uma lista de pequenos objectos médicos já extintos ou em vias de extinção”:
  • "1) três tipos de ventosas de vidro (extintas);
  • 2) uma caixa de alumínio porta agulhas (extinta);
  • 3) uma seringa de vidro (extinta);
  • 4) um termómetro de mercúrio (em vias de extinção) e o respectivo utensílio para repor abaixo de 37º (extinto);
  • 5) uma "garrafa" de soro em vidro de soro fisiológico (substituído por plástico);
  • 6) uma ampola de clorofórmio e o seu invólucro em papelão (em desuso);
  • 7) frascos de vidro para transporte de urina e sangue com rolhas de cortiça (substituído por plástico e tubos de ensaio especiais);
  • 8) caixa de alumínio com uma ligadura engessada (invólucro extinto)”

(Manda também uma foto que acompanhará estes objectos no blogue que em Setembro se fará só para esta série.)"

Como o blogue não apareceu em Setembro... eis a foto!

sexta-feira, agosto 06, 2004

When Machines Were Works Of Art



Tive um pai. Melhor, um Pai.Também foi um doente terminal...

Tive um pai. Melhor, um Pai.

Também foi um doente terminal, consciente até à hora da morte.
Foi há muito, talvez uma década. Mas para mim foi ontem!

Foi doente terminal de uma doença maligna, já tinha sobrevivido a uma. À segunda ainda sobreviveu alguns anos.

Quando falo em demissão dos IPOs e das oncologias dos hospitais distritais e centrais, sei do que falo.

Dez anos depois, está tudo na mesma? Não. Há uma lei...

Era um dia qualquer.
A minha Mãe percorre os 300 quilómetros que nos separavam com um telefonema: “O Pai foi à consulta, eu fui com ele e o médico disse que ele estava muito mal, que não valia a pena lá voltar. Para o levar para casa e esperar.”

Foram estes os cuidados paliativos que o Estado ofereceu ao meu Pai, que faleceu oito longos dias depois.

Mas o meu Pai tinha filhos que o adoravam e cada um parou uma semana do seu valioso trabalho, este que vos escreve também, e “paleamos” conjuntamente com a nossa mãe, excluindo os netos, de tão cruel despedida.
O seu médico de família trouxe o conforto e as prescrições necessárias para tão doloroso momento.
Nessa semana não fui médico, fui filho que se despediu do pai e não esqueço os sucessivos apelos por ele lançados nos últimos dias: “Quero um médico, chamem um médico!”.

Mas o médico não estava lá, estava o filho.
E o médico de família, incansável lá aparecia para palear. O médico de família deve ser assim.

Não como infelizmente acontece nos nossos centros de saúde, onde são médicos de família das 8 às 13 ou das 14 às 18. A maior parte demite-se tanto da sua função, como os nossos hospitais se demitem da paleação.

Mas tenho inteligência suficiente para não os criticar. Não são eles que se demitem. Foi o sistema português que quis que eles se demitissem e passados tantos anos, que podem eles fazer, senão cumprir horários? Foi para isso que foram educados. Com os médicos hospitalares passa-se o mesmo, cumprem horários.

Faleceu ao oitavo dia depois do oncologista assistente o mandar para casa: “Evita de cá voltar!”, disse à sua esposa de uma vida.

Eu chorei e choro.

Não há cuidados paliativos em Portugal! Não há a cultura de palear em Portugal, não por culpa dos médicos, mas por culpa do sistema.

quarta-feira, agosto 04, 2004

"Frasquinhos Com Pedacinhos De Cancro"

O blogame mucho explicou-me com duas variantes: a lolita, na variante intelectual e o amigo besugo na variante clínica (ao que alguém me segredou, talvez tenhamos mais em comum do que aquilo que julgamos).

À lolita (sinceramente não sei se a poderei considerar amiga, pois continua a perpassar nos seus escritos aquele sentimento primário anti-médico) lembro que, as explicações explicadas por maus explicadores (como eu) ainda são menos explicáveis, quando os explicandos perante uma explicação mal explicada pretendem explicar o inexplicável e originam mal entendidos.

