quinta-feira, fevereiro 10, 2005

A Compressa, A Cadela E A Dona Dela


A dona da cadela, sorridente, depois de ter recebido a "sorte grande": uma compressa na barriga!

Uma compressa esquecida numa cirurgia ou até qualquer outro instrumento é uma situação recorrente em qualquer cirurgia. É uma complicação que obriga os cirurgiões e acompanhantes de uma qualquer intervenção cirurgica a contarem antes e depois todas as compressas utilizadas.
Se tal acontecer é importante esclarecer que outros factores concorreram para isso. Por exemplo, se o médico estava bêbado, drogado, drunfado, se agiu sem competência para tal, se não foram seguidos todos os procedimentos, etc, etc.
Trata-se de um erro, que deverá ser sempre bem ressarcido pela instituição, pois o doente não tem culpa do sucedido.

MAS NÃO É NOTÍCIA. SÓ EM PORTUGAL!!!

Para mim é muito mais grave que um médico se tenha aproveitado da situação e operado a utente particularmente, pois como se diz na notícia: "Teve de ser numa clínica privada", diz o marido.
Teve que ser o tanas. Isto é que se devia denunciar. O Serviço Nacional de Saúde dá resposta a todos os casos urgentes.

Portanto não foi por opção da doente. Opção foi apenas a foto com a cadelinha ao colo.

Mas do que mais gosto, é de ler a notícia e os seus adjectivos.

"Andou cinco anos com 190 gramas de gaze na barriga.
Surpresa.
Compressa, deixada durante uma intervenção cirúrgica, detectada em exame.
Lesada acusa Hospital de Famalicão de "irresponsabilidade" e pondera recurso a tribunal.

"Helena já sorri, aliviada, não conformada e ainda incrédula. Durante anos, Maria Helena Rocha andou a "arrastar-se". Fortes dores na barriga, devido a problemas uterinos, tiravam-lhe o descanso e não havia notícias sobre quando seria operada. O dia chegou. Em finais de Novembro de 1999. Na intervenção cirúrgica, feita no Hospital de João de Deus, em Famalicão, Maria Helena perdeu o útero. E ganhou anos de sofrimento, sem saber que a causa eram 190 gramas de gaze esquecidas na sua barriga.
"Foi Deus que me salvou", [Anda muito atrasado este Deus, cinco anos para a salvar!] hoje, aliviada mas não conformada. O marido, Joaquim, acrescenta "Foi Deus e o ginecologista que a assiste. Se não a tivesse operado, cinco anos depois, e retirado a gaze, ela morria, sem sabermos porquê".
A história de Maria Helena é semelhante a outras. São casos idênticos que têm em comum o sofrimento, a supresa perante a descoberta, a denúncia. Na casa daquela doente, localizada em Folgosa, Maia, o assunto é, volta e meia, tema de conversa.
Joaquim não cala a revolta. Pondera recorrer aos tribunais. Maria Helena, mais comedida, alega que a "Justiça é lenta", embora rotule de "irresponsabilidade" o esquecimento da gaze durante a primeira operação.
O estranho da situação é que, após a operação no Hospital de Famalicão, Maria Helena foi transferida para o de S. João, no Porto, alegadamente devido a perturbações urinárias. Lá esteve internada três semanas, no serviço de Nefrologia. "Fiz exames e mais exames. Não me detectaram nada", conta. Recambiada para Famalicão, recebeu alta hospitalar e andou em consultas alguns dias. "Tomei remédios para tudo. Até para combater uma depressão. Mas continuava sentir-me mal. Tinha picadas na barriga, que inchou muito", relata. Cinco anos depois da intervenção cirúrgica, o ginecologista de Maria Helena detecta, durante um exame vaginal, "algo estranho". Decide operá-la com urgência. ". No dia 2 de Dezembro passado, Helena voltou a uma sala de operações. E é dito, na altura, pelo médico, que, para além de lhe ter retirado um ovário, também havia recolhido "uma peça de gaze com 190 gramas de peso". Isso seria confirmado, quatro dias depois, com um relatório de exame anatomapatológico. No Hospital de Famalicão, não há, por ora, comentários. "Terá de haver uma reclamação para que se possa procurar o processo", disse, ao JN, Maria José, directora clínica."




Como sempre a deontologia destes jornalistas é directamente proporcional à inteligência do público a que se destina.


Eu diria que 90% das palavras utilizadas são da mente do jornalista e não da boca da dona da cadela.

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Deus E A Líbido (E O Pénis, Também)

Com a devida vénia, transcrevo do blog Diário Ateísta este bilhete (com o título original, sem pénis) que por sua vez é o último parágrafo de um artigo de CARLOS VALE FERRAZ com o título "Os Bispos Espanhóis e o Preservativo".

E transcrevo porque me aborreço ao ver muitas jovens mães a baterem nos jovens bebés quando estes nus, brincam com o seu pequeno pénis, ainda sem saberem que se trata de um pénis ou o que é o prazer ou o que é a líbido.

Por outro lado foi Deus (para quem crê na Sua existência) que nos deu um órgão que se chama pénis e uma outra coisa, ainda mais difícil de descrever que se chama líbido.

Por um lado, as instituições e particularmente a Igreja, direccionam toda a sua actividade na repressão da líbido. Por outro lado, toda a comunicação social, direcciona a sua actividade em explorar a líbido.

É muito complicado viver nesta sociedade.

O tal parágrafo:

«Talvez os sacerdotes das várias grandes religiões sejam homens comuns. Se o forem e parece que o são e até gente ordinariamente considerada respeitável pelos seus seguidores, de expressão grave, gestos solenes, falas calibradas, vestes sublimes, então merecemos que os bispos espanhóis opinem sobre o uso do preservativo, que os ulamas decretem sobre os cremes de beleza das mulheres islâmicas, que os rabis pratiquem cirurgia em crianças e que os sacerdotes hindus celebrem casamentos arranjados entre meninas de quatro anos e homens adultos. Entretanto, talvez porque os seus deuses estão ocupados em regular os impulsos da libido, multidões morrem de fome, de doença e de guerras, muitas delas santas

terça-feira, fevereiro 08, 2005

O Fumador Passivo, Outra Vez...

"European study confirms that environmental tobacco smoke is a risk factor for lung cancer and other respiratory diseases, particularly in ex-smokers."

"To investigate the association between environmental tobacco smoke, plasma cotinine concentration, and respiratory cancer or death, researchers carried out a nested case-control study within the European prospective investigation into cancer and nutrition (EPIC) involving 303 020 people from the EPIC cohort (total 500 000) who had never smoked or who had stopped smoking for at least 10 years, 123 479 of whom provided information on exposure to environmental tobacco smoke. Cases were people who developed respiratory cancers or died from respiratory conditions. ... The main outcome measures were newly diagnosed cancer of lung, pharynx, and larynx; deaths from chronic obstructive pulmonary disease or emphysema."

"The researchers concluded: “This large prospective study, in which the smoking status was supported by cotinine measurements, confirms that environmental tobacco smoke is a risk factor for lung cancer and other respiratory diseases, particularly in ex-smokers."

Para os cépticos, está aqui.

Ca Grande Galo

Há dias passei um atestado a um doente que estava doente.

Hoje recebi um galo em casa!

Conclusão: fui enganado. O doente não estava doente.

P.S.: mas não devolvi o galo, que servirá para um gostoso arroz de cabidela...

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

A "Obrigação" Do Estado

À minha frente um casal de idosos, esmorecidos, segundo dizem.

Ele está a ser tratado a dois cancros em locais do corpo distintos e distantes e com a consequente depressão reactiva.

Ela esmorece-se por ele. Acredito.
É uma família portuguesa bonita por fora e bonita por dentro.
São Povo. Sempre trabalharam. Acredito em tudo o que me dizem.
São daquelas pessoas cujo fácies transparece verdade.

Falamos de medicamentos. A confusão habitual.

A mulher tinha uma caixa na mão.
Pergunto:
- Quanto tempo tomou o seu marido esse medicamento?
- Não sei. Não sei quantos tinha a caixa!
- Leia por fora. Vem lá o número de comprimidos.

Gargalhada.

- Então não sabe que eu não sei ler!
- Então o seu marido que leia!

Nova gargalhada dos dois.

- Então não sabe que ele também não sabe ler!

Pois, de facto não sabia.
Nós os letrados esquecemo-nos que há muitos que não sabem ler neste Portugal do século XXI.

Remata a idosa, por momentos menos esmorecida:

- Ninguém nos mandou à Escola! Ninguém nos obrigou!

Pois é.
E ainda é assim.
O Estado actual demite-se de “obrigar” os nossos alunos a estudar e a cumprir a escolaridade obrigatória.

domingo, fevereiro 06, 2005

É Assim Que Sinto O Carnaval Lusitano

Tal com o FJV .
Com a devida vénia transcrevo do seu Aviz:

O Carnaval português sempre me afligiu. Lembro-me dele quando ainda só era Entrudo e não dispúnhamos daquelas raparigas da Mealhada a dançar na rua, debaixo de chuva, abrigadas pelos seus simpáticos biquinis. Essa é a primeira imagem que me assalta: o frio, o desconsolo meteorológico, a desadequação climática. Isso e os seus desfiles, em carros alegóricos montados em cima de tractores. E dos fatos de má qualidade, de brilho barato, cintilante nos domingos de Fevereiro, escarlates. Tinha pena das raparigas. Também me penalizava pelos rapazes, da cidade ou da província, muito machões durante o ano, mas que no Carnaval se mascaravam de meretrizes ou de tias velhas. Mas, insisto, o pior era o frio de Fevereiro, os chuviscos a meio da tarde, o granizo nas ruas de Ovar, de Cantanhede ou Olhão. Um resto de misericórdia vinha do fundo da consciência pedir protecção para os desfiles.
Aos desfiles, propriamente ditos, vi-os sempre pela televisão e bastou-me: umas raparigas sem o sentido das proporções dançavam muito mal o samba, agitavam bandeirinhas, sorriam, enregeladas, com peças de tule cobrindo uns corpos muito brancos que ainda não tinham feito a dieta habitual antes da época balnear. O corpo das portuguesas, neste domínio, é um campo de sacrifícios: durante o ano alimenta-se bem e corajosamente; entre Abril e Maio começa a penar e a penitenciar-se, preparando-se para a exposição solar do Verão. É um mundo de desgraças. Só o Carnaval, com as suas peças de tule com penduricalhos de brilhantes falsos em cima, permite entrever as carnes esbranquiçadas que hão-de estar mais passadas no S. João. As figuras, dos «carros alegóricos», são o bombo da festa tradicional – políticos da televisão, caricaturas sofríveis, mal pintadas, ditos de gosto duvidoso, misturando a tradição popular da província com a piada do Parque Mayer. Tirando o dr. Alberto João Jardim, saltitando na Avenida Arriaga, no Funchal, os desfiles são pobres. Pobres e cheios de frio.Depois, há umas actrizes de telenovela portuguesa e os seus companheiros de ofício, que vão também aperaltados no alto dos carros (que lembram, a milhas, os «trios eléctricos» de Salvador, eufóricos e encalorados): também aí é uma desilusão. Sob os tules, vêm mais panos para esconder a «beleza tradicional portuguesa». As actrizes de telenovela brasileira chegaram entretanto para animar um pouco a paisagem: sorriem muito, recebem o cheque, levantam os braços, cumprem a sua função.
Fico sempre espantado com as notícias das televisões, que falam dos «foliões» que aguardam a passagem dos desfiles: e as imagens dão conta de umas famílias apinhadas nos passeios, com os miúdos encavalitados vendo passar o cortejo de horrores. Isto, claro, sem falar da música permanente de «mamãe eu quero, eu quero mamar» que todas as discotecas do Algarve passam aos berros para que comboios de «foliões», organizados com a espontaneidade de uma missa em latim, se meneiem e transpirem adequadamente. Não sei. Não sei. Mesmo para Portugal, é muito horror junto."

