terça-feira, novembro 18, 2003

A Notícia Tal e Qual

Público, Segunda-feira, 17 de Novembro de 2003
Por ALEXANDRA CAMPOS


"Consultas nos Hospitais para Parar de Fumar Têm Listas de Espera

A maior parte das consultas de desabituação tabágica a funcionar nos hospitais portugueses tem listas de espera. Há um hospital em Lisboa onde os candidatos a não fumadores têm de aguardar dois anos pela consulta (o Egas Moniz) e quem procura a atendimento no Santa Maria é imediatamente informado de que só há vaga no final de Abril. Para Paulo Vitória, o psicólogo que coordena a "Linha SOS Deixar de Fumar", isto é a prova de que em Portugal "o tabagismo ainda não é entendido como uma dependência".

"Ninguém liga nenhuma. Isto funciona à nossa custa", corrobora João Barreto, o psiquiatra responsável pela consulta de desabituação tabágica do Hospital de S. João, no Porto, onde a lista de espera se fica pelos dois, três meses. Com dois médicos e um psicólogo não é possível dar uma resposta mais rápida, até porque a consulta tabágica é apenas uma das muitas tarefas que preenchem o dia-a-dia destes profissionais.

Bem mais optimista, Pais Clemente, o otorrinolaringologista que preside ao Conselho de Prevenção do Tabagismo, interpreta com bonomia este fenómeno, considerando até que é um bom sinal - o de que há cada vez mais pessoas interessadas em deixar de fumar. "Em 1996, havia apenas seis consultas de desabituação tabágica, hoje são cerca de 90 (entre as que funcionam em instituições públicas e privadas) e a procura é grande."

"Deixar de fumar está na moda", remata, satisfeito com esta tendência, que parece ter-se acelerado com recente chegada dos novos rótulos com mensagens-choque sobre os malefícios do tabaco. (ver texto nestas páginas).

Quanto às respostas disponíveis nos serviços públicos, as lacunas estão bem diagnosticadas no Plano Nacional de Saúde, que admite sem reservas a insuficiência do investimento em consultas de desabituação tabágica. Estes serviços "não têm registado o desenvolvimento necessário" e "os poucos que existem não têm recebido os apoios adequados", refere o documento, realçando a necessidade de se investir na formação dos profissionais de saúde, sobretudo os médicos de família.

A verdade é que os médicos que dedicam algum do seu tempo a este problema fazem-no "numa base de carolice", lamenta Paulo Vitória, e o aparecimento e manutenção das consultas dependem quase sempre do seu empenho nesta causa. Para dar uma ideia das limitações das respostas organizadas em Portugal Ajudar a deixar de fumar começa mesmo a ser visto como um negócio com grandes potencialidades em Portugal, a crer na multiplicidade de métodos e de tratamentos que têm surgido na iniciativa privadapara o combate ao tabagismo, Paulo Vitória faz notar que a "Linha SOS Deixar de Fumar" (808208888, atendimento entre as 13h00 e as 21h00 dos dias úteis), a funcionar desde Abril de 2002, dispõe apenas de dois postos telefónicos, quando em Inglaterra uma linha similar tem um "call center" com 120 postos.

12 mil mortes por ano
Com os melhores índices de prevalência de tabagismo na população com mais de 15 anos dos países da União Europeia, Portugal pode considerar-se numa posição confortável, mas a verdade é que o vício do tabaco está a aumentar gradual e sustentadamente entre as mulheres e os jovens, ao contrário do que acontece com os homens.

E, mesmo que as últimas estimativas apontem para um decréscimo na prevalência tabágica - 16,6 por cento da população com idade igual ou superior a 15 anos, de acordo com um inquérito recentemente concluído pelo serviço de Otorrinolaringologia do Hospital de S. João -, e apesar de as vendas de cigarros terem invertido a tendência crescente desde 2001 (ano que se venderam menos 0,2 por cento de embalagens), .

Mesmo assim, Pais Clemente defende que a luta contra o tabaco se deve basear numa "cultura de os efeitos do tabaco na saúde dos fumadores continuam a ser devastadores. Basta ver que as doenças associadas ao cigarros provocam cerca de 12 mil mortes por ano em Portugal - oito vezes mais vítimas mortais do que a sinistralidade rodoviáriainformação", mais do que em campanhas "radicais e fundamentalistas" contra os fumadores, que poderiam surtir " um efeito contrário". O otorrrinolaringologista sabe do que fala: está comprovado que as mulheres se assustam mais com a mensagem de que fumar provoca rugas e que os homens só se alarmam a sério com o alerta de que o tabaco causa impotência. "Ninguém está preocupado com o cancro ou com as doenças cardiovasculares", lamenta.
"

Em 10 de Agosto de 1982 deixei de fumar. Decidi. Sem agulhas, medicamentos, patetices ou palermices.

Apenas decisão minha! Por opção.

segunda-feira, novembro 17, 2003

Na Recordação das Vítimas da Estrada - A Lembrança de Quem as Recebe

Um dia depois, mas é sempre dia para nos lembrarmos desta endemia nacional.
Parabéns ao Paz na Estrada e à homenagem do homenagem.
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Em 20 anos de profissão, já assisti no imediato a muitas vítimas de acidentes mortais mas nossas estradas. Muitas histórias poderia contar.
O mais dificil é dar a notícia, e quando a temos que dar a familiares ou amigos a situação torna-se mais amarga.

Há mais de dez anos, o filho de um conhecido meu teve um acidente rodoviário. Como se tratava de pessoas conhecidas na zona, rapidamente a notícia se espalhou e chegou ao conhecimento dos pais. Ainda antes do transporte do sinistrado, já a mãe se encontrava na sala de espera aguardando ansiosamente a chegada do filho trazido pelo 112 da altura, o 115. Desconhecia eu ainda quem era o sinistrado e como tinha visto a mãe, sempre pensei que lá estaria por outros motivos.

O sinistrado era muito jovem, 17 anos, e logo após a entrada, enquanto executava os primeiros gestos automáticos para me inteirar do seu estado (palpar o pulso, ver se respira, se está inconsciente) um bombeiro aponta-me para a cabeça que se encontrava coberta por várias compressas. Ainda antes de calçar as luvas, levantei algumas compressas e deparei-me com uma ferida craneana contusa, perfurante com saída de massa encefálica para o exterior. Era um milagre estar ainda vivo. Mas estava.

Entretanto, chegado o pai já com a notícia de que o filho tinha tido um acidente e de que teria uma ferida na mão. Mal me viu, chamou-me e a sua primeira pergunta foi: a mão salva-se ou não? Nem compreendi a pergunta e respondi-lhe que estava ocupado e que já voltaria para falar com eles. Voltei de imediato para junto do corpo, onde já se procedia a outros gestos básicos.

Depois de tomar a decisão de o transferir de imediato para um hospital central com neurocirurgia, pedi a um enfermeiro para me chamar os pais do sinistrado e entrei noutro gabinete mais isolado para comunicar a gravidade do seu estado e a transferência. Batem à porta e vejo entrar o casal amigo, levanto-me e explico para aguardarem um pouco no exterior, que já os atenderia. Explico que estou à espera de um casal cujo filho teve um acidente de automóvel. "Mas somos nós!", exclamam eles.

Nesse momento fiquei eu sem fala e deixei-me cair na cadeira. Tinha estado com toda aquela família na véspera a comemorar o aniversário do único filho.
E o pai só me perguntava: mas como está a mão? Salva-se a mão?

Arranjei coragem para ser só médico e dizer: "O vosso filho está muito mal! Vai já ser transferido para outro local mais especializado e temo que qualquer coisa de mal lhe possa acontecer durante a viagem. Tem uma ferida muito grande na cabeça e está em coma. A mão de facto está muito mal, mas nem me preocupei. Não se pode perder tempo."

O pai dá um murro na mesa e desata a correr para o seu veículo para perseguir a ambulância que já se dirigia para o local da evacuação.

Ao quarto dia, foi mais uma vítima mortal da sinistralidade rodoviária, que entrou na estatística apenas como ferido grave ...

O Problema É Que Já Não É A Primeira Vez!

Embora já tivesse sido comunicado de urgência por fax às unidades de saúde, o Jornal de Notícias de 15/11/03 revela publicamente que

"INFARMED manda recolher fármaco da Ratiopharm

O Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento (INFARMED) ordenou a retirada do mercado de várias embalagens de um ácido acetilsalicílico genérico.
A autorização de introdução no mercado do fármaco em causa (uma versão genérica, sem marca, da conhecida aspirina) pertence ao laboratório Ratiopharm – Comércio e Indústria de Produtos Farmacêuticos Lda. A anomalia que levou à retirada do mercado prende-se com a dissolução do medicamento, que, segundo o INFARMED, "não cumpre com a especificação". Um problema que não é novo e já levou a anteriores retiradas do mercado, apesar de não afectar a saúde.
Segundo a informação do INFARMED, datada de 3 de Novembro, "foram mandadas recolher todas as embalagens" de ácido acetilsalicílico 100 mg dos lotes D05423, C08651, C14192, D11756, D15349 e da versão 500 mg do lote D11541.
"

sábado, novembro 15, 2003

A Bayer e os Outros

No Jornal de Notícias de 14/11/03, sobre o assédio aos médicos:

"Duas categorias
O relatório também detectou existir uma relação entre os médicos patrocinados e os níves de prescrição de produtos da Bayer. Os próprios delegados de informação médica recolhiam esses níveis, "nas conversas que travavam com os médicos, na observação que faziam dos seus doentes, no receituário do utente, a que tinham acesso, através de informação informal na farmácia da zona e pela análise estatística fornecida pelas empresas especializadas em vendas de medicamentos".
Os clínicos eram arrumados na categoria A ou B. Os primeiros seriam aqueles que consultavam mais de 15 ou 20 doentes por dia; os segundos ocupavam cargos de chefia. A partir daí, os delegados seleccionavam os médicos-alvo com base em três critérios: prescritores habituais que convém fidelizar; "opinion makers" que, não prescrevendo, têm muita influência junto dos colegas; forte possibilidade de virem a tornar-se prescritores. A IGS constatou que, "salvo raras excepções, só estes tipos de médicos eram patrocinados". Trata-se de médicos que prescreviam em "quantidades comercialmente significativas" e "muitos deles, não receitavam qualquer produto similar" (a investigação constatou que alguns dos medicamentos promovidos desta forma tinham similares no mercado, mais baratos).
As verbas disponibilizadas pela Bayer para essas "acções de promoção" eram "avultadas" (5 a 10% do volume total anual de vendas), mas não elásticas. Por isso, dos cerca de dez mil médicos com ficheiro na Bayer, apenas trezentos ou quatrocentos eram patrocinados anualmente, constatando-se uma grande "selecção"
".

Que pena eu não fazer parte desses trezentos ou quatrocentos!

O negócio do medicamento é um negócio de milhões para todos os intervenentes.
Sejam medicamentos químicos, homeopáticos, ervas, mezinhas, agulhas, benzedouras, etc, desde que se prometa a cura, com a estratégia da tensão (mais uma vez) em que se vive todos nos queremos libertar da doença e do mal.

Desses milhões apenas cabem migalhas aos médicos. E infelizmente há alguns que se deixam vender por essas migalhas.
Qualquer economista sabe que um produto tem um budget para promoção. Nesse budget promocional estão incluídas todas as despesas relacionadas, desde os ordenados dos DIM, as despesas de tipografia, as promoções nas farmácias e os assédios aos médicos.

E como o mercado é de milhões, todos os laboratórios investem, sejam multinacionais, nacionais, de marca ou de genéricos. E a melhor forma de investir é em médicos que prescrevam. Isso é óbvio.