Lolita: eu, como médico, gosto que um Linguista Explique Figuras de Estilo ao Médico bloguista para que este possa explicar ao besugo e à lolita, que quando conta histórias da sua prática clínica extra-hospitalar, usa por vezes expressões populares, com mais realismo para quem as lê.

Ao amigo besugo agradeço a sua lição de "medicina oncológica", mas provavelmente leu a minha mensagem em diagonal e não compreendeu que aquela história tinha horas de vida.

É como se eu fosse amanhã fazer uma endoscopia por uma dispepsia supostamente funcional e saísse de lá com "um cancro que já nem em frasquinhos coubesse". E como sabe isso pode acontecer: as doenças às vezes são silenciosas!

O amigo besugo usou uma ANTIPARÁSTASE para responder à minha EXPLEÇÃO. (Não sei se serão estas as figuras de estilo aplicáveis ... mas são palavras bonitas)

Eu continuo anónimo e responsável; os médicos envelhecerão; 50% dos doentes oncológicos curarão, os outros 50% terminarão doentes e irão em vão.

Os cuidados primários de saúde continuarão primitivos como disse, quando deveriam ser os primeiros cuidados; os cuidados hospitalares, independentemente dos novos sufixos, lá continuarão como sempre foram: secundários, longe do cidadão, distantes, amargos, impessoais, com médicos a subir e a descer escadas e elevadores, quando deveriam ser secundários aos primeiros, rápidos e próximos; os cuidados terciários, mais especializados lá continuarão, e ...

Os cuidados paliativos lá permanecerão na Lei (capítulo VIII) à espera da sua aplicação! Aqui estaremos todos de acordo.

Mas lá estarei no dia 24 de Agosto a dar-vos os parabéns pelo futuro aniversário e pela frase de apresentação da lolita de então: "Mas eu escrevo lo que me da na gana e não o que gostam de ouvir. Espero poder provar isso daqui em diante."

E provou mesmo, por isso gosto de vocês, não gosto de betinhos, nem do stablishment, nem da silly season ... nem das tias silly. Nem do conformismo.

Viva a anarquizante blogosfera e esta anárquica posta!

P.S. Recebo um mail de uma pessoa amiga a perguntar-me: "Mas quem é a lolita?" Respondo na volta: "Não sei! É uma personagem da blogosfera! Assim como o médico explica é para muitos, menos para ti!"

terça-feira, agosto 03, 2004

A Lolita Explicou-se. O Que Me Aconteceu Hoje, Explica-me. A Madalena S Explicou Aos Dois!

A Lolita explicou-se, embora num tom pouco simpático (“O senhor parece não ter gostado do que eu escrevi aqui. Vejamos se eu me consigo explicar.”).
Não é novidade para ninguém que, a aplicação do termo 'o senhor', em certas ocasiões, tem um significado insultuoso.

Mas é um osso do meu ofício.

Eu sei que para muitos intelectuais, particularmente de algumas áreas do conhecimento, todos os médicos são maus, todos os médicos são exploradores, ou dos sentimentos ou das carteiras, embora a medicina privada, seja tão legítima como a convencionada ou a pública.

O que é importante é que se respeitem as regras éticas.
Mas a lolita não conseguiu compreender o que eu queria dizer interrogativamente com a frase entre aspas, aspas que só por si modificam o sentido de “perder tempo”.
Mas, enfim, o que a lolita não compreendeu, compreenderam os leitores que me escreveram.

O que me aconteceu hoje, talvez faça a lolita compreender. A querida lolita, pois eu sou assim: não me aborreço com ninguém...

À minha frente, um pai doente, sem saber e uma filha. Ele de 50 anos e ela de 25. Ela intelectual, ele trabalhador incansável na sua profissão. Até hoje!
Trazem um envelope com o resultado de um exame requisitado por mim há 5 dias. Não os vejo muito apreensivos.
Mas pelo volume do envelope, fico eu apreensivo. Vejo que traz material para análise histológica.
Há 5 dias, a filha convenceu o pai a vir ao médico, por ligeiríssimas “dores abdominais incaracterísticas” e um emagrecimento inexplicado de 5 quilos.

Feita a história clínica e a observação, decido (a intuição, a muita prática, o “olho clínico”) iniciar o estudo do doente pelo estômago. Solicito-lhe uma endoscopia e digo à filha que era bom que o exame fosse feito com uma certa urgência.