Parabéns!

O JN de 06/02/05 tem um bom artigo sobre medicina, sobre medicina experimental, ouvindo doentes e médicos, mas acima de tudo procurando esclarecer os leitores com linguagem científica, mas acessível a todos. Parabéns!

Confesso que até eu me esclareci sobre o assunto em causa.
Apenas o título pode induzir em erro e criar falsas esperanças a muitos doentes.

Manter a esperança aos doentes com paralisias medulares é necessário e importante. Criar falsas esperanças, pode ser causa de profundas depressões nestes doentes, de onde pode ser difícil sair.

Mesmo assim parabéns ao jornalista Fernando Timóteo, do Jornal de Notícias.

A notícia completa está aqui: "Melhoria exponencial" após operação para tratar paralisia.

Desabafos De Um (Muito Jovem) Médico

"Mágoas, desabafos, poesia. Felicidade, sofrimento, fotografia."

É assim que este jovem médico do Internato Geral (portanto, acabadinho de se licenciar!) vai descobrindo o mundo da Medicina, ou melhor o mundo dos doentes, ou melhor ainda o mundo da nossa sociedade, que muitas vezes só se descobre nas urgências das grandes cidades, nas consultas hospitalares, nos contactos nos centros de saúde e no acompanhamento contínuo do médico de família.

O autor do blog, também anónimo e responsável, tem uma escrita agradável e sensibilidade q.b para ser um médico dedicado.

Acabou o seu estágio na ginecologia e obstetrícia e iniciou o novo período de medicina tutelada de três meses em medicina geral e familiar, num centro de saúde, segundo refere.

sábado, fevereiro 05, 2005

Direito de resposta do Médico Explica Medicina A Intelectuais

Cara Ivone:
Dou-lhe razão na globalidade da sua mensagem.


1) Em relação aos nomes, não é simpático colocá-los no blog, até porque quem faz uma má notícia hoje pode fazer uma boa amanhã. Quem é iliterato na ciência, pode não sê-lo noutros assuntos. Por outro lado, pessoalmente não tenho nada contra nenhum jornalista em particular, razão pela qual também retiro os nomes.


2) Em relação aos insultos a que se refere, os mesmos não são dirigidos directamente a A, B ou C, nem à lista que o blog trazia, mas a alguns jornalistas que, como sabe também como eu, existem.


3) Em relação à questão da Ética, também estou de acordo consigo. Apenas não sei se terá toda a razão, quando o caso se torna mediático, se ataca um médico em particular (espanhol, segundo uma notícia!) e a seriedade e honorabilidade de um hospital e o caso toma as proporções que toma. Não se pode (ou não se deve) fazer uma notícia, em que ao lê-la somos obrigados, INCONSCIENTEMENTE, a fazer uma opção, porque todo o fio condutor da mesma é feito de forma a haver só um culpado. Começa-se logo pelo título, como sabe.
Mas disto perceberá mais do que eu.
Eu limitei-me a transcrever o que li.


4) Quanto à minha profissão, sou médico, sim, há precisamente 25 anos.


5) Quanto ao anonimato, é um direito que me assiste. E como sabe são muitos os jornalistas que escrevem sob pseudónimo. Não será uma forma de anonimato? Mas descanse, há muita gente que sabe quem eu sou, aqui na blogosfera, até para minha defesa. Mas o anonimato é para manter.


6) Quanto à publicação da sua resposta em todos os jornais, como sabe não depende de mim. Mas se me ajudar eu não me importo. Já reparou na publicidadeque isso me vai dar. Serei mais famoso que o Abrupto ou que o Aviz.


7) Também publicarei esta resposta no meu modesto blog.


O autor do blog, respeitosamente

Direito de Resposta de Ivone Marques

De: Ivone Marques

Assunto: Bem prega Frei Tomás, sem saber do que fala!!!!!!!!!

"Caro "Doutor":

Chamo-me Ivone Marques, sou jornalista, mas provavelmente nem é preciso dizê-lo, já que o meu nome foi por si difamado no blog no qual esconde "corajosamente" a sua identidade. Foi com surpresa que o ví nomear o nome de alguns jornalistas, entre os quais eu própria, a propósito da morte de uma jovem no CHAM. O que tenho a dizer-lhe é que, se efectivamente é médico (o que eu duvido), deveria conhecer uma coisa tão simplesmente designada Código de Ética. Eu conheço o meu e conheço também o seu. O que lhe posso garantir é que, de acordo com a ética médica, informações clínicas sobre seja quem for são do foro sigiloso, ou seja, as informações que tanto preza terem sido publicadas por uma determinada jornalista, nunca deveriam ter saído para fora das portas do CHAM. Tive acesso a parte dessas informações (graves), nomeadamente de que a jovem seria toxicodependente e seropositiva. Informações que o meu Código de Ética me impede de veicular, por razões que para todos são lógicas mas não para o "Senhor Doutor". Será que é daqueles que descrimina os seropositivos ou toxicodependentes? Será daqueles que se está "nas tintas" para os reflexos sociais que a veiculação de informações deste género pode ter? Será que é daqueles que não se lembram que as vítimas têm família? Responda-me o "Doutor". Na parte que me toca tenho a minha consciência tranquila. Nos três trabalhos jornalísticos que fiz sobre esta matéria, dois deles foram dedicados às explicações do CHAM, tal e qual elas me foram sendo fornecidas. De fora ficou aquilo que tinha de ficar de fora porque, se houve alguém que quebrou o Código de Ética foram os médicos e não eu como jornalista. Como tal só me resta exigir a publicação integral deste texto num prazo de 24 horas, acompanhado com um pedido formal de desculpa, publicado em todos os jornais. Caso contrário não terei pejo em levar esta discussão a outras instâncias, nomeadamente ao Tribunal. O facto de se escudar num blog não lhe dá o direito de difamar publicamente quem trabalha com seriedade.
Ivone Marques "

O Cancro Da Tiróide das Mulheres Da TSF

No passado dia 02-02-05 a TSF decidiu que as suas mulheres falassem sobre o cancro da tiróide.

Se o Fórum Mulheres já é qualquer coisa aberrante, discutir as experiências de portadoras do cancro da tiróide, ainda o é mais.

Porquê só na mulher? Porquê discutir este assunto num fórum?

Por mais que pense, não consigo uma explicação.

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

Estou a Sorrir Entre Dentes ... (2ª versão)

Viva a jornalista Carla Sofia Martins! Dezenas de vivas por uma história bem contada!

Melhores dias para os jornalistas pespegantes. (pespegam o que ouvem e chapam no jornal)
Tou a ser agressivo?
Tou sim senhor.
Tou furibundo!
Tou irritado, chateado, deprimido por ver a minha profissão ser denegrida constantemente por jornalistas incultos, desonestos, iliteratos e manipuladores, e ainda todos os adjectivos que os dicionários comportem como sinónimo de incompetência e manipulação.

Quando li a notícia pela primeira vez, postei aqui as minhas dúvidas a uma história sem lógica, com pouco nexo e ao aproveitamento da dor da morte, ao aproveitamento de uma morte aparentemente inesperada e agora já parcialmente explicada por uma provável pneumonia.

Mas só a notícia do Público, da jornalista Carla Sofia Martins nos elucida convenientemente:

"Director clínico garante que mulher assinou termo de responsabilidade e recusou qualquer tratamento".

A prova documental: "que apresenta o termo de responsabilidade assinado pela jovem na mesma noite e ainda o documento que comprova que esta teve "alta contra parecer médico"."

"... a jovem, ... , possui um longo historial clínico no CHAM e era já conhecida naquele hospital. "A mulher era conhecida porque era utente do regime de consulta externa, já que era toxicodependente. Era também seropositiva, tinha sífilis e possuía também antecedentes de bronquite crónica""

"Na unidade hospitalar, e no último dia de entrada no SU, salientou ainda o clínico, foram efectuadas radiografias ao tórax, abdómen e coluna e feitas análises sanguíneas, "tendo o médico concluído que a imagem pulmonar era compatível com o quadro de pneumonia". Só que "a doente recusou fazer a gasimetria [exame aos gases arteriais do sangue] ou ser submetida a qualquer outro tratamento", tendo abandonado a unidade hospitalar com "alta contra parecer médico" e com termo de responsabilidade, documento a que o PÚBLICO teve acesso".

Haja mais respeito pelos médicos e pelo seu trabalho. Todos nós, médicos, tratamos diariamente doentes de alto risco, como esta doente toxicodependente.

Perante um toxicodependente, sei que nenhum médico reage como reage a maior parte das pessoas: para nós um toxicodependente "não é um viciado", "não está a fazer aquilo, porque quer", repito, nós encaramos sempre, como um doente com uma doença crónica e grave. Arriscamos a nossa vida, como os médicos do CHAM arriscaram ao tratar uma doente com alto potencial de contagiosidade. Não nos limitamos a gravar uns bitaites de uma cunhada e a fazer umas chapas para telenovela dramática.
Nós estamos lá.
Nós queremos ajudar, mesmo aqueles que recusam a ajuda.
Mas o internamento compulsivo, só um Tribunal o pode fazer.
Nós só podemos exigir que o doente assine um termo de responsabilidade.
Não será a cunhada, a tia, a prima, o marido, o filho ou a vizinha que imporão os internamentos. Mas sim um Juíz de Direito.

Novidades Sobre O CHAM

Estou com pressa, mas parece que se confirma que as reportagens dos jornais foram verdadeiras cabalas em cadeia.
Não se olha ao que se escreve.
Aparece a primeira cunhada, prima, vizinha e "pespega-se" nos jornais.

Serão os novos jornalistas pespegantes!

Voltarei!

Sobre O CHAM

O Tiago não gostou do meu post sobre mais uma "cabala jornalística" contra os médicos e os serviços públicos por pseudo jornalistas estagiários e mal preparados.

Respondi-lhe assim:

Vejo que é um interessado nesta temática.
Mas pergunto eu: qual temática? Porque naquela notícia há muitas temáticas:

1) a morte (É sempre um tema importante e os jornais "brincam" com este tema.)

2) a vitimização (Tanto se fala na vitimização do Santana, mas os media só procuram vítimas, não procuram esclarecer nada, absolutamente nada. Eles sabem que o que vende são as "vítimas" e o Santana também sabe. Aliás, todos perceberam isso e agora é o Sócrates a vitimizar-se....)

3) o apoio às vítimas de qualquer acidente (Não há em Portugal nada institucionalizado. O INEM tem um serviço desses para grandes catástrofes, julgo eu.)

4) a negigência/erro médico (Já várias vezes disse que os mais preocupados com a negligência/erro médico são os próprios médicos. Parece que para os media, os médicos negligenciam por vontade própria.)

5) os erros sistemáticos (Também existem e em todas as profissões, mas são raros e têm por vezes como causa deficiente transmissão de conhecimentos. Mas se 5 médicos não "acertaram", o que é possível, dependendo da apresentação do quadro clínico, deve ser difícil aceitar que cinco médicos negligenciaram.)