Dentro da legalidade já participei em Congressos subsidiados pela indústria farmacêutica. Mas foram mais os que rejeitei. Viajar, comer, dormir à borla é muito bom. Mas há limites morais a preservar.

P.S.
Num dos últimos programas Prós e Contras, da RTP1, sobre Portugal, foi dito por um dos representantes governamentais que se tinham convidado jornalistas e directores de jornais nacionais e internacionais a passarem uns dias em Portugal para promover o país. O facto de terem aceite tais viagens, torna-os corruptos? Calro que não.

sexta-feira, novembro 14, 2003

Estratégia da Tensão II

Perguntam-me o que é a Estratégia da Tensão, termo que apliquei uns bilhetes atrás.

Fui ao Google e pesquisei Estratégia da Tensão e Tension Strategy.

Esperava não encontrar nada e ter que dissertar aqui sobre o assunto. Mas não. Sendo assim, caso o meu amigo ainda se mostre interessado no conceito, encontrará referências sobre várias estratégias da tensão, aplicadas a vários domínios, desde a política, a guerra, o terrorismo, a física, etc.

Apliquei o termo para justificar a guerrilha que as nossas televisões fazem na exposição da doença, para manterem os seus leitores arredados de outros assuntos bem mais interessantes.

Como exemplo: há dias comemorou-se o Dia da Prevenção do Cancro da Mama. Todas as tvs se interessaram pelo tema e fizeram várias notícias sobre o assunto. Invariavelmente todas foram à procura de mulheres mastectomizadas (a quem se retirou uma mama). A TVI conseguiu encontrar uma doente, com cerca de 30 anos mastectomizada bilateralmente. Caso raro, pela idade e pela situação, embora os médicos saibam que a mama restante está sempre em risco. As perguntas não foram sobre a prevenção, as perguntas foram tétricas, como já estamos habituados a este tipo de jornalismo.
Mas a estratégia de manter as pessoas em tensão permanente, comprovou-se no dia seguinte, pois várias mulheres jovens me solicitaram em vários locais a prescrição de uma mamografia de urgência, pois se aquela jovem ficou sem as duas mamas, também lhes poderia acontecer o mesmo.

Moral da história: a mensagem da prevenção, do rastreio, da auto-palpação, das mamografias periódicas de acordo com as guidelines em todas estas mulheres não passou! Passou foi o medo, a ansiedade, o medo de morrer.
Quando esta ansiedade se diluir, a prevenção volta a ficar esquecida, até nova reportagem.
E se descobrirem uma mulher com mamas supranumerárias (que também as há) e todas com cancro e multi-mastectomizada, as audiências subirão em flecha.

"A pessoa, o todo, é muito mais que a soma das partes".

Frase retirada d' O Bisturi, com a devida vénia.

Se em Portugal tudo funcionasse como funciona em alguns países mais desenvolvidos, nomeadamente em alguns países nórdicos e até em certo ponto nos EUA, onde nasceu o especialista na pessoa, há dezenas de anos,

cada pessoa teria um especilista - o médico de família e não o médico indiferenciado, ou o médico da caixa, que é o que se passa na nossa realidade. Mas o médico de família especialista só terá sentido, quando o doente o reconhecer como interlocutor válido, o que presentemente não acontece para algumas franjas da sociedade.

Cada órgão ou sistema terá o seu especilista - são as clássicas especialidades hospitalares.

A comunidade teria o seu especialista, que seria o médico de saúde pública, mas em Portugal contam-se pelos dedos os que assumem essa tarefa.

Com o evoluir da sinistralidade, apareceram os novos especialistas em emergências hospitalares ou intensivistas (multi-órgãos ou sistemas).

quinta-feira, novembro 13, 2003

Unidades acusadas de seleccionar os doentes ...

Inspecção-Geral da Saúde Investiga Denúncias Sobre Hospitais SA
Por JOANA FERREIRA DA COSTA
Público, Quarta-feira, 12 de Novembro de 2003

"Unidades acusadas de seleccionar os doentes para evitar, por exemplo, situações de ocupação prolongada das camas"

Não sei onde está a perplexidade dos jornalistas.

Uma unidade SA tem que dar lucro. Um doente com um AVC, com uma demência ateroesclerótica, um cancro terminal e dezenas de outras doenças crónicas e degenerativas não dão lucro.

Só consomem recursos de hotelaria, higiene e pessoal.

Fora com eles, pensam os administradores SA.

Vamos lá empurrá-los para as unidades públicas...

Estratégia da Tensão

o Hugo A, presumo que é biólogo ou ligado à Biologia/Antropologia/ou outras ciências adjacentes, continua a não compreender o alcance daquio que escrevo.

Li o seu comentário ao bilhete sobre os cancros nos animais domésticos e concordo com o que escreveu em dois bilhetes, um sobre investigação biomédica e outro sobre a notícia na TV.

Só que a minha indignação não está "nos cancros dos animais domésticos" per se mas no relevo dado à notíca, num telejornal e com direito a entrevistador no estúdio e tudo!

A estratégia da tensão permanente existe mesmo.

PS.: Afinal Hugo A. ainda é estudante? Ou jovem licenciado? Lendo o seu escrito sobre a exposição dos dinossáurios, quando diz que "No total, tendo gasto €3 por pessoa (com cartão de estudante), achei que foi interessante."

É mesmo estudante ou foi um uso menos legal do Cartão de Estudante? Temos que dar o exemplo, aqui por estes lados...

Ir ao Médico ou Ir à Bruxa?

O Frederico, o Nietzsche e o Schopenhauer disseram que, "Mesmo a ganhar somos gozados. Temos de ir ao médico."

Aguardei pela consulta, o Nietzsche e o Schopenhauer, já sabia que era difícil aparcerem, mas o Frederico podia ter aparecido. Receitar-lhe-ia o Prozac. Parece que a depressão existe mesmo por esses lados.
E aporia a Portaria 543/01 para as depressões graves, arrastadas e de difícil cura

Nos outros assuntos, espero que tudo esteja a correr bem!

quarta-feira, novembro 12, 2003

Literatura Médica VII

"Data:

TC Torácica

Ficha Técnica:

Exame efectuado com cortes de 7 mm de espessura adquiridos em programação espiral, tendo-se documentado o presente exame com janelas para estudo do mediastino e parênquima pulmonar.

Leitura do Exame:

Ao nível da região do mediastino anterior no espaço pré-vascular junto à articulação condro-costal esquerda observámos massa grosseiramente oval contorno lobulado, densidade tissular que atinge as maiores dimensões aproximadamente ao nível da emergência da artéria pulmonar principal com cerca de 44 mm por 28 mm de diâmetros onde se observa marcada destruição da extremidade anterior da costela. Esta massa estende-se inferiormente em topografia anterior ao pericárdio que comprime aparentemente sem invasão, sendo estes aspectos muito sugestivos de neoformação de etiologia a esclarecer (costela? pleura?) a avaliar por biopsia.

Ao nível do lobo direito do fígado observamos duas formações ovais de densidade líquida e parede fina em relação com quistos biliares.

Restantes aspectos sem alterações."


In um qualquer relatório de um TAC torácico, pertença de ninguém.

"Estou um bocado preocupada. Gostava que o meu filho se lembrasse do pai..."

A Ana tem um Blog simpático onde conta a sua vida do dia a dia.
É minha leitora e está preocupada com a doença do ex-marido e pai do seu filho.
Tudo isto são informações do seu blog. Escreveu-me preocupada com a miocardite do pai do filho. Por isso diz que quer que o filho se lembre do pai. E pediu-me para lhe responder num bilhete.

Aqui vai:
Miocardite é um termo genérico. É uma situação inflamatória do músculo do coração, o miocárdio.
A gravidade da doença depende de muitos factores, desde a intensidade da inflamação até à doença que lhe deu origem.
Algumas causas: infecção viral (gripe, echovirus, herpes simples, varicela, hepatite, Epstein-Barr e citomegalovírus, Coxsackie B), bacteriana, HIV, por fungos ou protozoários.

Medicamentos, substâncias químicas, ambiente (poluição), radioterapia, gravidez e outras numerosas doenças sistémicas também são associadas com o desenvolvimento de miocardite.

"Um dia [no inferno] em Santa Maria." A Minha Experiência como Doente.

Escreve o Mata-Mouros: "Há muito tempo que um artigo num jornal não me dizia tanto. Esmagador na descrição do país que ainda somos.", acerca de um drama por que passou um filho ao acompanhar sua mãe numa ida ao banco do HSM e que faleceu na mesa de TAC. É um drama! E embora só a autópsia possa revelar a causa da morte, o longo tempo de espera, 7 horas, para se obter um diagnóstico (para se fazer um TAC!) não tem defesa possível.

Há cerca de um ano, "Por motivos de saúde que requereram uma opinião urgente de determinada especialidade, desloquei-me por mais do que uma vez à urgência central do Hospital de Santa Maria. Segui todos os trâmites que seguem todos os outros doentes: inscrição, espera, triagem, e aguardei, aguardei e aguardei, observando.
As comunicações móveis e os cochichos entre os vizinhos de cadeira, ambos facilmente audíveis, permitiram que fosse suspeitando dos diagnósticos dos meus colegas de ocasião (longe de imaginarem que o colega de ocasião era um médico-doente).
Como médico, entristeceu-me ver a sala de espera repleta de pequenos casos: pais com filhos com febre, filhos com os pais com febre, pequenos traumatismos, infecções urinárias, lombalgias à espreita de uma chapa, cefaleias e depressões e outras situações menores.

De quando em vez entravam alguns directos.

Um denominador comum nas suas conversas para justificar a vinda ao hospital central era o facto de não terem encontrado uma alternativa personalizada em quem pudessem confiar, isto é, o seu médico de família.
Os próprios reconheciam que poderiam ser tratados noutro local e terminavam assim: não encontrei o médico de família, não o pude contactar, o centro de saúde estava fechado, para ir a outro médico que não conheço, venho antes aqui, etc.
Se estes doentes tivessem uma relação personalizada, próxima do seu médico ou uma pequena equipa de médicos, se os médicos dos centros de saúde fossem responsáveis pela organização dos seus serviços, se ganhassem pelo que produzissem, incluindo consultas telefónicas tipo call-center, não tenho dúvida de que os doentes prefeririam muito mais uma opinião conhecida, que aceitariam e que lhes transmitisse confiança e os médicos sentir-se-iam com mais vontade de trabalhar, se o seu ordenado não dependesse apenas da assinatura mensal da folha de ponto, quer trabalhem no duro, quer cocem as paredes e das muitas vénias ao Sr. Director
".

Este texto tem um ano ao qual dei o título de "As Portas Fechadas".

Este é que é o problema das nossas urgências hospitalares. Lado a lado, a atrapalharem-se e a atrapalharem os médicos e outro pessoal da saúde, estão feridas com meio centímetro e grandes eventrações, estão infecções urinárias e septicémias, estão traumatismos cranianos com massa encefálica no exterior e pequenos "galos", estão paragens cardíacas e neuroses cardíacas e muitos outros exemplos.

Haverá por parte de alguns utentes falta de civismo, mas para muitos, falta de informação ou mesmo de alternativas.

E já agora pergunto: quantos habitantes da blogosfera, não recorreram já às urgências hospitalares centrais por dor de dentes? Por dor de ouvidos? Por dor de *....
_________
dor
do Lat. dolore
s. f.,
sofrimento físico ou moral;
mágoa, aflição;
pesar;
dó;
condolência, piedade;
remorso.

segunda-feira, novembro 10, 2003

Tenho Um Aliado! Fundamentalista, Mas Aliado.