Hoje, perguntei como faço sempre, o que lhe disse o médico que fez o exame, responde-me que o pai entrou sozinho. Mas o pai apenas sabe dizer que lhe deram o envelope para mostrar ao médico. Só sabe que está bem e que tudo não passa de uma preocupação da filha.

Abro o envelope e a primeira suspeita confirma-se: lesões extensas compatíveis com cancro do estômago. Lá estavam os frasquinhos com “os fragmentos do cancro” para confirmação anatomo-patológica.

Que fazer?
Dizer de chofre aos dois: "Olhe tem um cancro no estômago, se calhar já muito avançado. Olhe o máximo que lhe dou são 8 a 12 meses de vida. Para quem defende que se deve dizer TUDO, era isto que EU deveria ter FEITO.

Mas não pode ser assim.
Fui preparando os dois: "Provavelmente vai ter que ser operado, não podemos perder tempo, tem que fazer outros exames. Temos que aguardar os resultados da biópsia", e outras frases que façam pensar!

Arranjei uma desculpa, e pedi à filha para uns dias depois vir falar comigo. Ela compreendeu que a situação não era nada favorável.
Depois se entendesse falar com o pai ou que fosse eu a falar, trataríamos do assunto.
Na despedida, o pai ainda me pergunta, na sua inocência: "E não há dieta? Posso comer de tudo?"
Respondi-lhe: "Use e abuse de tudo até à operação, depois vê-se!"

Mas porquê esta história, sobre o “perder tempo” em sentido figurado, que a lolita não compreendeu?

Imaginemos que o doente tem que marcar a consulta de cirurgia rapidamente, para se caracterizar o seu caso no IPO, para se estadiar a sua neoplasia e para se decidir em reunião de serviço o tratamento a seguir. Imaginemos que essa consulta de cirurgia está cheia de doentes inoperáveis, já estudados, ou já operados e com evolução negativa e que a sua consulta de cirurgia é marcada três ou seis meses depois, porque entretanto está ocupada com casos já decididos?

Isto é apenas um exemplo, que até em termos médicos nem se aplica muito à situação, mas é para que a lolita compreenda o que eu quis dizer com “perder tempo”.
Quem perde tempo é o doente que está à espera da cirurgia, não são os doentes terminais .... esses por cada minuto que passa, ganham tempo!

Mas a Madalena S na história anterior, deixou-nos uma ideia do que são os cuidados paliativos, tratar e preparar o doente e a família...

segunda-feira, agosto 02, 2004

Acerca dos Cuidados Paliativos, Uma Experiência Pessoal

E depois de lerem pensem se em Portugal há cuidados paliativos!


"Olá Dr,
Ao ler o seu último post apeteceu-me contar-lhe o que vi nos Cuidados Paliativos de um Hospital em xxx, Toronto, Canadá: Era o ano de 2001 e fui assistir ao internamento do meu sogro (hoje, ex-sogro), com cancer nos ossos e 80 anos de idade, primeiro numa enfermaria com 2 pessoas , onde diariamente ele e nós familiares recebiamos a visita 2 ou 3 vezes por semana, de uma assistente social que nos ia preparando para "o fim"...O Hospital foi o que de melhor vi na minha vida (já vivi nos EUA tb, Brasil e Índia), médicos e enfermeiros vestidos com uns simples fatos de treino em vez das habituais fardas brancas, toda a gente tinha uma cor diferente, por andar e por especialidade. Nós estavamos no piso do cancer, claro, o quarto tinha uma pequena kitchenet com desinfectantes para as mãos e tb uma casa de banho privativa. Foi a primeira vez que vi, refrescarem a boca dos doentes com uma espécie de xupa-xupa de esponja colorida, com sabor a morango...


No último dia antes dele morrer, ele é levado a outro andar, dos Serviços Paliativos mesmo, onde o quarto é totalmente privado. O quadro em frente à cama é daquelas pinturas que ao olharmos já sabemos, que estamos ali para ver alguém "partir"... era uma paisagem de mar, com uma cadeira de praia vazia virada pró por do sol, e depois dentro do quadro, a imagem vai-se repetindo, mais pequena, uma dentro da outra como um corredor para o além...