6) a Medicina (A Medicina não é uma ciência exacta, como poderá ser a engenharia. A Medicina tem duas vertentes muito importantes: a teoria e a prática. Um bom médico pode tirar sempre 100% de respostas certas em todos os testes e errar todos os diagnósticos)

7) o exercício da Medicina (A prática é fundamental. Talvez a profissão onde a prática seja mais importante que a teoria. São os gestos, são as imagens, são as suspeitas. Ainda me lembro de muitas imagens que apenas vi uma única vez ao vivo e já me esqueci de muitas coisas que li...)

8) o barato sai caro (É o povo que o diz, não são os médicos).

9) a comunicação social (Que mais posso eu dizer de tanta m... que vejos nos jornais!)

10) os jornalistas (Quanto mais licenciados, mais iliteratos na Ciência. Fazer reportagens sobre vítimas, com o único objectivo de agradar ao patrão e não ajudar psicologicamente as vítimas e as suas perdas, até eu faço. Volto a repetir que há óptimos jornalistas, assíduos leitores do meu blogue com quem troco ideias)

11) a iliteracia científica dos jornalistas (É óbvio que existe. Por isso saúdo a criação de uma nova Associção de Jornalistas ligados à Ciência. Só a falta de tempo me impediu de ainda não ter falado nisso).

Estou a escrever com pressa, como sempre. Os doentes primeiro. Vou publicar esta resposta no blogue.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Vamos Cruzar As Notícias

Vamos cruzar duas notícias do mesmo jornal - O Primeiro de Janeiro de 2 de Fevereiro de 2005.

1ª notícia: médicos do Centro de Saúde de Ponte de Lima foram despedidos do CHAM - Centro Hospitalar do Alto Minho e queixam-se de ser trocados por mão-de-obra barata e indiferenciada e principalmente sem experiência.

"Clínicos do Centro de Saúde ... acusaram ontem o CHAM de desrespeito e injustiça, por prescindir dos seus serviços nas Urgências e contratar outros “mais baratos".

Durante 20 anos, enquanto precisaram dos nossos serviços, nunca houve problema. Agora que há mão-de-obra excedentária noutros países, nomeadamente em Espanha, esqueceram todo esse passado, deram-nos um pontapé e ponto final”, queixou-se um dos médicos, que falava em nome da esmagadora maioria dos 27 colegas do centro de saúde. Em declarações à Agência Lusa, o clínico, que optou pelo anonimato com receio de represálias ou de eventuais processos disciplinares, disse que esta situação se ficou a dever apenas a questões economicistas, mas lembrou que “muitas vezes o barato sai caro”.

2ª Notícia: A morte da jovem de 26 anos que imediatamente levantou suspeitas de negligência médica assistida no CHAM.

Sabem o que é o CHAM? É isso mesmo. É o hospital de onde foram despedidos os médicos com 20 anos de prática. E vinte anos de prática, em Medicina é uma mais-valia que demora vinte anos alcançar (é o chamado olho clínico, é a suspeita de que algo não está bem, é o cheirar a doença) .

Sobre este caso, e como já me enviaram e-mails sobre o mesmo, não vou falar do tratamento ascoroso da notícia.

Merecia um tratamento sério e não de telenovela dramática: "Manuela ter-lhe-á pedido para ele se deitar e "agarrou-se a ele". Da manhã, o marido, em estado de choque, apercebeu-se que ela tinha morrido durante o sono. "Quando ele se levantou e a viu destapada e gelada chamou por mim, para ir ao quarto, e olhe?", recorda emocionada Carla Costa."

É importante descobrir-se rapidamente a causa da morte, até porque foi uma doença infecciosa. A autópsia poderá ou não elucidar-nos sobre o caso.

Mas ao ler a notícia, interrogo-me:

1 - Qual a razão porque se pede ao médico para laquear as trompas no parto do primeiro filho? E cesareana porquê? Haveria alguma doença de base que a jornalista nos omitiu? A laqueação de trompas não é o método escolhido para uma mãe apenas com um filho e tão jovem. Porque foi feita então?

2 - A cunhada está em todo o lado. Omnipresente e omnipotente.

3 - Cinco idas à urgência, leva sempre o médico a aprofundar os exames o que de facto aconteceu, sendo os resultados negativos. Será que foram os cinco médicos negligentes? Seriam árabes e não falariam português? Seriam do Leste? Seriam médicos portugueses bêbados?

4 - A jornalista Ivone Marques, poderia investigar. A notícia que aparece, é igual a muitas outras. Só se mudam os actores... Mas...

segunda-feira, janeiro 31, 2005

A Esperança de Vida Vai Diminuir

"De acordo com estimativas preliminares, se não forem tomadas acções adicionais para redução da poluição, a esperança de vida pode vir a ser menor, em 2020, entre 3 a 9 meses, dependendo do país em questão. Tal facto deve-se à exposição a longo termo a partículas em suspensão de tamanho reduzido (PM2,5)".

in Poluição atmosférica: o que pensa?
introdução à pergunta nº 7 do questionário da UE aqui.

domingo, janeiro 30, 2005

My First Computer When I Change For MSDOS (1987)


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Olivetti Prodest PC 1 in Computer Modell Katalog

"Der Prodest PC 1 wurde mit einer NEC V40 CPU ausgestattet, ist somit ein klassischer Vertreter der PC-XT Generation mit 8 MHz Taktfrequenz. Wie auf dem Bild zu sehen ausgestattet mit zwei 3,5" Diskettenlaufwerken. Der Arbeitsspeicher war typischerweise mit 512 KByte ausgebaut. Der Grünmonitor trägt die Gerätebezeichnung MM0012. Ausgeliefert wurde das System mit Microsoft MS-DOS 3.30."




sábado, janeiro 29, 2005

My Second Computer When I Was (Still) Young (1987)



"Nel 1987 Steve Wozniak, creatore di Apple II, presentò Apple II GS, una versione della gloriosa macchina aggiornata alle capacità di Macintosh, e addirittura con una marcia in più: il colore."

In "www.maclovers.com"

My First Computer When I Was Young (1985)



Depois de ler este bilhete também do blog monólogo meu fui à procura do meu primeiro computador, um Apple IIC que me deixou deslumbrado com as potencialidades da informática. As fichas do consultório apenas foram em papel durante um mês!

O computador Apple II C foi o segundo computador comercializado por Steve Jobs e Steve Wozniac (fonte Universidade do Minho).

O Poder Da Sugestão

Diz a Isabel do simpático blogue monólogo meu, num bilhete de 24 Janeiro, que:

"desde que tomo os L casei imunitas que não me constipo, essa é que é a verdade. (efeito placebo? nã...)"
E eu acrescento mais, desde que bebo vinho e cerveja e como umas francesinhas, não sofro de cancro... (efeito placebo? nã... pura verdade!).


Mas sei que um dia ... se a estatística não falhar serei um candidato!

sexta-feira, janeiro 28, 2005

"São estas as famílias portuguesas, bonitas por fora e feias por dentro..."

Um leitor escreve-me:

"Que exagero!
Não sei em que ambiente é que vive, mas eu conheço bem imensas famílias bonitas por fora e bonitas por dentro!
Também conheço das outras, claro
."

O ambiente em que eu vivo é o compatível com a minha vida de médico. E os médicos na sua maioria vivem razoavelmente bem. Não vivem muito bem. Nem todos são "barões da medicina" e nem todos cobram 20 ou 30 contos por consulta. Mas até compreendo que alguns o façam pois são consultas de consultadoria.

Por exemplo: quanto custou o parecer do dr Freitas do Amaral sobre a CGD?

Mas se vivemos num ambiente de famílias normais, embora muitas também sejam só bonitas por fora, (mesmo nos médicos!), temos a particularidade de trabalhar com as outras famílias, nas consultas, nos SAPS, nas urgências, nos hospitais e estamos, inconscientemente, alerta para pequenos sintomas de disfunção familiar que por vezes só nós, médicos, conseguimos suspeitar.

Usei uma hipérbole, isto é, exagero propositado com um objectivo expresso.

E o objectivo expresso é este: são muitas as famílias disfuncionais mas compensadas. São muitas mais do pensamos.

Esta família, por exemplo, para a sociedade que a rodeia é funcionalíssima, mas nas quatro paredes do consultório, num período desfavorável, os sentimentos afloram...

Vidas Cinzentas

Aos 99 anos a vida extinguiu-se!
Já ameaçava há uns meses, mas foi durante a "vaga" de frio que se finou.
Não foi o frio, mas foi uma vida fria.

Quando a filha de 75 anos apareceu, imaginei logo pela sua aparência que alguma perda teria acontecido.

Perguntei:
- Então o seu pai já faleceu!
- Sim, foi há dias.
- Como está? Vai precisar do apoio da sua família. Mas se precisar de alguma coisa diga.
- Família? Olhe o meu marido disse-me no dia do funeral: bem podias ter ficado lá com o teu pai!

Engoli em seco.

- Mas ... há quanto tempo se dão mal?
- Já nem sei! Ele sempre disse que eu não presto. Só dou prejuízo!
- Mas porque não se separa? Tem uma reforma, tem a casa do seu pai.
- Pois é. Mas casei com ele...

São estas as famílias portuguesas, bonitas por fora e feias por dentro...


quinta-feira, janeiro 27, 2005

O Tsunami da TSF: 140 000 Mooooorrrrrrtttttttooooosss

Com a devida vénia, transcrevo uma posta do Vilacondense:

"TSF no seu melhor
Uma notícia sobre os efeitos nafastos de um anti-inflamatório nos EUA.

Veja-se como, num mesmo texto, as coisas vão evoluindo na edição online da TSF:
Introdução: "O anti-inflamatório Vioxx poderá ter causado 140.000 mortos nos Estados Unidos";
1º Parágrafo: "[o perito] sugere que 139.000 norte-americanos morreram ou ficaram afectados pelo medicamento";
Citação directa do perito: "Pode-se calcular que entre 88.000 e 140.000 casos adicionais de doenças cardíacas graves surgiram nos Estado Unidos durante o período em que o rofecoxib (nome científico do Vioxx) foi comercializado". Os sublinhados, evidentemente, são nossos. Sei quem vai achar piada a isto...
Dupont."

Piada? Concerteza que acho, mas começo a cruzar os braços e a sorrir. Se até a nossa TSF inventa, que dizer do Correio da Manhã, do 24 Horas e de outros semelhantes.

segunda-feira, janeiro 24, 2005

Pomada Helidoro

Afirma a irmã acompanhante da idosa doente:

- Já lhe pus as pomadas queimax e helidoro.

É a iliteracia por analfabetismo e têm desculpa, estes doentinhos, porque não são intelectuais....

Serviço Público do Expresso

"Gripe em cheio
AS URGÊNCIAS hospitalares entupiram e os apelos das autoridades de Saúde multiplicaram-se:
fique em casa,
tome uma canja,
espere que a febre passe e,
para o ano, tome a vacina.
A gripe chegou, é o vírus previsto pelos especialistas mas, especialmente nos últimos dias, atingiu muitos milhares de portugueses. Como voltaram a repetir os responsáveis do Ministério da Saúde, esta é uma situação normal para a época."

Como o vírus já entrou cá em casa, espero ficar infectado amanhã.

domingo, janeiro 23, 2005

O Jornal de Notícias na Senda da Desinformação

Foi hoje, Domingo, dia de descanso que o JN publica um estudo de um tal MUSP (Movimento de Utentes dos Serviços Públicos) que se desacredita logo à primeira.

Mais um provável movimento de cúpula, saído de um partido qualquer!

Diz o JN: "Freguesias sem cuidados primários".

