sexta-feira, julho 30, 2004

A Preparação Para A Morte

"Caro "Médico explica",

Parabéns pelo seu blogue. [Obrigado.] Com ele, abre uma brecha no muro feito de tantos silêncios e ruídos de relação e comunicação que, na maioria dos casos, separa os médicos dos seus pacientes. [E cada vez mais se instala esse muro. O médico cada vez mais usa uma prática defensista e a comunicação vai-se perdendo no meio de tantas TACs, ressonâncias magnéticas e prozaques, xanaxes e valiuns, e repare: o doente até agradece mais um taquesinho a uma qualquer parte do corpo!]


Compreendo que o tenha dirigido sobretudo aos jornalistas, mediadores dessa relação e, em muitos casos, geradores de ainda mais ruído. [Concordo, afinal não sou o único a pensar assim!]

Mas continuo a achar que há muito para fazer e para pensar quanto à comunicação directa dos médicos e das várias instâncias e instituições a que estão ligados ou os representam e os utentes-pacientes. [Eu penso assim: quanto mais instituição, menos comunicação. Mas haverá alternativa? O serviço público infelizmente será sempre assim, enquanto o ordenado do médico ou de outros funcionários públicos não estiver ligado à produção, ou a outros meios de avaliação, a regra será sempre a mesma, assim como o ordenado. Falte muito, falte pouco, consulte muito ou consulte pouco, opere muito ou opere pouco, seja muito simpático ou a antipatia pura, o ordenado será sempre igual para todos, portanto, quanto menos, melhor. E isto aplica-se a todas as profissões, desde o calceteiro da câmara municipal até ao juíz do Supremo.]

.../...

- De que forma um doente oncológico seguido num hospital público é acompanhado depois de se terem esgotado todas as hipóteses de intervenção cirúrgica e de se ter entrado já no último ciclo de quimioterapia paliativa? Que papel têm os médicos oncologistas a partir desse momento? É a unidade da dor (existente no hospital em questão) que passa a acompanhar o doente com maior proximidade? E quando se agrava o quadro clínico, o doente é internado? É nesse momento que o definem como doente terminal? O que pode ele esperar de acompanhamento por parte do hospital enquanto doente terminal?
Sei que as minhas dúvidas provêem da enorme dificuldade de os médicos e os pacientes envolvidos em situações como esta enfrentarem e partilharem a aproximação da morte. Em todos os momentos do já longo, e complexo, historial clínico do familiar a que me refiro, os passos seguintes foram sempre bem explicados, pormenorizadamente em alguns casos. Até que, chegados à fase dos cuidados paliativos, o silêncio se instalou de repente. Enquanto familiar, não quero contactar os médicos fora da presença do doente para lhes colocar estas questões, agora absolutamente prementes para definirmos juntos os passos seguintes. Considero moralmente abusivo fazê-lo. Mas, em cada consulta, assisto ao mesmo silêncio e à mesma indefinição. E vejo o tempo a passar, tempo precioso para que o doente se prepare, como melhor entender - mesmo que, já esclarecido, preparar-se, para ele, seja não se preparar! - e na posse de todos os dados, para o que se segue. Peço-lhe o seu esclarecimento e o seu conselho. Agradeço-lhos antecipadamente. E envio-lhe um abraço. [Obrigado pelo abraço.]"


A todas as suas importantes questões posso responder-lhe assim: infelizmente o trabalho do IPOs termina no diagnóstico e no tratamento "curativo".
Quando se passa para os cuidados paliativos os IPOs demitem-se. Poderia também dar-lhe exemplos concretos da minha clínica de doentes que são "abandonados" na fase a que se refere.

Mas eu também me interrogo: provavelmente é assim que deve ser. Os IPOs existem para diagnosticar e tratar dentro da medida do possível. Enquanto "perdem tempo com a paliação" podem atrasar-se diagnósticos dos quais podem resultar remissões completas com terapêutica atempada.

Outra questão, para a qual não há uma resposta: devemos ou não devemos (nós médicos) comunicar ao doente que tem um "cancro" e que tem "x meses de vida".

À família não se deve esconder nada. Ao doente, pode-se comunicar a gravidade da doença e a pouca esperança de vida, de várias formas e de acordo com a vontade deste e a sua personalidade. E há sempre quem pretenda não saber e viver na esperança de que se trata de uma doença autolimitada.


Em conclusão:

  • Em Portugal não há cuidados paliativos oficiais e organizados, embora haja muitos médicos (especialmente médicos de família) com especialização nessa área, apesar do pouco que vão fazendo os IPOs.
  • Comunicar ou não comunicar ao doente que tem um cancro e vai morrer dentro de 6 meses, eis o grande problema a ser gerido caso a caso.

quarta-feira, julho 28, 2004

Lääkäri selittä lääketiedeTTÄ älyllisille

É assim que aqui me conhecem!

terça-feira, julho 27, 2004

Vírus West Nile: A Importância Do Nome

Há doenças cujo nome assusta: o vírus do Nilo é uma delas.
Nilo é nome de rio gigante, em África, terra desconhecida, onde existem aqueles vírus esquisitos e hemorrágicos.
Por isso os meus leitores se amedrontam e escrevem a pedir explicações.
E porquê? Porque querem ir descansados para o Algarve.

E a comunicação social? Que tem feito? Que atitude tem tomada? Quem ouvir as notícias fica sempre com a dúvida: é grave? É mortal?

Podem procurar a resposta no sítio da Direcção-Geral de Saúde, de onde respiguei este parágrafo:

"O vírus West Nile pode infectar o homem através da picada de um mosquito. Em cerca de 80% dos casos a infecção não apresenta sintomas e nos restantes 20% os sintomas são semelhantes aos da gripe. A evolução da doença é, em regra, benigna e as infecções graves são inferiores a 1%"

Onda De Calor

O Povo aprende.

Fui fazer bancos em locais de alerta laranja durante o passado fim de semana.

Não há dúvida que o Povo ficou em casa durante as horas de maior calor.

Não há dúvida que os lares tiveram mais cuidado com os seus idosos.

Não há dúvida que as famílias protegeram mais os seus membros mais vulneráveis.

Não há dúvida que os media quando querem, fazem um bom trabalho!

Não há dúvida que as televisões são um quarto poder!

Aguardo os resultados estatísticos, mas presumo que este ano a mortalidade, apesar de aumentar sempre nas ondas de calor, como é óbvio, deverá ser inferior à do ano passado.


sexta-feira, julho 23, 2004

Confesso Que Cometi Um Erro Médico!

Confesso que errei.
O erro médico existe e eu errei!
Erro sem consequências graves.
 
Mas errei. Errei na prescrição.
 
Olhando para trás, pergunto como foi possível prescrever ao doente X uma fluoxetina genérica em vez de uma sinvastatina genérica?
 
Não era um doente de grande risco cardiovascular. Para além da hipertensão ligeira e controlada, tem uma dislipidemia borderline, mas como sou agressivo no tratamento destes doentes, para além do ácido acetilsalicílico de 100 mg, há três meses iniciei-lhe 20 mg de sinvastatina para um colesterol total de 200 mg/dl e  a fracção LDL de 133 mg/dl.
 
Ontem, no consultório particular, quando consultava no monitor a sua prescrição, não vejo a dita sinvastatina e pergunto: "Não está a tomar um remédio para o colesterol?"
 
- "Tou!" respondeu o doente.
- "Fluo qualquer coisa", diz. 
- "Eu de facto tenho aqui uma fluoxetina, mas isso não é para o colesterol. É para a tristeza, a depressão!"
- "Não andou triste há 3 meses, para eu lhe prescrever isto?", insisto como a tentar encontrar uma justificação para a presença da fuoxetina naquela lista de medicamentos.
- "Não. O dr disse-me que me ia receitar um remédio para o colesterol nessa altura!"
 
Não disse nada, mas pensei: "Errei. Troquei a prescrição! Tenho que confessar ao doente que andou a tomar durante três meses um medicamento errado."
 
Assim fiz.
Era um doente diferenciado, intelectual urbano (dos poucos que controlam a pressão arterial, o colesterol e tomam uma aspirinasita para prevenir eventos cardiovasculares!), expliquei-lhe que estavamos na presença de um erro médico, neste caso sem consequências graves e pedia-lhe desculpa.
Expliquei que a informatização e a prescrição electrónica diminuem os erros , mas não os eliminam. Disse que os doentes devem sempre confirmar os medicamentos prescritos lendo o papelinho no interior que presentemente lhes é dirigido e portanto com uma linguagem muito mais acessível e logo veria que o medicamento não era para o colesterol mas sim para outras situações.
 
Voltei a insistir que não tinha uma explicação lógica para o sucedido e lhe renovava as desculpas. 
 
Desculpas aceites.
 
E se não fosse um intelectual compreensivo? Daqueles que sabem que o erro médico não é negligência? E se fosse num serviço público? Teria no dia seguinte a TVI, a SIC, o 24 Horas e outros com estas "caxas":

"Troca de medicamentos durante três meses quase que levava doente à morte!"  ou "Engano de medicamentos origina grande sofrimento a doente, com dores de cabeça, suores frios, pontadas por todo o lado, com altos na barriga e tonturas fequentes".

Mas não foi assim que se passou.

O erro médico existe, temos que o combater, mas não se pode eliminá-lo porque somos humanos, assim como em nenhuma outra actividade se podem eliminar na totalidade.

Mas há que estar alerta: nós, os médicos, e os doentes, os principais prejudicados.


quinta-feira, julho 22, 2004

A Dona Albina

A Dona Albina sempre que vem à sua consulta bi-anual para os seus controles, diz-me: “Sr dr a minha filha e o meu marido é que me deviam acompanhar!”.
Já ouvi este início de consulta com esta frase nos últimos dez anos dezenas de vezes.
Oiço, encolho os ombros, vejo o que tenho que ver em relação à consulta. A doente vai falando e eu vou flectindo a cabeça como que anuindo a tudo o que ela diz e dizendo: “Pois é!”.

A doente fica satisfeita com a anuência e vai desfilando o seu rosário de queixas com a sua voz monocórdica. Pelo meio vai sempre dizendo: "A minha filha e o meu marido é que deviam estar aqui!"

E eu vou pensando: “Coitado do marido e da filha.” O marido é mouco (como ela diz) e ultrapassa o problema, mas a filha, coitada. Deve sofrer por ter uma mãe como a dona Albina.
 
E isto porque elegi a senhora dona Albina como a doente “mais chata desde que sou médico!” e não lhe posso negar os seus 15 minutos de fama, perdão de consulta.

Ela não tem culpa, mas já compreendem porque é que a filha e o marido nunca a acompanham.

Mas acalmem-se: sempre a respeitei! Nunca lhe recusei a sua consulta de controle e ela nunca faltou. É uma doente com uma assiduidade de 100%.

terça-feira, julho 20, 2004

Já Passou Um Ano? Tirem-me Daquiiiii!

Passou um ano.
Mas que faço eu aqui? 

Lembraram-me os amigos e os inimigos, os conhecidos e os desconhecidos, por e-mail ou por referências. Eu não me lembrei de ninguém, penitencio-me por tal facto.
 
Mas também não posso deixar de agradecer a muitos outros que me têm credibilizado.
 
Não é falsa modéstia, mas não mereço.

Várias tentativas foram feitas para sair. Em vão. O vício da escrita arrasta-me para aqui.
Mais o da escrita que o da leitura. Gostava, mas não sou leitor assíduo dos outros blogues e por isso me considero um bloguer acidental e marginal não merecendo as mais de 200 referências que o Technorati me atribui, porque raramente as faço aos outros. 
 