Com a devida vénia transcrevo um excerto de um bilhete do blogame mucho:

"Fundamental
Os que me conhecem sabem que sou um fundamentalista primário.
E, contra o tabaco sou mesmo dos piores.
Não que tenha anda contra o tabaco em si, acho até louvável que a Tabaqueira e a Philip Morris ganhem honradamente a vida a distribuir pelo País e pelo mundo uns cancros de pulmão, catarros e expectorações.
.../...
No entanto, quando me toca pela porta, a coisa fia mais fino.
E, aviso desde já, não faço tenção de ir ao IPO visitar uns senhores que, só porque lhes apetece andar de chupeta na boca, um dia lhes começa a dar umas tossicas, por acaso fazem um raio-X e aparece uma sombra escarrapachada num pulmão.

.../..."

O resto pode ser lido aqui.

Saúde Mental

Anedota do Dia (via e-mail)

"O professor de Psicologia tinha acabado de falar sobre saúde mental e começou a fazer perguntas aos alunos. Abordando a depressão, perguntou:
- Como diagnosticam um doente que num minuto anda de um lado para o outro, gritando com toda a força que tem e, no minuto seguinte, senta-se com a cabeça entre as mãos, chorando incontrolavelmente?
Um aluno sentado na última fila da sala levanta o braço e responde:
- Treinador do Benfica?"

Se Não Tivesse Ouvido, Não Acreditava.

Mas, o cancro dos animais domésticos, nomeadamente cães e gatos, foi uma notícia de um telejornal, na RTP1.

Entre Bombas, Orçamentos, Iraques, Casas Pias, Ferros, Cimeiras e Durões, houve espaço para a importante notícia de que há cancros nos animais domésticos.

Já não chega amedrontar-nos diariamente com doenças e deficiencias várias, para agora assediarem o nosso bem-estar psicológico com os cancros dos bichos que vivem e convivem connosco, lado a lado?

sábado, novembro 08, 2003

1º. Congresso Nacional de Prevenção do Tabagismo

Do sitío oficial da Direcção-Geral de Saúde (e já que se falou em fumadores passivos na polémica do Aviz que teve a marca Português Suave como ponto de partida) para quem quiser aprofundar o tema do fumador passivo:

"O 1º. Congresso Nacional de Prevenção do Tabagismo terá lugar no Auditório Culturgest, Edifício Sede da Caixa Geral de Depósitos em Lisboa, nos próximos dias 17 e 18 de Novembro de 2003.

Durante este Congresso comemora-se ainda os 20 anos da Prevenção do Tabagismo em Portugal e o Dia Nacional do Não Fumador - 17 de Novembro (Segunda-feira).

O programa inclui, entre outros, os seguintes temas:

• Doenças Provocadas pelo Tabagismo
• Prevenção do Tabagismo nos Jovens
• Tabagismo Passivo
• Cessação Tabágica
• Legislação
• Economia e Controlo do Tabagismo.

A participação neste Congresso é gratuita, sendo necessário preencher uma ficha de inscrição.

Ver cartaz*
Ver folheto com o programa e a ficha de inscrição*
."

* estas ligações nesta data não estão funcionais.

sexta-feira, novembro 07, 2003

Elizabete, a Mãe. D. Miquelina, a Avó.

Os jornais falavam.

A Sic Notícias foi entrevistar, presume-se que para melhor esclarecer.

A Mãe, disse "prontos" e "os médicos são os culpados."

A Avó disse "se tinha uma coisa grave, tinha que ser tratada."

Só não entrevistaram QUEM DE FACTO usou estes personagens populares e vai ganhar umas massitas à custa de mais um processo contra os cabrões* dos médicos.

E eu digo: não há paciência!

* Esta palavra alguém disse nessa entrevista, em ruído de fundo.

Literatura Médica VI

"Assinala-se posição alta dos bulbos jugulares bilateralmente, um aspecto mais marcado à esquerda que atingem o nível horizontal da espira apical da cóclea e contactam o aqueduto do vestíbulo, um aspecto também evidente à esquerda da jugular. Trata-se de uma variante anatómica, sem seguro significado patológico. Não há sinais de deiscência do bulbo."

In um qualquer relatório de uma TAC CE, pertença de ninguém.

terça-feira, novembro 04, 2003

Estou Fulo Com A Catarina Gomes!

Numa entrevista da jornalista Catarina Gomes à farmacêutica Noémia Lopes, (PÚBLICO, Quarta-feira, 29 de Outubro de 2003) apreciei as resposta da farmacêutica e considero ausentes de rigor científico as perguntas da Catarina. Assim, subliminarmente se vão acusando os médicos daquilo que eles não fazem ou querem, mas, também assim se vai passando a mensagem negativa para os meios intelectuais.

A curta entrevista intitulada "O Leigo Já Não É Sujeito Passivo" sobre automedicação, em duas de três perguntas, apresenta afirmações sobre o que pensam os médicos, que reputo de falsas, demagógicas e deontologicanente (para os jornalistas) condenáveis.

Nós, médicos, estamos habituados a, em cada afirmação pública que se faça, utilizar uma referência escrita para justificar essa afirmação.

Desafio a senhora jornalista publicitar a referência escrita onde justifica que os médicos "condenam a automedicação" ou a "consideram indesejável"

Provavelmente a senhora Catarina não sabe o que é automedicação.

A automedicação como o nome indica, refere-se à auto-resolução de alguns problemas que afectam os doentes e que eles poderão tratá-los, recorrendo ou não a medidas farmacológicas.

A automedicação tem balizas, e isso é o que nós dizemos:
- uma simples diarreia, de um ou dois dias, pode ser resolvida só com hidratação, mas uma simples diarreia, ou que se repita ou cujas fezes sejam sanguinolentas, p.ex., pode necessitar do diagnóstico médico.
- uma simples febre, pode ser auto-resolvida com "esperoterapia", mas se, apesar de simples for acompanhada de fotofobia, petéquias ou outros sinais, terá que recorrer imediatamente ao médico.

A automedicação, deveria ser ensinada aos doentes pelo Estado ou pelo Serviço Nacional de Saúde, sem interesses económicos directos na questão. Agora resumir a automedicação, a medicamentos sem receita médica, é transformá-la na dependência directa do fârmaco, é medicalizá-la, é torná-la dispendiosa.
É fazer depender o doente das grandes multinacionais do medicamento, que já está pelo excesso de medicamentos de prescrição obrigatória por médicos, ao acrescentar ainda os medicamentos de venda livre.

Medicamentos esses que devem existir, mas com opção de escolha do doente, entre tomar ou não tomar.

Alguém acredita que ao balcão de uma farmácia, se receita água? Espera?

Vivemos numa sociedade hiper-medicalizada, por culpa dos médicos, aos quais agora se querem juntar os farmacêuticos!

Lixo

"Toda a política de Saúde tem de ser dirigida ao cidadão. Para ser justa e solidária, é fundamental que tenha como princípio esse primado", disse no JN de 25/10/03 o Ministro da nossa Saúde.

"Só me trazem lixo para aqui!", afirmou um médico avençado, indiferenciado, estrangeiro, numa urgência dum hospital público, que se quer candidatar a SA.

Lixo = doente terminal com síndrome febril.

P.S.: quero acreditar que não soubesse o significado correcto! Deixem-me acreditar nisso!

segunda-feira, novembro 03, 2003

Exposição Pública da Doença – Algumas Dicas Para a TVI (E Não Só!)

É o primeiro serviço público que este blog oferece!
E com muito orgulho.

Aqui poderão as televisões procurar as doenças para as notícias que encerram os nossos telejornais.
Haverá doenças para todos os públicos.

1) DISSECÇÃO DA AORTA – doença gira, em que a grande artéria do nosso corpo se auto-disseca. Pode ser uma urgência. Era uma grande “caxa” jornalística acompanhar a dissecção no seu percurso, desde o primeiro sintoma até à sala de operações.

2) COARCTAÇÃO DA AORTA – outra doença da nossa maior artéria. Será divertido entrevistar um doente coarctado e logo depois o cirurgião anti-coarctador (pois o tratamento é cirúrgico), de preferência o Prof. Manuel Antunes. Não esquecer as batas verdes.

3) DUCTUS ARTERIUS PATENTE – o nome em latim fica bem, em português poderá ser persistência do canal arterial. Se se contratar um bebé (ou os seus pais), com lágrimas dos avós, de permeio, durante a cirurgia, o share será máximo. Como é uma cirurgia programada, podem anunciar durante semanas!

4) ESTENOSE MITRAL – é uma doença banal, mas presidencial desde que o Presidente foi operado. Fica sempre bem dizer: tenho a doença do presidente.

5) ANGINA DE PEITO, DE PRINZMETAL e INSTÁVEL – três doenças semelhantes, com o mesmo sintoma. Dor no peito. Uma crise em directo, por exemplo num talk-show é uma ideia a não perder.

6) ENFARTE AGUDO DO MIOCÁRDIO – esta é uma sugestão para um programa do Herman. Convidar um intelectual fumador de três maços por dia, consumidor exagerado de álcool, com colesterol acima dos 400 mg/dL, hipertenso grave não tratado, obeso, com antecedentes familiares (aqui têm que ter um bom apoio das assistentes de pesquisa). Iniciar o programa com perguntas que lhe provoquem demasiada ansiedade e stress. É enfarte em directo garantido. A reanimação com uma equipa de uma VMER (já a postos nas bastidores) com entrevista durante a reanimação será um ponto alto do programa com vendas garantidas para outras televisões.

7) TAQUICARDIA SUPRAVENTRICULAR PAROXÍSTICA – se filmada no paroxismo …

8) MORTE CARDÍACA SÚBITA – só contratando a Maya se poderá prever este evento. Mas será um êxito internacional. O programa poderá continuar na autópsia.

9) HIPERTENSÃO ARTERIAL / DIABETES – apesar de serem as doenças que provocam mais óbitos, não são muito telegénicas. Não será de apostar para o público em geral. Só actualizações no Canal Medicina.

10) DOENÇA PULMONAR OBSTRUTIVA CRÓNICA – mais conhecida por DPOC e muito ligada aos fumadores. Tossir permanentemente durante um talk-show, com uns cigarritos à mistura é uma boa propaganda ao tabaco.

11) ASPIRAÇÃO DE CORPO ESTRANHO – se o corpo estranho for o processo da Casa Pia e for aspirado completamente por alguém, até desaparecer, não haverá médico que o consiga recuperar. A principal complicação da aspiração de corpos estranhos, com diagnóstico tardio, é uma infecção piogénica do órgão, com o aparecimento de abcessos purulentos, de difícil controle.

12) SÍNDROME DE CHURG-STRAUSS – é um boa doença para o maestro Vitorino de Almeida dissertar na SIC Notícias por analogia com o Strauss das valsas.

13) SILICOSE, ASBESTOSE e outras PNEUMOCONIOSES – são doenças dos trabalhadores. Portanto não se mostram ao povo. Mostram-se em grandes reportagens direccionadas para a classe média alta para poder dizer angustiada: coitadinho do nosso povo trabalhador! Uma mesa redonda seria invariavelmente moderada por deputados do PCP e BE.

14) APNEIA DO SONO – é a doença da moda (assim como a fibromialgia), mas esta é real e causadora de muitos acidentes de trabalho e de viação. Sucesso garantido.

15) DOENÇA DO REFLUXO GASTRO-ESOFÁGICO (DRGE) – é também uma doença recente, mas que não é televisiva. Não haverá muito interesse em filmar um doente com azia e pirose. Aliás, azia e pirose é o que mais se sente quando se ligam as televisões!