E continua, "Um inquérito inédito feito a freguesias portuguesas sobre a situação dos cuidados primários revelou "grande insatisfação" dos utentes. E com razões de sobra 81% das 785 freguesias respondentes não têm centro de saúde e nas freguesias com mais de 20 mil habitantes, essa falta existe em 36% dos casos. Uma falha incompreensível quando é aceite que cuidados primários fortes são a base de um sistema de saúde de qualidade e com menos custos."

.../...

"De todas as [freguesias] respondentes, 81% não têm centro de saúde", revelou ao JN Carlos Braga."

E revelo eu: quem disse que cada freguesia deveria ter um centro de saúde? Saberá o sr Carlos Braga o que é um centro de saúde?

"Vivo a 10 km de Lisboa e o meu centro de saúde só tem um funcionário a atender quem chega", diz.

Mas para "receber quem chega", quantos funcionários serão precisos? E para fazer o quê? Tirar o chapéu, colocar o sobretudo no bengaleiro, servir um cafezinho?

"Quando se trata de extensões de saúde, o atendimento médico à noite e ao fim de semana desce até aos 0%."

Porque não pergunta o sr Carlos Braga a cada português: "Gostava de ter um médico dentro de casa? Gostava de ter assistência permanente com um médico ao lado?

Chega de demagogia!
Será da proximidade da eleições?

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Uma Visão Das Urgências

Diz-me por SMS uma amiga socióloga:

"Não fazia ideia que existia genérico do Ben-u-ron. Mas os serviço de saúde estão um caos, os doentes estão loucos, parece que estamos num estado de calamidade."

Isto a propósito de uma ida às urgências com gripe.

Mas o que me preocupa é uma socióloga, numa apreciação informal e de campo, considerar que "os doentes estão loucos!"

É uma apreciação politicamente incorrecta, mas com muito de verdade!

Depois da minha resposta, diz-me:

"E os médicos como estão? Será que a insanidade já se transformou em epidemia global? São os doentes, é a comunicação social, quem vai sair imune a tudo isto?"
Entretanto vou ouvindo o dr Mário Soares (em repetição) na SICNotícias:
"A democracia representativa está em crise!"
Não estará tudo ligado?

Esbroteei-me toda!

"Senhor doutor, esbroteei-me todinha.

As minhas ricas filhas, não me ligam. Estou para aqui ceguinha e sozinha. Há dois anos que não me ligam.
"

Disse uma doente.

terça-feira, janeiro 18, 2005

Tem Tosse?

Iniciei o dia de banco com uma pneumonia.

Em dia de gripe, não sei quantas vezes perguntei: tem tosse?

Pergunta simples com uma resposta ainda mais simples, depois de olhar para a folha de triagem: ou sim ou não! Depois outras perguntas se poderiam fazer consoante as respostas.

Mas escolhi duas respostas paradigmáticas do tipo de doentes que por vezes acorrem às urgências. O stresse, muitas vezes vem daqui. Mas temos de compreender. Todos são doentes, uns sentem mais que outros, mas todos sofrem...

À pergunta "tem tosse?" a doente doméstica (talvez a Vitriólica?) respondeu de imediato:

- Eu andei em Abril a apanhar rosmaninhos para a Procissão dos Passos. Desde aí nunca mais me senti bem ... (temperatura axilar, 39,5ºc; calafrios; início súbito; dor de garganta, dores musculares; tosse - GRIPE! E venha outro!)

À pergunta "tem tosse?" a doente jovem, largos óculos, respondeu sem papas na língua:

- Olhe doutor, há cerca de 10 anos, uma vez fui a um sítio e apanhei ... (o quadro é sempre o mesmo: temperatura axilar, 39,8ºc; calafrios; início súbito; dor de garganta; dores musculares; tosse - GRIPE! E venha outro!)

E por aí até às 20 horas.

domingo, janeiro 16, 2005

O Titã E A Literacia

Das várias notícias que li sobre o Titã e afins, não sendo um perito em astronáutica, nada me pareceu errado: os jornalistas, de duas uma, ou são óptimos em astronáutica ou limitaram-se a transcrever as notícias despejadas directamente das agências.
O mais natural pois é para isso que que se fazem os contratos com as agências.

Frielas E A Iliteracia

Catarina Fernandes é jornalista do Diário de Notícias e estragou-me o meu tardio pequeno almoço deste Domingo.

O jornal nem é de hoje, mas ainda ensonado e enquanto se prepara a torrada (com Becel pro-activ!) puxa-se qualquer coisa que esteja por perto. Foi o DN de ontem, podia ser o RCM de um medicamento ou o rótulo de comida para gatos, provavelmente ficaria mais bem dispossto.

A secção: Cuidados de Saúde

O título, presumo que da autora: "Idosos de Frielas não esperam pela consulta"

A página: 26

O texto: (É preciso estar com muita atenção! Atenção aos negritos.)

"Receber uma consulta médica sem ter que esperar durante horas parece ser algo difícil de conseguir a baixo custo. No entanto, isso passou a ser uma realidade para muitos idosos de Frielas, no concelho de Loures, desde que a junta de freguesia criou um serviço de apoio à terceira idade, que disponibiliza consultas médicas, no posto de enfermagem da autarquia.

Duas vezes por mês, durante uma hora, os mais idosos podem ser consultados sem qualquer tipo de confusão. Não têm que andar em transportes públicos, porque o posto de enfermagem fica situado mesmo no centro da localidade, e não têm que estar no local com muitas horas de antecedência dado que a consulta está garantida por uma inscrição prévia.

De acordo com o presidente da Junta de Freguesia de Frielas, Álvaro Cunha, o objectivo é apenas o de facilitar a vida aos idosos. «Estávamos a constatar que havia um grande número de pessoas de idade que tinha que ficar horas à espera de consulta no centro de saúde», refere, «quando, ainda para mais, se trata de utentes com muitas carências e alguns problemas de mobilidade».

«O nosso intuito», acrescenta Álvaro Cunha, «é que as pessoas venham mais ao médico e estejam mais a par da sua saúde, porque desconfio que muitos dos utentes que agora se inscreveram há anos que não iam a um consultório». A necessidade de um serviço como este levou a que,
em apenas uma hora, se tenha esgotado o número de consultas possível para este mês.

Com o custo simbólico de um euro, as consultas têm lugar duas vezes por mês, às terças-feiras, no período entre as 19.00 e as 20.00
."


Diz a Catarina que os idosos de Frielas não vão esperar durante horas por uma consulta, como acontece no Centro de Saúde local, porque agora têm duas horas por mês oferecidas pelo Presidente da Junta, um verdadeiro pruuuusidente!


É que, com duas horas por mês, e já com o primeiro mês esgotado, os idosos de Frielas não vão esperar horas ... vão esperar anos!! E mais anos por uma consulta.
E se o médico observar um doente por cada 15 minutos, serão 4 por período, 8 por mês, menos de 100 por ano.


E quantos idosos haverá em Frielas?


Quem ganhou com esta demagogia foi o médico que lá conseguiu mais uma avençazita, o pruusidente que lá arranjou uns votitos para o seu partido, a jornalista que lá ganhou por mais uma peçazita de mau jornalismo.


Quem perdeu: fui eu, por que me estragou o pequeno almoço, os idosos que foram enganados com promessas de melhoria da acessibilidade, foi o DN e os seus leitores.
Foi o jornalismo...

sábado, janeiro 15, 2005

A Lusa distribuiu, a jornalista inventou!

Sentei-me para fazer um bilhete sobre a troca de radiografias, ou melhor, sobre a troca da identificação nas radiografias, no Hospital de Bragança, publicada no Jornal de Notícias e no Primeiro de Janeiro e sobre a capacidade inventiva da jornalista Glória Lopes do JN, com base numa notícia distribuída pela Lusa.

Mas desmotivei-me.
Não há pachora para tanta falta de seriedade de alguns jornalistas portugueses e a qualidade das suas notícias. O que interessa é malhar na classe médica e nos hospitais públicos.

Quem quiser que compre o JN e o Primeiro de Janeiro de 15 de Janeiro de 2004 e analise como a notícia da Lusa foi aberrantemente modificada no JN.

quinta-feira, janeiro 13, 2005

O Desnorte de Helena Norte

Ainda o Jornal de Notícias. O do Elias, o sem abrigo. Talvez o menos iliterato que por lá anda.

Conhecem a Helena Norte? Não! E a Ana Ferro? Também não? Indesculpável.

O Jornal de Notícias, o mais lido de Portugal, oferece-lhes uma página, sim uma página. (Elias, tu que lá estás, quanto custa uma página no JN?)

E a página oferecida (será que o director do jornal alguma vez a leu?) é-o para se escreverem afirmações de alto interesse científico..., e já não falo mais de iliteracia científica, nem de intelectuais.

Dizem essas personagens porterianas que se intitulam, a primeira jornalista (não convecional) e a segunda, médica especialista de Homeopatia, que como se sabe não é uma especialidade médica, e esta não tem garantidamente cinco mil anos, talvez duzentos.

Mas pudemos todos ler e aprender que:

- "uma respiração correcta pode ... melhorar a longevidade" e o que é uma respiração correcta? "respiração profunda e completa". Um suspiro!

- "a maioria das pessoas respira mal porque desaprendeu." Ok, tudo para a escolinha. A mim sempre me ensinaram que respirar era um acto reflexo e independente da vontade.

- "... esse acto [respirar] que nos faz estar vivos". Lapalisse existiu?

- Esta premissa científica ainda não a consegui entender: "A importância da respiração é inversamente proporcional ao tempo que conseguimos estar sem receber oxigénio"

- "É possível passar horas, dias, sem comer ou beber, mas bastam alguns minutos sem ar para morrer."

Prooooooooonnnnnnnnnnntttttttttoooooooooosssssssssssss!

Senhor director do JN, não há uma página para mim?

O JN E As Enguias do Maniche.

O FCP está a revolucionar o seu futebol, segundo nos transmitem os media.

Ainda bem, digo eu, para ver se aqueles rapazes se mexem. Mas a revolução é tanta, com entrada e saídas, altas e baixas do departamento clínico, que extraíram a enguia ao Maniche. Coitado do homem!

E nem sei se foi com o seu consentimento informado! Isto pode dar um processo por abuso de confiança do meu colega cirurgião que lhe rapou a enguia.

Está lá: Jornal de Notícas, dia 13 de Janeiro, suplemento Desporto, página 2 e secção Lesionados:

- "Maniche (F.C.Porto), operado a uma hernia enguinal"

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Mutismo Selectivo vs Útero Dilatado

Várias vezes e apesar de avisar que "este blogue não é um consultório on-line", sou solicitado a comentar ou explicar alguns termos que os leitores têm dificuldade em compreender.

E é para isso que aqui estou.

Explicar e não ensinar. Criticar e não corporativizar a minha profissão.

É óbvio que há perguntas que são dificeis de responder! (Minha querida Maria, não sei qual o motivo pelo qual o seu útero está dilatado!)

ou outras que não têm resposta! (Meu querido Henrique, que lhe posso responder: "E a si?... não há ninguém que lhe explique nada? Sabe que só mesmo os mais ignorantes é que se comportam desta forma? Não deve saber. Se é como a maioria dos médicos que conheço, não só não sabe como acha isso impossível. Sabe que era exactamente essa a postura dos padres na Idade Média?... Era!... E, um dia foram substituidos pelos médicos."