Continuo anónimo e responsável.
 
Há quem presuma que sou A ou B, mas sou C, de cidadão atento.
Há quem me veja a residir em D ou em E, mas enganam-se.
Há quem me procure no hospital F ou no centro de saúde G, mas eu lá estou se me encontrarem.
Há quem me julgue da especialidade H, I ou J, mas sou especialista pela Ordem dos Médicos.
Há quem me critique por dizer K, L ou M.
Há quem me aplauda por dizer N ou O.
Há quem me envie mensagens sugerindo o assunto P ou Q.
Há quem proteste pelo tema R ou S.
Há quem me confidencie que sofre da doença T ou U.
Há quem me peça ajuda para o problema V ou X.
 
E  o Y não gosta de mim e a Z apaixonou-se! 

Que posso eu fazer?
 
Vou ouvindo o JPP na SIC-N afirmar quanto lhe é difícil alimentar diariamente o monstro, referindo-se ao seu blogue. Faço minhas as suas palavras, só que o dele vai engordando e o meu definhando por falta de alimentação.
 
Apesar de avisar que “Este blog não é um consultório on-line." já fui médico virtual de alguns, já fui a segunda opinião de outros.

Mas, o que preciso mesmo é seguir o exemplo do anterior secretário de estado da saúde: transitar directamente para o Turismo!!???

E porquê?
 
Porque estou farto de assistir a isto: lucro desenfreado, lucro cego.

Hoje recebi um telefonema de um emigrante para que consultasse um seu familiar num lar de idosos, particular, muito particular até, quinhentos contos mensais. O idoso, muito idoso, acamado, inconsciente, num cubículo sem luz, sem ventilação, jazia.
 
Acredito que mesmo assim façam um favor ao nosso emigrante!
 
Não posso deixar de pensar no meu futuro, não sei se não será melhor seguir os passos do SF!


domingo, julho 18, 2004

Dicas, Um Pequeno Blogue De Serviço Público

Dicas, é um blogue simpático cujo autor por várias vezes me tem sugerido alterações ao meu.
 
Sugestões simpáticas para quem pouco percebe destas coisas e pouco tempo tem para "perder" com a melhoria de alguns dos seus aspectos gráficos.
 
E logo hoje que o Blogger me presenteou com novas funcionalidades, que poderão  melhorar muito o aspecto gráfico dos blogues. Tenha eu tempo para as estudar!
 
Como afirma na sua apresentação: "Uma espécie de ajuda para quem apenas tem paciência para escrever, mas gostava de personalizar algumas partes do seu blog. Para utilizadores do blogger."

Como as Dicas do seu blogue são para quem as quiser aproveitar e quem sabe, outras propor, faço esta referência, pois de um serviço público se trata e gratuito.
 
Pela visita que fiz, trata-se de um blogue de Avis, não do Aviz, blogue famoso e que já lá esteve sediado, nessa simpática vila, mas que, como FJV confessou  num bilhete, emigrou para as estradas dos cocos.



quinta-feira, julho 15, 2004

Daqui, Do Centro Da Europa...

Nao! Nao vim acompanhar o nosso ex-primeiro para as suas novas funçoes no centro da Europa.
Escrevo hoje, bem longe de Portugal. No tal Centro Europeu onde as decisoes se "decidem", numa cidade dividida entre tres Estados e onde a industria quimica e' rainha.

E' uma historia curta e simples:

- Sr dr venho convida'-lo para visitar as nossas instalaçoes em xxx! Atira a matar o delegado de informaçao medica.
- Mas isso fica em XXX! digo eu.
- Sim. Venho convida'-lo a visitar a nossa fabrica para que confirme a qualidade dos nosssos medicamentos genericos.
- Mas porque eu? Perguntei intrigado.
- Sabemos que o dr prescreve genericos e queremos apresentar-lhe a nossa fabrica e o nosso staff.
- Sim, estou a ver. Vem-me assediar.
- Nada disso dr. Diz o DIM.
- Venho apenas convida-lo.
- Saimos na quarta e regressamos no Domingo. Nao tem que se preocupar com nada. Vao colegas seus do resto do pais e apenas ha' uma questao.
- Diga la´ qual e' a questao!
- Nao podem levar as esposas. Como e' uma viagem profissional, por uma questao de etica, a empresa nao permite acompanhantes.
- Esta' bem desta vez aceito! Tenho rejeitado tantas por uma questao de etica.

(E ate' e' politicamente correcto: sempre sao genericos, ninguem pode levar a mal e ate' aproveito para espairecer deste trabalho absorvente, penso eu, como que a desculpar o meu ego por ter aceite uma viagem paga por um laboratorio da industria farmaceutica).

"Outras historias" tem-me levado a rejeitar viagens paradisiacas.

Assim de repente, lembro-me de um convite para um pais das arabias. Foi assim:

- Sr dr venho convida'-lo para uma viagem a xxx para assistir a um simposio organizado pela minha empresa.
- Mas isso fica em XXX! digo eu, como sempre.
- Sim. Venho convida'-lo.
- Mas porque eu? Pergunto sempre meio intrigado com tanta amabilidade da industria.
- Senhor dr tenho tres convites e escolhi-o a si.
- Sim, estou a ver. Mas nao sera' pelos meus belos olhos.
- E' durante uma semana e se quiser levar acompanhantes contacta com a agencia de viagens para saber os preços.
- So' precisa de passar x unidades disto, mais x daquilo, mais x daquilo e mais x daqueloutro.
- Eu compreendo muito bem a vossa profissao e ate' tenho pena, pois sei que tambem sao diariamente pressionados pelas vendas. Mas muito sinceramente nao estou interessado. Ate´lhe posso prescrever umas caixitas, para que os seus chefes vejam que trabalha, mas nao conte comigo para esse tipo de viagens.
- Boa tarde e ate' 'a proxima!
(E assim perco eu uma viagem que se calhar nunca a poderei fazer, mas paciencia...)

Outro convite para um pais encantador e que recusei (e custa tanto recusar viagens com tudo pago. Mas porque nasci honesto? Porra!).

Começa sempre da mesma forma estudada:

- Sr dr venho convida'-lo para um congresso em xxx.
- Mas isso fica em XXX. E' muito longe! digo eu.
- Pois. Venho convida'-lo.
- Pelos nossos dados o sr dr prescreve uma media de x caixas por mes. So' tem que passar mais cinco por mes. Como ve e' facil, diz sorrindo a encantadora DIM.
- Pelos vossos dados? Mas sabem mais que eu? Nem eu sabia que prescrevia tanto do seu laboratorio.
- Mas como conseguem esses dados?
- Isso nao sei. Sao coisas das empresas.
- E' durante uma semana e se quiser levar acompanhantes contacta com a agencia de viagens para saber os preços.
- Olhe, voce ate' e' simpatica, deve ter uma familia para sustentar e se como diz eu ja' passava esses medicamentos, como e' logico vou continuar a passar, mas viajar cedendo a pressoes, nao, desculpe la', mas eu sou assim.
- Boa tarde e ate' 'a proxima!

A minha consolaçao e' de que a maior parte dos medicos tem comportamentos eticos, porque diz quem sabe o que esta' a dizer, que os viajantes sao sempre os mesmos.

terça-feira, julho 06, 2004

280 Dias Depois!

Ou 40 semanas depois!

Ou "9 meses depois"!


Da posta de um bilhete que repousa nas profundezas do Archives nasceu um ente que quer ser humano e ter tantos direitos como os demais.


Os bilhetes lá estão, a verdadeira luta pela vida vai agora começar!

segunda-feira, julho 05, 2004

Dois Dias Depois....

Estou com dor de dentes.

Do post de há dois dias, um faleceu o outro está a voltar à vida. Talvez decida viver até aos 100!

Caímos Porque Fomos Traídos Pelos Mitos! (rev.)

Sim. Perdemos porque fomos traídos pelos mitos que nos impuseram:

- Fomos traídos pela mito da Nossa Senhora de Fátima!

- Fomos traídos pela Fé na Fé!

- Fomos traídos pela mito da Nossa Senhora de Caravaggio!

- Fomos traídos pelo mito do Pauleta!

- Fomos traídos pelo recente mito do Ricardo!

- Fomos traídos pelo mito do Figo!

- Fomos traídos pela mito da falta de confiança no Rui Costa!

Acabou-se. Amanhã recomeçam as prescrições de Xanax e Prozac!

Os Mitos têm sempre pés de barro!

sábado, julho 03, 2004

Alguém Me Ajuda!

Alguém me envia uma SMS e pergunta: "Então como está a correr o banco?"

Em dia de preparação para a euforia nacional, em vésperas do Dia D futebolístico aprazado para amanhã, "o banco corre bem", respondi-lhe.

Menti.

É óbvio que não recebemos envenenamentos, acidentes, enfartes, cadáveres, portanto pode-se afirmar: corre bem. Sem esforço!

Mas não! Esforço físico não houve. Mas psicologicamente está muito pesado!

Os médicos também sentem, embora por vezes guardem esses sentimentos bem aferrolhoados para que ninguém os desvende sob aquela bata branca, fechada, testemunha de muitos actos, factos, sentimentos, etc.

Para além de dar entrada a ALGUÉM em estado de caquéxia involuntária, por neoplasia da cabeça do pâncreas, aos 35 anos e explicar aos familiares o que ainda não previam: a Morte está aí, a aproximar-se!


... e para além de dar entrada a ALGUÉM em estado de caquéxia voluntária, por decisão voluntária de não querer viver mais, aos 98 anos, apesar de uma saúde de ferro e poder atingir ou ultrapassar o centenário e explicar aos familiares o que ainda ninguém lhes explicou: os médicos não podem obrigar ninguém a alimentar-se!

Assistimos à instalação da Morte, involuntária num caso, voluntária noutro!

Mas os médicos não podem ficar dependentes destes existencialismos.

Que culpa terá o doente seguinte, se trouxer com ele uma extraordinária dor de dentes, nunca antes sentida, e o médico prescrever reflexamente o que quer prescrever, sem levantar os olhos da secretária, enquanto o seu pensamento percorre a vastidão da natureza humana num turbilhão de ideias que não levam a lado nenhum. Mas à minha frente está um ser humano com uma enorme dor de dentes a suplicar ajuda, talvez para que consiga ver a final em tranquilidade e atrás de mim estão dois à espera da morte, um chamou-a o outro foi por ela atacado e não se conseguiu defender.

Para onde me devo virar?

Eu não acredito em Nossa Senhora de Fátima, eu não acredito em Nossa Senhora de Caravaggio.

Eu acredito na dor de dentes, no cancro do pâncreas e na incerteza da natureza humana.

terça-feira, junho 15, 2004

Peço Desculpa, Aos Leitores E Aos Curiosos Googleanos

Mas actividade sabática e editorial sem interrupção da actividade assistencial pública forçam um interlúdio temporário.

quinta-feira, junho 10, 2004

As Emoções Também Matam!

Não tenho dúvidas que, se António Sousa Franco não tivesse ido à lota de Matosinhos, ainda estaria vivo.

A deslocação à lota e a intensidade das emoções aí vividas foram o factor precipitante do enfarte do miocárdio num coração já doente. Obviamente que, no dia seguinte, ou noutro qualquer dia, um outro qualquer estímulo, ou mesmo o simples evoluir da doença, conhecida ou não, poderia evoluir para o enfarte.

Mas, basta ver as imagens televisivas, para nos aperceber que o seu estado já não era semelhante ao dos dias anteriores. Parece pálido, com um fácies de preocupação. Ou seria já dor? A respiração parece mais ofegante. São tudo congeminações subjectivas e compreendo que seja politicamente incorrecto afirmar o que afirmei.