16) SÍNDROME DE MALLORY-WEISS – uma boa hematemese de sangue vermelho vivo, se apanhada em flagrante num ambiente encarnado, como por exemplo, uma conferência de imprensa do PCP ou nas recentes eleições do Benfica e expelida em direcção a um operador de imagem, seria um momento televisivo único.

17) SÍNDROME DE BOERHAAVE – também uma doença aguda dos alcoólicos. Por exemplo, um inquérito de rua na 24 de Julho: Sofre do síndrome de Boerhaave?

18) DOENÇA DE WIPPLE – para além de ter um nome engraçado, tem um sintoma que pode ser aproveitado para programas de Domingo à tarde: movimento rítmico contínuo dos músculos oculares com a mastigação ou por outras palavras, miorritmia óculo-facial-esquelética ou óculo mastigadora.

19) FISSURA ANAL – doença a passar na SIC Radical, com anuscopia ou rectosigmoidoscopia em directo, com a introdução do fibroscópio pelo próprio Rui Unas.

20) HEPATITES A B C D e E – seria interessante fazer um debate moderado pela Laurinda Alves e Júlia Pinheiro, duas apoderadas das medicinas ditas alternativas, com um portador de cada tipo: um jovem para a A, um ex-toxicodependente para a B, para a C a Pamela Anderson e um transplantado hepático, um da classe média para a D, um da alta burguesia representaria a E, ainda um ex-alcoólico para a hepatite alcoólica, outro para a medicamentosa e por último, um para a auto-imune.

21) SÍNDROME DE BUDD-CHIARI – só pelo nome deveria ser produzida para o futuro canal 2.

22) COLEDOCOLITÍASE, CATARATAS, COXARTROSES, GONARTROSES – entrevistar estas doenças e fazer um concurso cujo tema seria, quem mais demorou a entrar na sala de operações.

23) ASCITE – seria uma doença para abrir o telejornal da TVI, de preferência contratar o ascítico com o maior abdómen, em vésperas de drenagem, e que se candidataria ao Guiness Book of Records. Poder-se-ia chamar o Director de Programas para in loco confirmar através da palpação daquela barriga, que se estava na presença de um abdómen sob enorme tensão e aplicar a primeira agulha para a sua drenagem.

24) LEUCEMIAS – sejam crónicas, agudas, mieloblásticas, linfocíticas ou de células pilosas. Em qualquer canal, a qualquer hora, para qualquer público. A das células pilosas tem sido pouco explorada.

25) POLICITEMIA VERA – doença desconhecida de muita gente, tem um nome sonoro, que vende. Ainda se usam aqui as sangrias medievais. Em directo fica bem. A Vera Roquete poderia ser a entrevistadora.
26) LÚPUS ERITEMATOSO SISTÉMICO – LES – Como já ouvi hoje na RTP1, fica para uma segunda grelha.

27) SÍNDROMES MIELODISPLÁSICOS – como são doenças da terceira idade, tem pouca saída. Talvez na SIC Nostalgia.

28) MACROGLOBULINÉMIA DE WALDENSTRÖM e DOENÇA DE VON WILLEBRAND – estas doenças terão que ser divulgadas pela Bárbara Guimarães, nos seus programas culturais. Não são doenças generalistas.

29) ARTROSES – incluindo os bicos de papagaio, as artroses dos joelhos, das cruzes, etc. São doenças populares. São grandes fornecedoras do PECLEC. Indicadas para os programas da manhã, para o Goucha.

30) JOANETES – doenças vulgares. Programas da manhã. Esta pode ser para a concorrência. Mas, para o mesmo tema, no horário nobre, falar-se-ia hallux valgus, calçado, cabeça do metatársico, exostoses, bursites, etc. Poder-se-iam mostrar fotografias de joanetes célebres.

31) DPPCD – parece a sigla de um partido ou movimento, mas significa DOENÇA DE DEPOSIÇÃO DE PIROFOSFATO DE CÁLCIO DIIDRATADO. Só pelo nome merecia também um lugar ao Sol. Pode não abrir noticiários, mas pelo menos no novo canal 2.

32) POLIMIOSITE-DERMATOMIOSITE, SÍNDROMA DE SJÖGREN, POLIARTERITE NODOSA, VASCULITE DE CHURG-STRAUSS, GRANULOMATOSE DE WEGENER, ARTERITE DE TAKAYASU, DOENÇA DE BUERGER, SÍNDROMA DE BEHÇET, DOENÇA DE PAGET – grande furo jornalístico seria convidar os senhores Sjögren, Churg e Strauss, Wegener, Takayasu, Buerger, Paget e Behçet acompanhados dos seus doentes. Seria uma Grande Entrevista da RTP1 com os habituais comentadores.

33) POLIMIALGIA REUMÁTICA vs FIBROMIALGIA – seria um Prós e Contras com a deputada Elisa de um lado e um polimiálgico do outro.

34) GINECOMASTIA – um concurso de beleza para homens, apresentado pela Teresa Guilherme ou pelo Júlio Isidro.

35) OSTEOPOROSE, MENINGITES, GRIPE – são doenças que só aparecem com grandes padrinhos por trás. Divulgam-se quando os padrinhos julgam oportuno.

36) BÓCIO – das primeiras doenças a ser expostas pelas ruas e praças, com grandes massas no pescoço. Não é necessário re-aparecer nas TVs.

37) SÍNDROME DE CUSHING, DOENÇA DE ADDISON e DOENÇA DE PAGET – mais uma mesa redonda, moderada por um endocrinologista de nomeada.

38) HIPOGONADISMO MASCULINO, HIRSUTISMO e DOENÇAS VIRILIZANTES DA MULHER – será muito difícil convencer estes doentes a exporem as suas doenças para o público em geral. Em tempos faziam parte do circo.

39) DENGUE, MALÁRIA, FEBRE AMARELA – doenças dos países pobres. Só saiem grandes reportagens a altas horas, para sermos poucos a ter vergonha da sociedade que criamos.

40) SÍNDROME DE CHOQUE TÓXICO ASSOCIADO A STAPHYLOCOCCUS AUREUS – a famosa doença dos tampões OB, que quase ia destruindo esta indústria. Também não deverá haver muitas interessadas a mostrar os seus tampões. Talvez a SIC RADICAL pudesse pegar.

41) DOENÇA DA ARRANHADURA DO GATO – doença engraçada para terminar um telejornal. Uma casa simpática com o felino causador, de preferência siamês ou mais exótico ainda, no colo da vítima.

42) INFECÇÕES – à TV que conseguir concorrentes para um novo Big Brother, proponho uma nova concepção. Seria assim: depois de isolados os 30 concorrentes numa casa hermeticamente fechada, lançar-se-iam dezenas de milhar de Streptococcus, Pneumococus, Staphylococcus, Clostridiuns, Bacillus anthracis, Corynebacterium, Bordetellas, Neisserias gonorrheae, Haemophilus, Legionellas, Salmonellas, Shigellas, Campylobacter jejuni, Vibrio cholerae, Brucellas, Francisellas, Yersinias pestis, Calymmatobacterium. Quem não adoecesse seria o vencedor. Entretanto, filmar-se-ia em directo o desenvolvimento das diversas doenças, com explicações práticas para alunos de medicina pelos mais reputados infecciologistas e bacteriologistas. Uma segunda edição seria com vírus e uma terceira com carrapatos.

43) NOCARDIOSE – é causada pela Nocardia asteróides e Nocardia brasiliensis. Um Cross Fire entre o cientista Carvalho Rodrigues pelo asteróides e o Filipe Scolari pelo brasiliensis. Poderia passar na Sport TV.

44) PÉ DE ATLETA – esta popular doença seria exclusiva também da Sport TV.

45) DEMÊNCIA, DELIRIUM, OLIGOFRENIA, DEFICIÊNCIAS VÁRIAS, CEGUEIRA – tudo isto já está exposto no Big Brother.

sábado, novembro 01, 2003

Literatura Médica V

"Aurícula Esquerda: 43 mm
Ventrículo Esquerdo:
- Diâmetro diastólico: 52 mm
- Diâmetro sistólico: 36 mm
- FE: 33%
- Septo Interventricular: 8 mm
- Parede posterior: 9 mm
Ventrículo direito: 15 mm

Relatório:
Ecocardiograma modo M e bidimensional revela:
1 - Válvula aórtica tricúspide com folhetos espessados e abertura sistólica mantida.
2 - Válvula mitral com folhetos finos, com cinética conservada e com fibrocalcificação do anel da mitral. Sem vegetações. Aparelho subvalvular mitral sem alterações.
3 - Raiz da aorta não dilatada, com paredes espessadas e com áreas de calcificação.
4 - Aurícula esquerda ligeiramente dilatada.
5 - Ventrículo esquerdo não dilatado, com paredes de espessura normal, função sistólica global normal e sem alterações da cinética segmentar.
6 - Cavidades direitas e pericárdio sem alterações
7- Ecodoppler cardíaco não realizado.

Conclusão: Fibrocalcificação mitroaortica. Dilatação auricular esquerda."


In um qualquer relatório de ecocardiograma, pertença de ninguém.

sexta-feira, outubro 31, 2003

Rui Frade (actualização)

Segundo informações que reputo de credíveis, o problema do dr Rui Frade não será apenas de ordem disciplinar (ou este, uma consequência de outro), mas relacionado com questões que a deontologia médica não me permite divulgar.

Só não compreendo a sua ligação profissional ao conceituado dr Daniel Sampaio.

Literatura Médica IV

Em Dia Nacional de Prevenção do Cancro da Mama.

"Foram realizadas incidências crânio-caudal e oblíqua médio-lateral para estudo radiológico de ambas as mamas.

Há já um padrão adiposo razoável, de expressão bilateral e o remanescente fibro-conjuntivo distribui-se preferencialmente nas regiões proximo-areolares, estendendo-se também aos quadrantes externos e nomeadamente superiores, com alguma assimetria. Um ou outro esboço de encapsulamento caracterizando globalmente modificações de fibro-quistose, não se evidenciando sinais de suspeição maligna.

No escavado axilar esquerdo projectam-se duas formações ganglionares incaracterísticas.

A avaliação complementar por ultrassonografia encontrou acentuação da reflectividade matricial por modificações de fibrose, associando-se com pequenas formações quísticas mais aparentes no seio esquerdo, onde se referem as de maiores diâmetros respectivamente no quadrante supero-externo, com 13,7 mm, 13x4 mm e 9 mm.

Em ambas as regiões retro-areolares encontramos alguma proeminência ductal.

Tendo em atenção os antecedentes familiares de risco acrescido sugerimos a manutenção deste controlo regular
".

In um qualquer relatório de mamografia e ecografia mamária, pertença de ninguém.

Literatura Médica III

“Fígado com dimensões dentro da normalidade, de contornos regulares, com aspectos compatíveis com esteatose moderada, visualizando-se na região do hilo, algumas áreas hipoecóicas mal definidas e que admitimos como zonas poupadas ao processo esteatósico, a integrar no entanto com dados clínico-laboratoriais, sem lesões nodulares focais.

Vias biliares não ectasiadas. Vesícula biliar muito distendida, de parede fina, com lama biliar e não são aparentes cálculos.

Pâncreas de difícil apreciação por interposição gasosa.

Baço sem alterações morfo-dimensionais ou ecoestruturais.

Ausência de líquido livre na cavidade abdominal.

Grandes vasos sem alterações.

Rins em topografia habitual e com dimensões globalmente conservadas.

Está mantida a diferenciação parenquimo-sinusal e a espessura parenquimatosa.