Fiquei impressionada, mas logo perguntaram se queriamos ali alguém, tipo um padre ou uma assistente social pra ficar conosco. Dissemos que não e ficou a enfermeira com o estetoscópio para ouvir quando realmente o coração parava e foi assim, na calma, já sem dores que o vimos adormecer pra sempre. Ali é último contacto com o familiar morto, pois como foi cremado, e não temos religião, foi para uma Casa Mortuária, Congelador, até a Primavera permitir a cremação (a terra dos cemitérios fica congelada e não permitem enterros no Inverno). Não há Igreja, nem caixão visível, nem choros histéricos como assistimos aqui. Pode ser mais "frio", mas para quem parte e principalmente para quem fica, esses tais cuidados paliativos são excepcionais... Pra não falar dos voluntários vestidos de Pai Natal, com 6 cães pelos corredores, visitando cada paciente, para os velhinhos fazerem festinhas, quando já não reagem nem às visitas dos familiares!
Ali não podemos escolher, nem Médico nem Hospital, mas o Estado oferece a todos , de qualquer extracto social a mesma qualidade de prestação de serviços. Se Medicina Socializante é aquilo... então, é tb de 1ª classe.
Obrigada por ter lido,
Madalena S
"

domingo, agosto 01, 2004

É Feio Transcrever E Esquecer O Contexto

Não é ético no meio bloguístico fazer transcrições fora do contexto total do bilhete que se publicou.

E a lolita, do blog blogame mucho, um blog de referência, no seu post "O princípio da escassez." deturpa o conteúdo de um bilhete de resposta a uma leitora:

1) transforma uma interrogação académica, filosófica, organizativa, científica e médica em afirmação programática deste blog. Isso não se faz!

2) direcciona para este blog frases como "a densidade própria dos pensamentos lineares, do humanismo caótico, do altruísmo inato e involuntário" atribuídas a outros factos, mas que levam indirectamente o leitor a atribuí-las ao autor deste blog.

3) deturpa o pensamento do autor com adjectivos e frases como "Quando se confundem princípios com contingências o essencial torna-se, fatalmente, acessório; e com o que é acessório, de facto, não se perde tempo. É tão lógico concluir que, quando alguém está doente, tanto quer ser curado como não quer sofrer - as duas vertentes, repare-se, não totalmente sobrepostas desse estado - como é assustadoramente fácil distorcer esta lógica, de forma aparentemente didáctica e em nome da escassez de recursos.".

4) Omite as conclusões finais e altera em completo a ideia-resposta à leitora que tem linhas base bem definidas:

  • os IPOs demitem-se dos cuidados paliativos;
  • em Portugal não há cuidados paliativos organizados, vivendo-se muito da carolice.
  • os cuidados paliativos são necessários, não só para diminuir o sofrimento da doença e do tratamento (dores insuportáveis, vómitos incoercíveis, tonturas e vertigens, edemas, amputações, dificuldades na alimentação, depressões, problemas sociais e familiares, etc) mas também para preparar o doente para a despedida da vida.
  • os cuidados paliativos tanto podem necessitar apenas de apoio psicológico e administração de morfina, como intervenções cirúrgicas e colocação de próteses.
  • o autor deste blog tem casos clínicos seus, de familiares e não só, que demonstram o que atrás disse.

5) E uma interrogação bem específica: quem deve prestar os cuidados paliativos em Portugal? Atribuí-los a instituições lucrativas como se prevê na Lei? Ou integrá-los nos Cuidados Primários de Saúde, na comunidade e na família a que o doente pertence? Mas estarão os nossos Centros de Saúde preparados para isso? Quantos Centros de Saúde têm internamento? Quantos têm os seus internamentos desactivados? E os médicos de família estarão preparados (e motivados!) para os cuidados paliativos? Os cuidados paliativos implicam uma resposta de 24 sobre 24 horas, as complicações da doença e as interrogações dos doentes e familiares sugem a qualquer hora. A disponibilidade tem que ser permanente. Asistir passivamente à morte de alguém é uma tragédia e provoca uma revolta dentro de nós.

6) Talvez falte essa experiência à lolita.

7) E portanto não esperava isto do referido blog que muito prezo: é feio transcrever e esquecer o contexto!