Mas, as emoções matam. A reacção aguda ao stress pode matar.

Como refere o besugo do blogame mucho já vimos morrer muita gente à nossa frente, nas nossas mãos. Já vimos muitos cadáveres chegarem ao nosso local de trabalho. Muitos tentámos ressuscitar, outros não.

Mas, quando somos testemunhas presenciais da morte, sabemos que não "há duas mortes iguais" e há sempre algumas que nos marcam para sempre.

Há uns anos, assisti a uma dupla morte. Primeiro morreu ele de morte súbita, transportado para o banco a reanimação foi impossível. Avisada ela na sala de espera, disse que ia telefonar para o filho e que depois falariam comigo.

Decorrida quase uma hora chega o filho.

Abraçada ao filho, exclama: "O teu pai morreu!"

Foram as suas últimas palavras. Cai fulminada no chão.

Numa hora o filho perde o pai e assiste à morte da mãe.

Ela não resistiu à emoção da morte dele.

quarta-feira, junho 09, 2004

A Morte de Sousa Franco, A Saúde dos Intelectuais E O Colesterol

Acerca da morte de António Sousa Franco respigo duas mensagens deste blogue com quase um ano de postagem:

Em 22 de Julho de 2003, escrevi:

"Para ler e pensar.

Qual o papel da comunicação social no crescendo desta situação! Os nossos telejornais transformaram-se em várias TVs Medicina.

Perde-se meia-hora a falar de uma doença de que se conhece um caso em Portugal, e nessa meia-hora a hipertensão, o colesterol elevado, o abuso do tabaco, o sedentarismo levaram muitos deste mundo para o outro!
Doenças evitáveis.
Há quanto tempo não mede a sua pressão arterial, há quanto tempo não faz um análise ao colesterol.
Sabia que neste momento, sentado ao computador, pode estar com uma pressão arterial alta, p.ex. 200/120 mmHg e um colesterol total de 350 mg/dl, dois importantes factores de risco para as doenças cardiovasculares e sentir-se bem, felicíssimo da vida? Mas, amanhã pode ter um enfarte ...
"

Em 14 de Agosto de 2003, disse:

"- Sobre "O Colesterol - em mais de 90% dos casos uma mudança nos hábitos alimentares reduz os níveis de colesterol" - afirma um naturopata. (O que não afirma é que a mudança de comportamentos em qualquer doença tem um êxito quase nulo, confirmado por estudos científicos.)
Cá por mim, faço como muitos dos meus colegas, ingiro diariamente uma aspirina de baixa dose e uma estatina para prevenir as doenças cardiovasculares, um dos flagelos da actualidade.
"

Há meses...

Fui consultado por um intelectual, perguntei-lhe: e o colesterol? E a pressão arterial? Sabe como estão? Não sabia, já há dezenas de anos que não sabia nada do colesterol...

Hoje...

Morreu António Sousa Franco, 61 anos. Segundo o relatório preliminar da autópsia divulgado pelos telejornais, foi vítima de um "enfarte do miocárdio fulminante, mas as suas coronárias mostravam lesões ateroescleróticas antigas", provavelmente relacionadas com o colesterol!

Provavelmente uma morte evitável...

Intelectual ou não que me lê, sentado há horas ao seu computador, amanhã dirija-se ao seu médico de família, ao seu médico assistente, ao seu médico cardiologista, ao seu vizinho médico, atá ao médico da sogra, se for necessário, mas controle o seu colesterol pelo menos uma vez por ano.

Lembre-se: o colesterol mata!

sábado, junho 05, 2004

"Médico de família? O que é isso?"

"Médico de família? O que é isso?

É aquele médico que a gente aponta á sorte, na listagem que nos mostram, ao sermos atendidos pela primeira vez?
É um sujeito que sabe de tudo e serve para se perder tempo antes de chegarmos ao verdadeiro especialista?
Nunca precisei desse.
"

Este comentário a uma posta no blasfémias ilustra bem como a cultura hospitalocêntrica, hiperespecialista, hipocondríaca, espartilhada em órgãos do corpo humano aprendidos na escola primária vai (ainda) reinando na mente de algumas cabeças em Portugal.

A cultura generalista existe nos países desenvolvidos, nomeadamente nos EUA, Canadá, países nórdicos, etc. Nos países do terceiro mundo vingam na mente das pessoas as velhas especialidades por órgão, elas próprias já quase generalistas em relação a vários órgãos ou em crise de existência. Por exemplo, a pediatria presentemente é uma especialidade generalista, a cardiologia já está "dividida" em inúmeras sub-especialidades: cardiologia de intervenção, cirurgia cardíaca (cirurgia cardio-torácica), cardiologia desportiva, hipertensão, cardiologia preventiva, cardiologia pediátrica, ecocardiografistas, cardiologia nuclear, electrocardiografistas, reabilitação em cardiologia, etc., etc.

Mas, o comentário revela também algumas verdades: a má organização dos médicos de família portugueses alocados a centros de saúde disfuncionais com péssima acessibilidade, a má articulação entre os cuidados primários e secundários, a dificil e demorada referenciação aos cuidados hospitalares, etc, etc.

Os médicos de família portugueses não precisam de um blogue que os defenda, nem que um médico explique (medicina (familiar) aos intelectuais) que um doente já bem estudado e referenciado a um especialista hospitalar por um especialista em medicina familiar só sai beneficiado, assim como com uma boa articulação entre as diversas especialidades e os diversos níveis de cuidados.

"Médico de família? O que é isso?"

Para quem se quiser informar ou formar em medicina familiar:

1) organizações:
WONCA - World Organisation of Family Doctors
APMCG
American Academy of Family Physicians
Royal College of General Practitioners

2) Revistas:

American Family Physician
Annals of Family Medicine
Archives of Family Medicine
Australian Family Physician
BMC Family Practice
British Journal of General Practice
Canadian Family Physician
Canadian Journal of Rural Medicine
Education for Primary Care
Equip Magazine
European Journal of General Practice
Family Doctor (New Zealand)
Family medical practice on-line
Family Medicine
Family Physician Report
Family Practice
Family Practice Management
General Practice On-Line
Hong Kong Practitioner
Informatics in Primary Care
Journal of Family Medicine On-Line
Journal of Family Practice
Journal of Primary Care Medicine On-Line
Journal of the American Board of Family Practice
Maanedsskrift for Praktisk Laegegerning (Danish)
Medicina de Familia Andalucía
New Zealand Family Physician
Primary Care Mental Health
Primary Care Respiratory Journal
Quality in Primary Care
Revista Portuguesa de Clínica Geral
Rivista QQ (The Quality and the Qualities in General Practice)
Salud rural (Spanish)
Scandinavian Journal of Primary Health Care
Singapore Family Physician
Utposten (Norwegian)
Work Based Learning in Primary Care

Anatomia do Mexilhão

Nunca imaginei que houvesse alguém interessado na anatomia do mexilhão. E que o espantoso Google o direccionasse para o meu blog!

Na anatomia humana, mas na feminina, sei que há!

Espero continuar amigo deste meu triplo vizinho.

Há Perguntas Que Se Não Fazem!

O Vilacondense, blogue simpático e vizinho, colocou uma pergunta a dois blogues médicos da blogosfera. Há mais por aqui. Podem ter outras opiniões. O blogame mucho já respondeu. Brincou, eu vou ser mais sério, mas porque o assunto hoje em dia é mais sério do que aquilo que se possa pensar.

O Vilacondense ainda pensa ir para Medicina? Será adolescente! Ou quererá mudar de curso?

Será que para ver "mulheres nuas" é necessário ir para Medicina?

O Google em 0,15 segundos apresentou-me 57 800 sítios para a pesquisa sobre "mulheres nuas". Para a próxima serão 57 801, pois já parecerá este blog referido na pesquisa, para infelicidade de muitos.

Conclusão: para se ver mulheres nuas não é necessário o curso de Medicina.

Não sei qual a profissão do colega Dupont, mas se na sua actividade profissional lhe aparecer à frente dos seus olhos qualquer coisa de que goste muito, que deseje há muito tempo, que o excite muito, não se irá apropriar dessa mesma coisa. Obviamente que não. Poderá sonhar, poderá imaginar: ai se eu um dia...

Mas digo-lhe colega Dupont, o contrário é que é mais frequente: o médico ou médica defender-se da sedução ou assédio dos doentes. E há várias defesas, mas primeiro é necessário diagnosticar que se está perante uma sedução e por vezes, não é à primeira que se descobre.

Por outro lado, o ambiente do consultório, onde se pressupõe existir intimidade e proximidade para ouvir e examinar o paciente propicia psicologicamente a aproximação dos intervenientes. Por isso, presentemente, prefiro consultar com testemunhas presenciais ou com a porta semi-aberta determinadas pessoas, pois no fim, será sempre a palavra de um contra a do outro e todos sabemos que os médicos não são muito bem quistos, lá, nos palácios das justiças....

Por fim, remato assim: arte é arte. Uma obra de arte examina-se com os olhos, estuda-se, analisa-se, não se toca!

quinta-feira, junho 03, 2004

Importa-se de repetir?

"Grupo Mello quer 50% do Serviço Nacional de Saúde". Título do Diário Económico.

Porquê só 50%? Porque não ou outros 50%?

Responda quem souber, que eu publico.




quarta-feira, junho 02, 2004

Mourinho - um case study

O blog Blasfémias publicou uma blasfémia pelo teclado do CAA que indiscutivelmente não é uma blasfémia (blasfémia - substantivo feminino, 1. toda a palavra ou atitude injuriosa contra uma divindade ou religião; 2. atribuição de defeitos a Deus ou negação de qualquer dos Seus atributos; 3. dito insultuoso; ofensa; 4. calúnia; difamação; 5. praga; (Do gr. blasphemía, «palavra de mau agoiro», pelo lat. blasphemìa-, «palavra ultrajante»)).

Mais se assemelha a um parágrafo de uma tese sociológica sobre a psicopatologia do povo português. Brilhante!

O noso Povo é assim: 99% dos doentes das minhas segundas consultas, hoje, estavam piores. Invariavelmente à pergunta: então como é que está? As respostas eram: na mesma, pior, nem melhor, nem pior. O único que afirmou que estava melhor, foi directo para o internamento. E foi difícil convencê-lo.

À medida que Mourinho subia vertiginosamente na cotação internacional, o povo português (de onde brotaram os nossos jornalistas e os adversários do FCP) através dos media nacionais ridicularizava-o e consequentemente descredibilizava-o na opinião pública.

Isso Mourinho nunca desculpará e eu estou com ele.

Como disse um adepto do FCP, ao Mourinho, tudo se desculpa. Acredito que a sequência infinita de vitórias e de títulos do FCP evitou a ingestão de muitos prozaques, metamidois, xanaxes, valiuns, efexores e outras drogas para a "boa disposição".

Mourinho foi para os adeptos do FCP, durante 2 anos um bom antidepressivo, um óptimo ansiolítico. Um adorável hipnótico.

Muitos lorenines foram evitados nos dias das vitórias do Mourinho.

Ainda há dois anos, Mourinho procurava emprego: foi despedido do Benfica, rejeitado pelo Sporting, escondido no União de Leiria e redescoberto pelo FCP.

Hoje tem o mundo a seus pés. Hoje pode e deve ser arrogante.

Aliás a única qualidade que os media desportivos e não só, lhe reconheceram em Portugal.

sábado, maio 29, 2004

A Morte, Sempre Com Os Mesmos Ingredientes! Basta!