Sem hidronefrose e não são visíveis imagens seguras de cálculos. Sem evidência de formações ocupando espaço.

Status pós-histerectomia. Cúpula vaginal sem alterações.

Sem evidência de massas ou líquido livre na cavidade pélvica.”


In um qualquer relatório ecografia abdominal, renal e ginecológica, pertença de ninguém.

quinta-feira, outubro 30, 2003

Rui Frade

Rui Frade é a prova de que nem todos os médicos são honestos.

Rui Frade conseguiu o que queria. Publicidade!

A comunicação social ajudou-o gratuitamente, até ao seu consultório foi.

(Este bilhete foi a resposta a um desafio!)

quarta-feira, outubro 29, 2003

Histórias do Nosso Povo Que as Televisões Escondem

Ou Mais Um Dia de Trabalho Com o Povo
Ou Histórias Que O (Nos) Envergonham

– 45 – Masculino: (antes de começar) amigo dá informes de amigo internado;

– 30 – Feminino: dor no pescoço e perfumadíssima, talvez a ida ao banco seja a sua única reunião social (no fim, por favor pode pôr aí uma caixa de zolpidem para a minha mãe?);

– 77 – Masculino: Early Morning Hours – não resistiu a um velório e ao funeral, dor no peito mantida, segue para a cardiologia;

– 78 e 77 – Masculino e feminino: dois doentes de lares de idosos trazidos por jovens funcionárias.

– 77 – Masculino: mais um lar de idosos em apuros – complicação pós-cirurgia abdominal, segue para a cirurgia;

– 65 – Masculino: má interpretação da terapêutica anti-diabética, analfabeto;

– 63 – Feminino: queda de cabelo (olho para o relógio: são exactamente 13 horas e vinte), educadamente pergunto: minha senhora, queixar-se de queda de cabelo, aqui e às 13h20? Resposta: porque o meu marido tinha que fazer de tarde. É perigoso discutir com estes doentes. Tome lá este champô e vá ao seu médico, se faz o favor.

– 95 – Feminino: agitação, sons imperceptíveis, grunhidos, gemidos, psicose senil, acamada, suja, urinada, escariada, abandonada dentro da família. Quando mostram a vida dos 113 anos, esquecem-se de muitos anos sem vida. Estes casos não convêm expor nos monitores das nossas televisões. Expor doentes, só com casas com piscina, da nossa nova burguesia, ou quando cheira a negligência médica ou do Estado. Quando a negligência é das famílias, as televisões escondem-se.

– 16 – Feminino: picadíssima por insectos durante a noite. Mas viveremos em África? Não. Vivemos em Portugal, mas há quem sobreviva e não viva sem condições.

– 15/16 – 4 Alunas teen: sintomas mínimos, da mesma escola, da mesma turma, para a declaraçãozita. Sempre é melhor que ir à escola.

– 34 – Masculino: corpo estranho no olho, há mais de 24 h. É um caso de auto-negligência. Segue para a oftalmologia.

– 90 – Masculino: queda da cama há 8 dias. Vive sozinho com a esposa de 89. Os filhos esqueceram-se dos pais. Traço ligeiro de fractura do úmero. Ortopedia. Repouso em casa com carta para o médico de família.

– 67 – Masculino: Depressão por cancro da laringe. Tratado, estabilizado, curado (?). Mas a depressão persiste. Foi mais fácil tratar o cancro que a depressão. A vida é assim. Mas se não tivesse fumado a vida inteira, nem uma, nem a outra teriam aparecido.

– 24 – Feminino: Oksana (nome fictício), emigrante de leste. Educada e simpática. ITU.

– 79 – Masculino: internado em lar. Acamado. Diz a acompanhante muito agitada, que está engasgado. Não está. Está com uma crise aguda de ansiedade.

– 86 – Feminino: erisipela.

– 91– Feminino: diz o familiar, espumou pela boca. Está em coma. AVC.

– 52 – Masculino: pai de médico. Segue para a dermatologia. (Pior é quando o filho está doente e o pai é médico. Por vezes é a doença “filho de médico”).

– 40 e 52 – dois elementos do nosso lumpen: finalmente. DST, já com resultado de análise na mão. Também há lugar para eles. Portugal é belo.

– 76 – Feminino: reacção aguda ao stress pelo internamento do marido das Early Morning Hours, na cardiologia.

Metade da lista. Os casos restantes perderam-se da memória.

(Ficção a partir da realidade observada. Tudo inventado. Nada disto existiu.)

Eu não existo! Eu sou ficção.

domingo, outubro 26, 2003

Literatura Médica II

"Orientados por topograma de perfil obtivemos cortes tomográficos axiais de 2,5mm de espessura paralelos ao plano dos discos intersomáticos lombares.

Lise ístmica bilateral de L5 – espondilolise, determinando discreto desvio listésico anterior de L5 sobre S1 (espondilolistesis litica). Associada procidência difusa do anel fibroso do respectivo disco intersomático de maior expressão focal ao nível da vertente póstero-lateral esquerda contactando a face ventral adjacente do saco tecal sem compromisso das emergências radiculares. As alterações referidas determinam discreto alongamento do canal raquidiano central, deformação dos canais de conjugação, com estiramento radicular, estando contudo permeável o tecido adiposo peri-neural foraminal.

Procidência difusa do anel fibroso do disco intersomático L4/L5, de maior expressão focal ao nível da vertente póstero-lateral esquerda, deformando a face ventral adjacente do saco tecal determinando conflito de espaço com a emergência radicular L5 esquerda.

Procidência difusa do anel fibroso dos discos intersomáticos L3/L4 e L2/L3 coexistindo hérnia discal foraminal esquerda em L3/L4 obliterando o tecido adiposo peri-neural foraminal contactando com conflito de espaço a raiz L3 esquerda no trajecto no canal de conjugação. No nível L2/L3 assinalamos rectificação da vertente tecal anterior ao nível das emergências radiculares.
Canal raquidiano lombar central de dimensões reduzidas de natureza constitucional nos níveis L3/L4 e L2/L3 agravado pelas alterações disco-vertebrais referidas e pelo espessamento bilateral dos ligamentos amarelos, determinando estenose segmentar mista canalar central significativa no nível L2/L3 com moldagem concêntrica e conflito de espaço radiculo-tecal
."

In um qualquer relatório de uma tomografia axial computorizada (TAC) pertença de ninguém.

Nota: Estes bilhetes de pseudo literatura médica têm como objectivo a preparação para um futuro triste bilhete.

"O Álcool Pode Fazer Bem"

Aconselho a leitura desta entrevista* (Público, 26/10/2003, por Ricardo Dias Felner a Fátima Ismail, médica, que dá consultas na unidade de etilo-risco do Hospital de Santa Maria, em Lisboa), sobre o álcool, mas cuja primeira resposta, serve às mil maravilhas, para a discussão que a blogosfera teve sobre o tabaco.

"PÚBLICO - Não receou admitir publicamente que o álcool pode ser positivo?

Fátima Ismail - A nossa vida é um conjunto de opções. E para nós optarmos bem é preciso estarmos bem informados. Não podem existir, por isso, tabus, coisas escondidas. Hoje em dia, tudo se sabe. O alcoolismo é um drama em Portugal, isso deve ser dito e devemos combater os mitos de que é benéfico sexualmente, que dá força, que é um sinal de masculinidade, etc. Mas não se pode esconder que também tem aspectos positivos. Por outro lado, o ser humano é muito curioso. Por isso, quanto mais se tenta esconder as coisas, mais as pessoas querem experimentar, sobretudo na adolescência.
"

A minha função aqui é só informar, tentar explicar qualquer coisita. Não é tomar atitudes repressivas, nem descriminatórias, nem defender causas que julgue serem as mais justas.

Nem ser paternalista ou caridoso.

Aliás, são duas situações que me eriçam!
Explicar, aconselhar ou solidarizar, às vezes só com uma palavra, são circunstâncias bem mais agradáveis.

Eu aprendo todos os dias!
___________
* ligação não permanente.

Nós Suicidamo-nos Todos os Dias

A frase é de um popular entrevistado para a SicNotícias.

Mas acutilante, como sempre foi a sabedoria popular.

É o tabaco, as gorduras, o sedentarismo, o sal, os acidentes de viação, etc, etc., completo eu.

sábado, outubro 25, 2003

SAL

No Jornal de Notícias de 25/10/03:

"Cardiologistas propõem lei que limite o uso de sal

Hipertensão



Limitar, legalmente, o consumo de sal, é uma medida que a Federação Portuguesa de Cardiologia (FPC) preconiza, para combater a hipertensão. A proposta está a ser elaborada, e os responsáveis daquela instituição esperam que tome a forma de lei o mais rapidamente possível.
Obrigar a indústria a produzir alimentos com menos sal é o espírito da proposta, noticiada, ontem, pela TSF. Segundo Manuel Carrageta, presidente da FPC, "consumimos mais do dobro do sal do que os outros países europeus". A diferença é ainda maior em relaçãoaos valores recomendados pela Organização Mundial da Saúde (consumimos 18-20 gramas/dia, quando o admissível são cinco).
A FPC pretende que a redução seja feita gradualmente, para que não constitua um choque. Por exemplo, começa-se por uma redução de 10 a 20% do sal usado na confecção de pão, o que não fará grande diferença ao consumidor, repetindo-se o corte passado um ou dois anos, o que terá "um impacto extremamente positivo no número de hipertensos e no número de doenças cerebro-vasculares que ocorrem em Portugal".
Cerca de 40% dos portugueses com mais de 40 anos são hipertensos.
"

Apoio incondicionalmente este medida.

Nos Estados Unidos da América do Norte também está (esteve) na ordem do dia, para combater determinados problemas de saúde resultantes do "bem-estar" que a civilização ocidental nos proporciona. Assim a obesidade mórbida, que nos EUA atinge níveis escandalosos, iniciou um processo lento de estabilização e regressão.

Quem quiser acrescentar um pouco de sal (ou pimenta) faça o favor.

sexta-feira, outubro 24, 2003

O Público Esclarece a Boa Vontade ...

"Televisão nas Farmácias Terá Publicidade a Medicamentos
Por JOANA FERREIRA DA COSTA
Sexta-feira, 24 de Outubro de 2003

O programa "Farmácia TV", que em Março de 2004 começará a ser transmitido em ecrãs de televisão em 500 farmácias do país, prevê que cerca de 20 por cento dos conteúdos sejam publicidade a medicamentos que não precisam de receita e a champôs ou cosmética. Este projecto da Associação Nacional das Farmácias (ANF), avaliado em 3,7 milhões de euros, passa ainda por informação ao consumidor e conselhos de saúde, alargando às montras as promoções pagas pelos laboratórios.

O "Farmácia TV", anteontem apresentado, instalará ecrãs de plasma de grande formato no interior dos estabelecimentos aderentes, que passarão, num sistema interno de vídeo, três tipos de conteúdos: filmes de promoção da saúde e informação ao doente, mensagens institucionais e publicidade a produtos e medicamentos não sujeitos a receita médica.

A informação será transmitida ao longo das 24 horas, prevendo-se que as farmácias disponham de um outro monitor de TV, que seja visível do exterior e que durante a noite dará indicações úteis, como a lista das farmácias de serviço.

Os vídeos informativos não terão som. O projecto arrancará com 100 filmes de um minuto cada, calculando-se que a publicidade venha a ocupar 20 por cento da programação. O peso promocional poderá, no entanto, estar sujeito a alterações, apurou o PÚBLICO junto de fonte da ANF. De qualquer modo, o principal objectivo é que esta TV seja "um importando veículo de formação e informação dos utentes no espaço da farmácia", diz a associação.