Nós, médicos, estamos sempre disponíveis para aprender, temos sempre outros médicos mais super-especializados em determinados assuntos, que nos transmitem conhecimentos. Mas ... aceitamos explicações de Medicina apenas de outros médicos. “Olhe, Henrique: ainda ontem um electricista com a quarta classe me explicou como funcionava um dispositivo que lá apareceu no hospital: Electricista Explica Como Funciona Um Dispositivo A Um intelectual. Bom título de blogue, não acha Henrique?

Olhe Henrique, outro exemplo: hoje um técnico da PT Comunicações, explicou-me a razão pela qual a minha ADSL não funcionava. E eu que andei mais de 10 dias a tentar perceber. Esse técnico, que não será intelectual, em 10 minutos descobriu que o fax interferia e curto-cicuitava o split. Veja lá, em 10 minutos! Como vê recebo muitas explicações. Mas, como deve imaginar não ia pedir explicações para a minha ADSL a um pastor, ou a um vaqueiro, ou a um gestor da Galp. Eu sei que o Henrique compreende.

Mas esta lenga-lenga, que se prolongou demasiado, serviu para chegar ao mutismo selectivo.

Uma professora perguntava-me se o mutismo selectivo existe.
Concluí que na Internet existe, foi de lá, dessa inesgotável fonte de sabedoria (depois de filtrada!) que retirei esta frase de um grupo de discussão. A referência desapareceu, que me desculpe o autor:

O que caracteriza o mutismo selectivo é uma incapacidade de falar em situações sociais específicas (escola, por exemplo), portanto pode ser confundido e mesmo incluir fobia social... Como ela não aparenta nenhuma dificuldade de linguagem, poderia ser diagnosticado mutismo selectivo, com uma avaliação adequada claro. O mutismo selectivo inclui timidez, medo das relações sociais, isolamento, retraimento social, alguns comportamentos compulsivos, negativismo, comportamento controlador ou negativista, principalmente em casa. Normalmente inicia-se antes dos 5 anos de idade, e deve-se fazer um diagnóstico diferencial com problemas de linguagem e outros, para ter a certeza do diagnóstico. Para além do diagnóstico, o importante é perceber a razão da perturbação existir, ...
".

Mas uma definição muito mais simples é "situacion en que el niño decide con quien hablar y cuando hablar".

Dá quase para perguntar: será mesmo uma doença ou será mais uma não-doença!

Eu por vezes apetece-me ficar mudo selectivamente tantas vezes!

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Demagogia: A Meta Dos 5 000 Anos

Foi na SICNotícias. Poderia ter saído no Correio da Manhã ou da famosa boca.

Mas não.
Foi a Sicnotícias. Um dislate. Se não houvesse iliteracia científica, particularmente na área da Medicina, estas notícias não passavam...

Aquela estação pretende-se actual, informativa e para intelectuais, ou pelo menos para interessados no Conhecimento. Não é o canal História, nem a SIC Comédia, nem outras siques

Afirmava a jornalista: "A reflexologia foi descoberta há 5 OOO anos."

Provavelmente leu aquilo que o reflexólogo ou será reflexologista ou refléxico lhe colocou no teleponto.

Ficamos a saber que há 5 000 mil anos alguém descobriu a reflexologia. Quer dizer 3 000 anos Antes de Cristo .... Quer dizer, nessa altura morria-se aos 20-30 anos.
Uma pequena história, esta verdadeira:

"Há muitos e muitos anos, era na pedra que o Homem registava os acontecimentos que presenciava no seu dia-a-dia. Depois descobriu que alguns materiais, tais como as cascas de certas árvores e as folhas das palmeiras serviam para riscar e eram muito mais fáceis de trabalhar.

Cerca de 4 000 anos antes de Cristo nascer, começa a usar-se, no antigo Egipto, o papiro. Fabricado a partir de uma planta chamada Papyrus, esta tela não pode ainda ser considerada como papel.

Foram os chineses que inventaram o papel, cerca de 100 anos depois de Cristo nascer. No entanto, só no século X foi conhecido no continente africano e introduzido na Península Ibérica pelo povo mouro.
Em Portugal, os primeiros escritos em papel datam de 1288 e de 1334."

Ainda acreditam que estas alternativas ao conhecimento têm crédito?

Então eu agora para tratar dos meus testículos vou deixar que mexam nos meus calcanhares? Isto segundo a Sic Notícias.

E quando quiser capar o meu gato, corto-lhe as patas traseiras.

Agora compreendo a razão pela qual um doente ficou impotente quando lhe foi amputado o pé.

E as consultas hospitalares da patologia do pé, passarão a ser efectuadas por sexologistas.

E também passei a compreender a razão pela qual os jogadores de futebol, quando fazem a barreira para a marcação de um livre, colocam as mãos num sítio, chamado Calcanhar de Aquiles e poem-se em bicos de pé para não ficarem com os t... no chão.



domingo, janeiro 09, 2005

Atraso Indesculpável. As Minhas Desculpas Ao Cibertúlia

Sei que fui mal educado e não respondi a uma pergunta do simpático blogue
Cibertúlia.

Foi em Outubro de 2004.

Mas confesso que trabalho de mais. São 12 horas diárias! (E ainda em alguns fins-de-semana.)

E só depois, no posto de comando, posto.

Mas é preciso compreender: os médicos, que neste momento marcham vergados sob o peso dos media, com todos os holofotes para si virados, à espera de uma escorregadela, para serem fotografados em flagrante delito, ganham de salário base, líquido e a meio da carreira (e da vida!) : cerca de 250 contos.
É muito? É pouco? Não respondo.

Para mim não chega. O Pai cibertúlia, que tem uma filha no internato complementar, e portanto, já na profissão, sabe do que falo.

Por isso, há que recorrer aos bancos, aos saps, à privada, às convenções, etc.

Dizia-se no Cibertúlia de então:
"Já ninguém diz «atitude». Mas, ontem à noite, ninguém se lembrou do seu correcto significado: a postura do primeiro-ministro é digna de anedota. Para a frente e às arrecuas, ora atarracado, ora empertigando-se... Uma lástima. Um médico lhe diria que não se senta assim."

Pois não!

A postura é muito importante para nos mantermos saudáveis. Como o prova a queda do primeiro-ministro, após sucessivas incorrecções posturais. Mas, por vezes, uma determinada postura, pode ser má para uns, e boa para outros. Quando a postura é instável, um pequeno abanão é suficiente para a queda e o "levante" pode ser difícil.

Mas também há posturas incongruentes ou de difícil compreensão: ora se empurra um objecto, instável, mas com uma base de apoio segura, para depois do empurrão, se apelar à estabiliade com maiorias absolutas e a entendimentos pós-traumáticos com quem acabou de cair!

Não entendo. Ou estou eu demente (hipótese a considerar, de tanto neurónio gastar) ou estão os outros dementes.

Mas como dizia o Marujo, em relação às posturas:" ... Uma lástima!"

Por isso vou fugir para aqui: aqui sei que o meu voto vai valer tanto, como tem valido nestes últimos 20 anos. Que os nossos políticos possam compreender que há quem se abstenha activamente e não comodamente.

sexta-feira, janeiro 07, 2005

Grande Investigação: Germano Ferreira Vítima Da Epistaxis

O JN de 06/01/05 revela-nos o grande furo jornalístico do fim-de-ano, pela difícil investigação subterrânea de Salomão Rodrigues.
Enquanto os seus colegas procuravam informar a comunidade mundial dos acontecimentos no Golfo de Bengala, Salomão Rodrigues, de bengala na mão, conseguiu descobrir a primeira vítima da epistaxis assassina.

Ei-la, a vítima, perante a qual me curvo, segundo foto publicada no referido jornal pelo repórter Manuel Azevedo:



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Salomão Rodrigues confirmou que a vítima "regressou a casa. Quase sem forças para se manter de pé." Mas mesmo sem forças logrou deslocar-se ainda mais uma vez ao Hospital.

Segundo apurou Salomão Rodrigues, a vítima foi observada por diversos médicos que se limitaram a olhar para a "anemia entretanto adquirida pela perda constante de sangue" e viraram costas.
Por isso a vítima teve que fazer "Dez deslocações aos hospitais de S. Sebastião, em Santa Maria da Feira, e de V.N. Gaia em apenas três dias".

Para que conste a vítima "foi assistido por um especialista em otorrinolaringologia e, mais tarde, enviado para casa" contra a sua vontade.
O especialista bem avisou: se voltar a sangrar, fique em casa, não volte ao Hospital, que pode ser fatal.

Mas, "Não demorou muito tempo para que a hemorragia voltasse. Nova deslocação ao S. Sebastião, onde mais uma vez foi atendido e enviado para casa." - Bolas, gritou nessa altura a senhora do senhor vitimizado. [O JN não traz foto da mulher da vítima. Segundo mentideros do corredor, a vítima não autorizou que a fotografia da sua senhora viesse no JN].

Salomão Rodrigues apostou em continuar à porta do hospital e teve êxito: "No dia seguinte, a situação mantinha-se e Germano Ferreira voltou ao Hospital da Feira. Como não havia especialista de otorrino, foi enviado para o Centro Hospitalar de Gaia. Colocaram-lhe um novo tampão no nariz...", segundo apurou o jornalista junto da auxiliar de acção médica, vizinha da vítima, as postas de sangue eram tantas que parecia uma menstruação, como quando estava com o mioma igual ao da ..., daquela que veio na Caras (ou na Lux, ou antes na Maria?).

"Naturalmente, foi perdendo sangue. Apesar dos protestos dos familiares para que o ..." sangue parasse.
"Na madrugada de sábado continuou a perder a sangue e, por isso, foi ao S. Sebastião. Mais uma vez foi reenviado para o Centro Hospitalar de Gaia, que, por sua vez, o manda para casa." Salomão não conseguiu confirmar a existência de novo tampão. Presume que lhe foi posto um tampão na narina sangrante.

"Só que as hemorragias não pararam."
Apesar das preces e "Farta do vaivém constante entre Feira e Gaia, a família de Germano Ferreira decide," atravessar para a outra margem e mudar de santo: deixar cair S. Sebastião e recorrer ao Santo António milagreiro.

No Santo António "é confirmada a debilidade física, devido a perda excessiva de sangue, e imediatamente internado, onde ficou hospitalizado até ao passado dia 4." Feitas as contas a vítima ficou internada 1 (um) dia! Fantástico!

"Os familiares de Germano Ferreira dizem-se "revoltados"" contra a frase "A culpa é do sistema" e contra a "orgânica do sistema".

Afirmaram que "que não vão pedir qualquer responsabilidade ou indemnização," caso a sua foto venha publicada no jornal, assim como a teorização académica da senhora do Germano: "chamar a atenção dos médicos "para tratarem melhor os doentes"" e "Não há direito que nos tratem desta maneira".

"O JN esperou, até ontem, sem sucesso, por uma reacção do Centro Hospitalar de Gaia", mas apenas conseguiu um post do blogue Médico Explica Medicina A Intelectuais.

O autor deste blogue, tentou em vão procurar na internet uma outra fotografia do sr Germano para comparar com a presente e poder aquilatar a "debilidade física", pois a foto apresentada no Jornal de Notícias, presumivelmente é anterior à epistaxis galopante.

quinta-feira, janeiro 06, 2005

Contra As Colonoscopias, Marchar, Marchar!

O Correio da Manhã iniciou uma campanha diária (pelo menos em dois dias sucessivos) contra as colonoscopias!

Transformou as complicações descritas em todos os livros de texto como possíveis, mas estatisticamente irrelevantes, em notícia.

Em dois dias seguidos lá encontrou dois doentes (carago, grande investigação jornalística!) com complicações pós-colonoscopias.