Sentei-me.

Relaxei-me.

Inspirei e inspirei-me.

Cliquei no botão I Power Blogger. Username e Password automaticamente introduzidas.
Create a new post espera por mim.

Abre-se-me a janela do mundo: Title e Post estão à minha espera.
Ia escolher um título abrangente.

As tarefas eram muitas e atrasadas!

Ia dar os duplos parabéns ao Aviz. (Parabéns. Espero que esteja tudo bem resolvido!).
Ia agradecer ao Blasfémias. (Obrigado. Pelo Top Ten e pela companhia!).
Ia responder ao Blog do Alex. (Que posso eu dizer? Que 3.28 não são 1.71. Que não escrevo mais, embore goste, porque à minha frente tenho pessoas e não monitores! E etc., etc....).

Ia responder a uma pergunta que vi no technoratti, do blog Desabafos. (Sim. É possível na cirurgia de transplantes hepáticos, desmarcar-se o transplante em cima da data da cirurgia ou até à porta do bloco operatório, não por motivos da histocompatibilidade, ou negligência, ou erro médico, mas por aprofundamento do estudo do órgão a transplantar que só é feito em cima da cirurgia, i.e., o dador é compatível e avisa-se o receptor e prepara-se para a cirurgia, mas o órgão, depois de estudado in loco, pode não estar apropriado para a cirurgia (pode ter uma cirrose, p.ex) e não por ser medicina de ricos vs medicina de pobres!)

Ia dizer mal do último Expresso! (Fogo! Só no suplemento comercial se diz bem dos médicos e da medicina. Artigos adaptados para a publicidade que inserem, um vergonha e o Público vai pelo mesmo caminho!)

Ia responder ao JC, estudante de enfermagem, e dizer-lhe que há médicos que desprestigiam a profissão, que são desumanos, que há enfermeiros que prestigiam a sua profissão, que há enfermeiros que querem passar por médicos, que a enfermagem, hoje em dia não é "higienes e injecções", mas as higienes e injecções em pessoas doentes têm especificidades próprias e desde que todos os antigos auxiliares de enfermagem se transformaram em enfermeiros, todos pensam que as higienes são uma actividade menor da enfermagem ... e por isso, por vezes são desumanos com os doentes acamados.

Ia agradecer a Madalena Silverson pelas suas palavras (Obrigado e cuidado!)

Ia responder ao Blog (?) 'universos assimetricos' (Sim, o doente tem direito a conhecer todos os resultados dos exames efectuados, mas não a violar a correspondência entre médicos; sim, o doente tem direito a que toda a informação seja legível e perceptível, embora técnica; sim, o doente e a sua família "têm direito a que o médico lhes explique que "problema" tem?" Até que profundidade?". Até à profundidade que o doente desejar, mas sempre com humanidade, respeito e principalmente, tentando compreender quais são as expectativas do doente em relação à sua doença, para que a notícia não cause mais estragos que a própria doença.

Ia finalmente responder ao Queijo Naco da Grande Loja do Queijo Limiano e da porta da loja. (Mas, desculpe, ainda não será hoje, mas não está esquecido!)

O telefone vibra.

Do lado de lá: vou-te dar uma triste notícia! Ouço.
O F. morreu de acidente de automóvel.
Silêncio. Desligo.
29 anos, regresso de festa, 7 da manhã, despiste, choque frontal. Morte na estrada. São sempre os mesmos ingredientes. Basta!

Paz na Estrada!

Paz na Estrada!

sábado, maio 22, 2004

"Não dá fatelas"

"O pratinho dela ainda não se partiu e a cama ainda está por desmanchar".

Foi assim que um pai já idoso, com 85 anos, se referia ao facto de a sua única filha, agora com 40 anos, vítima de um mau casamento, vítima de uma má sogra, ou melhor, vítima de uma sogra possessiva, que não admite que o seu único filho possa respirar ar puro e viver a sua vida.

O filho não se apercebe, a sogra não sabe o que é, a nora está perdida. Superprotecção.

terça-feira, maio 18, 2004

Que se passa afinal? Bom, o nosso médico de plantão ...

"Que se passa afinal?
Bom, o nosso médico de plantão se perdeu no meio de tantas Sanguessugas!
Home AKORDAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!"
grita overdose city.

Mas não posso acordar, porque não tenho estado adormecido, mas sim de de plantão.

E por falar em sanguessugas dou todo o meu apoio a este texto:

Límites (ligação sujeita a registo prévio gratuito)
Autor: Gonzalo Casino
Viernes , 14 de Mayo de 2004

Sobre la pervivencia del pensamiento mágico en medicina

"El poderío que ha alcanzado la medicina científica bien parece capaz de desplazar de una vez y para siempre cualquier otra vía o aproximación terapéutica que no se ajuste al canon de la ciencia. Ante el empuje del racionalismo y empirismo científicos, el pensamiento mágico que ha sustentado toda una vigorosa tradición terapéutica debería de batirse en retirada. Pero hay muchos indicios de que esto no es así. Parece incluso que cuanto más pujante, dominante y avasalladora se presenta la medicina científica y técnica, más adeptos tienen las llamadas terapéuticas alternativas y los remedios que no soportan la validación del método científico. Todo indica que si con la consigna de que “todo lo que no es ciencia es magia” se ha querido echar por la puerta el pensamiento mágico, éste nos ha vuelto a entrar por la ventana. Y quizá el mejor indicador de la vigencia y vitalidad del pensamiento mágico en el campo de la salud es el dinero que ya mueven en todo el mundo las medicinas heterodoxas y los remedios no probados.

Aunque los ensayos clínicos realizados con ciertas medicinas heterodoxas han aportado algunas evidencias sobre su eficacia terapéutica (la acupuntura, principalmente), en muchas otras se empieza a constatar que en el mejor de los casos son sólo un puro placebo. La absurdidad de muchas terapias pasa a un segundo plano cuando entra en escena el poder del efecto placebo, una fuerza curativa no bien conocida y de naturaleza casi mágica que está relacionada con la confianza que el terapeuta y el paciente tienen en el tratamiento. El milagro de todos los productos milagrosos no es otro que el desencadenado por el pensamiento mágico y sustentado en la fe. Además, algunos de estos productos, como el polémico Bio-bac, tienen sus riesgos, por que el placebo no basta para curar el cáncer y los pacientes pueden dejar de recibir terapias eficaces. La gran paradoja que ilustra el Bio-bac, un medicamento que nunca fue autorizado por la Agencia Española del Medicamento, es precisamente la persistencia de la confianza de muchos pacientes en un producto más que dudoso a pesar de la falta de pruebas sobre su eficacia.

¿Cómo puede ser que haya gente que confíe más en un fabricante de medicamentos no autorizados que en las propias autoridades sanitarias? ¿Por qué se cree en las pociones mágicas? ¿Qué es lo que falla en la medicina oficial para que esto ocurra? La existencia de numerosos productos mágicos como el Bio-bac, pero también el auge de todo tipo de medicinas no probadas, viene a mostrar las carencias de una medicina hipertecnificada, iatrogénica y limitada a pesar de su pretendida omnipotencia. Es inevitable y comprensible que ante la cara más deshumanizada de la medicina oficial y en las enfermedades crónicas o incurables muchos pacientes busquen alivios alternativos. Pero la pervivencia del pensamiento mágico tiene que ver también con un exceso de soberbia científica que parece ignorar los límites de la razón."


quinta-feira, maio 13, 2004

Sanguessugas?

Tratar as hemorróidas com uma promessa a Nossa Senhora de Fátima não será falta de respeito para com a Senhora?

Mas um presidente de uma câmara, segundo o blogue Diário de uns ateus, calcurreou as ruas de Portugal até encontrar a salvação divina.

quarta-feira, maio 12, 2004

Sanguessugas!

Sou convidado para o lançamento nacional de um novo (?) medicamento. Convite semelhante aos convites que acontecem em todas as outras áreas de actividade.

A empresa, uma multinacional, esmerou-se convidando centenas de médicos com maior potencial de prescrição. Em tudo idêntico à escolha dos convidados em todas as outras áreas de actividade: convidar quem, à partida, possa melhor comercializar (vender) o produto.

Instalar os convidados num dos melhores hotéis de ***** da capital é ponto de honra. Em tudo idêntico à acomodação oferecida a convidados de outras áreas de actividade (lembro-me do INATEL ter acomodado dezenas de jornalistas em Porto Santo para apresentar os seus planos, lembro-me de uma empresa ter convidado dezenas de jornalistas para uma deslocação à Eurodisney para apresentar os seus projectos).

Antes do jantar, uma sessão científica com alguns cérebros médicos nacionais relacionados com a doença para a qual o medicamento está direccionado. Noutras actividades, a sessão científica será substituída por uma festa escort, muito privada, como aconteceu em muitos lançamentos de produtos.

Na sessão científica um conhecido professor expunha num slide a história da evolução do tratamento de determinada doença. No início da década de 50 do século passado, afirmava que se usavam no seu serviço hospitalar sanguessugas para diminuir a volemia em determinados doentes.

Afirmou que assistiu ao seu desaparecimento e que tinha medo de assistir à sua reentrada no serviço à boleia do revivalismo das chamadas "medicinas alternativas" e naturais.

Por mera coincidência, no dia seguinte, o Público publicava longas páginas sobre as "medicinas alternativas", entrevistando os seus praticantes, descrevendo os seus eventuais benefícios, descredibilizando a medicina-ciência, publicitando gratuitamente (ou não!) empresas, praticantes, práticas, etc.

Por outro lado, como as sanguessugas são muito mais baratas que os medicamentos, até eu não me admiraria que futuramente se prescrevesse numa ficha hospitalar: R/ sanguessugas – 4 sessões diárias, 3 x por semana, ou até: R/ 1 litro de chá de barbas de milho.

Após o jantar, um concerto. Noutras actividades ou com outros convidados, talvez um concerto pimba, ou uma sessão de striptease consoante os participantes: feminino, se os convidados fossem do ramo automóveis) ou masculino, se fosse uma empresa de cosméticos. Mas sempre com o mesmo objectivo: deixar os convidados bem impressionados e cativá-los para o lançamento do produto.

Após o concerto, regresso ao hotel. Noutras actividades, com outros convidados, talvez a continuação da festa escort, talvez uma noite na discoteca com bar aberto, sei lá, tanta coisa que se pode fazer à noite.

Mas afinal de que sanguessugas falei?

domingo, maio 09, 2004

Sanguessugas

Na desenvolvimento posterior deste bilhete atentem aos negritos.

Substantivo feminino.
1. Zoologia
nome vulgar de uns anelídeos, parasitas temporários, da classe dos hirudíneos, de corpo comprimido ventralmente, e com uma ventosa em cada extremidade, que vivem em locais húmidos e na água, por vezes ainda utilizados para fazer sangrias;

2. popular
pessoa que bebe muito;

3. figurado
pessoa que explora outra do ponto de vista material e/ou emocional;

4. figurado
pessoa que pede constantemente dinheiro a alguém;
(Do lat. sanguisúga-, «id.»)

(in Dicionário On-line da Porto Editora)

sexta-feira, maio 07, 2004

20 mg Será O Mesmo 40 mg? E 500 mg será o mesmo que 1 gr?

Ao passar a vista pelas "Web Pages referring to this page, last 24 hours" deste blogue deparei com um acesso vindo de um post do arquivo do bom blogue desBlogueador de conversa datado de 20 de Julho de 2003.