Custos suportados pela ANF

Na fase de arranque, o "Farmácia TV" deverá funcionar em 500 farmácias. Os custos do projecto serão totalmente suportados pela ANF, que também elaborará os conteúdos. As estimativas apontam para um custo de 7500 euros por estabelecimento, num total de 3,7 milhões nesta primeira fase. Mas a longo prazo, com o alargamento da rede de farmácias aderentes, os custos passam a ser totalmente suportados pelos laboratórios e empresas anunciantes.

A ANF já contactou cerca de 40 laboratórios e fabricantes de produtos de higiene e bem-estar, para que aderissem ao projecto, que também prevê a publicidade nas montras das farmácias. "A ideia é que as montras sejam uma réplica dos módulos de publicidade do 'TV Farmácia', funcionando esta promoção em simultâneo em redes de 100 farmácias".

A participação dos laboratórios e fabricantes de produtos cosméticos vai ser feita mediante a assinatura de um protocolo com a ANF, que definirá "a contribuição financeira de base anual e as respectivas contrapartidas", diz a associação.

A elaboração dos conteúdos institucionais e técnicos ficam a cargo da ANF, que criou um conselho consultivo que validará a informação. Dele farão parte, não só farmacêuticos e um representante da Ordem da classe, mas também um representante dos consumidores e outro da Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (Apifarma) . Ao que o PÚBLICO apurou, o presidente do Instituo Nacional da Farmácia e do Medicamento (Infarmed) mostrou interesse em obter publicidade institucional gratuita no "Farmácia TV", tendo em vista a promoção do uso racional dos medicamentos."


Até nem acho mal.
Só me custa é ouvir que é em prol do doente. Que é uma medida para educar as massas, de base científica, etc.
Será uma nova aliança entre a Apifarma (que representa os laboratórios corruptores dos médicos) e a ANF (que rerpresenta as farmácias).

Será que a ANF se irá esquercer dos genéricos?

As farmácias são um negócio que tem que ser rentável. E isto será uma forma de se promoverem os chamados medicamentos OTC, medicamentos de venda livre e que na língua anglo-saxónica significa: over the counter (por cima do balcão).

quinta-feira, outubro 23, 2003

Literatura Médica I

"Introdução laboriosa até ao cego, por cólon longo, redundante (dolicocolon):

.../...

fenómenos espásticos particularmente nos segmentos esquerdos com esboço diverticular.

Canal anal:
- inspecção perianal: marisca hemorroidária;
- exame digital: indolor, tônus normal;
- observação: plexo hemorroidário interno congestionado (grau I/II).

Conclusão: D. espástico-diverticular
"

In um qualquer relatório de colonoscopia pertença de ninguém.

Gostava, Gostei. Não Gostava, Gostei. O Google É O Google!

1) Da prestação do FCP (que bom antidepressivo!).

2) Do dr Strecht Monteiro (que bom ansiolítico!).

3) Mas o que procura, quem me traz o Google?

Blogue da epilepsia. (Será que existe?)

Tensão pré-menstrual conclusão pesquisa (Já falei. É o premenstrual dysphoric disorder ou late luteal phase dysphoric disorder).

Tumor vírus inteligente (Há vírus bem mais inteligentes que os humanos.)

Artigo científico de AVC (Devem existir milhões de artigos escritos. Em Portugal, o prof. José Manuel Ferro é uma referência.)

"O doente oncológico" (Porquê entre comas?)

Médico blog (Este devia querer-me!)

Projecto construção agência funerária privado (Não conheço agências funerárias públicas.)

Sintomas de fibromioma (Perguntem à Elsa Raposo. Afinal o tumor não impediu o casamento!)

Trauma ocular doméstica (Deve ser a Vitriólica que fez uma queratite traumática quando fritava uns ovos estrelados.)

Ansiedade dentária (Quem não a tem!)

Estudo do cancro junto ao rio Minho (De que lado da fronteira?)

Cancro mama "psicologia" (Deve procurar: acompanhamento psicológico a doentes mastectomizadas.)

Gastroenterite português significado (Era mais fácil abrir um dicionário on-line)

Marido morreu (Que estranha pesquisa!)

Leio Myos* (Com um asterisco. Para quê?)

Controlar a dor do enfarte do miocárdio (Se não houver contraindicações: no enfarte, a morfina; na angina, a nitroglicerina.) Não fumem!

Receitas de doces poveiros (Que têm os doces poveiros, as rabanadas, a ver com o Médico Exlplica?)

Felicidades Médico (Se forem para mim, obrigado.)

Pneumonia comunidade (PAC: pneumonia adquirida na comunidade)

Siglas médicas (Veja o P@pel do Médico)

quarta-feira, outubro 22, 2003

O Marido Médico, a Mulher Médica e a Filha Médica.

A Democracia permite-nos isto.

As minhas informações permitem-de afirmar que, o milagre da D. Emília, que, de repente, qual verdadeiro milagre, caminhou sobre a terra em posição vertical contrariando a posição horizontal em que vivia há décadas, foi confirmado a pedido da Igreja por três médicos: o marido, a mulher e a filha.

Junta médica familiar!

Para quando um verdadeiro milagre para o Médio Oriente? Mesmo atestado por favor, ficava agradecido.

terça-feira, outubro 21, 2003

Venda de Medicamentos em Unidose

Já aqui falei nisto.

Porque não se aplica em Portugal? Quem resiste ...

segunda-feira, outubro 20, 2003

Quando mal, nunca pior...

Diz o povo e com razão!

Disse-me um doente e sem razão, a propósito dos relatórios dos exames complementares de diagnóstico que me mostrou:

"LIGEIRAS ALTERAÇÕES FIBROCALCIFICANTES DEGENERATIVAS DAS VÁLVULAS AÓRTICAS E MITRAL, SEM APARENTE COMPROMISSO FUNCIONAL."

Idade: benditos 90 anos cheios de vida.

domingo, outubro 19, 2003

Por Falar em Tabaco ... Não Morras Já, Pá!

Foi publicado o Programa Nacional de Prevenção e Controle das Doenças Cardiovasculares pelo Despacho nº 16 415/2003 – 2ª Série no Diário da República nº 193 de 22 de Agosto de 2003.

Mas descansem os bons e necessários intelectuais fumadores da blogosfera, com o Aviz à frente: este Programa não impede ninguém de fumar.

Mas leiam até ao fim este bilhete e depois façam um acto introspectivo e decidam em consciência.
São doenças evitáveis em quase 100%.
Olhem para os vossos amigos que subitamente desapareceram (todos temos um ou outro amigo que desapareceu subitamente, sem ter oportunidade de se despedir).

Alguns excertos do documento:

- “As doenças cardiovasculares (acidentes vasculares cerebrais e doença isquémica do coração) são a principal causa de mortalidade em Portugal …/… sendo considerada uma das mais elevadas da Europa e do Mundo.”

- “…são responsáveis por perto de 50% das mortes ocorridas em 1999, …/… entre as principais causas de mortalidade, invalidez e anos potenciais de vida perdidos na população portuguesa.”

- “…são assim a principal causa de morte em Portugal em ambos os sexos.”

- “Observa-se no entanto uma tendência decrescente a nível nacional e em todos os grupos etários…”

-“…cerca de 17% da população portuguesa refere ser hipertensa (+- 30% em rastreios realizados)…”

- “QUE CERCA DE 19% DA POPULAÇÃO COM IDADE IGUAL OU SUPERIOR A 10 ANOS REFERE SER FUMADORA DE MAIS DE 20 CIGARROS POR DIA”

- “...que 50% da população portuguesa apresenta excesso de peso….”

- “…sendo Portugal o país da União Europeia que mais consome calorias por dia e em que menos se anda a pé…”

- “…a prevalência da HTA …/… o tabagismo, a dislipidémia, a diabetes, o abuso do álcool, o sedentarismo, a obesidade ou o stress excessivo”

[Como sabemos nenhum destes factores de risco é preponderante nos intelectuais!]

- “O desenvolvimento das ciências da saúde veio demonstrar que a morte ocorrida em idades precoces no mundo ocidental, não se deve a uma fatalidade do destino mas a doenças causadas, ou agravadas, pela imprevidência, ou pela ignorância, das causas que a elas conduzem.”

-“…a DIC e os enfartes do miocárdio, …/… dada a perspectiva de crescimento … até ao ano 2025”

-“…mobilização geral da sociedade para a promoção e preservação da saúde, através da educação, informação e formação dirigida, …/... fazendo recurso:

1. dos meios de comunicação social nacionais, regionais e locais; [esqueceram-se dos nossos blogues]

2. dos líderes de opinião; [tais como o FJV do Aviz e o JPP do Abrupto]

3. dos educadores; [tais como
Mata-Mouros,
Gato Fedorento,
Dicionário do Diabo,
Blogue dos Marretas,
Blog de Esquerda,
Bomba Inteligente,
Desejo Casar,
Flor de Obsessão,
Jaquinzinhos,
(o vento lá fora),
Terras do Nunca,
Janela Indiscreta,
Barnabé,
Mar Salgado,
Cruzes Canhoto!,
Homem a Dias,
País Relativo,
Voz do Deserto,
Desblogueador de Conversa,
Glória Fácil,
Outro, Eu,
A Formiga de Langton,
Liberdade de Expressão,
A Praia,
Almocreve das Petas,
Socio[B]logue,
Contra a Corrente,
Avatares de Desejo,
Fumaças,
Não Esperem Nada de Mim,
Bloguítica Nacional,
Valete Fratres,
A Natureza do Mal,
100 Nada,
Memória Inventada,
Alfacinha,
Terras do Nunca,
Ouvido de Barman,
O Comprometido Espectador,
Bicho Escala Estantes,
Cataláxia,
Íntima Fracção,
Jornalismo e Comunicação,
A Aba de Heisenberg,
Procuro Marido,
A Causa foi Modificada,
Janela Para o Rio,
Guerra e Pás,
Adufe,
Azul Cobalto,
Maizumpomonte,
Monólogo.]


4. dos artistas e animadores; [como o resto da blogosfera]

….”

- “O tabagismo, considerado na União Europeia, o factor de risco mais importante, está implicado em cerca de 50% das causas de morte evitáveis…”

- “O tabagismo passivo tem, também um risco acrescido de DC ateroesclerótica, favorecendo, igualmente, a ocorrência de outras doenças, nomeadamente osteoporose, doenças respiratórias e oncológicas, relacionadas com o tabaco.”

sexta-feira, outubro 17, 2003

Mais Lembranças do Harrison

"Prezado Colega e apesar disso... Amigo
Mais uma vez o bom senso vem á superficie da explicação aos intelektuais. O bom senso, matéria de dificil aprendizagem na escola médica e de ainda mais dificil transmissão ao longo do exercíco da nossa profissão, dita que quanto mais exigente a formação teórica mais se afastada esta da pratica. Lidando por dever de ofíco com alunos do 4º e depois do 6º ano de uma mui prestigiada escola médica ( que não a minha alma mater) surpreende-me a dificuldade cada vez maior que estes potenciais futuros Colegas têem em perceber que a pratica médica não é mais do que integração de conhecimentos caldeada no bom senso ou senso comum . Assim, se o frequente é frequente, o raro é raro e quando não percebemos o que estamos a observar o melhor é perguntar ou em última análise recorrer aos bons e velhos livros, que normalmente possuem alguma explicação para o que estamos a ver pela primeira vez. Não me atrevo a debater sobre as vantagens e desvantagens da EBM mas apenas sobre a necessidade já reconhecida por Hipocrates da relação tutorial na aprendizagem do saber / arte médica.
Sempre fascinado pela medicina anglosaxónica ( vide americana) o que me surprendeu por lá foi a precocidade da ida dos estudantes para a enfermaria, praticando gestos simples e elementares mas desde muito cedo apreendendo uma maneira de estar na profissão e na relação como o outro ( doente, familiar, profissional de saude, chefe ou patrão, ou simples colega). Assim sendo e antes que o sono vença 100% de acordo com um Internato geral de verdadeira pratica e de preferência om pouca tolerância ás dispensas para estudar 7 capítulos do Harrison
PS fui reler algumas anotações da minha 9th edition em papel de bíblia sublinhado a lápis a proposito de um sinal clínico obscuro ( Cullen) que hoje de manhã observei numa criança em estado grave e lá estava a explicação a fisiopatologia subjacente, enfim a explicação .... aos simples das coisas complcadas.
Cumprmentos de um Colega ao dispor..."