É irrelevante para o jornalista pseudo-científico se as colonoscopias são úteis ou não para diagnósticos precoces do cancro do cólon em Portugal e assim serem úteis para a comunidade.


Fizesse o senhor jornalista grandes campanhas nas páginas do seu jornal generalista e popular para os cidadãos acorrerem em massa aos seus médicos de família para estes requisitarem colonoscopias a utentes com risco acrescido de cancro do cólon ou requisitarem análises às fezes para pesquisa de sangue oculto e seria lembrado pela comunidade científica como um grande jornalista.


E já agora, se necessitar de mais umas perfurações do intestino grosso no decurso de colonoscopias, eu posso arranjar-lhe, pelo menos dois casos não fatais.
Para além do cachet para o perfurado, eu que não fui o perfurador, não abdico da minha comissão.


E seria de esperar outra coisa do Correio da Manhã?

Medicinas ... Alternativas .... À Inteligência

Por e-mail, alguém me enviou este naco de prosa de um alternadeiro, publicado num jornal regional, o Diário Regional de Viseu em 27/12/04.

Trata-se de publicidade encapotada, pois como se pode ler num texto pretensamente informativo, lá vem o nome da Clínica BioSorriso, uma verdadeira policlínica: há tarot, há orelhoterapia, há esoterismo, vulgo bruxaria, etc.

Mas vale a pena ler a entrevista de um médico alternadeiro. O negrito, como não podia deixar de ser é meu.

"Numa época em que, cada vez mais, se fala e se recorre à medicina não convencional, também apelidada de medicina alternativa, o Diário Regional de Viseu partiu à descoberta de algumas destas práticas, com destaque para a Kinesiologia, uma das valências disponíveis na Clínica BioSorriso, situada na Quinta D'El Rei, em Viseu.
O nosso jornal .../... a necessidade de promover os diferentes tipos de terapias alternativas.

DRV - O que pode um cliente encontrar na "BioSorriso"?
Alfredo Rodrigues Nunes - Acima de tudo encontra uma clínica dentária e um centro de terapia alternativa, com Kinesiologia, Auricoloterapia, Reiki, Osteopatia, Auriculoterapia, Tarot, associados ao esotérico e às medicinas alternativas.

DRV - A medicina alternativa é uma prática muito procurada?
ARN - ... Até porque se o nosso corpo tem a capacidade de nos pôr depressivos, também tem a capacidade de nos pôr bem, depende da maneira como pensarmos.
A psicossomatização dos traumas é, acima de tudo, emocional e nunca física.

DRV - Então qual é a resposta da medicina alternativa face à ineficácia da medicina "tradicional"?
ARN - A medicina tradicional não é ineficaz. Os médicos são importantes em caso de cortes no corpo, na necessidade de operações, adimitração [??] de antibióticos em caso de infecção, etc; em que a medicina alternativa não consegue fazer nada. Nós não curamos ninguém, o corpo é que tem a capacidade de se curar.
O nosso corpo é constituído pelo mental, emocional e físico, temos três partes que se reúnem numa só. Os médicos curam e abrangem o físico, mas não entram muito no mental e no psicológico, e esquecem que somos uma estrutura composta por três partes. As medicinas alternativas entram por aí, pelo lado emocional e mental, tendo resultados no campo físico.
.../...
DRV - Em que é que consiste?
ARN - A Kinesiologia compreende um conjunto de técnicas que se podem chamar de "técnicas de saúde" ...
Mas no fundo é sempre o corpo que se cura, eu não curo ninguém, isso é ponto assente.
...
A Kinesiologia consiste num sistema de feedback entre o corpo e os órgãos, e ninguém melhor que o nosso corpo para se conhecer a si próprio. Por exemplo, se temos um trauma, o mesmo vai-nos causar um mal-estar a nível emocional e, consequentemente, a nível físico. Este sistema de feedback entre os órgãos e os músculos permite, através da análise de um músculo saber o estado de um órgão, e sabendo isto é possível fazer uma associação emocional a esse órgão. Se for uma pessoa exigente, com picos de alegria e de tristeza, revoltada com a vida, isto é possível de saber através da associação dos órgãos com os músculos e com as emoções.
A cada órgão está associada uma emoção: ao fígado é a revolta, e ao estômago, de certa forma também, mas é essencialmente a inflexibilidade.
Assim, através do teste muscular podemos saber, na realidade, como a pessoa se encontra. Pode dizer-se que, a nível da medicina alternativa, este é o melhor método de diagnóstico que temos.
Esta técnica permite-nos diagnosticar casos de stress, bloqueios, falta de energia, dificuldades de aprendizagem, depressões, colesterol, epilepsia, úlceras, viroses, desequilíbrios emocionais, tumores, reumatismo, diabetes, doenças transmissíveis, entre outras.
...
... classe médica muito conservadora, com uma mente pouco aberta para este tipo de terapias, por isso a regulamentação das medicinas alternativas passa, acima de tudo, pela evolução de uma nova consciência do nosso "eu" no seu conjunto.
A nível de medicinas alternativas, não temos a possibilidade de receitar e acreditamos que, na maioria das situações estes também não são necessários. Por vezes, ainda se coloca a questão de trabalharmos sob a tutela dos médicos, mas, de certa forma, quem pratica medicinas alternativas não aceita fazer deste meio um circuito fechado, onde só alguns têm acesso.

DRV - Por onde passa o futuro deste tipo de medicina alternativa?
ARN - O nosso mundo está em mudança, o que tem trazido uma grande abertura a nível espiritual, ou seja, as pessoas estão mais abertas àquilo que antes desconheciam. Os processos de cura já não passam tanto pelos comprimidos, mas sim pela aceitação e compreensão daquilo que a sociedade pede a cada pessoa.
O ser humano tem dois hemisférios: o hemisfério esquerdo, que é o mais curioso; e o hemisfério direito, que é o sensitivo. Muitas vezes, em caso de conflito, a energia dos hemisférios é cortada, e gera-se um debate entre o que pensamos e o que sentimos. Esta situação pode originar um trauma que advém das divergências entre o que nos é pedido pela sociedade e o que achamos que somos capazes de fazer. E depois não nos podemos esquecer que a sociedade de hoje é uma sociedade de consumo, de protagonismo; e no meio disto há pessoas que se sentem bem e outras que se sentem forçadas. Quando a sociedade não nos permite fazer aquilo que nós gostamos, e que no fundo nos realiza e faz felizes, vamos desenvolver traumas e psicossomatizá-los - as chamadas depressões que, actualmente afectam muitas pessoas.
Então, o nosso futuro passa também por fazer compreender às pessoas que sociedade e pessoa são elementos distintos, o que pensamos é uma coisa e o que sentimos, muitas vezes, é outra.

... Dá-nos uma base de sabedoria e complemento que nos faz entender melhor a sociedade, o porquê das coisas.
A Kinesiologia e outras medicinas alternativas são muito importantes, na medida em que tudo o que seja psicossomatização de traumas, se relaciona com o interior do ser humano, dando origem a bloqueios. As terapias de medicina alternativa têm essa função de romper com os traumas e medos que tantas vezes nos bloqueiam. Logo, quando as pessoas se sentem livres de preocupações são muito mais felizes, visto que nós fomos feitos para nos ocuparmos das coisas no momento certo, e não sofrer por antecipação.

DRV - Mas isso é um pouco difícil tendo em conta a mentalidade instituída na nossa sociedade…
ARN - É mesmo isso. A sociedade não é perfeita e tem muitas coisas que vão contra a nossa natureza, e quando isto acontece formam-se as doenças.
.../...
É importante também ter-se sempre presente a noção de que o ser humano necessita de três energias fundamentais: a saúde, a felicidade e o dinheiro; e não o protagonismo, a competição e o dinheiro.

Não lhe querem marcar uma consulta para o psiquiatra?

Cinco Mil Anos!

Não tenho a certeza, mas duvido muito que há 5 000 anos se soubesse o que era a diabetes ....... talvez mais um insulto à inteligência dos intelectuais.

Mas como a iliteracia científica alastra no meio intelectual, o das letras, o que não se peocupa com a ciência ... tudo é possível!




terça-feira, janeiro 04, 2005

Vou Iniciar O Ano Criticando Os Médicos E As Suas Instituições ... III

O que vos vou contar é verdade. Não é ficção.


Passou-se num banco de um hospital que agora contrata médicos por atacado, com nomes do género, Ali qualquer coisa, tsky qualquer coisa, andez do outro lado do Atlântico e outros nomes mascarados de médicos e disfarçados com uma bata branca.


Uma doente entra na triagem com dor torácica. Na triagem consideram que é uma dor não cardíaca e enviam-na para os azuis e verdes.
É consultada por um indíviduo com fala-al, tez morena, que começa assim a consulta:


- Então de onde veio não lhe fizeram nada? Esses médicos não prestam. Bem lhe poderiam ter feito um electrocardiograma.

- Mas a senhora está doente? E vem tratar-se para aqui? Olhe que eu não vinha! Os médicos daqui não prestam!

- Eu estou cá a trabalhar porque preciso de ganhar a vida.
- Mas se adoecer enquanto cá estivar, vou tratar-me ao estrangeiro.


Até que a paciente decidiu falar:
- Senhor doutor, autoriza-me que eu no meu país, me possa queixar das minhas maleitas?


[E eu que até gosto da cultura árabe...]


Agora sim, jornais e têvês do meu país, criticai as urgências, criticai os médicos, criticai, que eu vos apoio.


Agora temos a mesma luta em prol da qualidade...

segunda-feira, janeiro 03, 2005

O Médico Explica Patrocina Um Blogue Especial

Aqui.

Vou Iniciar O Ano Criticando Os Médicos E As Suas Instituições ... II

À pergunta que o blogue 100Norte me solicita neste bilhete, respondo com o que escrevi há 13 meses e alguns dias, no meu modesto blogue: aqui, para os curiosos!

Começa assim:

"Escreve o Mata-Mouros: "Há muito tempo que um artigo num jornal não me dizia tanto. Esmagador na descrição do país que ainda somos.", acerca de um drama por que passou um filho ao acompanhar sua mãe numa ida ao banco do HSM e que faleceu na mesa de TAC. É um drama! E embora só a autópsia possa revelar a causa da morte, o longo tempo de espera, 7 horas, para se obter um diagnóstico (para se fazer um TAC!) não tem defesa possível.

Há cerca de um ano, "Por motivos de saúde que requereram uma opinião urgente de determinada especialidade, desloquei-me por mais do que uma vez à urgência central do Hospital de Santa Maria. Segui todos os trâmites que seguem todos os outros doentes: inscrição, espera, triagem, e aguardei, aguardei e aguardei, observando."

E termina asim:

"E já agora pergunto: quantos habitantes da blogosfera, não recorreram já às urgências hospitalares centrais por dor de dentes? Por dor de ouvidos? Por dor de *...."
_________
dor
do Lat. dolore
s. f.,
sofrimento físico ou moral;
mágoa, aflição;
pesar;
dó;
condolência, piedade;
remorso.


Vou Iniciar O Ano Criticando Os Médicos E As Suas Instituições ... I

com uma visão científica, e não mediática. Nem lucrativa, nem medida pelas audiências.

Mas sendo os médicos pessoas, assim como os seus pacientes, podem errar, serem de bom carácter ou mau carácter, saudáveis do ponto de vista psicológico ou simplesmente esquizofrénicos.

Por este motivo, defende-se em numerosas instituições que em situações de grande responsabilidade, como por exemplo, no decorrer de uma cirurgia, de uma reanimação, durante um simples SAP, o médico nunca deverá actuar sozinho: também pode ter um enfarte ou uma morte súbita, entre outras situações!