Admirado (já todos conhecemos os ratos de biblioteca) e curioso com o que este rato de blogues (aquele que pesquisa na profundidade os arquivos antigos dos nossos blogues!) estaria a pesquisar, lá fui também eu à Torre do Tombo do desBlogueador de conversa ver o que se teria passado no ano passado.

A sua leitura trouxe ao consciente uma história de hoje na consulta (que - infelizmente - de tão banal já tinha arquivado no sub-consciente a caminho do inconsciente).

Diz-me o doente com o seu ar ingénuo e suplicativo:

- Doutor, passe-me genéricos, são muito mais baratos!
- Mas eu passo-lhe sempre genéricos, sempre que posso e há!
- Pois, mas na última receita fui à farmácia tal e disseram-me que não havia genéricos. Mas depois fui à farmácia tal $ tal e deram-me os genéricos e muito mais baratos, quase metade do preço.

Enquanto o doente descrevia as suas aventuras o médico ia passando a vista pelas suas últimas análises aos lípidos e pela sua última medicação.

- Ouça lá. Olhe que o seu colesterol subiu para 350. Você é diabético, hipertenso, obeso, tem angina de peito. O seu colesterol assim leva-o directo para a cama do hospital, se não o levar para outro sítio!

Depois de muita conversa explicativa e moralizadora o doente mostra-me os seus novos medicamentos genéricos:

- Eu prescrevi 28 comprimidos de 40 mg pravastatina (de marca, porque não há genéricos), a farmácia tal $ tal aviou 60 comprimidos de 20 mg de pravastatina genérica. Estava explicada a sua subida do colesterol.

A rematar a consulta ainda me diz:
- Ando outra vez com mais dores, podia-me passar outra vez aquele das dores, mas o genérico, que dá para dois meses.
- Olhe que a farmácia tal $ tal também me aviou o genérico muito mais barato.
- Tá bem, diga lá qual é!
Mostrando uma caixa de 60 comprimidos de nabumetona a 500 mg. Deslizo o olhar para a sua ficha e leio: Balmox (a marca de nabumetona) 1 gr.
- Oh meu caro: olhe, as dores estão explicadas, você tomou metade do que eu lhe dei, o colesterol também, você tomou também metade do que devia tomar. Quando tiver o enfarte, vai ver como teria valido a pena gastar mais um bocadito.
- E já agora não se esqueça vá à farmácia tal. Nessa pode confiar e é de certeza uma boa farmácia. Avie-se sempre nela.

Tal tem nome e tal $ tal também.

Uma árvore não faz a floresta, mas que las hay...hay!

quinta-feira, maio 06, 2004

Abruptamente Também Este Médico Se Lembrou Do Abrupto

Parabéns ao JPP pelo seu aniversário na blogosfera e principalmente pela referência que é e pela força impulsionadora que deu (dá) a este espaço da Internet.

quarta-feira, maio 05, 2004

"Erro Médico É Problema da Medicina do Século XXI"

Titulava o Público no passado sábado, dia 24 de Abril um artigo de Liliana Carvalho, sem insultar uma classe, sem confundir erro com negligência, sem mistificar um problema real.

De cor, lembro-me do acidente aéreo que vitimou dezenas de crianças nos céus da Europa por um erro de um controlador aéreo, poderia lembrar-me de um erro catastrófico por dezenas de profissões e todos consideramos que quem errou foi uma pessoa e não uma profissão.

O problema dos médicos é que ao gerar diariamente milhões de actos, decisões, avaliações, prescrições, diagnósticos, estão mais sujeitos a errar do que outras profissões. Por outro lado, um pequenino erro médico pode originar grandes e graves complicações.

Por isso o erro médico tem que ser encarado como um problema eminentemente médico e intrínseco à profissão. Terão que ser os profissionais e as suas sociedades a encontrar mecanismos de defesa e controle para os erros médicos.

A pressão que se exerce sobre nós e o medo de errar é tão intenso que...

Num último banco saltei da secretária e corri atrás de um doente antes que este se diluísse no meio da multidão das salas de espera, porque subitamente uma ideia parasita ocupou todos os meus neurónios e repetia: enganei-me na receita! Enganei-me no medicamento! Mas afinal, depois de conferida a receita, tudo estava como pensado e portanto correcto.

Assustado ficou o doente por ver um médico a correr atrás dele. Crise de ansiedade aguda, má adaptação ao stress, cada vez mais frequentes nos médicos.

O artigo:

"Nós não estamos a lidar bem com o erro nem com os conflitos de interesses". Estes foram dois dos "problemas" apontados por Sobrinho Simões, .../... "Somos uma classe muito corporativa que esconde os erros dos outros", acrescenta. Na opinião do investigador, estes problemas traduzem a passagem de uma medicina como "profissão liberal" para uma medicina que é "institucional e empresarial". Outro problema que considera "gravíssimo" é o envelhecimento: "Estamos a melhorar imenso na cura, estamos a conseguir prevenir, mas não estamos a conseguir cuidar"".

segunda-feira, maio 03, 2004

Comunicar A Notícia da Morte

É sempre uma situação desagradável e não desejada por nenhum médico comunicar a notíca da morte de alguém, a alguém que a não espera.

A Morte é uma perda irreversível e irreparável. É um choque para quem a recebe.

A maior parte dos médicos não sabe lidar com a morte, nem com os sentimentos que dela dependem, apesar de a tratarem por tu diariamente e de ser uma sua companheira de profissão.

Situação explorada pelos media para os quais quem entra num hospital ou num serviço de urgência, ou mesmo "quem vai ao médico" não pode morrer.

O nosso povo reage sempre de uma forma admirada quando um médico adoece. Um médico não pode ter doenças, porque é médico, simplesmente por isso. Como um polícia não pode roubar, ou um banqueiro ser pobre.

Fui procurado por uma família conhecida para comunicar a morte não esperada de um filho ao seu pai. Pediam-me "porque o pai sofre do coração" e é sempre melhor ter um médico por perto. Acedi.

Mas sinais dos tempos: o pai tinha 101 anos e o filho (o filho preferido) tinha 80 anos.
Mesmo antes de comunicar a notícia, emocionei-me (os médicos também se emocionam!).

Mais emocionado fiquei ao assistir ao choro convulsivo de um homem com 101 anos a chorar a morte não esperada de um seu filho de 80 anos.

Mas será que aos 80 anos há mortes não esperadas?

Mas o que não era suposto esperar era o médico chorar!

sábado, maio 01, 2004

Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! O Pinto da Costa É Um Forreta!

"Adianta ainda o Expresso que o Ministério Público cita o episódio de um relógio que Pinto da Costa terá oferecido a Valentim Loureiro, depois de ter apelado à sua capacidade de influência para não ser castigado num processo de acusações contra um árbitro.

O reduzido valor do relógio [150 €], no entanto, deitará por terra qualquer acusação se não forem encontrados elementos que consubstanciem as suspeitas dos investigadores
.
"

Então paga um favor ao Major com um relógio pechisbeque (Do inglês pinchbeck, «id.», de C. Pinchbeck, antr., relojoeiro inglês, 1670-1732).

Muito mais de 30 contos já ganhou o Expresso com os jornais que vendeu com o título.

E ganhou-os ilegal e abusivamente.

E Já agora quantos relógios não ofereceu já o Pinto da Costa a jornalistas, médicos, juízes, merceeiros, trolhas, jardineiros. E já agora: e a namoradas?

sexta-feira, abril 30, 2004

Sociedade Hipocondríaca, Sociedade Hipócrita (actualizado)

Vivemos numa sociedade hipocondríaca.

Durante um zapping pelas "nossas" rádios e pelos "nossos" noticiários televisivos com facilidade só econtramos notícias de doenças com muitos "coitadinhos" a contar as suas histórias. Passamos das caridadezinhas para os pobres para as noticiazinhas dos doentes.

Vivemos numa sociedade hipócrita.

Simultaneamente, e por vezes intervalando essas notícias assistimos aos apelos desmesurados ao álcool, ao tabaco, ao sedentarismo, à velocidade, à violência, ao desperdício, ao supérfluo, etc.

Prevenção?
Ensino?
Esclarecimento?
Preocupação?

Sim, quando isto der muito lucro!

E assim fiquei deprimido: desde o despertar, enquanto ensonado me barbeava, enquanto me "duchava", enquanto ingeria as primeiras calorias, enquanto conduzia o coche (influência de tantos colegas e enfermeiros espanhóis) até ao hospital, por mais que mudasse as estações de rádio a temática era a mesma.

Durante a viagem lembrei-me da nova Santa portuguesa: pedi um milagre - que quando chegasse ao hospital tivesse todos os doentes curados - e a Santinha de Balazar ouviu-me: quando cheguei estava tudo curado, dei alta a todos, enfermaria vazia.
Por um dia não vou ouvir falar mais de doenças! Desde que permaneça dentro da enfermaria vazia (pois, telefonarei à Telepizza, fumarei um charuto - se o FJV não se esquecer!, beberei umas cervejas, sentar-me-ei numa cama vazia e não verei televisão).

domingo, abril 25, 2004

Não Podemos. Nem Queremos. Mas Por Vezes Temos Que Sorrir.

Temos que sorrir com os enganos dos nossos doentes, é a tal iliteracia cultural.

Acabou de afirmar o doente: "Fiz um Tac e tenho uma hérnia fiscal na coluna".

A Manipulação da Comunicação Social: Não Estou Sozinho na Percepção do Mau Cheiro!

Quando numa noite de insónias iniciei este blog, pensava que podia lutar sozinho contra a manipulação dos media em relação a um grupo vasto de profissionais, que prestam um serviço público, quer em serviços do Estado, quer em serviços privados, mas sempre um serviço público. E um serviço para o grande público. Um serviço que o 25 de Abril massificou e democratizou.

Também pretendia "esclarecer quem me procurasse" e alguns jornalistas procuraram.

Por isso, lá por haver um Luís que é Salgado (entre outras epítetos) e Matos (Matos por parte do MRPP ou similar) que dá aulas de jornalismo, não critico todos os jornalistas.

Mas aprendi a protestar no silêncio, pois, (e desculpem-me os puristas da língua, esta minha brejeirice) sempre que um médico dava um peido, nos jornais podia ler-se "Os médicos peidaram-se" e logo um rol de conclusões precipitadas, todas relacionadas com o cheiro do dito.

Mas, nem todos os médicos expelem ventosidades pelo ânus, ruidosas ou não, como consequência de um problema (não é uma doença!) mais vasto e com vários nomes técnicos: aerofagia, aerocolia, meteorismo, flatulência, como resultado d' "A digestão de alguns alimentos pelas bactérias do intestino leva a maior produção de gás do que outros. A fermentação no intestino e que leva à produção de gás, pode ser a partir da lactose (contida no leite e derivados), da frutose (contida nas frutas), de certas fibras vegetais e de carboidratos contidos no trigo, aveia, milho e batatas. Geralmente o gás derivado da fermentação de vegetais tende a ser sem cheiro, enquanto aquele resultante da digestão de carnes, mal cheiroso." (Aqui a ligação da propriedade intelectual.)

E todo este tratado para me juntar à indignação do Aviz e do Miguel Sousa Tavares no Público sobre a manipulação dos media (para não generalizar aos profissionais, os jornalistas).

Podem ler pela pena do FJV com o título: "MAS A MANIPULAÇÃO, SENHORES":

"Mas a manipulação não é apenas privilégio da "imprensa desportiva". Para quem ouve os noticiários da rádio (com a montagem de peças cortadas à vontade de cada editor, ou a recolha de depoimentos de várias "personalidades" que estão todas do mesmo lado) ou vê os rodapés das televisões (com adjectivos multiplicados ao sabor de cada hora), por exemplo, a conclusão não é muito diferente. Mas preparem-se. Vem aí mais. É o triunfo do common-sense e das "verdades".