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Como o Hotmail devolve as mensagens, respondo-lhe por esta via:

Caro colega Gasel:

Inteiramente de acordo com tudo o que me disse na sua mensagem, só que pendo mais para o lado do fumador passivo.

Aliás, como fumador passivo, adoro o odor do fumo do tabaco, ainda me deixa muitas saudades. E já lá vão 20 anos.

Felicidades.

Med. Expl.

Munchausen Syndrome by Proxy

quinta-feira, outubro 16, 2003

Harrison's Principles of Internal Medicine

Está o cibertulia preocupado com o facto da Margarida se estar a preparar para o exame de ingresso no internato para as diversas especialidades médicas e cirúrgicas. E insurge-se contra o o tempo perdido no internato geral, principalmente no segundo ano. Depois afirma que "O estado da Saúde em Portugal também se podia medir por aqui..." e pede que "o médico de serviço na blogosfera também poderia dar o seu importante contributo...".

O médico de serviço, que bem gostaria de o não ser, lembra-se do seu Harrison desde os seus anos clínicos na faculdade até hoje. Harrison será sempre o Harrison. É a nossa bíblia, sempre actualizada, desde que o compremos, claro.

Lembro-me que para além da letra miudinha o papel era bíblia.
Ainda guardo os meus Harrisons passados. E como gosto de confirmar os avanços da medicina ao folhear estas edições desactualizadas.

Ainda a sida não era sida e já o Harrison de 1980 descrevia em poucas linhas uma nova doença, apenas estatisticamente relevante, pois referia o aparecimento de determinadas doenças relacionadas com a deficiência adquirida da imunidade. Nessas linhas descrevia-se que em determinados grupos sociais, como os homossexuais, os haitianos e os adictos de drogas endovenosas desenvolviam-se algumas doenças que era suposto não se desenvolverem e relacionadas com a diminuição das defesas.
Era uma interrogação. Porquê? Ainda se colocavam muitas dúvidas.

Quanto ao internato geral, está em mudanças.
Defendo um bom internato geral de 2 anos (parece que vai ser diminuído). Mas é necessário para se adquirir "traquejo" e "autoconfiança" na profissão.
Nos médicos espanhóis, onde não existe internato geral, nota-se uma certa dificuldade no à vontade na prática clínica do dia-a-dia. No senso clínico (ou olho clínico) que só se adquire com a prática.

Pena é que o internato geral ainda seja encarado como uma mera preparação para o exame de ingresso ao internato das especialidades e se descurem tantos aspectos práticos.

quarta-feira, outubro 15, 2003

Provado vs Não Provado

Não vou discutir ciência na blogosfera.
Aliás, apenas disse que "Como entretanto ficou provado que o fumador passivo também é molestado pelo fumo do tabaco do parceiro do lado". Não falei em cancros do pulmão (mas que los hay, los hay!)

Não vou fazer no blog um seminário contra ou a favor do tabaco, nem do fumador passivo.

Mas já que o Aviz me lançou indirectamente o repto de uma resposta, vou tentar explicar medicina para intelectuais, com linguagem simples, mas científica.

Comecemos com a Sociedade Portuguesa de Cardiologia:

- "A população fumadora é, não só a que maior mortalidade apresenta, mas também a que maior morbilidade possui. São os que consomem mais cuidados de saúde e os que maior absentismo por doença apresentam. As faltas ao serviço são mais de 25% superiores nos fumadores.";
- "é uma maneira não só de diminuir os riscos para a saúde que o hábito provoca, mas reduzir também os riscos (não só na morbilidade mas também na mortalidade) do fumador passivo."

Continuemos com a Escola Nacional de Saúde Pública:

- "O fumador passivo, exposto à poluição tabágica ambiental (PTA) provocada pelos fumadores, encontra-se exposto a uma série de doenças potenciais que cada vez mais necessitam de ser prevenidas. Neste quadro, cabe à sociedade proteger a saúde dos seus cidadãos através de uma legislação que proteja os não fumadores, ao mesmo tempo que respeita a opção daqueles que fumam".
- "Se existe consistência na associação entre consumo activo de tabaco e neoplasia maligna do pulmão, já o risco de contrair cancro do pulmão relacionado com os fumadores passivos levanta ainda algumas dúvidas em estudos recentes (Lee e Forey, 1996), apesar do elevado número de estudos que suportam o efeito deletério do fumo consumido passivamente".
- "Desde a exposição das esposas de fumadores activos até à exposição das crianças ao fumo do tabaco e à exposição em função da ocupação profissional, vários estudos utilizaram estes factores como fonte de informação sobre os efeitos do fumo passivo na incidência de NMP. Contudo, o risco de um fumador contrair cancro do pulmão diminui se desistir de fumar, assim como o risco de contrair outras patologias associadas ao tabaco (Tong, 1996)".

E terminemos, para já, com as conclusões portuguesas do estudo referido no Aviz pelo meu colega:

- "A associação entre tabagismo passivo e cancro do pulmão tem adquirido grande importância social e política. Vários estudos epidemiológicos, centrando-se sobretudo na exposição ao fumo do tabaco do conjuge, têm demonstrado esta relação. Com o objectivo de determinar a existência de um efeito positivo do fumo do tabaco do ambiente, analisando a exposição durante a infância, a exposição ao conjuge e outros membros do agregado familiar, e ainda da exposição em veículos, lugares públicos e no ambiente profissional, realizámos um estudo caso-controle, integrado num projecto multicêntrico. Estudámos 38 doentes com cancro do pulmão confirmado histologicamente e que nunca tinham fumado e 67 controlos, igualmente não fumadores.Os resultados obtidos, mostram que os doentes com cancro do pulmão têm maior exposição ao fumo de tabaco quer durante a infância quer durante a vida adulta. Por outro lado, apenas a exposição relativa ao conjuge tinha significado estatístico, duplicando o risco de cancro do pulmão quando os níveis de exposição eram superiores a 5000 cigarros fumados («odds ratio», 3.10; 95% de intervalo de confiança , 1.09-13.09). Apesar dos nossos dados necessitarem de integração no estudo multicêntrico para serem mais conclusivos, mostram uma relação entre a exposição ao tabagismo passivo do conjuge e o cancro de pulmão em não fumadores."

Dor no Peito: A Medicina É Assim ...

Hoje, em 12 horas de serviço, 18% dos doentes observados referiram dor no peito. Destas, apenas uma era de origem cardíaca num doente de 87 anos com a sua angina e que regrediu com um comprimidinho sub-lingual de nitroglicerina.

Nas restantes, os diagnósticos de saída foram: ansiedade aguda, dores de origem gástrica, dores osteo-musculares, asma, depressão, e até uma rinofaringite tinha como motivo de consulta a dor no peito.
E quando alguém tem uma dor no peito, pensa logo naquilo que não devia pensar...

Isto foi hoje.

Há oito dias, o enfarte do miocárdio foi fulminante.
O doente entrou pelo seu pé com dor no peito e já não saiu. A reanimação foi infrutífera.

terça-feira, outubro 14, 2003

"Médicos de Portalegre Recusam Acusação de Homicídio por Negligência"

Neste julgamento mediático, diz o Público que nenhum dos médicos se considera negligente.

Dos três conheço um e sei que não é negligente. Confiava-lhe a minha família, amanhã ou depois.

Não consigo alcançar o raciocínio clínico do terceiro, nem o seu diagnóstico. Mas também não sei se os jornais têm transcrito correctamente as informações clínicas.

Quer o Tribunal decida ou não por negligência, que houve erro de diagnóstico não há dúvida.

E os erros também se combatem!

Só não compreendo a razão porque nenhum jornal explora o facto de um hospital distrital (terminologia antiga) não ter um cardiologista de serviço, nem um técnico cardiopneumologista de serviço à urgência, a partir das 16 horas.

Este é o país real!

domingo, outubro 12, 2003

Cancro do Pulmao

(Nao estou em Portugal e no hotel os teclados nao têm til. Desculpem-me.)

Mas mesmo longe, lembrei-me da polémica do Aviz.

No intervalo de uma sessao, conversava com um colega que me dizia que tinha sido diagnosticado ao seu pai um cancro do pulmao. Tinha-o levado aos melhores especialistas da matéria e todos aconselhavam que ao seu pai fosse retirado, ou um lobo do pulmao ou mesmo a sua totalidade.

Palavra puxa palavra, fiquei a saber que o seu pai nunca fumou, que tinha 85 anos e que nao queria ser operado, afirmando que se sentia muito bem.

Já sei que os fumadores estarao a dizer: em bem disse que também há cancros em quem nunca fumou!
E estao a dizê-lo com muta razao. Só que a palavra cancro, para a populaçao em geral tem um peso psicológico enorme, mas para nós, significa uma multiplicidade de diagnósticos, com vários prognósticos.

No pulmao desde há muito se sabe que há cancros que nao estao relacionados com o tabaco. Mas sao uma percentagem reduzida em relaçao à totalidade dos vários cancros do pulmao. Mas a estatística nao mente. Desde que os hábitos tabágicos na mulher aumentaram, também aumentou o número de cancros do pulmao e a respectiva mortalidade.

Sou a favor de campanhas de educaçao para a saúde. Mas sou contras as demagogias higienistas, como refere o Aviz. E em relaçao ao vinho, em quantidades aceitáveis, até tem um efeito benéfico para a saúde, como todos sabemos.

E voltando ao pai do meu colega, penso que faz muito bem em nao ser operado. Trata-se de um nódulo solitário e com 85 anos, provavelmente falecerá de morte natural, muito antes do cancro provocar qualquer estrago!

quinta-feira, outubro 09, 2003

Ter um Blog (Ou Ler Blogues) Também É um Vício, Só que Não Mata!

Português Suave e a Polémica do Aviz

"PORTUGUÊS SUAVE, 4. Sobre o texto acerca do Português Suave começam a chegar alguns textos mais serenos — e até alguns de fumadores, caramba". diz o Aviz.

Também chegam os ex-fumadores, com eu.

Concordo com o Aviz, que tem sido educadíssimo nesta discussão, assinale-se, quando se refere à defesa da marca Português Suave. Por um lado, perde-se uma marca conhecidíssima, por outro autoriza-se o Marbelo, que como sabemos não se confunde nada com Marbollo, mesmo na pronúncia madeirense!

Das poucas certezas que a Medicina tem, a de que fumar tabaco faz mal é uma delas. Em termos científicos tabaco, pouco quer dizer, pois o cigarro, o papel, o fumo, a combustão, a temperatura, tudo tem a sua especificidade nesse fazer mal.

Quem quiser fumar, que fume! É mais fácil impedir o suicídio, tratando a depressão, do que impedir que um fumador se mate aos poucos. É uma opção. Temos que a respeitar.