Artigo do British Medical Journal, interessante e actual.

segunda-feira, dezembro 27, 2004

Aviso

Novo endereço de correio electrónico: memai@sapo.pt.

domingo, dezembro 26, 2004

Perdas de Natal

O sr M. Velhinho faleceu no Natal.

"- Senhor doutor acha que o meu Velhinho está para morrer?
- Minha senhora, o senhor Velhinho está muito velhinho, mas nós não podemos, nem sabemos adivinhar o futuro. Uma hora, um dia, uma semana, um mês, um ano, tudo pode acontecer ao seu marido velhinho."


8 dias depois desta conversa o sr Velhinho faleceu.
__________________________________________________________________________________

"Doutor, perdoe-me, sei que isto não é um consultório on-line, mas poderia dizer-me o que é leucemia galopante (ou leucemina fulminante)? é que tenho uma GRANDE amiga minha que morreu com 16 anos este verão... : "Ela tinha tudo pela frente... Fiquei revoltado... apenas gostava de saber o porquê desta patologia aparecer, visto que ela sempre foi saudável, tendo ido dia 3 de Julho ao hospital por uma dor de garganta e ter morrido no dia seguinte... Uns a chorar por Portugal ter perdido com a Grécia, ela (R.) a lutar pela sua (curta) vida..."
D F, 19 anos."


A GRANDE amiga faleceu por uma doença fulminante. Há várias doenças fulminantes. Em horas levam um vida perante a impotência da Ciência e dos médicos. As leucemias fulminantes são um caso paradigmático. Em muitas o primeiro e único sintoma é uma dor de garganta. Mas há mais, desde hepatites fulminantes a septicémias fulminantes.

Nem erro de diagóstico, nem negligência médica, nem problemas iatrogénicos. Mas algo cuja etiologia ainda não foi esclarecida totalmente...

O Natal É ...

... O Que O homem Quiser (Ou O Homem Permitir!)

sábado, dezembro 25, 2004

Silêncio Pós-Consoada

Explicações e Presunções

Consoada.

À volta de uma mesa, com o bacalhau e as batatas, e uns copos de tinto

economista explica economia a intelectuais

juíz explica justiça a intelectuais

advogado explica advocacia a intelectuais

professor explica pedagogia a intelectuais

artista explica arte a intelectuais

matemático explica matemática a intelectuais

e um Médico Explicou Medicina a Intelectuais.

Manteve-se anónimo apesar de nele falarem.

Ninguém foi presunçoso.

Explicar medicina a intelectuais será presunção?

Não será presunção outros intelectuais pensarem que dominam a Medicina?

Quanto à Visão, agradeço a distinção! E informo que sou absolutamente desconhecido nesse local.

P.S.: Só admito o adjectivo de prezunçozo ao Alvino.

sexta-feira, dezembro 24, 2004

Na Minha Terra

Não há vaidades.
O pensamento é livre.
Não há limites para a imaginação.
Faz-me falta olhar para a minha terra.

Só é pena pela primeira vez não encontrar na minha terra quem gostava de encontrar, mas as leis da vida ninguém as decreta, ninguém as promulga. Existem e são inexoravelmente o nosso destino...

quinta-feira, dezembro 23, 2004

Também Vou À Terra

O médico explica também vai à terra.

Não sabe se na terra terá novas tecnologias.

De qualquer forma Boas Festas.

Se Santas ou não, dependerá da Fé de cada um.

terça-feira, dezembro 21, 2004

Não Há Triagem de Manchester Que Resista Ao Isolamento

Ou à honestidade!

Depois de ter passado todas as barreiras coloridas, ei-la frente a frente com o médico.

Pela triagem, era a "falta de ar" que a afligia.

Frente a frente:

- Então de que se queixa?
- Estou muito doente. Estou mesmo muito doente. Mas a verdade é que estou só. O isolamento é que me mata.

Não há tratamento urgente para isto.

Não há explicações a dar aos intelectuais sobre isto.
E quantos intelectuais também passam por isto?
Alguns. Pelos mails que vou recebendo!

Este episódio está a acontecer. Interrompi a consulta para "bloggar". E para pensar no Natal.

E entrou-me um cisco para os olhos, tenho que limpar esta humidade da Humanidade.

segunda-feira, dezembro 20, 2004

Apontamento Sobre O Velhinho

- Senhor doutor gostava que fosse ver o meu pai a casa. É muito velhinho. Tem 91 anos.
- Mas de que é que ele se queixa?
- Deixou de andar. Deixou de falar. Está muito velhinho.
- Amanhã passo por lá. Pode ser?
- Sim.

No dia seguinte. Já em casa do paciente.

- Como se chama este velhinho simpático?
- M Velhinho.
- Sim. Velhinho eu sei que ele está. Mas qual o apelido dele?
- Velhinho. Chama-se M Velhinho.
- Velhinho?
- Sim senhor doutor o meu marido está muito velhinho e chama-se Velhinho.

No fim da consulta.

- Senhor doutor acha que o meu Velhinho está para morrer?
- Minha senhora, o senhor Velhinho está muito velhinho, mas nós não podemos, nem sabemos adivinhar o futuro. Uma hora, um dia, uma semana, um mês, um ano, tudo pode acontecer ao seu marido velhinho.

sábado, dezembro 18, 2004

Ai estes Jurnalistas E Os Micronavios

Mas como sempre a culpa é do médico . Transcrevo:

"Identificação electrónica é obrigatória há cinco meses.
Mais de 200 mil cães já têm "microship".

Segundo o Público de hoje, andam por aí mais de 200 mil cães com micronavios... Seja lá isso o que for!!! De facto é adequado para um país de marinheiros.
É este o jornalismo que temos..."


Se não acreditam, está aqui, no Poblico, de 22 de Nubembro.

sexta-feira, dezembro 17, 2004

Um Pedido

de um jurnalista do Poblico ao Médico Explica Medicina A Intelectuais e largado na caixa do correio.

quinta-feira, dezembro 16, 2004

Acreditem Que Gostava ...

... de escrever mais e relatar alguns episódios da minha vida.


Hoje trabalhei mais de 12 horas.
Trabalhar significa para nós, ouvir, intervir quando necessário, deixar ouvir, discorrer "placebamente", ouvir, ouvir, ouvir, intervir pouco, intervir muito, intervir intensivamente, intervir nos limites, ultrapassar os limites, ir buscar ao Além alguns, deixá-los partir também, sorrir às vezes. Ouvir sempre!

Passadas doze horas, às vezes é necessário descomprimir.
Desligar a televisão. Apagão.
Ficar só neste mundo que não nos compreende.
Desconfiar daqueles que só gostam da $aúde.


Há dias um colega confessou-me que gostava de me conhecer. Porquê? A maior parte dos médicos são anónimos como eu. Ninguém os conhece. Há generalistas e generali$$$tas. Há especialistas e especiali$$$tas. Desde o mais simples interno geral ao mais afamado chefe de serviço há uma plétora de homens e mulheres conscientes da sua profissão.

Fico com erisipela quando as televisões e outros media fazem passar apenas a nódoa e transformam-na em regra.

Há médicos amigos dos seus doentes, desde o médico de família que o conhece há 20 anos, ao intensivista que o observa apenas durante horas.


Hoje depois de 12 horas de trabalho assistencial diverso (é preciso ganhar a vida!) alguém me convidou para o primeiro aniversário da sua vida.

Gostei do presente do aniversariante: "para o meu querido médico!". Tocou-me fundo.
Mas sei que os médicos só são queridos quando as "coisas" correm bem. Que me perdoe o aniversariante, mas o médico tem sempre esta perspectiva.
Só espero que não leiam este post até repousar nas profundezas dos arquivos.

Mas, após doze horas no limiar da incerteza e do risco: É ou não é? Foi ou não foi? Será ou não será um enfarte? Evacuo ou não evacuo? Será só uma reação aguda ao stresse ou uma crise de hipertiroidismo?
Depois de doze horas deixei-me levar pelo sabor do champanhe.
Foi o que me ofereceram.
Foi o que bebi.
Foi o que excedi.
Fez-me bem.
O álcool pode ser um bom psicofármaco, quando prescrito ou auto-medicado com consciência.

Mas não abusem, por favor!

segunda-feira, dezembro 13, 2004

[também posso ir?]

Carta resposta publicada no pasquim Expresso (ex-referência do jornalsmo português) de 11-12-2004:

"Li no artigo «Farmácias com descontos chorudos» (EXPRESSO, 4-12-04), uma «sugestão de notícia» acerca da conduta dos médicos: ainda no passado fim-de-semana, cerca de 150 psiquiatras estiveram no Algarve, a convite de um laboratório, mas sem programa científico.

Além de considerar que uma jornalista não deve produzir trabalho profissional genérico, sem rigor de concretização, a não ser que se trate de artigo de opinião, o que este não pretende ser, e que tenho o EXPRESSO por semanário onde a especulação sob capa de notícia não tem lugar, apelo à publicação de desmentido a que acrescento prova. Como palestrante no Simpósio Científico, que se realizou a 27 de Novembro no Algarve - Stª Eulália (se é a este que se querem referir), envio o programa científico e também a comunicação científica que apresentei.

Reitero o meu mais profundo protesto quanto a mais uma vileza relativa ao bom nome dos médicos portugueses. Convido as senhoras jornalistas, autoras da notícia, para um encontro [também posso ir?] onde talvez possamos compreender as razões de tais repetidos comportamentos persecutórios face ao bom nome dos médicos e lhes ajude a discernir as sérias repercussões que este tipo de atitude tem na saúde das populações.

Manuel Costa Guerreiro, Cruz Quebrada
"

Notícia Esquisita e Mais Uma Vez Manipuladora ... Falam, Falam, Falam E Não Dizem Nada"

Notícia muito esquisita do Comércio do Porto de 11/12/04 do jornalista João Santos.
Por um lado e mais uma vez, o título não condiz com o conteúdo. Manipulação! Desrespeito pelos leitores.

O título postula peremptório:
"Segredo profissional na saúde é ainda mal percebido"

O que é um profissional da saúde para o Povo? Médico, médico, médico, médico e só depois os outros profissionais, nomeadamente os enfermeiros.

O que diz a notícia?

"Esta é uma das principais revelações patentes no livro do enfermeiro .../..., ontem apresentado numa sessão que decorreu no edifício do Sindicato dos Enfermeiros. A publicação do livro surgiu no âmbito da tese de mestrado em desenvolvimento e subordinada ao tema "Teologia e Ética da Saúde". José Azevedo incluiu na sua investigação um inquérito realizado a um universo de mais de trezentos enfermeiros tendo sido verificado, entre um grupo significativo de elementos, um entendimento "mal percebido" e um "enorme subjectivismo" em questões que rodeiam a aplicação e a defesa do segredo profissional. José Azevedo, presidente do Sindicato dos Enfermeiros, actual enfermeiro-chefe do Hospital São João, têm desenvolvido um importante conteúdo teórico sobre a enfermagem e as suas ligações ao campo ético e social na sociedade. Paralelamente conta um trabalho reconhecido pelos seus pares enquanto dirigente no sindicato a que aderiu há mais de trinta anos."
  1. A notícia fala de um inquérito a cerca de 300 enfermeiros. O título fala dos profissionais da saúde, isto é, os médicos não sabem o que é o sigilo profissional.....
  2. Quem conhecer o sr enfermeiro Azevedo, sabe muito bem que a notícia não pode corresponder à verdade.
  3. Mestrados: quem quer comprar?. Vendo a crédito e a prestações...

sexta-feira, dezembro 10, 2004

European Heart House

Je suis la.