MST escreve na sua crónica "Apito Entalado"*:

"Consciente disso, ao terceiro dia de "Apito Dourado", a imprensa atirou-se, sôfrega, a uma nova pista lateral: Pinto da Costa. Já anteontem, auscultando o que se passava em algumas redacções de Lisboa, eu percebi a pergunta/desejo que andava no ar e em todas as cabeças: "Será desta que chegam ao Pinto da Costa? É que, se não chegam, nada disto tem verdadeiramente interesse." Ao terceiro dia, então, ultrapassando a questão central, todavia menor, da disputa entre o Gondomar e os Dragões Sandinenses, a imprensa lisboeta lá achou que já tinha terreno para explorar a "pista Pinto da Costa". Atente-se nas manchetes de ontem do PÚBLICO e do "Diário de Notícias"." e
"Mas não é só o envolvimento a ferros do nome de Pinto da Costa neste processo que caracteriza a cegueira da imprensa responsável. Levados por um entusiasmo que tem raízes patológicas na clubite desportiva que a todos toca".
___
* ligação não permanente.

sexta-feira, abril 23, 2004

Senhores Jornalistas: O Médico Explica

Bastava consultarem um dicionário (e há tantos on-line) para não cometerem os dislates de ontem e foram tantos os jornais que lhes perdi a conta.

Segundo as notícias, a Secção Regional do Norte da Ordem dos Médicos quer que o Sr Ministro se demita por causa da educação infantil e do estudo dos solos.

Confuso.

Trocaram o O pelo E. Pensaram assim: pé não se escreve com o, senão seria pó. Portanto a ciência que estuda o pé tem que ser Pedologia, com e de pé.

O sr luís salgado matos insultou-vos ontem, por menos chamou-vos rústicos.
Eu não insulto. Eu explico.

Esclarecendo:

PEDOLOGIA - ciência que estuda os solos e os seus processos de formação. A pedologia estuda o solo nos aspectos físico, químico e biológico, procedendo à sua caracterização e classificação.

PEDOLOGIA - estudo da educação infantil; ciência do primeiro ensino; (De pedo-+-logia)

PODOLOGIA - tratado acerca do pé; (Do gr. poús, podós, "pé" +lógos, "tratado" +-ia)

(dos dicionários)

quinta-feira, abril 22, 2004

Agradecimentos a Intelectuais do Médico Explica Medicina

- ao Blasfémias (ex-Mata-Mouros, Cataláxia, Cidadão Livre) pela sua apreciação positiva a este despretensioso lado da blogosfera, na rubrica Blasferas (III ed.);

- ao gs e ra pelos ** (talvez tenham razão!);

- ao FJV pelas suas ofertas com dedicatória e com as desculpas pelo não agradecimento na altura devida, mas a ansiedade profissional foi mais forte. (E eu ainda à espera dos charutos prometidos! - apesar de ex-fumador, tenho amigos que os fumarão.);*

- à Mariamar pelo seu post sobre o meu "o meu 25 de Abril";

- ao beijinho que deslizou pela Estrado do Coco (e que retribuo pela mesma via);

Respostas a Intelectuais do Médico Explica Medicina

- para Ana da vida dos meus dias que escreve: "Ora diga-me lá, Sr. Doutor, os estabelecimentos públicos de saúde não são assim tão maus como nós os pintamos, pois não?". Não. Eu nunca os pintei. Têm deficiências, insuficiências e virtudes, muitas;

- para o Alex do Blog do Alex que pergunta "O que pensa disto [Depois que a enfermeira costurou o corte com uma agulha comum e uma linha de costura de algodão, mãe e filho foram transferidos e tratados por Valle e sua equipe no hospital mais próximo] o Bisturi e o Médico explicador?". É a verdadeira Medicina Rural**, meu caro amigo!

- Para o Miguel Sousa, aqui vai a ligação.

______________________
* Posso enviar por e-mail a minha morada.
** Medicina Rural faz parte do léxico usado na medicina geral e familiar e pretende caracterizar a prática do médico de família em meio rural, longe, muito longe das urbes hospitalizadas.

segunda-feira, abril 19, 2004

"... a condenação do Dr. F. na pena de censura ..."

"1. No dia 16.12.03 o Conselho Disciplinar Regional do Sul da Ordem dos Médicos proferiu despacho de acusação contra o médico Dr. F, nele se dizendo o seguinte – e passamos a transcrever:
2. No dia 18.01.01 a participante, Senhora D. M., levou a sua filha C. à consulta de pediatria, do Centro de Saúde S.
3. A criança tinha ido previamente à consulta de clínica geral, tendo sido encaminhada para a consulta de pediatria por "aparente sinéquia dos pequenos lábios".
4. Na consulta de pediatria foi atendida pelo arguido que considerou tal sinéquia como indiciando negligência nos cuidados de higiene e falta de atenção da mãe, opinião essa que, em tom ríspido, ele comunicou à participante.
5. Tal opinião, nas circunstâncias em que foi emitida, era claramente abusiva, visto o arguido estar a condenar sumariamente a participante, sem atender a outras causas possíveis (...).
6. Para além disso o arguido optou pelo desbridamento físico da sinéquia da criança, provocando-lhe bastante dor e desconforto, quando é certo que o tratamento mais adequado e menos doloroso para a criança teria consistido na aplicação de creme com estrogénios durante uma semana (...).
7. Acresce que o arguido, talvez por se ter incompatibilizado com a participante logo no início da consulta, não perdeu grande tempo a explicar à queixosa o que se propunha fazer, não tendo, por conseguinte, obtido o seu consentimento informado.
8. Com base nos factos acabados de expor, o Colégio da Especialidade de Pediatria, no seu parecer de 17.08.01, considerou o seguinte – e passamos a transcrever:
a) «As aderências dos pequenos lábios são frequentes em crianças com menos de 6 anos e resultam de inflamação local associada ao estado hipo-estrogénico da pré-puberdade. A situação resolve-se geralmente de forma espontânea com a acidificação do pH vaginal, na puberdade. O tratamento de escolha consiste na aplicação de creme com estrogénios durante 1 semana. A separação mecânica das aderências só está recomendada se esta parecer fácil e não causar trauma significativo».
b) Não há informação clara sobre a necessidade de optar pelo desbridamento físico da sinéquia, e parece ter havido algum desconforto para a criança e para a mãe.
c) Não parece ter sido explicado à mãe a natureza do problema antes do tratamento realizado, nem colocadas as alternativas terapêuticas ou solicitado o seu consentimento explícito, ainda que verbal, para o tratamento.
d) Foi feito o diagnóstico, aparentemente sumário, de negligência de cuidados de higiene, numa situação em que havia outras causas possíveis (défice relativo de estrogénios, por exemplo).
e) Pelos motivos expostos considera-se que o Dr. F. praticou um acto terapêutico tecnicamente aceitável, embora não tenha considerado, outras opções porventura menos desconfortáveis para a criança não explicou previamente à mãe o procedimento nem obteve o seu consentimento informado, e formulou um juízo etiológico não fundamentado. Assim, parece algo questionável o comportamento do clínico no contexto descrito.
(vide parecer do Colégio de Pediatria folhas 4 a 6 dos presentes autos).
9. Atendendo ao exposto, violou o arguido os artigos do Código Deontológico que passamos a enumerar:
a) Artigo 26 do Código Deontológico, porque não prestou à doente os melhores cuidados ao seu alcance;
b) Artigo 27 do Código Deontológico, porque no exame clínico da criança não tomou em consideração a sua idade e sexo;
c) Artigo 43 do Código Deontológico, porque deveria ter usado de particular solicitude com a criança (…)
d) Artigo 38 do Código Deontológico, porque não esclareceu convenientemente a mãe da criança, acerca do problema da criança e do tratamento que pretendia realizar, não tendo posto à consideração da participante as alternativas terapêuticas existentes, nem solicitado o seu consentimento explícito.
(estivemos a transcrever trechos do despacho de acusação)
10. Apesar de regularmente notificado da acusação, através de carta registada com aviso de recepção, o arguido não apresentou qualquer defesa, sendo de presumir que nada tinha a acrescentar aos esclarecimentos já por si prestados.
11. Assim sendo, não apresentou o arguido qualquer facto ou argumento novo que fizesse a relatora do presente processo mudar a sua opinião já expressa no despacho de acusação.
12. Atendendo ao exposto, propomos ao Conselho Disciplinar Regional do Sul a condenação do Dr. F. na pena de censura, nos termos do artigo 16 do Estatuto Disciplinar dos Médicos.

Lisboa, 10 de Fevereiro de 2004"

Processo Disciplinar n.º 12102 RELATÓRIO FINAL, in Revista ORDEM DOS MÉDICOS, Março 2004.

O Luís Salgado Matos Está Mesmo Doente, Nem Os Jornalistas Escapam

Compreende-se porquê.
Trata-se de um auxiliar de investigação português.
É a prova de que o 25 de Abril está vivo. Há liberdade de expressão!

Já há cerca de um ano tinha insultado todos os médicos generalistas, apelidando-os de corticeiros em alfabetização.
Hoje na Secção Psiquiátrica do jornal Público publica uma crónica da má-língua onde insulta todos os jornalistas que não trabalhem nos grandes jornais da capital, apelidando-os de rústicos. Uns corticeiros, outros rústicos. Terá algum trauma contra o Mundo Rural?

E problema sexual? Terá?
Uma das suas preocupações é sobre a vida sexual dos médicos. E dos médicos holandeses, onde como se sabe, a posição social em relação ao sexo deverá estar nas antípodas da do sr Luís, que deverá ser parceiro daquele casto deputado.

Mas a má-fé do sr Salgado, está no ódio que destila contra os médicos.
Como mistura sexo dos médicos e ódio aos médicos, será que algum médico o assediou? Ou consumou mesmo algo? (Refere ele que cerca de 5% dos médicos holandeses já transaram com os seus doentes.) Estaria ele na Holanda na altura do inquérito?

Mas o que me revolta nos escritos deste senhor é a sua manipulação. Intitula a sua crónica assim: "O Caso dos Médicos", isto é, um título que generaliza o que vai dizer a todos os médicos do país. Lá pelo meio vai dizendo que nem todos os médicos são iguais. Diz que ainda há médicos João Semana.
Pois muito bem: O sr Matos parou no tempo. O médico João Semana pertence a uma topologia (como ele gosta de palavras caras!) que já não existe. Assim como já não há existe a prensa de tipos móveis de Guttemberg....

Mas muitas outras afirmações são imprecisas, falsas, manipuladoras, desonestas, vagas, indeterminadas, ambíguas, confusas, incertas, inexactas, adulteradas, enganadoras, indignas, desonrosas, indecentes e desprezíveis. E tudo isto apenas em 472 palavras. Tantas quantas o Público lhe encomendou.

Mas a prova que lhe dou, de que os médicos (já por mais de uma vez disse que não passo cheques em branco a todos os médicos, assim como não passo a outras profissionais.) também se julgam uns aos outros está na mensagem seguinte...............

domingo, abril 18, 2004

O Besugo Está Doente....

Mas a vida é assim.

A felicidade para uns, a tristeza para outros.

Com Paixões pelo meio.

Por causa de Paixões também eu já sofri muito! Quem não sofre com uma Paixão assim!