Como entretanto ficou provado que o fumador passivo também é molestado pelo fumo do tabaco do parceiro do lado, sou apologista que os fumadores tenham os seus espaços isolados.
Como gosto de os ver em alguns aeroportos, por baixo de um chapelinho, os fumadores juntinhos, com o seu cigarrito na mão, enqunto o fumo é sugado para o exterior!

terça-feira, outubro 07, 2003

Ser Blogger É ... Ir Ali e Voltar (Sem Data Marcada!)

Ser blogger é...

Belo
Agradável
Deleitoso
Excelente
Atraente
Aprazível
Gostoso
Bonito

Encantador
Sério
Esplêndido
Deslumbrante
Celso
Simpático
Excelso
Cativante

Convidativo
Doce
Delicioso
Pulcro
Adorável
Sublime
Surpreendente
Sedutor
Voluptuoso
Lascivo
Melífluo
Provocante
Libidinoso
Sensual
Angariador

Dominador
Fascinante
Critico
Diligente
Grandíloquo
Soberbo
Ameno
Aliciante
Aliciador
Portentoso
Interessante
Ágil
Honesto
Maravilhoso
Provocatório

Problemático
Absorvente
Trabalhoso
Custoso
Activo
Complicado
Árduo
Cansativo

Dinâmico
Difícil
Duro
Espinhoso
Estafante
Enérgico
Laborioso
Grave
Penoso
Extenuante
Exaustivo
Fatigante

e

Esgotante


Vou ali e já volto, mas…


Não vou de férias como o Aviz
Não vou explodir como o A Formiga de Langton
Não vou fugir envergonhado como o João Hugo Faria
Nem vou fugir à polícia como o Muito Mentiroso
Não vou acabar como o Guerra e Pas
Não vou desistir como o Reflexos de Azul Eléctrico
Não vou reaparecer com a versão 2.0, como o Socio[B]logue
Não me vou arrepender como o Maranhão
Não me vou zangar como o Coluna Infame

Mas vou agradecer ao nosso deputado pela simpatia, ao Aviz pelo seu último elogio, ao Mata-Mouros pelos seus óscares, aos cerca 70 blogues que me referenciaram, aos carteiros (Olá João!) e às professoras universitárias (Olá Maria!) que me escreveram, aos colegas (Olá Paolo!) e às correctoras ortográficas (Olá Eli!), a todos aqueles que se lembraram de mim (Olá Ana!) e àqueles que me criticaram.

Vou ali e já volto, amanhã ou depois. Nunca, é pouco provável.

Mas, ser médico não é só consultar ou estar de plantão. É muito mais do que isso.
E é esse #muito mais# que começa a ser difícil coabitar com a actividade bloguística diária.

O blog continuará vivo, sem vida, o carteiro pode continuar a distribuir o correio electrónico...

E eu sempre lhe poderei dar umas injecções de vez em quando...

sábado, outubro 04, 2003

Os Médicos e Os Atestados

A minha dependência continua, ainda não consegui fazer o que tinha programado.

--//--

Li no Abrupto o seguinte:

"Nos Jaquinzinhos há uma nota intitulada "Portugalidade", que explica à saciedade o que se passa

"Rodeado de amigos à mesa de um restaurante, dizia o médico:

"Não há maneira de dar a volta a isto! Estes gajos mal se apanham com algum poder, abusam, isto é só cunhas, favores aos amigos, esta porra está enraizada na sociedade! Olha lá, Zé, eu passo-te o atestado por mais 2 dias e assim podes juntar a quarta ao fim-de-semana, está bem?"
"

Os atestados médicos e as CITS (vulgo baixas) são um cancro na actividade dos médicos.

De bom grado dispensaríamos tal actividade.

Lembro, por exemplo, que a maior parte dos atestados que os réus apresentam nos tribunais, fazem-no a pedido dos advogados e por inúmeros motivos.

Já me aconteceu ser chamado oficialmente por um tribunal, para verificar a doença de um réu, na própria hora em que se iria iniciar o julgamento.
E assim é que se deveria proceder, sempre!.

Em tempos, não me recordo quando, a Ordem dos Médicos tinha proposto que as incapacidades para o trabalho ou outras só deveriam ser atestados (do verbo atestar) por um médico passados 30 dias.
Assim: para toda a incapacidade resultante de doença por períodos inferiores a 30 dias, seriam os próprios interessados a responsabilizar-se pela justificação da sua doença. O médico só entraria no processo, ou se se presumisse que a doença se prolongaria por mais de 30 dias (acidentes ou doenças graves, doenças psiquiátricas, etc.) ou se fosse solicitada pelas entidades interessadas a verificação da doença.

A responsabilização do próprio doente obrigá-lo-ia a ser mais coerente (honesto) consigo, sabendo que a sua doença poderia ser confirmada por um técnico.

Vitriólica - A Doméstica-Cibernética

Todos os dias, digo, penso, exijo, para os meus botões: hoje tem que continuar a ser um período de reflexão. Não posso ir, nem ao meu, nem a qualquer outro blog.
Mal ligo o computador, desta vez foi o portátil, longe do local habitual, já lá estou, antes de pensar que não quero ir. Será dependência? Será que estou adicto? É uma boa adicção, mas preocupa-me.

E assim descobri um blog caloiro, mas muito interessante pelos 4 dias de vida e pelas 5 mensagens lá afixadas.

Enviei-lhe esta mensagem:

"Se todas as domésticas (nome que abomino)/donas de casa (já posso aceitar) fossem como a Vitriólica, metade das depressões e distimias que se observam nas mulheres que trabalham para a família desapareciam.
Gostei da sua ideia e só desconfio se será só "doméstica"
Parabéns.
"

E é uma crua e real verdade. As mulheres domésticas ou donas de casa merecem da minha parte e sempre que as consulto uma atenção redobrada pois poderá existir uma depressão ou distimia disfarçada por outras queixas.
Todos sabemos que vivemos numa sociedade patriarcal, marialva, dominada pelo homem, pelo marido, pelo pai e até pelo avô.
Por mais excepções que existam, por mais avanços que se tenham conseguido, por mais woman's libs que se organizem, por mais legislação paritária que se promulgue, o estigma da mulher doméstica lá está.
A sua vida tem horizontes muito limitados, os seus canais de comunicação são a nossa televisão que só lhes proporciona incultura, misticismo, sentimentos balofos, concursos infantis, piadas brejeiras e fáceis, o que lhes aumenta a iliteracia, o analfabetismo cultural, etc.
Por outro lado, o seu trabalho não é reconhecido, não têm salário e vivem daquilo que o marido lhes dá, com o consequente controle de que é sempre mal gasto. Não pode chegar tarde ao emprego, não tem colegas para conversar (só as vizinhas, que sofrem da mesma síndroma que elas).
Passam as 8 horas do dia sozinhas, e quando o marido e o resto da família regressam a casa, (que bom é regressar a casa cansado e poder descansar) lá está ela novamente a servir a família com as suas necessidades e exigências.

Acreditem que muitas vezes proponho para as minhas doentes com estas características, com quelxas politópicas, contínuas, subjectivas, uma actividade profissional, produtiva, que muito tem ajudado. O difícil por vezes é a descoberta de um emprego.

Por isso tenho uma admiração especial pelas domésticas do nosso país, aquelas que o são há dezenas de anos e consumidoras habituais de antidepressivos e ansiolíticos.

Se todas fossem como a Vitriólica (Vi para os amigos, como diz) teríamos a nova doméstica-cibernética, que se libertaria da limitação dos horizontes que a "profissão" lhes impõe.

quinta-feira, outubro 02, 2003

Medicina: Arte ou Ciência

Enquanto vou reflectindo, divulgo uma interessante mensagem de um colega e algumas ligações a artigos ou resumos de artigos sobre a Arte vs. Ciência da Medicina.
"De: Paolo C
Data: Quinta-Feira, 2 de Outubro de 2003, 0:50
Para: medicoexplicamedicina@iol.pt

Assunto: de um colega
Prezado Colega,
que, apesar disso..., desde já permita o trate por Amigo, permito-me maça-lo, eu, neofito descobridor da lusitana blogoesfera pois que só através do Abrupto consegui chegar ao Seu blog.
Exultante fiquei, pois vi em virtuais letras de imprensa o que desde sempre sonhei poder, em suporte mais conservador ( papel, rádio ou mesmo TV) ver difundido.
A Medicina, arte que tende para uma ciência, dificilmente poderá ser compreendida por intelectuais, que certamente procuram descobrir equações fractais num tela de Pollock ou outras interpretações metafisicas numa aguarela de Turner.
Pessoalmente dado a algumas distracções pictóricas para compensar as raivas contidas na prática diária da Medicina, espero continuar a apreciar as suas palavras que agitam um meio / classe que me parece algo sonolento ou resignado.
Um amigo, e como aprendi a dizer "in illo tempore ", um Colega sempre ao dispor
P. C.
"

- Medicina: arte o ciencia.
- Medicina: ciencia? arte? ciencia y arte?
- Medicina de Família: Ciência e Arte com Metodologia Acadêmica
- Apuntes Sobre Historia de la Medicina - Cuarta Clase - El Arte Hipocrático.
- Medicine: Art Versus Science.
- Medicine: a healing or a dying art?
- The art and science of clinical knowledge: evidence beyond measures and numbers.

quarta-feira, outubro 01, 2003

Uma Opinião Educadíssima a Defender o Ponto de Vista das Farmácias

"Boa noite,

Permita-me corrigi-lo ou acrescentar algo ao que escreveu no seu Blog acerca das farmácias:

"...Trespassam-se farmácias por centenas de milhares de contos..."
É um facto, assim como muitas se trespassam por poucas dezenas de milhares: tudo depende de uma análise financeira escorreita - qualquer negócio (farmácias, consultórios médicos, laboratórios, stands de automóveis, etc.) vale os retornos líquidos futuros expectáveis, actualizados a uma taxa de risco adequada.

"...Só Portugal é que protege este negócios, contrariando a livre concorrência que defende para todas as outras actividades económicas..."
Não é verdade - a legislação dos países europeus é semelhante à portuguesa, quando não mais protectora (maiores margens de comercialização, maiores capitações, etc.). Até o país mais liberal, o Reino Unido, vetou recentemente uma maior liberalização das Farmácias, com o argumento de que tal é prejudicial ao povo inglês - de facto, o país do mundo com legislação mais aberta, os EUA, é aquele que tem os medicamentos mais caros do mundo (já depois da correcção com a paridade do poder de compra). Isto é sempre verdade em qualquer negócio: depois de um período de competição feroz, ganha o mais forte (leia-se "o que tem os bolsos mais fundos") que depois faz valer a sua posição de monopolista e volta a subir os preços, ficando o consumidor pior do que inicialmente.
E já agora: "...todas as outras actividades económicas..." também não é verdade - se, por exemplo, o Sr. Dr. quiser abrir um hipermercado não poderá fazê-lo, pois não há alvarás para concessão.

O sector das Farmácias é o único da área da saúde que está em mãos 100% portuguesas; cuja posse é totalmente atomizada (existindo 2500 farmácias, existem, pelo menos, 2500 proprietários - nenhum farmacêutico pode ter quotas em mais que uma farmácia); e que cobre eficazmente todo o território nacional.

Fala-lhe daqui um Engenheiro Mecânico, filho de farmacêutica, que tem alguns conhecimentos sobre o sector (sector este que goza de excelente imagem junto do consumidor final)- só lhe peço que não tome a árvore pela floresta, pois todas actividades económicas têm casos extraordinários que podem perverter um debate sério sobre as temáticas em questão.

Cumprimentos,
Rui M.
"

Continuo em profunda reflexão bloguística!