Confesso que aceitei o convite de uma multinacional do medicamento para visitar e frequentar um curso integrado num Programa Educacional da Sociedade Europeia de Cardiologia.

Aceitei. Pronto. Pelos que tenho recusado por nao oferecerem credibilidade.

E nao houve contrapartidas, descansem.

Talvez nunca conhecesse a European Heart House.

A industria farmaceutica tambem pode ter um papel positivo na preparacao cientifica dos medicos, com cuidado e com limites.

segunda-feira, dezembro 06, 2004

Ri-te, Ri-te

O Boticário poveiro, decidiu (mais uma vez) meter-se comigo. Está no seu direito, até já estava com saudades. Diz ele que se riu "... com vontade da gaffe assumida do médico explica medicina a intelectuais que não estudou toxicologia nem compostos organoclorados e portanto diz, como os jornalistas que ele adora corrigir, "Dealdrina". Sabe sempre bem ver um presunçoso a espalhar-se no tapete. Então, sua sapiência, não conhecia o 1,2,3,4,10,10-Hexacloro-6,7-epoxi-1,4,4a,5,6,7,8,8a-octa-hidro-1,4-,endo,exo-51,2,3,4,10,10-hexa-8-dimetanonaftaleno?"

Diz que sou presunçoso. Só não sei como é que um presunçoso admite ter errado.

Mas como o gosto de ver irritado, atiro-lhe com as negociatas do seu chefe: João Cordeiro.

"Farmácias com descontos chorudos
Há laboratórios que oferecem às farmácias mais 30 embalagens de um genérico pelo preço de dez. No final, o Estado é que paga
OS LABORATÓRIOS que vendem genéricos estão a fazer ofertas chorudas às farmácias para que estas prefiram os seus medicamentos aos da concorrência. Em vez dos médicos, o alvo destes laboratórios são agora os farmacêuticos, estando já generalizada a oferta de variadíssimas bonificações - as quais vão desde os créditos em viagens às ofertas, que chegam a 300% sobre a compra de embalagens do medicamento (pela compra de 10 caixas, recebem-se de borla mais 30).
Os responsáveis do sector - do Ministério da Saúde à própria Associação Nacional das Farmácias (ANF) - afirmam-se «preocupados» com a situação que, segundo o próprio presidente da ANF, João Cordeiro, torna «completamente irracional o mercado». Vive-se mesmo, disse Cordeiro ao EXPRESSO, «o salve-se quem puder».
"
.../...
"Há cerca de um ano, Luís Filipe Pereira recebeu uma denúncia onde eram relatados vários exemplos desta prática. Nessa denúncia, que chegou a ser noticiada, eram feitas referências a dois laboratórios nacionais de genéricos e a exemplos concretos de bonificações, lançando a suspeita sobre as margens de lucro que as farmácias estavam a obter à custa dos genéricos."
Para que não diga que faço censura, (notícia que não aproveite para censurar os médicos, não é notícia), aqui vai o resto da notícia da Graça Rosendo, no Expresso de 04/12/2004:

"Ainda no passado fim-de-semana, cerca de 150 psiquiatras estiveram no Algarve, a convite de um laboratório, mas sem programa científico. Também esta semana, outro laboratório levou para Roma 15 psiquiatras, com acompanhantes, numa acção de promoção de um outro medicamento. Em Novembro, artistas como Herman José, Luís Represas e Rui Veloso foram contratados para animar reuniões ditas científicas que juntaram, em diferentes jantares, mais de dois mil clínicos. Os anfitriões foram diferentes laboratórios e o objectivo dos encontros foi sempre o mesmo: promoção de medicamentos."

E ninguém me convidou. Será que não me conhecem? Pois eu conheço tantas delegadas de informação médica tão simpáticas. Será que não sou simpático? Também quero ir.
Também quero ir como foram muitos farmacêuticos a Marrocos convidados pela Farmoz, um laboratório de genéricos. Mas para a Gracinha Rosendo, só os médicos é que viajam... E depois admirem-se porque é que o sr João Cordeiro quer que os farmacêuticos tenham liberdade de troca de genéricos. A Farmoz levá-los-ia a uma volta ao mundo...
"O CONSUMO de apenas três medicamentos aumentou em €32,2 milhões a despesa dos portugueses com fármacos, nos primeiros nove meses do ano. São quase 12% dos €277 milhões de crescimento apurado neste período, revela um estudo da Associação Nacional de Farmácias (ANF) a que o EXPRESSO teve acesso. O mesmo estudo revela que a dispensa destes três medicamentos - Clopidogrel, Rosuvastatina e Escitalopram - era inexistente ou residual no período homólogo de 2003. E qualquer deles é o mais caro dentro da sua família e não tem genérico." - aqui estou de acordo com a ANF. Só que uma das críticas para a introdução de genéricos era a de que as novas moléculas teriam preços exorbitantes e pelos visto parece confirmar-se.

"O consumo de Clopidogrel aumentou de forma considerável, enquanto decresceu a procura da Ticlopidina e do Dipiridamol, que, segundo o estudo da ANF, actuam de igual modo na prevenção do acidente cardiovascular. Entre Janeiro e Setembro foram vendidas 360 mil embalagens de Clopidogrel que custaram mais de €20 milhões. A própria «aspirina de 100 miligramas faz o mesmo efeito», diz o presidente da ANF, o farmacêutico João Cordeiro." Mas diz mal, porque essas moléculas não actuam da mesma forma, nem têm as mesmas indicações.
Eu apoiaria uma inspeção a todos os médicos que presceveram clopidogrel para prevenção primária, pois este óptimo medicamento só deverá ser utilizado em determinadas situações muito específicas.

sexta-feira, dezembro 03, 2004

Muitos Intelectuais Só Conhecem O Médico ...

... dos consultórios da grande privada, os professores doutores, ou das grandes clínicas onde recorrem em situações de crise e vulneráveis.

Por isso, quando a vulnerabilidade desaparece, aparece a revolta contra o poder médico, a revolta contra os €€€€€€ que lá desapareceram e generalizam esses médicos (os barões da medicina) a toda a classe médica.

Mas o médico também é isto:

A minha 1ª vez

"Não. Não é sobre o que estão a pensar. Esta história é acerca do meu primeiro contacto directo com "doentes", ou melhor dizendo, com utentes do SNS.
Corria a Primavera do meu 1º ano na Faculdade. As nossas grandes preocupações, eram a conveniente preparação da 1ª QUEIMA, esse momento memorável de todos os estudantes do Porto, em que pela primeira vez deixam de ser caloiros e passam a ser aceites como "iguais entre iguais".

Apenas alguns dias antes desse tão importante momento, tive a missão de realizar um "inquérito de satisfação" aos utentes de um CS na região do Grande Porto. De relação médico-doente, propriamente dita, não tinha nada. Contudo, o peso da bata-branca, desde cedo aprendi ser importante para estabelecer esta relação. E foi numa dessas belas manhãs de Abril (ainda frias e chuvosas), que depois de ter acordado às 6h00, para poder chegar ao CS antes da abertura (às 08), que senti ter a minha primeira experiência, o meu primeiro contacto real com doentes. Até aí, mais não sabia do que espreitar por um microscópio e "conversar" com as peças inertes do Teatro Anatómico.

Ela era simpática. Dizia que tinha 96 anos, mas não lhe daria mais de 90 :). Pequenina e magrinha. Filha de pescador, viúva de pescador e mãe de pescador. Tinha nascido no início do século. Tinha conhecido reis, presidentes e ditadores. Lembrava-se de tudo claramente. Tinha uma saúde de ferro - HTA, ICC classe II NYHA e DM tipo 2 (longe de mim imaginar o que significava tudo isto... só o compreendi uns tempos mais tarde).
As cerca de 20 perguntas de que era composto o questionário (não demoravam mais do que 5 minutos) deram conversa para quase uma hora. Vieram à baila histórias da juventude, o namorado que a abandonou e foi para o Brasil, o casamento, os filhos, o casamento dos filhos, os netos, o casamento dos netos, os bisnetos, as fotografias dos bisnetos. As queixas dos médicos (os outros, porque o dela era muito bom - graças a Deus). As esperas no CS, o preço dos medicamentos, a reforma que era baixa.
Palavra-puxa-palavra eu que era um doutor-muito-jovem (como ela fazia questão de me chamar - olha o efeito da bata branca) fui-me deixando enlear pela conversa, pela necessidade de carinho e atenção. Ainda hoje, quando não tenho tempo para ouvir e utilizo a "técnica de entrevista" tantas vezes ensinada e aprendida uns anos mais à frente, me lembro daqueles olhos carentes, de quem precisa de ser ouvido.

Entretanto é chamada para a consulta. Levanta-se com genica impressionante para os 96 anos bem-vividos e beija-me na face. Vai-se embora dizendo: "Sr. Doutor, quando vier trabalhar para aqui quero ser sua doente. Vou pedir para trocar de médico"
Também eu gostaria de a rever. Não conhecia ainda o significado de "empatia" esse palavrão atrás do qual os médicos se escondem para defender a sua sanidade mental."

quinta-feira, dezembro 02, 2004

Vital Moreira: Corporativista

Em 16 de Novembro de 2004, publicou Vital Moreira (VM) no Público, um artigo intitulado: "A Disciplina das Profissões".

Diz VM que "Justifica-se plenamente o destaque dado aqui no PÚBLICO de domingo passado à publicação das decisões disciplinares pela Ordem dos Advogados. Primeiro, porque se trata de um gesto inédito, pois é quase desconhecida a prática disciplinar das nossas ordens profissionais. Segundo, porque se verifica que a função disciplinar de uma profissão tão importante como a dos advogados está a ser efectivamente exercida, incluindo várias decisões de expulsão da profissão nos casos mais graves. Terceiro, porque, face aos acrescidos riscos para a deontologia profissional na sociedade actual, uma iniciativa desta natureza é uma importante arma contra a desconfiança e o descrédito das profissões."

VM tem publicado muitos artigos em que acusa toda uma classe profissional, os médicos, de corporativista, de que os erros médicos e mesmo a negligência são escondidos inter-pares e que a Ordem dos Médicos é relapsa na condenação de casos disciplinares. Isto tem dito VM ao logo dos anos.

Quando o lia, estava convencido de que VM era um estudioso da problemática das Ordens profissionais e nomeadamente da Ordem dos Médicos. Mas não. Pelos vistos VM sempre escreveu de cor. Levado pelo "ódio" que muitos intelectuais têm contra os médicos, particularmente os juristas, escrevinhava sem ter lido pelo menos um único número da Revista Ordem dos Médicos.

Neste artigo em referência, VM desde a primeira linha até ao último ponto final, enaltece e idolatra a sua Ordem e a sua decisão de publicar na sua revista os processos disciplinares que ele mesmo instaura. Diz, e com toda a razão, que os advogados devem ser julgados pelos seus pares. Digo eu, que os médicos devem ser julgados também inter-pares, assim como os engenheiros, etc.

Agora.
Porque em tempo sempre criticou a Ordem dos Médicos por querer ser ela a analisar os contextos e os erros ou negligências médicas, em parceria com outras estruturas.

E mente.
Talvez por negligência, quando afirma que é inédito a publicação dos processos, das decisões e dos resultados referentes a queixas instauradas contra médicos e dirigidas à Ordem dos Médicos.

Há dezenas de anos que o Boletim da Ordem dos Médicos publica as sanções, incluindo as penas de expulsão contra médicos...