A angústia profunda está no "Brahms e quero que morram".

sábado, abril 17, 2004

Numa Semana Confusa, Uma (Esquecida) Conclusão Relevante

A nossa comunicação social esta semana esteve em grande: teve notícias e notícias sobre negligências, mortes, anestesias, erros, vírus, perigos, contágios, etc.

Entrevistou vítimas, ex-vítimas, futuras vítimas, primos das vítimas, amigos dos primos das vítimas.
Foi uma vitimização constante. Alarmou-se qb.

Dizer que estão trinta crianças internadas com suspeita de pneumonia adenovírica, é uma bomba jornalística. Quantas não estarão na hora seguinte? Interrogar-se-á o leitor, ouvinte ou telespectador. Assim ficamos reféns dos media.

Por outro lado.

Coincidência ou um forte e produtivo lobie a trabalhar, foram vários os órgãos da comunicação social que fizeram diversas reportagens sobre os bruxos modernos (e as suas clínicas, pois então!) apelidados pela querida comunicação social como, praticantes de medicinas alternativas.

Mas o que nos interessa a todos, apenas vi publicado num jornal médico generalista: Tempo Medicina

"A esperança de vida nos últimos 80 anos aumentou ao ritmo de 12 horas por dia, em 80 anos aumentou 40 anos"

"A ideia sobre quem são os indivíduos que devem ser considerados dentro da área [idosos] tem mudado e não se sabe se devemos adoptar o critério dos 75 anos, do séc. XIX, impor os limites dos 55 anos, e parece-nos que a linha dos 65 anos já não faz hoje muito sentido, quando a nossa esperança de vida ultrapassa os 80 anos"

Pois é, se não fossem os médicos (e outros técnicos), a medicina (e outras áreas do conhecimento científico) e até a própria comunicação social divulgando novos conceitos de saúde, higiene, prevenção, etc talvez ainda morressemos aos 30 e 40 anos.

Pois é, se não fossem os anestesistas, os hospitais e centros de saúde e quem lá trabalha, os aerossóis (embora em Portugal haja um abuso da sua utilização!) e outros sóis, talvez ainda se morresse por muitas patologias que arrasaram populações séculos atrás.

Pois é, mas tudo isto baseado nos conhecimentos científicos e não no empirismo das levadas ao colo alternativas à medicina.

quinta-feira, abril 15, 2004

Pontos Cardeais de Excelência

- Sulparati - "tudo é tão pouco"

- Sulanorte - "Como um oásis branco era o meu dia. Nele secretamente eu navegava. Unicamente o vento me seguia".

segunda-feira, abril 12, 2004

"Quero Matar O Médico!"

"Quero Matar O Médico!", foi assim que se apresentou um doente numa consulta de urgência alguns dias atrás.
A enfermeira, solícita e branca como a cal, bate à porta e diz com voz trémula:
- "Sr dr, está ali um doente que diz que o quer matar!"
- "Quer-me matar?"
- "Sim, até já mostrou a arma!"
- "Está agitado ou calmo?"
- "Aparentemente está calmo."
- "Então mantenha você a calma, telefone para a PSP, leve-o para a sua sala e vá-o observando"
Minutos depois, chega a sua vez da consulta e entra pacatamente para o consultório.
Senta-se, tira a arma e coloca-a em cima da mesa, começando a discorrer com um discurso desconexo e irrealista. Percebia-se logo que se tratava de um doente psiquiátrico descompensado.

Quase logo de seguida, bate novamente à porta a enfermeira e diz:
- "Sr dr estão aqui dois senhores da propaganda médica que lhe desejam falar."
- "Está bem." Respondi. Acrescentando em direcção ao doente:
- "Se o senhor deixar?"
- "Eu deixo. Podem entrar."

Segundos depois, já o doente estava desarmado. Tratava-se de dois agentes da PSP à paisana e que depois de o imobilizarem, constataram que se tratava de uma pistola de alarme, inócua.

É lógico que isto não chegou para ser notícia nos media. Se o médico morresse, talvez fosse notícia da primeira página, com esta legenda:

"Mais Um Caso de Negligência Médica: Doente Psiquiátrico Mal Tratado, Abate Médico."

Nota: história rigorosamente verdadeira.

Uma Opinião Sensata No Meio De Tantos Lagos de Água

No Diário de Notícias de 09 de Abril de 2004, algumas afirmações sensatas de um médico, Luciano Ormonde, presidente da Sociedade Portuguesa de Anestesiologia.


"não é possível em tão pouco tempo arranjar uma causa para explicar as mortes ocorridas em Lagos e que tudo tem de ser investigado, em vez de haver tentativas para arranjar rapidamente um culpado. Vivemos um período na saúde em que os genéricos são usados como balas políticas. Além disso, não se pode dizer que um produto é mau, quando foi aprovado pelo Infarmed e não há provas contundentes que levem a que seja retirado do mercado», acrescenta.

O médico de Santa Maria sublinha ainda que a anestesia «não é inócua para os pacientes e comporta riscos». São factos «escritos e reportados a nível mundial» e que dependem de diversos factores. O propofol, «tal como todos os medicamentos usados na anestesia, tem riscos». E diz ainda que os oito genéricos introduzidos recentemente com esta substância não são mais nem menos perigosos. «Há médicos que têm referido que apresentam características diferentes quanto à durabilidade das doses, mas são apenas impressões que não têm valor de prova».

sábado, abril 10, 2004

Pomada de Cu de Bebés

O final de uma consulta é sempre uma verdadeira caixinha de surpresas.
É quando se fazem os vários pedidos, que muitas vezes são o real motivo da consulta.

Já me tinha despedido da doente, jovem dos subúrbios da capital, quando ouço este pedido:

-"Senhor doutor, podia-me passar uma receita com a pomada de cu de bebés".

Sei que se referia ao eritema das fraldas, agora a que pomada se referiria, não sei. Antifúngica? Creme gordo? Cicatrizante? Emuliente? Óleo de amêndoas doces?

Ela sabia que era para o cú dos bebés....

sexta-feira, abril 09, 2004

Alerta (Antigo) do Infarmed Sobre O Propofol...

Alerta de Segurança

Propofol-Lipuro 1%® (propofol):
rabdomiólise, acidose metabólica, insuficiência cardíaca

O Propofol-Lipuro 1%® (propofol) é um anestésico geral intravenoso de curta duração indicado na:
- indução e manutenção de anestesia geral;
- sedação de doentes ventilados nas unidades de cuidado intensivos;
- sedação para diagnóstico e procedimentos cirúrgicos, usado isoladamente ou em combinação com anestesia local ou regional.

O Grupo Europeu de Farmacovigilância, do Comité de Especialidades Farmacêuticas da Agência Europeia de Avaliação de Medicamentos, tem vindo a avaliar a ocorrência de rabdomiólise, acidose metabólica, insuficiência cardíaca e outros efeitos indesejáveis, bem como a posologia e a utilização em crianças para os medicamentos contendo propofol, tendo concluído ser necessário actualizar a informação de segurança para estes medicamentos.

Embora não tenha sido estabelecida uma relação causal entre os efeitos indesejáveis graves na sedação (basal) em doentes com idade inferior a 16 anos (incluindo casos fatais) a sua ocorrência tem vindo a ser notificada no decurso do emprego do fármaco fora das indicações aprovadas. Estes efeitos consistem na ocorrência de acidose metabólica, hiperlipidémia, rabdomiólise e/ou insuficiência cardíaca. Estes efeitos foram mais frequentemente observados em crianças com infecções do tracto respiratório, a quem foram administradas doses que excediam as doses recomendadas para os adultos internados em Unidades de Cuidados Intensivos.

Também foram notificados casos similares, muito raros, de ocorrência de acidose metabólica, rabdomiólise, hipercaliémia e/ou insuficiência cardíaca de progressão rápida, (fatal em alguns casos), em adultos tratados durante mais de 58 horas com doses superiores a 5 mg/kg/h.
Estas doses excederam a dose máxima aconselhada de 4 mg/kg/h normalmente indicada para a sedação do doente internado numa Unidade de Cuidados Intensivos. Nestes casos a insuficiência cardíaca, geralmente, não respondeu ao tratamento de suporte com fármacos inotrópicos.

Na sequência desta informação o titular de A.I.M., B.Braun Medical, submeteu uma Medida Urgente de Segurança, por forma a actualizar a informação no Resumo das Características do Medicamento com um carácter de urgência e divulgar aos profissionais de saúde envolvidos uma carta sobre este assunto.

Neste contexto, o INFARMED deseja chamar a atenção dos profissionais de saúde, para os seguintes aspectos:

Não deverá ser excedida a dose máxima recomendada de 4 mg/kg/h de propofol, dose normalmente suficiente para assegurar a sedação de doentes ventilados mecanicamente quando internados numa Unidade de Cuidados Intensivos (duração do tratamento que exceda um dia).
Existe a possibilidade de surgirem os efeitos indesejáveis anteriormente referidos (acidose metabólica, hiperlipidémia, rabdomiólise e/ou insuficiência cardíaca), pelo que se recomenda, logo que surjam os primeiros sinais, a diminuição da dose administrada, ou a alteração para um outro fármaco com acção sedativa.
Propofol está contra-indicado em doentes com idade igual ou inferior a 16 anos, na sedação em Unidades de Cuidados Intensivos.

Qualquer esclarecimento adicional poderá ser solicitado através dos contactos:

Centro de Informação de Medicamentos e Produtos de Saúde:
Telef.: 21 7987373
e-mail: cimi@infarmed.pt

Direcção Operacional de Farmacovigilância e Segurança de Medicamentos e Produtos de Saúde:
Telef.: 21 7987140
e-mail: infarmed.cnf@infarmed.pt

INFARMED, 20 de Fevereiro de 2003.

A Direcção Operacional de Farmacovigilância e Segurança de Medicamentos e Produtos de Saúde.

(Negrito do médico explica medicina)

Onde É Que Eu Estava no 25 de Abril? Com o Rouvière.

Estudava Anatomia, num quarto alugado em Lisboa, na rua onde se localiza o Colégio Moderno e reside o dr Mário Soares. Estava no 2º ano da faculdade e preparava o exame de Anatomia Descritiva ainda do primeiro. Horas e horas debruçado sobre o grande tratado em quatro volumes: Anatomie Humaine, de Rouvière, analisando minuciosamente as suas gravuras com os ossos e todas as suas características (não havia dinheiro para comprar esqueletos ou atlas mais pormenorizados) e decorando as suas legendas e textos em francês.

Depois de horas e horas de estudo, já noite, relaxei-me a ouvir o programa Limite enquanto lia o livro O Julgamento dos Padres de Macuti que tinha comprado dias antes na Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa (era um livro proibido). Ouvi as senhas e ouvi a primeira mensagem. Aqui posto de comando das Forças Armadas, ensonado, voltei a adormecer. Acordei novamente, já o movimento se desenrolava, os Padres do Macuti no chão, o Rouvière continuava à minha espera, ouço novamente as notícias: o fascismo caía. Na rádio continuava a ouvir-se o Posto de Comando e a pedia-se à população para permanecer em casa.

Neste dia, 25 de Abril, tomei talvez a única decisão de que me arrependo em toda a minha vida: obedeci àquela voz da rádio e fiquei em casa.

Não estudei Anatomia, não li os padres de Macuti, não festejei o primeiro 25 de Abril como depois vi festejar pela TV, não mandei SMS, nem e-mails a ninguém, não telefonei aos amigos (não havia telemóveis e o telefone da casa, fechado a cadeado, só recebia chamadas), restou-me então, seguir a Revolução pela televisão, a anos-luz da CNN.

Como tudo seria diferente se se repetisse o 25 de Abril hoje…

quinta-feira, abril 08, 2004

Está À Minha Frente E Diz:

"Fiz análises a tudo, a tudo mesmo, mesmo a tudo e estava tudo bem."

"Tenho uma comichão pelo corpo todo. Já fui a dois médicos e disseram-me que era dos nervos! Mas eu sei que não!"

Uma pausa.

"Sabe eu ando muito stressada. Tenho muitos problemas na minha vida."

Sorri. Mediquei-a e não pude fazer mais nada.

Apenas me lembrei de uma reportagem recente no Correio da Manhã, sobre a primeira das mortes de Lagos, onde um elemento do povo, fotografado com um barrete na cabeça, idade marota, afirmava peremptoriamente e com convicção de quem percebe de tudo:

"Eu vi logo que foi um grande erro!"

O Caso de Lagos: E Se O Anestésico Genérico É mesmo o Responsável?

O erro médico em geral não é sistemático, embora possa acontecer e haja casos na literatura.

Repito: E se a origem do problema está no medicamento usado?

terça-feira, abril 06, 2004

Body Piercing - Já Foi Algum Piercingador Julgado E Condenado?

Como podia? Se até as (os) jornalistas usam piercings! (E médicos também!)

Hoje contou-me um colega que trabalhou numa unidade de emergência movimentada, com uma jovem enfermeira, de bata aberta, umbigo maroto a espreitar e a sorrir e um belo piercing apelativo.
Como pode um médico trabalhar assim?


"Antibiotic prophylaxis, and infective endocarditis


Infective endocarditis (IE) is associated with a high degree of morbidity and mortality and generally presents in patients with altered and abnormal heart architecture combined with exposure to bacteria through trauma and other potentially high-risk activities, including body piercing.

Modern social behaviour has resulted in increased popularity of the practice of body piercing, particularly amongst the adolescent population and there has been a marked rise of cases of IE directly attributable to this practice.

In this article we wish to examine the aetiology of such cases reported in the literature, with particular emphasis on causal organism, as well as to discuss the role of antibiotic prophylaxis and awareness in such at-risk patients within the primary care community."


in Journal of Antimicrobial Chemotherapy, Advance Access published December 19, 2003.

"Morte de doentes no Hospital de Lagos leva a processos disciplinares"

Distribuida pela Lusa, esta notícia é muito grave.

Erro ou negligência, repetidas em 48 horas pelo mesmo médico, levanta muitas dúvidas sobre a vigilância que uma instituição deve exercer sobre os seus membros.

Ressalvo: a confirmarem-se as conclusões preliminares da IGS.

"O Ministério da Saúde instaurou hoje processos disciplinares ao director clínico do hospital distrital de Lagos e a uma médica anestesista, na sequência da morte de dois doentes no bloco operatório daquele estabelecimento.

Segundo um relatório da Inspecção-Geral de Saúde (IGS), foram apurados "elementos que podem pôr em causa a actuação da médica responsável pelos actos anestésicos praticados" nos doentes que vieram a falecer, "bem como a própria actuação do director clínico do hospital".

Uma mulher de 44 anos e um homem de 35 morreram a 29 de Março e 02 de Abril de paragens cardio-respiratórias no bloco operatório do hospital de Lagos, onde se encontravam para realizarem operações simples.

O documento salienta que as ocorrências têm "em comum o facto de serem pequenas/médias cirurgias, previamente programadas, tendo como interveniente directa a mesma médica anestesista".

Segundo a IGS, os indícios recolhidos apontam "para a exclusão de dúvidas sobre a funcionalidade do bloco operatório do Hospital de Lagos" e classificou como correcta a decisão do ministro da Saúde de encerrar o bloco operatório do hospital, a partir do dia 30 de Março, "como medida cautelar"
."

Como médico, considero a minha profissão de risco permanente.

Hoje, durante o meu dia de trabalho, fui vítima de várias negligências de várias profissões: desde uma empresa de informática, até ao almeida da minha rua que me riscou a viatura.
Todas me provocaram mau humor.
Só.
Não morreu ninguém

segunda-feira, abril 05, 2004

Senhor Doutor Quero Fazer Um Check-up A Tudo, Com Análises Gerais E Um Taco Ao Corpo Todo

Publicou o Expresso um dossiê sobre Medicina Familiar, com vários artigos interessantes sobre as especificidades desta especialidade, descritas na óptica dos seus intervenientes, pois todos os artigos são assinados por diversos médicos de família.

De todos, o que me despertou mais atenção foi o do médico Carlos Martins, sobre as actividades preventivas.
São desmistificados alguns conceitos e apresentada uma tabela genérica sobre as actividades preventivas relevantes e baseadas na evidência. Não foram publicadas referências sobre as afirmações produzidas, mas num artigo para um público generalista talvez fosse desnecessário.

Tratando-se de um dossiê, presume-se que foi elaborado a pedido e pago pela APMCG.

ISTO É QUE ME PREOCUPA.

Para se dizerem verdades, politicamente correctas e por vezes impopulares, particularmente para os intelectuais que não as compreendem, contrariando muitas vezes páginas e páginas de publicidade encapotada, é necessário pagar.

Para se afirmar que não são necessários rastreios de base populacional para o cancro da próstata é necessário pagar, caso contrário, teríamos a ira dos urologistas.

Para se afimar que bastam alguns simples procedimentos (medir a pressão arterial, determinar a glicémia e o colesterol, pesar e fazer uma simples pergunta) para se saber se há ou não risco cardiovascular, tem que se pagar, caso contrário todos os cardiologistas se levantariam contra a comunicação social, especialmente os que têm consultório particular.

Outras afirmações se poderiam fazer e outras iras se levantariam, particularmente de quem "com o medo do cancro" lucraria.

Algumas frases para ler e reler:

"Seria óptimo se traduzisse uma vontade real das pessoas mudarem os seus hábitos para estilos de vida mais saudáveis e de romperem com costumes e rotinas que implicam um risco elevado para a saúde. Contudo, aquilo que se constata na prática é precisamente o contrário…"

"... pretendem frequentemente efectuar uma bateria de análises e exames de diagnóstico para poderem continuar a cometer os seus erros alimentares, a consumir bebidas alcoólicas em excesso e o seu tabaco, entre outros".

"...desconhecem que a medicina actual, não obstante o facto de toda a evolução das últimas décadas, não dispõe de um conjunto de exames que possam dar ao cidadão uma garantia semelhante à dos electrodomésticos: “após estes exames, o senhor terá uma garantia de vida saudável por dois anos.” "

"Quando um fumador se dirige ao seu médico e lhe pede uma radiografia pulmonar para ver como estão os seus pulmões, pode ver essa sua pretensão justamente recusada. E porquê? Porque os vários estudos de investigação que foram efectuados para esclarecer se se deve usar a radiografia pulmonar como método de rastreio do cancro do pulmão não demonstraram que os benefícios superem os prejuízos. E cada vez que alguém se submete a uma radiografia está a submeter-se a uma dose substancial de radiações que, por sua vez, também têm efeitos cancerígenos."

"Um outro exemplo é a mamografia quando utilizada para rastreio do cancro da mama na mulher sem queixas, sem antecedentes pessoais ou sem antecedentes desta doença na sua família. ... uso deste exame só se revela eficaz ou seja, só diminui a mortalidade provocada por aquela doença quando usado de dois em dois anos nas mulheres com mais de 50 anos. Nas mulheres com idades entre os 40 aos
50 anos, este método de rastreio deve ser muito bem ponderado pois os benefícios não superam os prejuízos. .../... Os prejuízos do uso indevido deste método de rastreio passam pela exposição desnecessária às radiações, pelo elevado número de falsos positivos, pelas biopsias desnecessárias que terão que ser efectuadas e também pela desnecessária ansiedade e incómodo que cria na mulher que a ele se submete."


"Também tem sido frequente a solicitação de marcadores tumorais como forma das pessoas se assegurarem de que não têm cancro. Até agora, com base na evidência científica, nenhum marcador tumoral se revelou eficaz como método de rastreio de qualquer cancro. Nem mesmo o tão popularizado PSA como forma de rastreio do cancro da próstata, nos homens que não apresentem qualquer queixa prostática. Poderão os excelentíssimos leitores questionar-se sobre os malefícios de fazer uma simples análise ao sangue, como é o caso do PSA. Deixando de lado a questão dos custos desnecessários de um rastreio universal aos homens assintomáticos acima dos 50 anos, os malefícios estão sobretudo relacionados com o elevado número de falsos positivos e com o desconforto de outros exames desnecessários como as respectivas biopsias ou ecografias transrectais."

Pois então parabéns à APMCG, ao seu presidente e ao médico Carlos Martins, que investiram na qualidade da informação, contra "os dislates que se ouvem e lêem, por vezes inconscientes, ... para que os jornalistas (e outros intelectuais!) sejam o veículo para os 'media' não fomentarem a iliteracia científica" o lema deste simples blog.

domingo, abril 04, 2004

"Um milhão de portugueses sem água"

Noticia o Expresso de 27 de Março de 2004. Segundo a notícia um milhão dos nossos conterrâneos vive em residências sem abastecimento público de água.

Não ponho em causa as notícias dos jornais, mas se transformar os números absolutos em percentagem, teremos que cerca de 10% dos portugueses não têm água. Mas por outro lado não existem em termos estatísticos as doenças comuns de quem não tem água potável, como a cólera, as hepatites A, as disenterias, etc.

Começo a interrogar-me se não será o mesmo milhão de portugueses que não tem médico de família, segundo nos diz o Ministério...

E também presumo que deverá ter saído deste mesmo milhão os 4 900 portugueses interrogados pela DECO, pois num outro estudo recente sobre os centros de saúde da autoria do dr Vilaverde Cabral, as conclusões não poderiam ser tão diferentes, como foram....

A Morte em Frente E Os Centros Comerciais Ao Lado

A Morte de Frente, pode ler-se na Grande Reportagem de 27 de Março de 2004 (nº 168, ano XV, 3ª série). O artigo refere-se a uma reportagem em "directo", sobre a morte de um doente com SIDA.

Macabro. Macabro. MACABRO. macabro.

A exploração de sentimentos pelos media atinge proporções escandalosas.
Não sei para quem foram os honorários do personagem principal. Talvez para os herdeiros! O autor sei que os ganhou, como ganham todos os jornalistas e é um seu direito.
Mas o que me fez escrever esta mensagem, foi a última frase da introdução ao artigo, com a qual se pretende jusficar toda a reportagem: PARA AVISAR OS VIVOS.

Pois eu acho que a melhor frase será: PARA VENDER MAIS REVISTAS!

Não está em causa a qualidade, o empenho e o desempenho da jornalista Felícia Cabrita, o que está em causa são os temas escolhidos para que um (a) jornalista (a) se torne (também) conhecido e seja ele também notícia, deixando de ser o seu motor.

Shopping. Shopping. SHOPPING. Shopping.

São duas notícias indissociáveis na sua filosofia, a anterior e esta do Expresso de 27/03/04.

"'Shopping' liga a hospital
A URBAMINHO inaugurou a Galeria Comercial Campus São João com ligação directa ao edifício das consultas externas do Hospital de São João. Para o perímetro do hospital está ainda prevista a instalação de um hotel da cadeia Ibis."


No futuro veremos os médicos, enfermeiros e outro pessoal da saúde, com publicidade nas suas batas às lojas desses centros comerciais.
Os laboratórios farmacêuticos perderão a corrida.

Ninguém leva a mal que o médico tenho uma bata, onde se possa ler: "Visite BodyShop" ou "Compre na Batta".